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S. Bernardo (livro de Graciliano Ramos)

Ninguém é isento da política. As condições estabelecidas na vida do indivíduo o molda, exercita uma perspectiva a qual será fiel conforme a experiência e as referências obtidas. O sujeito em questão emprega palavras e argumentos dos mais racionais, ainda assim recheados pelos sentimentos e sensações guardados consigo, agora transmitidos pela escrita, feita mesmo desprezando as atribuições literárias na maior parte da vida.

S. Bernardo é narrado pelo dono da propriedade homônima, em busca de rememorar os dramas que moldaram sua identidade particular e política. Publicado pela primeira vez em 1934 por Graciliano Ramos e com nova edição em 2010 pela editora Record, o protagonista Paulo Honório confidencia parte da própria vida nas palavras deste romance.

“A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste”

Paulo Honório foi sertanejo, trabalhador de campo com salário baixo, correspondente a esta profissão. Ardiloso, conseguiu obter muito dinheiro e aproveitou a oportunidade de comprar a propriedade onde trabalhou, depois do antigo patrão falecer e o filho sofrer dificuldades financeiras. Agora dono de grande terreno, Paulo vira o patrão e administra as plantações correspondentes da propriedade, firma contatos políticos e com outros membros da sociedade, ganha novas pretensões e planeja o futuro, quer garantir um herdeiro e o tenta através de Madalena, formada em professora e aspirante na literatura, assunto nada agradável a Paulo. O protagonista desenrola as consequências destas escolhas, procurando refletir através da escrita desses acontecimentos.

“Estudei aritmética para não ser roubado além da conveniência”

A narrativa em primeira pessoa faz questão de expor o ponto de vista do protagonista quanto aos aspectos de sua vida. É nítido acompanhar a divergência de ideias entre ele e os demais personagens, por vezes sendo antagônicos mesmo morando próximos. O trabalho no campo moldou as ideias de Paulo na praticidade, o deixa desconfiado de todo registro elaborado a partir de experiências diferentes das dele, e permanece firme neste posicionamento mesmo ao interagir com quem discorde. É assim com Madalena, moça letrada e de pensamento crítico, mas que cede ao desejo de Paulo pela oportunidade jamais tida em outra circunstância. A relação amorosa sucede a debates entre pessoas de posicionamentos políticos contrários, as falhas na conciliação gera mais atritos e transformam o ponto de vista dos dois personagens.

Ainda quanto a circunstância do homem de campo, Paulo Honório deixa claro a manifestação da linguagem escrita conforme é falada, persistindo nas palavras regionais por todo o romance. Vale destacar que o coloquialismo fica restrito ao uso destas palavras, sem abusar da conjugação verbal inexata, forçar falhas na concordância nominal, nem atribuir a grafia das palavras conforme se fala, como “ocê” ao usar a palavra “você”. Outras obras usam desses artifícios mencionados ao simular o coloquialismo, já Graciliano — ou pelo menos esta edição publicada pela Record — opta por essa abordagem mais sutil e destaca as palavras singulares da região.

S. Bernardo é o segundo romance publicado de Graciliano, autor alagoano que demonstra o regionalismo na escrita e manifesta a discussão política a partir de um trabalhador de campo capaz de aproveitar as oportunidades — essas de honestidade dúbia. Trabalhos feitos este são ótimos patrimônios de referência sobre o país e de caracterização da região ambientada.

“Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só”


S. Bernardo: Ficha técnica

S. Bernardo - capaAutor: Graciliano Ramos
Ano de Publicação Original: 1934
Edição: 2010 (e-Book)
Editora: Record
Quantidade de Páginas: 272

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Ninho de Cobras (Uma História de Maceió)

O texto literário contém narrativa desenhada com palavras combinadas através do estilo pretendido pelo autor. Livros considerados clássicos da literatura brasileira podem entregar histórias ímpares com a linguagem na mesma medida, transformando a língua portuguesa em arte, inovam na estrutura e desafiam o leitor a ter novas experiências sob o conforto da leitura. Acima de tudo, esta ficção ousa transgredir o limite de contar uma história, pois o autor conta também sobre a vida em si.

Ninho de Cobras é um romance experimental de Lêdo Ivo. Publicado pela primeira vez em 1973 e com nova edição pela editora Imprensa Oficial Graciliano Ramos no ano de 2015, o leitor contemporâneo é levado de volta a Maceió no tempo quando Getúlio Vargas era presidente, numa história iniciada pela aventura da raposa nas ruas da capital alagoana.

“Uma raposa em pleno coração da cidade! E ainda dizem que Maceió é um lugar civilizado”

Tudo começa pela raposa. Protagonista do primeiro capítulo, o animal passeia pelas ruas de Maceió enquanto o narrador oferece detalhes sobre onde ela passa, tomando liberdade de contar as histórias daquela parte da capital onde o animal põe as patas, e então retoma a aventura da raposa. Usa do discurso indireto livre ao trazer personalidade a este singular personagem, o de ser destemido, convicto da morte nunca a alcançar mesmo fora de seu habitat, o que, ao cruzar o caminho com dois sujeitos armados com pedaços de madeira, prova o equívoco do pobre animal. Nos dias — e capítulos — seguintes, a raposa vira a notícia mais comentada da capital alagoana, acompanhada a do suicídio de Alexandre Viana sob a suspeita de ser na verdade um assassinato encomendado pelo Sindicato da Morte.

“E as horas passaram, esponjosas, sugando o que, no tempo, era fluente como as palavras e a água”

A introdução do romance é única, feita a partir do personagem inumano: a raposa. Esta estratégia chama a atenção e antecipa a proposta da narrativa repetida inclusive nos demais personagens focados nos próximos capítulos, o de o narrador interromper a história do personagem e contar a história de Maceió. A capital do estado — por vezes até o próprio estado — atua como o personagem central deste romance a partir da intervenção do narrador, os contextos históricos se misturam à narrativa e entregam algo único durante a leitura.

Tal proposta exige maior atenção ao leitor. A mudança de foco é feita sem aviso prévio, um parágrafo conta sobre certo personagem em determinado ambiente, e em seguida este ambiente ganha história narrada pelo autor. Nem quando foca na pessoa facilita, pelas escolhas ao identificar o personagem, citando a característica dele em vez de lhe atribuir nome. Um coadjuvante em determinado capítulo pode ter o trecho protagonizado por ele em outro momento, contando a partir das informações já fornecidas, que a princípio eram secundárias.

Ninho de Cobras é um daqueles livros em que torna o enredo secundário em prol de oferecer a experiência singular de leitura, misturando contexto e narrativa, personagem e ambiente.

“Onde ele estava não havia Deus — era a jaula fedorenta dos homens”

Ninho de Cobras - capaAutor: Lêdo Ivo
Ano de Publicação Original: 1973
Editora: Imprensa Oficial Graciliano Ramos
Edição: 2015
Quantidade de Páginas: 270

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Alerta de Gatilho Relacionado ao Suicídio

Ainda há poucos exemplos de produtoras e editoras atentas a efeitos negativos de certa cenas, capazes de comprometer pessoas sensíveis a reviver o passado traumático ou incentivar a cometer automutilação. Cenas de estupro, violência e consumo de drogas podem significar pouco à maioria dos espectadores, por outro lado transtorna a minoria quando poderia evitar apenas avisando sobre determinado conteúdo, publicando notas de alerta de gatilho.

Avisar sobre o gatilho passa longe de ser a carta branca que impedirá as pessoas sensíveis a assistir determinada cena. É muito difícil julgar a intensidade do conteúdo nas pessoas sensíveis, além de fatores subjetivos e do momento mental de quando a pessoa é exposta à cena. Mesmo assim é aconselhável manter o aviso a precaver de tais transtornos, pois o próprio público já procura saber de possíveis gatilhos antes de consumir determinada história. Também há abordagens de tema sensível sem provocar conflito a quem experiencia, até mesmo faz o efeito contrário, o de motivar o debate da situação ou traz pontos de vista esperançosos diante da problematização.

Como o blog traz questões sobre a prevenção do suicídio e publica análises de livros e às vezes de games, este artigo apresenta obras que retratam o suicídio em algum momento e aponta quais deveriam ter alerta de gatilho, além de bons exemplos de abordar esse tema sem expor os leitores/espectadores comprometidos.

Sekiro: Shadow Dies Twice, da From Software

Lançado no primeiro semestre de 2019, Sekiro foi a nova proposta da empresa reconhecida por fazer jogos desafiantes — Dark Souls —, desta vez ambientando os combates no japão feudal. A cena em questão trata de um dos finais alternativos do jogo, então fica o aviso de spoiler — apesar de quem precisar saber do gatilho, pouparei dos detalhes. Este final acarreta em suicídio, prática comum no período retratado no jogo, mas poderia ter maior cuidado em expor. O problema deste ato foi ter parabenizado o personagem por executar a si próprio, servindo de exemplo a outro personagem ter uma jornada semelhante até chegar ao mesmo fim “honroso”. Evite de retratar o suicídio como alternativa.

Depois do Azul, de Élaine Turgeon

A novela foca nas consequências enfrentadas por uma família após perder a filha pelo suicídio. A irmã gêmea idêntica a falecida também sofre, pois muito veem nela o rosto da garota ausente. Sem gatilho algum, o livro sabe retratar a dor da família com a perda do ente querido, abordagem rara na ficção e que pode conectar leitores com situações semelhantes. Ao comprar este livro, parte do valor é repassado ao Centro de Valorização da Vida — CVV.

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Apesar da qualidade do livro inquestionável, pode  ser perturbador ler — spoiler Bentinho enquanto decide cometer suicídio. Chega até a procurar pelos remédios que podem fazê-lo mal, tudo ainda explícito em detalhes na narrativa. Ele decide desistir da ideia, de maneira ainda perturbadora: após ver a cena de suicídio no desfecho da peça teatral de Otelo — fim do spoiler. Em suma temos dois problemas, mostrar detalhes de como a pessoa pretende realizar o suicídio e a discussão de oferecer motivos ao realizar este ato — igual a Sekiro. Machado de Assis fez história na literatura, e apesar dessa crítica, tenho nada contra ele ou esta obra em particular, só é preciso cuidado para não levar pessoas sensíveis a este trecho apenas por ser obra clássica da literatura brasileira.

Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe

A melhor experiência de leitura deste blog no ano passado passa mensagens lindas sobre a prevenção do suicídio. O livro trata da vila próxima à floresta reconhecida no Japão por muitos realizarem o suicídio por lá. Apesar da situação triste, Valter Hugo Mãe foca na esperança àqueles pretensos a encerrar a vida na floresta, mostra os moradores dispostos a oferecer conforto, dar a oportunidade de repensar a atitude, e por vezes consegue evitar a tragédia. Também vale notar o cuidado em trabalhar nesse lugar reconhecido por haver suicídio, o livro não cita o nome correspondente e até altera sua localização no romance, tirando o foco da floresta em si para destacar a mensagem de esperança.

É possível trabalhar com temas sensíveis e contornar esses gatilhos. Sendo “limitadores” à primeira vista, pode levar os autores a desenvolverem ótimos trabalhos conscientes, sem necessariamente conter mensagem motivadora, também pode trazer abordagens saudáveis a proporcionar debates.

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Saiba o que são “trigger warnings”, ou alertas de gatilho, sobre séries e filmes

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Com tantas obras internacionais à disposição hoje, os leitores acostumaram com grandes escritos inspirados em originais de Bram Stoker ou nas investigações feitas por Sherlock Holmes. Mal sabem a riqueza proporcionada pela literatura brasileira e seus personagens distintos canonizados por mérito e reconhecimento de tais autores. Já o autor deste romance reconhece o valor de nossa cultura, e com isso homenageia alguns dos seres criados por escritores consagrados, levando-os ao Brasil transformado em ambiente steampunk.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison estreia a série brasiliana steampunk. Publicado em 2014 por Enéias Tavares através da editora Casa da Palavra, o romance traz relatos dos personagens envolvidos nesta trama ambientada por tecnologias de vapor.

“Um século tão extraordinário em invenções e horrores”

De narrativa epistolar, muitos dos personagens possuem a chance de expor o próprio ponto de vista conforme compartilham a sua parte envolvida no enredo. Os registros feitos em diários, noitários, cartas e gravações colaboram a mostrar o delito deste romance: o assassinato de oito vítimas de alta casta social, tudo feito pelas mãos do Dr. Louison entre a primeira e o início da segunda década do século XX.

Médico reconhecido pelos bons e enriquecidos cidadãos, a notícia de ele ser o responsável pela morte desses nobres civis choca a comunidade porto-alegrense, atrai atenção inclusive do jornal carioca, o qual envia o jornalista Isaías Caminha a reunir os fatos através de relatos e entrevistas. Isaías relata das novidades encontradas em Porto Alegre enquanto conhece algumas personalidades da sociedade, como a senhorita Vitória Acauã e o alienista Simão Bacamarte, dono do instituto psiquiátrico onde o próprio Dr. Louison é contido até o dia da execução pelos crimes cometidos: a forca. Isaías tem a oportunidade de reunir a versão de Louison aos fatos coletados, conversa com ele um dia antes da condenação, um dia antes da notícia do Dr. fugir das instalações do alienista.

“Ao escutar a mensagem ‘etnia desconhecida’, questionei-me sobre o absurdo daquela frase num país como o Brasil”

Toda a escrita é apresentada conforme a época, desde as grafias ― como o uso do “ph” em vez da consoante “f” ―, palavras características e a formalidade correspondente a autoria do personagem, este também elaborado de acordo com o original da obra clássica homenageada, salvo as criações originais de Enéias. A escrita demanda maior atenção aos leitores acostumados a linguagem dos romances recentes, e recompensa tal esforço por imergir todo o ambiente a partir desta construção de palavras.

Sem seguir ordem cronológica ― às vezes ignora até a lógica ―, os registros avançam e regressam no tempo, contam fragmentos dos acontecimentos com lacunas restritas ao convívio de outro personagem a preencher em registro posterior. Mal existe progressão no enredo, pois a intenção deste romance é outra, a de discutir o atentado já realizado pelo Louison e montar o quebra-cabeças da investigação motivada por determinados personagens, isso tudo enquanto cada pessoa compartilha da própria experiência e intimidades nos registros dispostos em todo o romance.

A ambientação steampunk é elemento secundário no meio de tamanha dedicação a reconstruir personagens consagrados neste ambiente. Presentes em momentos importantes da narrativa e até interfere na história de certas pessoas, os mecanismos movidos à vapor por vezes desaparecem dos relatos reunidos, deixa certos textos com características de romances de época em vez do gênero proposto. Também chama a atenção de um evento importante como a promulgação da Lei Dourada que garante alforria aos escravos no Brasil dez anos antes do acontecido neste romance; fica confuso sobre esta diferença ser proposital a encaixar no enredo ou foi equívoco do autor.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison propõe homenagear pessoas fictícias da literatura brasileira e adequar a narrativa correspondente na época. O livro cumpre esta promessa e proporciona ao leitor moderno o vislumbre da nossa linguagem um século antes de evoluir do modo como a conhecemos. Ainda elabora o enredo de forma singular, deixa a narrativa encantar nos detalhes vivenciados pelas pessoas do romance enquanto descobrimos os detalhes do atentado feito por Louison e as consequências.

“Agora, deves deixar para trás a criança que acusa e abraçar o homem que compreende”

A Lição de Anatomia do Temível Dr Louison - capaAutor: Enéias Tavares
Editora: Casa da Palavra
Ano de publicação: 2014
Quantidade de Páginas: 320

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20000 Léguas Submarinas (Pé da Letra)

Já falei de livros com histórias sobre o futuro como alerta à sociedade vivida no tempo da obra escrita. Hoje o exemplo é diferente, trata de uma tecnologia prevista no romance, exaltada como proporcionadora de encontrar maravilhas inalcançáveis antes mesmo de ela existir! Este livro nos leva aos tempos mais simples, e demonstra a engenhosidade de algo comum hoje, mas no passado abriu caminhos a explorar no fundo do oceano.

É uma aventura a percorrer 20000 Léguas Submarinas. Publicado pela primeira vez em 1870 por Júlio Verne e com edição de 2018 da editora Pé da Letra e traduzido pela Lívia Bono, conta a história do naturalista Aronnax e seus amigos enclausurados na tecnologia a frente do tempo, o submarino Náutilus. Esta edição entrega a versão compacta e simplificada da obra original, informação exposta em nenhuma parte do livro; por isso fique atento ao comprá-la.

“Irromperam as discussões intermináveis entres os crentes e os descrentes”

O livro começa com o compilado de relatos do elemento presente em vários lugares do oceano visto por diferentes embarcações. Incapaz de conhecer os detalhes da entidade misteriosa, suas características perturbam dúvidas tanto dos acadêmicos como dos religiosos. Aronnax é naturalista nascido na França, ele acompanha os eventos desta ameaça marítima e obtém a oportunidade de confrontá-la sobre a embarcação Abraham Lincoln com a ajuda do assistente Conseil e do arpoador canadense Ned Land.

Prestes a desistir da expedição, a embarcação encontra o elemento submerso. É capaz de produzir luz por conta própria, o corpo é resistente contra o arpão de Ned Land e a força é brutal, colide com o navio e arranca Aronnax da embarcação. Suspenso no mar com o fiel assistente, o navio está distante, apesar de inteiro. Os dois se encontram com Ned Land sobre o corpo do elemento ameaçador, cujo revestimento é de metal. Entram pela escotilha e são guiados a uma cabine pelos tripulantes daquela embarcação submarina, e ali eles conhecem Nemo, o Capitão e responsável por criar esta tecnologia que despertou tamanha imaginação dos navegantes em vários países. Descobrindo o submarino de Nemo, ele confina Aronnax e os amigos a viver junto com ele pelo resto da vida, onde há a oportunidade de conhecer tanto a engenharia do submarino, como as maravilhas do fundo do mar até então inacessíveis.

“Era um fenômeno ainda mais assombroso, por ser simplesmente uma construção humana”

Todo narrado pelo próprio Aronnax, a história reflete o olhar de acadêmico ao vislumbrar as belezas nunca vistas por ele antes, bem como as disponíveis apenas pelo levantamento de estudos e teorias da época. Ler um livro escrito no século XIX com o conhecimento científico da época nos tempos atuais traz riquezas interessantes quanto à visão acadêmica naquele tempo. É possível ver conhecimentos hoje já defasados, bem como os que serviram de princípio aos conceitos modernos — como o desenvolvimento da eletricidade — e a maneira de como as pessoas lidavam com animais em extinção, esta com discussões entre os personagens capazes de enriquecer ainda mais o assunto.

Pelo período da publicação, é de esperar passagens descritivas e parágrafos longos que desenham cada detalhe do quadro a ser registrado naquela cena; escrita característica da época. A linguagem técnica se mistura com a literária nas nuances marítimas focadas neste romance, oferece a oportunidade de conhecer tais termos enquanto mergulhamos — desculpe o trocadilho — na aventura submarina. Aronnax vislumbra lugares diferentes do globo, relata as condições climáticas do local e a diversidade dos seres aquáticos à vista, narração tão recorrente a ponto de cansar a leitura, desvia do foco da trama formada ao longo de todo o livro: o conflito entre a liberdade e o deslumbramento dessas maravilhas.

Além dos aspectos da ficção científica — uma das primeiras obras do gênero por sinal —, o mistério ronda pelo submarino de nome Náutilus, tudo centrado no Capitão Nemo. Sem forçar questionamentos ao leitor, as motivações do responsável pela temível entidade submarina ficam em segundo plano, e mesmo assim suficientes à compreensão quanto ao comportamento deste personagem singular que incita aos personagens principais tomarem a iniciativa, apesar da intenção de Nemo ser a oposta, assim sucedendo os conflitos até o desfecho da história.

20000 Léguas Submarinas traz o encanto tecnológico a proporcionar o vislumbramento de vida jamais acessível sem a criação da engenhoca ficcional a tornar real tempos após a publicação da história. A escrita comum de uma obra do século XIX proporciona a leitura lenta, convida o leitor a compor cada peça da cena e então elabora a trama a seguir pela história com tons de mistério nesta aventura interessante.

“A terra não precisa de novos continentes, e sim de novos homens”

20000 Léguas Submarinas - capaAutor: Júlio Verne
Editora: Pé da Letra
Ano de Publicação Original: 1870
Edição: 2018
Tradutora: Lívia Bono
Quantidade de Páginas: 295

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Fahrenheit 451 (distopia de Ray Bradbury)

Quem acredita em livros como o símbolo do pedantismo está muito enganado e desconhece a importância disponível no calhamaço de páginas cheias de parágrafos, inspirações e — às vezes — figuras. As dificuldades de assimilar o conteúdo variam conforme a complexidade da obra, exceto quando o leitor tem pouca prática de leitura e desiste nas primeiras palavras ou na segunda metáfora. Entre a dificuldade e a delícia de visualizar toda a história entregue de bandeja numa tela, muitos preferirão o entretenimento, acusarão a falta de tempo para se informar sem perceber quanto tempo perde com  textos e vídeos inúteis. Ninguém está tirando o livro das mãos de ninguém senão nós mesmos, procurando pelas alternativas baratas e confortáveis.

Caso seja só a repulsa mesmo, basta queimar os livros na temperatura Fahrenheit 451. Publicado em 1953 com edição de 2012 pela editora Globo, Ray Bradbury conta a história distópica em que livros são queimados pelo prazer em menosprezá-los, enquanto problemas maiores acontecem no mundo e nas vidas de cada cidadão.

“Que traidores os livros podem ser!”

Guy Montag trabalha como bombeiro, assim como o pai e avô. Todas as casas são imunes ao incêndio graças ao revestimento do plástico existente no romance, então os bombeiros deixaram de exercer esta função. As mangueiras não disparam água, mas sim querosene e fogo. O trabalho de Montag consiste em queimar livros, os objetos mais repugnantes a pessoas, difíceis de entender. Em suma: há nada de útil nos livros.

Montag é como os outros, adora o brilho das chamas sobre as folhas, é dedicado ao trabalho e economiza no salário até comprar a nova tela para a esposa e assim proporcionar mais opções de entretenimento a ela, que faz uso da leitura apenas no catálogo. A diferença de Montag quanto a outros bombeiros e pessoas é aquela coceira, a curiosidade em descobrir o motivo dos livros serem repudiados. É tão difícil compreender? Os livros são inúteis? Ele busca respostas, e encontrará problemas.

“As pessoas nesses livros nunca existiram”

A primeira mensagem de Fahrenheit 451 é clara: demonstra o repúdio dos livros pela sociedade. Por se passar no futuro, o livro apresenta algumas tecnologias inventadas pelo autor, como a do revestimento que impede o incêndio em casa. Sem precisar apagar fogo, Ray desconstrói o conceito de bombeiro e o transforma no cargo responsável por eliminar o objeto favorito dos leitores.  A justificativa é simplista demais, apenas adéqua uma profissão à intenção do autor.

Tirando a pequena crítica anterior, o livro só acerta em qualidades. A primeira mensagem desdobra em situações com consequências ou causas do primeiro conflito. Montag e os outros bombeiros não desempenham papel fundamental na eliminação dos livros, tal objetivo já foi cumprido e saber como isso aconteceu nessa realidade distópica é assustador, pois pode muito bem acontecer na vida real. Enquanto o enredo trazia exemplos dos empecilhos, eu os relacionava a comportamentos parecidos de meus parentes, amigos, colegas de trabalho, pessoas desconhecidas e políticos.

A crítica atravessa fronteiras e fala de assuntos além dos livros. As pessoas vivem isoladas, acomodadas por “saberem o suficiente” e garantidas de terem diversão, esta feita de pouco conteúdo, o suficiente ao entretenimento. Tudo isso deixa os personagens menos sensíveis, sem empatia e — mesmo negando — infelizes. A rotina cômoda os persiste assim, alheios a situações do mundo ou de quem mora na mesma rua.

A história é curta, duzentas páginas condensam o grande valor de crítica e importância gerada através dos livros e na interação social inspirada neles. Nós estamos vivendo em Fahrenheit 451, não com esses bombeiros nem com a tecnologia existente na ficção, mas por alertar dos problemas de hoje, sessenta anos após a escrita desta história. Caso seja pedir demais impor este livro como leitura obrigatória, a coloco como uma das mais importantes a qualquer cidadão. A distopia é fácil de compreender e oferece argumentos convincentes sobre o que devemos dar mais valor, senão perderemos outros benefícios sem notarmos a falta.

“A gente põe as crianças no “salão” e liga o interruptor. É como lavar roupa: é só enfiar as roupas sujas na máquina e fechar a tampa”

Fahreinheit 451 - capaAutor: Ray Bradbury
Ano da publicação original: 1953
Edição: 2012
Editora: Globo (Biblioteca Azul)
Tradução: Cid Knipel
Número de Páginas: 216

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Edgar Allan Poe — Medo Clássico (Vol. 1)

Histórias fantásticas existem de monte, e temos o privilégio de conhecer as atuais e antigas também. De lendas sobre criaturas originárias do medo em tempos mais simples a seres inconcebíveis deste planeta no horror cósmico, temos ainda um intermediário a sustentar o suspense e terror no meio urbano, entre pessoas. Já são 210 anos desde o seu nascimento, 170 da morte; tais números falham em representar o legado, da inumerosa inspiração proporcionada pelos contos e poemas nas gerações posteriores, remetente a atual e ainda das próximas.

Refiro a ninguém menos que Edgar Allan Poe. Os quinze contos selecionados na coletânea Medo Clássico da editora DarkSide deste primeiro volume oferecem a oportunidade de conhecer o trabalho do escritor clássico da literatura gótica, ainda presenteia o poema “O Corvo” no idioma original mais as traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa.

Ler Poe é, antes de tudo, reconhecê-lo

O livro divide cinco categorias com três contos cada e finaliza os trabalhos do Poe com o poema “O Corvo” na versão original e duas traduções portuguesas, a primeira de Machado de Assis e a outra por Fernando Pessoa. A edição ainda traz prefácios da tradutora e um dos biógrafos — e fã — do autor, encerrando o livro com as fotos da única casa de Poe ainda de pé e uma breve biografia.

Sobre as cinco categorias:

ESPECTRO DA MORTE: os personagens vislumbram — pelos olhos e tato — as ameaças à vida. “Desceu sobre meu espírito a calma contida do desespero.
NARRADORES HOMICIDAS: são histórias cujo personagem/narrador é autor das atrocidades. “Mas amanhã estarei morto, e hoje preciso remover este fardo de minha alma.
DETETIVE DUPIN: com as três histórias do detetive mais antigo dentre os conhecidos da literatura policial. “Não é um completo idiota — disse G. — mas é um poeta, o que é quase a mesma coisa.
MULHERES ETÉREAS: as personagens principais são femininas e as histórias contadas pelo personagem/narrador que tanto as admira; a morte também é aspecto comum das três histórias. “Estes são os olhos grandes, negros e estranhos de meu perdido amor.
ÍMPETO AVENTUREIRO: os personagens encaram experiências adversas, seja a tragédia durante a viagem, o auxílio do amigo de sanidade dúbia ou a consequência do ato incentivado por alguém estranho. “Qualquer obra de ficção deve ter uma moral.

Foi autêntico em vida para ser caricatura em morte

Com exceção de O Baile da Morte Vermelha, todos os contos são narrados pelo personagem, alguns contam a história do protagonista em seu ponto de vista e outros a protagonizam. Tecendo as imagens góticas por meio das palavras, é preciso calma para vislumbrar o quadro de suspense pincelado em extensos parágrafos que pintam cada detalhe. O detalhamento é comum nos escritos desta época e podem desmotivar leitores habituados com obras recentes, porém é recompensador vencer este obstáculo e descobrir como desenvolvia a aura de suspense nas obras passadas. Também tem cenas de mutilação e evidências da agressão tão corriqueiras nas literaturas violentas de hoje. Além da definição feita pelo personagem ao testemunhar o horror, a visão limitada do narrador colabora com o mistério dos atos sem oferecer todas as respostas do resultado tenebroso — exceto nos contos de Dupin, pois toda a investigação é explicada.

O Corvo é o poema mais conhecido de Poe. Este volume antecede o poema com declarações do autor em como desenvolveu os versos. É sobre o jovem em luto pela amada Lenore, surpreendido pela visita de um corvo capaz de pronunciar apenas a palavra nevermore, expressão que responde a todas as indagações feitas pelo jovem. Os versos desenham a melancolia do amor rescindido pela morte.

Edgar Allan Poe: Medo Clássico Vol. 1 é um dos vários livros capazes de proporcionar o conhecimento do autor clássico por novos leitores. Os colecionadores já cientes dessas histórias também podem adquirir este exemplar pelos desenhos artísticos e informações biográficas de Poe.

Até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido

Edgar Allan Poe - Medo Clássico Vol. 1 - Capa

 

 

Editora: DarkSide
Edição: 2017
Tradutora: Marcia Heloisa
Ilustração: Ramon Rodrigues
Páginas: 384

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A Revolução dos Bichos (George Orwell)

Tempos de crise exigem iniciativa daqueles dispostos a melhorar a vida de seus semelhantes, oferece motivação suficiente a reconhecer os problemas atuais causados pelo responsável e traçar a alternativa salvadora. Os de iniciativa ganham reconhecimento ao criar oportunidade e mudança no modo de vida, olhos brilham com o trabalho contínuo rumo a realidade justa e garantida de direitos iguais. Mantém confiança aos responsáveis pela Revolução, carentes de lembrança e atitudes, o povo acredita nas novas inverdades e volta a ficar submisso à classe dominante, aquela com direitos mais iguais que o resto.

A Revolução dos Bichos traz sátiras ao regime totalitário de Stálin por meio dos animais na Granja do Solar. Publicado em 1945, é o livro mais importante de George Orwell com críticas a medidas do governo soviético, junto com 1984.

A Revolução dos Bichos - capa

Humano bom é humano morto

Major é o nome do porco mais velho da Granja do Solar. Reúne os animais depois de sonhar com a oportunidade de libertar todos os bichos da tirania do humano Jones e seus comparsas de duas pernas. Porcos, cachorros, ovelhas, cavalos e galinhas ouvem a ideia e se entusiasmam, cantam em conjunto a canção Bichos da Inglaterra, louvam o início da Revolução.

O velho porco morre dias depois, ainda assim os bichos sonham com a liberdade. Certo dia acontece a rebelião, atos desesperados levam os bichos ao limite contra Jones e os funcionários da granja, conseguem expulsar os humanos de lá. Os bichos tomam o ocorrido como inacreditável, acordam no dia seguinte ainda estupefatos, sozinhos na fazenda, enfim estão livres e podem trabalhar na garantia dos recursos ao sustento próprio.

Bola-de-Neve e Napoleão assumem os trabalhos de administrar a agora nomeada Granja dos Bichos, ambos são porcos e demonstram inteligência na estratégia e liderança nos afazeres para manterem a vida de todos confortável. Os dois líderes possuem opiniões divergentes a como coordenar a Granja e no princípio resolvem através de debates, até o porco Napoleão expulsar Bola-de-Neve à força e ser o único líder restante. Sem contrapontos, a nova postura de Napoleão traz medidas estranhas aos demais bichos, mesmo assim aceitam após a explicação eloquente do porco Garganta, demonstrando o quanto eles estavam enganados a determinado assunto jamais ocorrido. Assim prossegue, onde Napoleão ordena atitudes severas e depois justifica por meio de Garganta, além de proporcionar mais benefícios aos porcos comparado ao resto dos animais.

Napoleão sempre tem razão

Com pouco mais de cem páginas, Orwell retrata o desejo da população animal sob abuso dos humanos, existindo apenas em função de sustentar as necessidades do dono. Após o inacreditável tornar-se verdade, os bichos são coordenados sob nova direção sem observar os detalhes nem questionar as novas decisões, ficam a mercê da liderança cada vez mais autoritária, inconscientes de perderem recursos aos poucos.

Basta fazer bom discurso e aproveitar da memória escassa dos bichos e os manterá no controle, caso alguém contrarie algum posicionamento, tira-o da jogada e explica depois, reescreve as regras e os acontecimentos. Há quem questione, mas mudam de ideia após ouvir os argumentos do porquinho sob a narrativa sarcástica que entrega a história vista de fora. Sem mais liberdade e alterando fatos conforme os interesses do líder tal como mostra bem no livro 1984.

Os acontecimentos ocorridos na Revolução dos Bichos parodiam ações reais do regime totalitário na União Soviética. Mesmo quem desconheça a história do regime tratado, o leitor consegue visualizar alguns pontos através do livro, basta acompanhar a ironia quanto às ações dos porcos e o desconhecimento dos outros animais. Indo além das críticas ao socialismo de Stálin, certas atitudes não são exclusivas da ideologia e precisam ser desencorajadas independentes do lado político, por isso a leitura deste trabalho de Orwell é imprescindível aos interessados em política.

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A Arte de Escrever

Já opinei quanto a qualidade literária nos livros brasileiros recentes com o argumento de haver qualidades em níveis diversos nos livros daqui e no mundo, com a diferença de existir um filtro nas histórias importadas. Certo filósofo de séculos atrás teve posicionamento bem mais severo quanto a qualidade literária de seu país (Alemanha). Deixo a discussão sobre as críticas de Arthur Schopenhauer remeterem aos livros escritos hoje em aberto, porém certos pontos deste livro com certeza ajudam aos interessados em conhecer mais sobre a escrita.

A Arte de Escrever reúne ensaios do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Os textos disponíveis no livro foram escritos ao longo de sua vida no século XIX, e são indicados a quem interessar pela arte da escrita, seja crítico ou escritor.

A Arte de Escrever - capa

Usar muitas palavras para comunicar poucos pensamentos

O livro é breve, sumarizado entre a qualidade do aprendizado através da linguagem original, críticas sobre a depreciação da qualidade literária e a crise quanto ao interesse dos leitores nos livros de péssima qualidade. Schopenhauer dá opiniões rudes, encara os valores defendidos por ele em risco por causa dos livros publicados de sua época.

Defende a preservação dos textos no idioma original, o indivíduo deve aprender linguagens estrangeiras como meio de enriquecer o vocabulário e compreender a expressão do jeito que ela é concebida. Critica a falta de originalidade dos escritores, a obsessão pelas vendas de livros e a raridade de determinada obra sobreviver a posteridade devido a qualidade. Os leitores não são poupados, culpados por alimentar o ego desses escritores comprando os livros feitos para vender, deixam de comprar as obras originais e elogiam as “inovações” dos escritores vigentes quando na verdade denigrem a escrita.

Prefere ler o novo a ler o que é bom

O preciosismo pelos trabalhos consagrados no passado por Arthur é evidente, bem como a arrogância. Tal comportamento é capaz de causar desconforto na leitura, se o leitor não focar nas utilidades das críticas feitas. Pego como exemplo a opinião dele quanto aos desejos de escritores em serem relembrados após a morte através das obras, Arthur demonstra o quanto é difícil de acontecer e de como os autores falham neste objetivo com metas mais imediatas, como a venda de seus livros e o pouco apreço pelas obras consagradas, pois insiste em consumir publicações recentes sem garantia de ficarem relevantes na posteridade.

Sobre a ideia de conferir o livro no idioma original, é porque cada língua possui etimologia própria que atribuem valores distintos nas palavras tendo as correspondentes na tradução, e como a literatura é a forma de expressar a linguagem, tais valores devem se preservar. Aproveito este ponto e recomendo os aspirantes da escrita a lerem livros escritos no próprio país, pois terão referências de como aproveitar da própria linguagem nos seus textos. O livro traduzido na verdade traz uma interpretação do texto estrangeiro pelo tradutor profissional, trazendo pouco da linguagem original.

A Arte de Escrever é um balde de água fria na ambição de escritores mal preparados a exercer os trabalhos de escrita, com críticas relevantes que provocam reflexões em como produzir literatura mesmo séculos depois da concepção desses ensaios.

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