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O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera

A terra é árida, o céu escuro, e a lua cheira a prata. Cangaceiros e jagunços foram figuras importantes ao cenário histórico da região nordestina, tanto a ponto de inspirar novas histórias sobre eles aos escritores atuais, décadas depois de eles existirem, tempos depois da boa parte do nordeste viver livre da seca. Esta história traz de volta os tempos de poeira e sangue com a ameaça da besta onde já é humilhada pelas poucas oportunidade de prosperidade. Quando a lua se enche de prata, o lobisomem ataca.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera prepara o terreno no começo da história para os personagens presentes no título duelarem. Publicado em 2018 por Everaldo Rodrigues e eleito o melhor conto ou novela de horror do prêmio ABERST de 2018, leva os horrores cometidos por lobisomem ao interior de Pernambuco.

“O sertão sopra lendas em nossos ouvidos e poeira em nossos olhos”

É o terceiro corpo estraçalhado após a noite de lua cheia na cidade de Terezinha de Moxotó. Os sinais são claros mesmo a Zé Mindim, sertanejo de baixa estatura, inteligência humilde e manco: o lobisomem aterroriza a pequena cidade.

Jesuíno de Cândida é herdeiro do título de coronel e, portanto, governante local. Falhou em herdar o pulso firme do pai, razão de sofrer zombarias dos cidadãos pelas costas. Com a ameaça da besta-fera e a certeza de ela vir na próxima lua cheia, o povo de Terezinha exige atitude do coronel, este pretende evitar o risco de enviar os próprios jagunços ao conflito mortal, então só resta a opção que apavora a todos: recorrer aos cangaceiros próximos da cidade, o bando liderado por Jeremias Fortunato, o Capeta-Caolho.

“Tinha gado gordo, boa cana e macaxeira, mas também tinha sofrimento, suor e ódio”

Tratando do tempo quando jagunços protegiam os pertences de quem podia pagar e os cangaceiros a impor desejos na ponta da peixeira ou no disparo de bala, o autor utiliza de muitas técnicas ao ambientar esta ficção. Retrata as falas conforme o sotaque dos personagens, enfeita a narrativa com palavras próprias da cultura nordestina e desenha as cenas com as comidas e vegetação típicas do lugar. Também considerou aspectos comuns da época e lugar ao compor o enredo, tal a figura de coronel entre as principais partes envolvidas, bem como a pequena paróquia presente mesmo nas cidades remotas, pois todo humano merece a oportunidade de prestar respeito à crença correspondente.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera traz muita representação da pobreza ao longo desta novela, tornando o lobisomem um elemento secundário do sofrimento.  Por mais que seja a proposta desta história de terror mostrar a angústia dos personagens, incomoda ver apenas lamúrias durante a leitura. Mesmo sob dificuldades, a cultura nordestina é rica em canto, cultura e trabalho, qualidades possíveis de retratar pelo menos em menções secundárias à trama, mas até nessas só há reflexo da pobreza; passa a impressão de o lobisomem ser apenas outro perigo na vida local, longe da ameaça digna de protagonizar a luta desta novela.

Do lobisomem em si, há características divergentes da versão brasileira. Longe de levar esta questão como crítica negativa, pois o autor representou os aspectos mais conhecidos da besta, mesmo sendo essas mais comuns aos lobisomens internacionais. Apenas a menção do lobisomem ser o sétimo filho condiz com o folclore brasileiro, esta ainda contrariada na novela afirmando que alguém recebe a maldição ao receber o ataque do lobisomem e sobreviver. As demais são a manifestação da maldição apenas no dia da lua cheia plena, do amaldiçoado virar o monstro com aspectos de lobo, e a fraqueza já característica da besta fora do Brasil.

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera retrata muitas das dores do sertão pernambucano enquanto os moradores ainda precisam proteger dos ataques sobrenaturais na noite de lua cheia. Soube representar muito bem o período histórico, apesar de deixar de lado a resiliência da cultura e canto regional.

“Até então vivia na paz que conhecia, essa paz de fome e secura”

O Capeta-Caolho Contra a Besta-Fera - capaAutor: Everaldo Rodrigues
Editora: publicação independente
Ano de Publicação: 2018
Quantidade de Páginas: 138

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Maldições das Terras Secas

Terra seca. Poeira sob ventos. Madeira podre das árvores sem folhas ainda de pé. Os cercados de arames das terras com donos mortos. A grande chama no céu, o abafo do cerrado sobre as duas cabeças. Visão turva depois de três cidades, sempre a pé. E o pai à frente.

São os únicos vivos do bando, ele e seu pai. A trilha marcada por pegadas há muito fincadas pelos cavalos. Espirra contra os resquícios de terra sobre seu nariz, o catarro sai seco, e seu nariz ameaça sangrar.

— Que diabo de terra você veio, cabra? Vinte ano e ainda num se acostuma com as estrada?

— Hoje tá pior do que ontem, pai.

Severino cospe. Cuspe seco da pouca saliva de si, pela falta de água.

— De todas as putas, a Mariele tinha de parir uma cria minha. E cria frouxa ainda por cima! Nome gringo desses, Joséfe — cospe —, num é desse mundo, não.

Joseph emudece, apressa o passo e tropeça. Anda muitos passos atrás do pai, o velho nunca fraqueja. A barriga de ambos roncam, os galhos secos mal enganam o estômago. Somente o pó os alimentam com coceira na garganta. Seu pai para e ergue o braço.

— Três volante. Há vila aqui, talvez os cabra vive menos pior que nós.

— Podemos pedir ajuda. — O brilho dos olhos de Joseph logo se apaga com a recusa do pai.

— Enlouquece, minino fresco? Nós é cangaço bandido. Temos de matá esses três homi antes d’eles nos matá. Dispois vamo a vila e coletar alguma recompensa.

O filho emudece, Severino pigarreia.

— Aquele de trás é muito avoado, parece ocê. Dê um jeito nele, eu me viro nos dois restante.

Sem permitir discussão, Severino avança por trás dos volantes. Joseph precisa dar cobertura ao pai, e com desgosto corre contra seu alvo.

Salta sobre o soldado, seu corpo arremessado derruba ambos no chão. Procura seu punhal no bolso, o oponente debaixo dele é mais rápido e corta o ombro com a faca da cintura. Joseph recua de dor, e o soldado aponta o cano da winchester em seu rosto. Agarra a mão que empunha o revólver e consegue virar um momento antes do disparo, faz a bala percorrer o ar seco do sertão.

Disputam as forças da mão, mas perde do volante. O desespero auxilia na busca da peixeira embainhada no couro fervido pelo calor. O fio da lâmina cruza o dorso da mão do soldado, ele tenta apertar o gatilho, falha com o corte da peixeira no pulso. A dor o faz largar a arma de fogo, recua aos tropeços. Joseph obedece seu pai, alcança o inimigo e degola o pescoço, onde o sangue esguicha e o corpo cai sem vida.

Olha ao lado e vê seu pai de pé, assistindo o filho com os dois volantes mortos há tempos.

— Pensei que ia dançá com ele pelo resto do dia. Vamo pegá a recompensa.

Joseph abre a boca, mas apenas soa o estalo de seus lábios. Meneia a cabeça e segue o mais velho.

Alcançam a vila após muitos passos. Apenas quatro casas, três de madeira frágil e a principal de tijolos, com dois cômodos onde mal caberiam um cavalo.

Somente um homem vive na vila, senhor de idade avançada, o patriarca das suas esposas e filhos ainda crianças. Ninguém ousa pronunciar alguma palavra, seus olhos arregalam e tremem diante do velho cangaceiro.

— Demo um jeito nos volante daqui perto. Eles devem abusar d’ocês com imposto fajuto.

— Sim, — foi a resposta do patriarca, rouca e abafada.

— Pois eu exijo um pagamento apenas, daí ninguém irá mais incomodá.

— Não pedimos por sua ajuda, cangaço, — uma das esposas diz e dá um passo à frente. — Sabemos resolver nossos problemas.

— Então não crie um novo probrema pá tua vila, muié. Eu e esse cabra precisa de algo pra cumê e bebê, nada demais.

O rosnar de cachorro invade as orelhas de Severino, e ele segue o olhar até o pequeno filhote canino. Os dedos finos seguram os pelos marrons do animal com dentes à mostra; o garoto mastiga os próprios lábios, suor escorrega gelado sobre a pele.

—Tenho nem o que dá de comer à minha família, senhores. Agradeço pela sua boa vontade, pena termos nada a retribuir.

— Nada, é? Ouço um grunhido dentro da casa do sinhô, e tem aquele cachorro também.

As crianças começam a chorar. A explosão da pólvora lança uma bala aos céus logo que Severino saca seu revólver e abafa o choro das crianças. Todos tremerem, menos o patriarca, que abaixa a cabeça.

Severino empurra o idoso, indiferente ao estalo de ossos frágeis quando ele cai. Abre a porta. As pessoas ouvem um grunhido de surpresa, depois de dor dentro da casa, então silêncio.

Sai da casa com a mão dentro do buraco feito no leitão e o entrega a Joseph. Fecha os olhos diante do sangue a manchar suas vestes, vomita ao ver a mão encharcada do pai com o sangue, além do odor da morte em suas narinas.

A criança tenta fugir com o cachorro no colo. As pernas saltam pequenas distâncias e tropeça os dedos dos pés no chão árido. Lágrimas escorrem o pó da terra em seu rosto, chora mais ao receber um soco na nuca e um chute nas costas. O cachorro sai de seus braços, tenta fugir, e o velho cangaço agarra a pata traseira, suspende o bicho com as patas da frente debatendo o ar.

—Que adianta este cachorro fracote pr’ocês? Vou fazê um favô tirando uma barriga pra alimentá.

Mais choros. Muitos se ajoelham e molham a terra, gemidos de “por favor” ecoam ao redor de Joseph, e alcança Severino.

— Então vô fazê o seguinte: se esse bicho aguentá uma queda, ele volta pr’ocês.

Sem esperar a resposta dos moradores, lança o animal ao céu. Tira a peixeira de seu coldre, e Joseph desvia o olhar um segundo antes do último gemido do cachorro, quando desliza da lâmina encravada em sua barriga no ar.

Caído no chão, entra em convulsão antes de enfim morrer.

— Num deu pr’ele não, moçada.

— Cangaço do diabo! Você sofrerá as consequências. Foi pra proteger de gente feito você que eu sacrifiquei uma das minhas filhas, o senhor vai ver!

Responde com o disparo no meio da testa daquela esposa. Joelhos atingem o chão antes das gotas vermelhas caírem do buraco feito. Sua testa encontra a terra batida, ríspida e árida, agora úmida com o líquido carmesim ainda saltando do furo. O som mal ressoa quando seu corpo encontra o chão, nenhum som sai da grande família, apenas de Severino.

— Vem logo pegá esse cachorro, Joséfe. Vamo embora e prepará nossa janta.

O cheiro arde nas narinas e os animais escorregam em cada mão, cheias de sangue.

Percorrem por um morro até o sol se por, e só alcançam o cume no fim do crepúsculo. Vê o seu pai recolhendo as madeiras de árvores fracas enquanto ainda o alcança.

Deixa os animais próximos ao conjunto de madeira e espera o pai acender a fogueira. Espirra novamente quando o vento gelado coça o rosto.

— Tá temperando o nosso jantar? Aproveita e já esfola o cão pra nós cumê mais rápido.

— Esfola você! Vou comer nada disso.

— Certo, morra de fome, miserávi.

O cuspe de catarro alcança a perna do filho. Sem reagir, deita de bruços, com as costas viradas à fogueira.

Escuta o fogo estalar sobre a carne dos cadáveres suspensos em gravetos. Ri quando o graveto parte ao meio com uma das comidas e condena a carne no meio da fogueira. Depois o trincar de dentes ao mastigar a refeição de dias trouxe-lhe água na boca. Tampa os ouvidos, insiste na fome.

As palmadas na barriga e o arroto de seu pai são acompanhadas de passos e um estalo no galho solto. Pai e filho se levantam com peixeira em mãos. Uma senhora de cabelos dourados e desgrenhados, vestido com trapos da cor de folhas murchas está diante deles. Ao invés de dedos tem garras de gavião, e ao se aproximar, Joseph nota traços de jacaré em sua face.

— A moça que o senhor matou esperava um filho, cangaceiro. — A voz estridente sibila pelos ouvidos dos dois. — Eu fiz um acordo com ela em pegar cada filho que ela tivesse. Não tem problema, há muitos lá que eu posso pegar quando bem quiser, mas você pagará por sua atitude.

Severino saca a arma e aperta o gatilho. Nada sai do cano.

A senhora meneia o dedo indicador.

— Eu disse, você pagará por isso, cangaceiro. Amaldiçoo com o primeiro de uma nova espécie, te transformarei em uma criatura híbrida do que comeu essa noite, e devorará o que lhe vier a frente.

Chamas acendem Severino, consome o tecido de suas vestes, derrete o metal do revólver e de suas facas, e arranca gritos do velho cangaço. Seu corpo se transforma sob aquelas chamas: os dedos viram garras, crescem pelos dos seus pés ao pescoço. O rosto incha e fica sem pelos, o focinho redondo e gordo substitui seu nariz, orelhas engordam, toda a pele rosada, mesmo tom do leitão morto.

Severino levanta o queixo gordo para o céu, ainda sofrendo da mutação. Sem formar palavras, grunhe como se estivesse latindo. Assume a postura com as quatro patas no chão, a cabeça próximo da terra, a cauda levantada com as pernas traseiras esticadas. Ele corre morro abaixo, berrando uma mistura de vozes suínas, lupinas e humanas.

Joseph paralisa todo o corpo, os olhos arregalam e as palavras são incapazes de expressar sobre o que testemunhou.

— E o que eu posso aprontar com você? Estou disposta a testar novos feitiços.

— O meu pai… Foi na direção da vila, vai assassinar as pessoas de lá.

— É verdade, está muito faminto. Ele devorará cada mulher e criança, e ainda ficará com fome. Eu posso conseguir crianças em outro lugar, sempre haverá bebês por essas terras secas.

— Ele era um traste. Um miserável filho da puta, mas nem ele merece isso, seja lá o que for! Desfaça a maldição, bruxa!

— Prefiro testar algo novo em você. — Ela rodeia Joseph, o analisa, até decidir pegar no lampião suspenso numa corda em sua cintura. — Isso está apagado, vamos resolver isso.

O calor invade o corpo do jovem, consome a sua estrutura e lhe causa dor. Joelhos cedem pela temperatura, olhos ardem, sai fogo pela boca. Queima tudo, arranca a vida de si, a alma escapa do seu corpo, entra no lampião onde a bruxa aprisiona.

— Pronto, concedo-lhe a imortalidade. Sua alma está atrelada ao lampião, que por minha vontade permanecerá inquebrável.

Reage com gritos, saca a peixeira e corta atrás de si. A senhora com rosto de jacaré não está em lugar algum. A fome desaparece, o mesmo com a sede. Só a raiva e o medo permanecem, juntos se transformam em desespero.

Ele corre morro abaixo, vai onde Severino provavelmente estará. Poeira não incomoda mais seu nariz, o vento frio se aquece em contato com a cara queimada em ira.

Sob as luzes da aurora chega na vila do velho patriarca. Enxerga partes de corpos da família. Tripas, excrementos, sangue e ossos; nenhum corpo inteiro. Sem faces de horror em suas mortes, sem face alguma.

Do patriarca resta apenas um braço, de frente a sua casa. Os trapos arrancados do corpo manchados de sangue, junto com o lampião ainda inteiro.

Sobre aquele braço está Severino, de pé. Os pelos estão sumindo, e seu rosto perde as feições de um suíno. Vomita tudo que comeu nessa madrugada na entrada da casa de tijolos. Fica sem fôlego com o despejo contínuo de ácido, e continua a vomitar.

Joseph prende a respiração, saca a peixeira e caminha até seu pai.

— Desculpa, velho. Não posso te deixar assim.

Severino vira o rosto para o filho, ainda vomitando. Não xinga, não reclama, não reage, não entende.

Joseph corta sua barriga de um lado a outro, faz uma abertura onde seus órgãos começam a escorrer.

Severino grita de joelhos a seu filho, o jovem derrama lágrimas ao pai. Diz nada, apenas segue o instinto de sobrevivência: a futilidade de usar o lampião do patriarca contra o cangaceiro imortal. Golpeia com o lampião sem mirar em um ponto específico, e acerta no próprio lampião do filho. Um fragmento da brasa escapa de lá e entra o lampião segurado pelo pai, e essa brasa mágica acende o objeto.

Severino é queimado vivo pela segunda vez, passa a carregar a mesma maldição do filho.

A faca penetra no peito e fere o coração. Tira a vida de Severino, mas essa foge até o lampião. O feitiço da bruxa recuperará a vida do velho cangaceiro, Joseph tem certeza.

Encontra uma pá na casa do patriarca e cava a alcova para o velho. Isso não o impedirá, Severino morrerá e renascerá até escapar do sepultamento.

— Que seja, pai. O caçarei, seja em forma de homem ou qualquer outra. O caçarei pela eternidade.

Cacto - Maldições das Terras Secas

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