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Laços de Família (Contos Rotineiros de Clarice Lispector)

A resenha deste livro foi feita depois da segunda leitura, pois a primeira gerou nenhum impacto, quando o leitor adolescente buscava resultados espontâneos no final de cada conto, igual a personagem de O Búfalo. Dez anos depois, este leitor capta as entrelinhas do texto, conhece o fluxo de consciência, além de ler livros por prazer. Por descrever acontecimentos tão cotidianos, a autora consegue explorar significados peculiares no modo de escrever, ou revela o óbvio oculto pelas aparências. Laços de Família é uma coletânea de contos da Clarice Lispector, publicada pela primeira vez em 1960, já a edição lida nesta resenha foi a de 2007, da editora Rocco. Segue os comentários referentes a cada conto do livro:

Devaneio e embriaguez duma rapariga

É o conto da mulher dona de casa. O marido trabalha fora, os filhos estavam na casa da tia. A mulher transpira pensamentos por todos os parágrafos, tudo contado sob fluxo de consciência, mostra devaneio correspondente ao título do conto. Sempre voltada a ela, mesmo quando a cena retrata outras pessoas, apenas ela é a personagem, a mulher livre, de mérito conquistado, cujas qualidades atraem olhares. Então a ressaca lembra a realidade dela; retorna à rotina.

“[…] só Deus sabia: ela sabia muito bem que isso ainda não era nada”

Amor

Ana vivia dias seguros. Dona de família, a rotina correspondia ao ideal segundo a concepção dela, até encontrar um senhor cego no bonde, sorridente ao mascar chicles, e transforma a vida de Ana do avesso. A protagonista tinha certezas da própria convivência, e encarar essa nova realidade alheia a impressiona a ponto de preocupar. Seria certo ir atrás de conhecer algo novo? Seguindo ao diferente, ela perde o caminho de volta, e o desespero a consome.

“Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas”

Uma galinha

Uma galinha prestes a ser abatida foge do galinheiro da família. O dono vai atrás, e a perseguição surpreenderá a todos. A narrativa foca no animal do começo ao fim, demonstra as limitações de sua vida, e nem isso impede do extraordinário acontecer, para depois voltar ao normal e chocar o desfecho.

“Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã”

A imitação da rosa

Laura irá, junto do marido Armando, ao jantar com a Carlota e o marido, amigos do casal. Há tempos não os via ou jantava assim, mesmo Laura sem ter filhos. Ela ocupa a mente com a casa, segue o ritual de tomar leite, em seguida ela ficava calma, algo tão natural quanto ficar cansada no fim do dia. O leite a tranquila, já as rosas a perturba. Tão perfeitas de modo a proibir o direito de as ter. Pretende entregar à Carlota, ou quem sabe mantém consigo; o conto segue por este impasse da protagonista. Laura ocupa a cabeça no aguardo do marido, até descobrir algo capaz de ela resolver, apesar de haver nada, é apenas um exercício útil a encher a protagonista de significados.

“’Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir’”

Feliz aniversário

É a festa de oitenta e nove anos da aniversariante. Toda a família reunida nesta data especial, já a homenageada da festa permanece muda, até escancarar a verdade, o evento é compromisso ao invés de festa. Conforme narra a cena, demonstra a situação de cada membro desta família. Sob tantos anos sobrevividos, há dificuldade de encontrar motivos de ter alegria em alguém a permanecer sentada; aos filhos, netos e bisnetos interromperem um dia de vida a fazer companhia à senhora. Enfim, mostra a melancolia escancarada nessa data a fingir bem-estar familiar.

“Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais”

O jantar

É sobre alguém observando outra pessoa comer, um sujeito intimidador pela própria existência. Melhor ler o conto por si e tirar as conclusões sobre quem é o sujeito e o narrador observador, tudo demonstrado nas entrelinhas, apesar da intenção na escrita ambígua. Todo o conto persiste em narrar este personagem comendo, foca nos detalhes, pois cada gesto dele desencadeia reações nas pessoas ao redor.

“Num dedo o anel de sua força”

A menor mulher do mundo

Marcel Petre é pesquisador francês. Dentre os humanos pequenos, pretende descobrir o menor dos menores. Assim segue pela África, até encontrar o objetivo: mulher negra, grávida, e a menor de todas as pessoas. A partir do retrato desta mulher, o conto segue numa questão nada agradável, mostra a reação dos espectadores de seu retrato, encaram-na feito espécie distinta, feito alguém sujeito a ser possuído, usufruído ao bel prazer; em suma, escancara o racismo sob desculpa desta mulher negra ser diferente. O conto também trata da visão dela diante do pesquisador francês, mostrando a visão limitada a sobreviver em contraste a alguém novo, estrangeiro.

“[…] obedecendo talvez à necessidade que às vezes a Natureza tem de exceder a si própria”

Preciosidade

É sobre uma adolescente na rotina de estudos. Vida solitária, ia até a escola sozinha, de ônibus, entre os demais passageiros, tem medo de ser vista, pois apesar de não se achar bonita, já está na idade. Muda de postura nas aulas, segura do mundo. Ao voltar para casa tem companhia somente da empregada. Vive enclausurada, mesmo assim sofre o que tanto teme, mudando assim a vida dela. A escrita é capaz de transmitir o medo da personagem em cada passagem correspondente, estendendo o terror ao leitor conforme acontece na garota.

“É que eles ‘sabiam’. E como também ela sabia, então o desconforto”

Os laços de família

Catarina acompanhava a mãe ir embora, e ao voltar no lar, leva o filho rua afora enquanto Antônio, o marido, aproveita a tarde de sábado que pertence a ele. E entre essas interações, mostra quais são os laços desta família, do patriarca engenheiro e esposa talvez cansada do apartamento todo arrumado, do filho nervoso sem fazerem nada por ele, e das provocações que tornam esta relação pacífica.

“’Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um’”

Começos de uma fortuna

O maior problema de Artur é pedir o dinheiro aos pais. Tenta a manhã toda e falha, na escola há oportunidades de gastar dinheiro, até mesmo pegar emprestado, o problema é já estar devendo a outro colega de classe. Assim Artur enfrenta agora os dilemas que ele precisa preocupar quando estiver mais velho, apesar da idade já estar próxima. E nesta crise adolescente, mostra os pais lidando com o garoto entre críticas e oportunidades divergentes entre pai e mãe.

“Só que era inútil procurar em si a urgência de ontem”

Mistério em São Cristóvão

Toda a família da casa vai dormir, quando sai três moços mascarados da residência vizinha e encontram no jardim desta primeira casa os jacintos ideais a combinar com as fantasias deles. Ao tentarem pegar, chama a atenção de uma moça a berrar de susto contra eles a fugirem até a festa. O susto desperta todos na casa, apesar de este já ter passado, desencadeia emoções nesta família cheia de desconfiança, como se os membros desta vivessem mascarados. Os rapazes de fantasia somem faz tempo, e ainda assim a tensão na família permanece.

“Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio”

O crime do professor de matemática

Ele sobe até a colina, busca forças e fôlego ao tirar os óculos da face, só então ele age, tira o cachorro morto na mochila, o outro cachorro, não aquele, e começa a cavar. Aparenta ser um caso de agressão ao animal inocente, na verdade revela ser algo pior, pois este é o objetivo do protagonista sob pleno raciocínio lógico, lúcido, só que chocante ao leitor.

“Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade”

O búfalo

Desapontada no amor, ela decide ter ódio. Tenta buscar esse sentimento irracional no zoológico, só não o encontra. Explorando os animais de lá, o conto acusa a ansiedade humana em conquistar anseios imediatos, de procurar algo em seres ditos inferiores e encontrar só a própria fragilidade de si. Odeia por amar, e assim acaba amando o mundo todo.

“Ela mataria a nudez dos macacos”


Capa de Laços de FamíliaAutora: Clarice Lispector
Publicado pela primeira vez em: 1960
Edição: 2007
Editora: Rocco
Gênero: contos / ficção feminina
Quantidade de páginas: 135

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A Taverna: Volume 2 da Revista de Contos (Divulgação)

Já tive a oportunidade de conferir a Revista de estreia do blog A Taverna com cinco contos muito bem escolhidos, caprichados e aperfeiçoados pelo trabalho de edição. Toda iniciativa a trazer maior visibilidade aos trabalhos nacionais é bem-vinda, e esta Revista serve como exemplo por trazer oportunidade a autores reconhecidos ou iniciantes a conseguirem publicar seu texto entre os demais em destaque.

Muitos aproveitaram a chance de ter o conto publicado na segunda edição da Revista A Taverna, poucos passaram pelos critérios rigorosos — e justos — dos editores do blog, e dentre eles houveram cinco escolhidos a terem seus contos conhecidos nesta pequena antologia digital. O mais surpreendente é, entre esses cinco, eu sou um deles. Isso mesmo! Eu, Diego Araujo, criador e editor deste site, venci o concurso e pude compartilhar meu conto junto com os demais quatro autores de contos extraordinários.

Reconheci a qualidade dos contistas premiados na primeira edição, e está difícil expressar tamanha gratidão por eu estar entre os cinco selecionados do novo trabalho da equipe A Taverna. Mas este post não é apenas uma comemoração, apresento a seguir cada conto disponível na Revista. Recuso a chamar de resenha, pois fico pouco à vontade de avaliar meu próprio texto. A intenção aqui é divulgar esta edição, mostrar os melhores pontos de cada conto e torcer para que a iniciativa do blog A Taverna persista e cresça cada vez mais.

Enfim, vamos aos contos!

“O que o Vento Sul Sussurra”, de H. Pueyo

Conhecemos Elías Bazuá em seu serviço solitário, o de manter o escudo da região Ushuaia contra colisões de cometas. O planeta Terra sofre impactos astronômicos há tempos, apenas os escudos protegem os locais da colisão. Elías conta com a ajuda de Heloise, um sistema de inteligência artificial, e enfim recebe uma colega de trabalho humana de acordo com as características pedidas por ele, a Lola. Tanto Elías como Lola são autistas, apesar de o rapaz ter maiores dificuldades com esta situação.

O conto de ficção científica situa o planeta no ambiente posterior a calamidade, que para variar é desconhecida da maioria das pessoas, essas alheias aos estudos científicos. Apresenta dois casos de autismo e torna nítida a diferença no desenvolvimento da pessoa em tais condições, de como a ausência de tratamento adequado pode prejudicar alguém, como privá-lo da interação com outras pessoas. Além do tratamento, os recursos desta ficção científica auxiliam os autistas, quando esses têm condições de obtê-los. O que o Vento Sul Sussurra representa esta minoria de necessidades específicas ao demonstrar de perto como tais pessoas convivem, ou no caso a dificuldade de elas conviverem.

“O Touro Vermelho”, de Ana Lúcia Merege

Antonio está na excursão com os amigos sobre a civilização minoica. Presunçoso quanto as informações dadas, o garoto demonstra a falta de coragem em outros aspectos, aquela insegurança comum de adolescente. Se distrai na excursão ao desenhar as peças em exposição, e de repente fica surpreso com a aventura disponível a frente.

O conto acompanha a intimidade do rapaz protagonista quanto aos dilemas típicos da idade. No plano de fundo há menções sobre a civilização apresentada nesta excursão, a contextualiza antes de levar os personagens rumo à conclusão inesperada, apesar da prova de superação por parte do Antonio.

“Limiar”, de Jaime de Andruart

Aqui encontramos um gaúcho a serviço de encontrar o touro sequestrado do patrão, exceto de nada do desenrolar desta história ser simples. O gaúcho ouve a profecia tanto pelo representante guarani quanto de cristão, e as mensagens demonstram pouca clareza quanto ao destino da caçada como também da humanidade.

O conto mescla conceitos de velho oeste adaptados na realidade da região sul brasileira. Além da ambientação bem representada, a narrativa em primeira pessoa carrega a linguagem distinta do gaúcho por todo o texto, enfeita as descrições com termos característicos e sempre mantém o ritmo da história no enredo reservado a esta aventura.

“Alameda dos Ratos”, de Guilherme Alaor

El Ratón puxa conversa com Ruan, um dos “Reportadores” do Conde a serviço de flagrar delitos na Alameda dos Gatos. El Ratón o convida a conhecer a outra parte deste bairro, a Alameda dos Ratos, e mostra de boa vontade a realidade negada pelos cidadãos de “Sangre”.

O conto constrói a sociedade elaborada pelo autor com terminologias próprias enquanto mostra ações ordinárias das pessoas desprovidas de benefícios. El Ratón coordena toda a história, desde a narrativa, as descrições e a interação de Ruan com o cenário a ser descoberto pelo Reportador junto com o leitor. Os argumentos sobre as diferenças de classes conclui pela justiça poética, ainda tendo espaço a mostrar outras particularidades da sociedade.

“Lembre-se, Setembro”, de Diego Araujo

Antônizo procura pelo colega de trabalho Elísio, o menino prodígio da empresa. Enquanto interage nessa realidade futurista, o amigo insiste em falar com o garoto após ele insinuar a desistir da própria vida.

Nesta ficção científica, a tecnologia funciona a favor do conforto de cada pessoa, atende as necessidades individuais enquanto prezam pelo respeito alheio. A sociedade previne o ócio através das competições constantes, motiva as pessoas a serem ativas ao entrar nas mais diversas disputas, sejam no trabalho ou na vida particular. Mas tal sistema não acomoda a todas as pessoas, e Antônizo busca a solução a Elísio por conta própria. Além das especulações científicas, este conto transmite a mensagem de conscientização e prevenção ao suicídio, acima de tudo: sobre a valorização da vida.


A Taverna Vol2. - capaAutores: Ana Lúcia Merege, Diego Araujo, Guilherme Alaor, H. Pueyo e Jaime de Andruart
Editora: A Taverna
Edição: 2
Ano de Publicação: 2019
Quantidade de Páginas: 103

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Revista A Taverna: Edição 1

Sabemos da dificuldade em produzir conteúdos literários no Brasil. Mais ainda caso a literatura seja de especulação (fantasia/ficção científica), pois alcança determinados leitores.

Nenhum empecilho impede os escritores apaixonados por este nicho. Desbravando em blogs, canais de mídias sociais ou na busca da publicação tradicional, os aspirantes a escritores traçam caminhos distintos na jornada de compartilhar histórias fantásticas. 

O post de hoje destaca a iniciativa do blog A Taverna, que realizou um concurso literário para a edição de sua primeira revista de contos. Publicada em 2019, selecionaram cinco contos dos inúmeros participantes e capricharam na edição de estreia.

Revista A Taverna: Edição 1 - capa

Os merecedores de ter histórias reconhecidas nesta estreia são: Anna Fagundes Martino, Rubem Cabral, Letícia Copatti, Renan Bernardo e Daniela Almeida.

Arrastou-se por um pântano de pensamentos suicidas  

Um conto de terror, outro de ficção científica e três de fantasia. A variedade também se situa nos cenários e características dos personagens. Os autores aproveitam da premissa elaborada pelos mesmos e constroem a trama com as consequências daquela realidade. Nenhuma capacidade sobre-humana traz apenas maravilhas. Os contos exploram muito bem quais seriam as consequências, seja pelo uso em si ou das circunstâncias levantadas na respectiva história.

Com leituras de dez minutos a meia hora por conto, os organizadores do concurso sabem escolher quem aproveita das poucas palavras e entregam a narrativa coesa, sem faltar detalhes ou impor aspectos desnecessários.

Sorrisos gastavam energias demais  

Adquiri a primeira edição da revista A Taverna como incentivo à iniciativa. Levantei muita expectativa neste trabalho e fiquei satisfeito com o resultado. Torço pelo sucesso e garantia de novas edições. Quem sabe até com versões impressas a venda nas livrarias? A qualidade para tal já está garantida.

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