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Larissa Start (finalista do Prêmio Kindle em 2019)

Iniciativas de prevenção ao suicídio existem aos montes, já as eficazes correspondem a números limitados. Enquanto há muita vontade de fazer a diferença nesses projetos solidários, a maioria carece de embasamento até mesmo para mensurar a eficácia da campanha. Pelo menos há esta minoria interessada em planejar desde a metodologia, empregando recursos desenvolvidos por pessoas capacitadas. Mais que desejar o bem das pessoas, o melhor seria agir de maneira consciente. O livro Larissa Start procura demonstrar esta prevenção embasada. Publicado por Rafael Caputo em 2019 de forma independente na Amazon, o livro foi finalista do Prêmio Kindle no ano correspondente.

“Este é Ricardo, e esse é o relato de como suas pesquisas nos sites de busca, literalmente, chegaram ao fim”

Ricardo navega pela internet antes de tentar se suicidar. Ciente de qual meio utilizaria, ele estaria pronto a encerrar tudo, quando surge a notificação de um perfil desconhecido por ele na rede social querendo entrar em contato. O avatar corresponde à Larissa, bailarina interessada em frequentar academia, apesar da preguiça. Começa a conversa depois de ver pelo perfil de Ricardo a profissão de instrutor de educação física, por isso quer a ajuda dele para fazer a matrícula. Na verdade tudo era pretexto para conversar com Ricardo, desenvolver o contato próximo e evitar de ele encerrar a própria vida, conforme uma equipe do CVV constatou a intenção a partir do novo algoritmo dedicado a monitorar comportamentos online suscetíveis a de suicidas.

“Falando em coincidências, também aprendeu que elas não existem”

Conforme o próprio autor esclarece no começo do livro, esta história usa muitos elementos da realidade ao compor esta ficção, desde a reprodução de localidades reais de Curitiba ― cidade onde a história ocorre ― até os detalhes profissionais dos personagens envolvidos, bem como os dados referentes ao suicídio. A ideia entorno do algoritmo do CVV tem elementos comuns de ficção científica, especula uma ferramenta a partir da tecnologia já conhecida hoje, apenas mais desenvolvida a ponto de possibilitar sua utilidade nesta história. Já a interação desta ferramenta é feita de forma honesta pelos personagens e realista no ponto de vista narrativo, os responsáveis pelo algoritmo mantém a postura profissional diante do paciente na maior parte da história, e o envolvimento entre as pessoas posteriormente sempre leva o humor vigente em consideração.

A história começa sob o cuidado de como abordar o assunto delicado do suicídio. Foca em mostrar a intenção do Ricardo, sem indicar causas simplistas à complexidade do suicídio. A abordagem da prevenção sobre o Ricardo também foi exemplar no começo, os diálogos proporcionaram ao personagem ficar à vontade, pois evitou o assunto de imediato, a discussão começa apenas quando ele fica confortável a contar do plano, antes a Larissa apenas oferecia conselhos ambíguos de propósito, ela correspondia à conversa do momento e ao mesmo tempo dava indiretas ao problema de Ricardo.

“Salvar vidas não era brincadeira”

Embora comece a conduzir a prevenção de maneira exemplar, os capítulos posteriores deixam a desejar. O narrador é minucioso nos detalhes, descrevendo tudo sobre a situação, o pensamento de Ricardo e de qualquer outro personagem, sendo muitos momentos desnecessários ou já sabidos pelo leitor sem precisar mencionar. Devido a este cuidado de deixar toda informação clara, repete-a inúmeras vezes, subestima o leitor de compreender por si ou até de lembrar de algo dito em capítulo anterior. Há também momentos em que a narrativa é deixada de lado e o texto assume caráter informativo, os dois tipos de textos são úteis, só ficam destoantes de ficarem juntos. A pesquisa realizada pelo autor é impressionante, é visível a atenção aos detalhes, porém incluir toda a pesquisa na narrativa prejudica a narrativa ficcional.

E neste interesse de explicar tudo, acaba por comprometer até a abordagem do tema delicado, pois descreve até nos mínimos detalhes qual a maneira escolhida pelo personagem de tirar a própria vida. Em outro capítulo começa a detalhar os motivos de outra personagem desejar o suicídio, contradizendo a prática elogiada no parágrafo anterior desta resenha. Outro fator chega a ter ressalvas por atingir apenas parcela dos leitores: é quanto a mensagens cristãs distribuídas nas falas dos personagens como maneiras de convencer alguém a desistir do suicídio. Isso pode induzir da solução contra o suicídio estar nas mensagens bíblicas, algo inadequado a seguidores de outras religiões ou entre os ateus, esses correspondentes a maior taxa de suicídio comparados às demais crenças.

“[…] detesta azeitonas e ainda prefere acreditar nas pessoas”

O livro carece de revisão tanto por erros ortográficos quanto gramaticais e semânticos. Um exemplo é o verbo “poder” conjugado no passado como auxiliar a outro verbo, no entanto sempre aparece sem o acento ― “pode” em vez de “pôde” ―, e a repetição do erro acaba destacando esse vício de usar a mesma expressão ao longo do livro. Precisa de revisão quanto a questões incoerentes também. Em certo diálogo fala sobre o personagem ir a Fortaleza em breve, na sequência outro personagem pergunta qual cidade ele iria, e a resposta sobre a “cidade” foi Ceará. Cita a idade de Larissa ser de vinte e três anos, já em outro momento é vinte e dois. Comenta de o Ricardo poderia evitar o rastreamento do acesso dele na internet caso usasse o modo anônimo do navegador, porém isso apenas deixaria de salvar o histórico no próprio computador, já os sites e possíveis algoritmos conseguiriam rastrear a atividade do usuário na mesma maneira; algo possível de Ricardo se confundir por ser formado em área diferente a da informática, já o narrador onisciente e dedicado a pesquisar sobre tudo não, faltou deixar claro de quem era a perspectiva nessa frase.

A intenção do livro Larissa Start é explícita de conscientizar sobre a prevenção do suicídio através da ficção, e apresenta maneiras exemplares de proceder neste objetivo. Uma pena o andamento da narrativa descontinuar a abordagem positiva, por vezes soando até contraditória, ainda mais pela escolha do narrador explicar todo aspecto do romance.

“O simples ‘Oi’ que mudara tudo”

Capa de Larissa StartAutor: Rafael Caputo
Ano de Publicação: 2019
Tipo de Publicação: independente
Gêneros: ficção / ficção científica
Quantidade de Páginas: 174

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Não Pare! (debut da saga escrita por FML Pepper)

Ter a vida repleta de segredos nunca revelados é complicado. Sempre quando algo deste segredo aproxima, acontece a mudança no sentido literal, mudança de casa, cidade, país. O desconforto só aumenta, ainda mais ao sofrer traumas quase mortais a todo momento, tudo decorrente dos segredos, cujas descobertas resultam na jornada da garota a enfim conhecer quem ela é. Não Pare! é o primeiro volume da trilogia ― além do quarto livro spin-off ― escrita por FML Pepper, autora brasileira de destaque na plataforma da Amazon quando lançou este livro em 2012.

“Ninguém da minha idade está preparado para morrer”

Nina Scott mora em Amsterdã junto da mãe Stela, profissional responsável pela produção de lentes oculares avançadas, serviço que demanda trabalhar em diversos lugares do planeta conforme a necessidade, segundo a mãe. Assim a filha adolescente e a mãe mudam de lugar a todo momento, inclusive acontece de novo depois de Nina quase sofrer um acidente fatal, o próximo destino seria Nova Iorque.

Desanimada de enfrentar outra vez a rotina de escola nova e logo ir embora a outro lugar, Nina fica surpresa quando a mãe diz permanecer de vez nos Estados Unidos. A animação tem prazo curto, pois os segredos ocultos a Nina em seus quase dezessete anos de vida serão revelados, sobre entidades residentes a um plano dimensional oculto à maioria dos humanos, e sobre a ambição alheia desses seres de tomarem a vida da garota.

“Nós somos a antítese da vida, todo nós”

A Nina narra a história em primeira pessoa. Começa sobre a tentativa de seguir a vida normal apesar das dificuldades da mudança constante e os acidentes evitados por pouco. A narrativa oferece a descrição das cenas e o que a Nina pensa naquele momento, demonstra a espontaneidade da protagonista adolescente e quanto a preocupações pertinentes a moças desta idade. Já o excesso de descrições físicas nos personagens apresentados na história engessa a narrativa, prolonga as cenas ao citar detalhes pouco relevantes da história. Variados verbos de dizer acompanham os diálogos, expressando o sentimento do personagem no momento da fala, sendo nem sempre essenciais, e assim alonga o texto. Os capítulos terminam com uma frase disposta a atrair o leitor ao próximo capítulo, também conhecido por gancho, recurso interessante de usar ao narrar cenas de tirar o fôlego e em seguida promete ao leitor que terá mais no próximo capítulo, ou sob estratégias semelhantes. Já neste livro fica apenas a repetição do recurso, isso diminui o impacto por ficar óbvio, ainda mais quando a frase de engajamento vem solta, pois o capítulo poderia terminar sem ela e já seria o suficiente ao desfecho daquele trecho. Tais observações deixariam o texto polido, facilitaria a leitura sem prejudicar o enredo.

Já os apontamentos a partir deste parágrafo abordam assuntos problemáticos. Por volta da metade do livro em diante a protagonista descobre sobre o universo fantástico existente nesta história, e desta parte em diante faz perguntas a todo momento; quase toda frase de diálogo de Nina termina com ponto de interrogação, então o outro personagem despeja a informação sobre a espécie dele. E mesmo assim a protagonista não entende, força a repetição da informação sob mais perguntas.

Foi interessante conferir os desejos íntimos da protagonista no começo da história, quando o perigo ainda tomava força e deixava Nina livre para distrações; agora manter a protagonista pensando em como os seres fantásticos ao redor estariam interessados de namorá-la quando a situação envolvia riscos à vida de todos, destoa do perigo apresentado. A ingenuidade de Nina insiste neste erro também, mantendo relacionamentos já claros de serem falsos, insiste mais ainda no personagem que a maltrata, provoca a todo momento e traça planos ocultos, mesmo assim ela continua a tentar relacionamento com ele.

“No final das contas, resgatar e matar têm o mesmo significado para nós”

Por agendar a publicação desta resenha em setembro, convém chamar atenção sobre a questão do suicídio neste mês dedicado à sua prevenção. A protagonista considera morrer por vontade própria, elencando os problemas que a fazem ter este desejo. Abordar o suicídio em si nas histórias teria problema nenhum, há casos frequentes na vida real e a ficção pode narrar tais acontecimentos a personagens. Porém precisa de cuidado quanto a forma a conduzir esta situação, e citar o suicídio como alternativa frente a problemas, além de descrever o que seria a causa desta intenção, contribui apenas aos péssimos exemplos de conduzir este assunto. Suicídio é questão de saúde pública, jamais uma solução; e quando alguém pensa no ato, é por motivos multicausais, muito além de traumas recentes e pontuais, abordar assim apenas passa mensagens equivocadas.

Não Pare! conduz a história da Nina de forma linear, de ritmo condizente na assimilação da protagonista às novidades de sua vida no começo da história. A metade do texto em diante compromete o livro pelas questões problemáticas expostas nesta crítica, a narrativa falha em introduzir os elementos fantásticos nas próprias cenas, em vez disso oferece capítulos cheios de diálogos explicativos, relacionamentos nada exemplares e ainda assim atrativos à protagonista.


Capa de Não Pare!Autora: FML Pepper
Editora: Valentina
Ano de Publicação Original: 2012
Série: Não Pare! #1
Gênero: fantasia urbana / YA
Quantidade de Páginas: 254

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Para Onde Vão os Suicidas? (Setembro Amarelo)

Suicídio é questão de saúde pública, apesar de sua fatalidade impactar as pessoas de maneiras individuais. Também gera comoção em pessoas inspiradas a apoiar a prevenção, pesquisar sobre o assunto tabu e escrever quanto a isso em vários formatos, seja em matérias, contos, estudos ou histórias específicas. Esta resenha tratará da história Para Onde Vão os Suicidas?, escrito por Felipe Saraiça e publicado pela PenDragon em 2017.

“É o seu corpo quem está preso. Você está livre”*

Angelina nasceu sem mãe, falecida no momento do parto. Permanece na família do pai a prosseguir na vida na companhia da nova esposa, e dela teve outra filha. Angelina encerra a própria vida, e em vez de repousar no além, encontra com a deusa Ixtab a lhe propor um desafio. Antes revela a situação de Angelina, em coma diante da família, e avisa: o corpo permanecerá assim enquanto ela aparecerá apenas a algumas pessoa para tentar impedi-las de cometerem suicídio.

“Na aglomeração de emoções, cada um vivia seus problemas”

Angelina aborda os casos em sequência, focando na pessoa vigente e só depois conhece a próxima de intenções suicidas. O narrador intervém no início de cada caso e apresenta o novo personagem, sendo onisciente, sabe de tudo sobre os envolvidos e mostra a situação dele ao leitor conforme a necessidade. A escolha da narrativa é certeira em dar oportunidade de explorar a intimidade de cada personagem o qual necessita de atenção, e então corresponder à missão de Angelina.

A boa intenção do autor é nítida em relação ao assunto principal do romance, repercutindo em todo o livro ao elaborar frases motivadoras entre os conflitos das pessoas a serem salvas pela Angelina. Porém abordar o tema do suicídio também exige responsabilidade, senão a boa intenção pode acabar causando o efeito reverso. Angelina resolve todos os casos de forma simples, indo direto ao assunto, falando do suicídio; enquanto os personagens reagiram bem ao confessar da intenção a outras pessoas, na realidade há risco de perturbar o indivíduo já conturbado pela intenção. Primeiro deveria estabelecer uma relação de confiança, conversar em busca de compreender os sentimentos do personagem, e só ao ter afinidade, poderia falar do ato pretendido, se planeja ou já possui os meios do qual deseja executar.

Falando dos meios, Angelina vê os itens escondidos pelos quais determinada pessoa pretendia usar, tendo a oportunidade de removê-los ― tirar os meios de suicídio do alcance da pessoa está entre as melhores maneiras de prevenir. Faltou cuidado ao apresentar justificativa ao desejo de cometer o suicídio, pois mesmo que a pessoa acredite ser determinado motivo, a causa tem múltiplos fatores, uns recentes, outros manifestados há mais tempo em períodos intermitentes, portanto afirmar qual problema culmina na intenção de interromper a própria vida oferece uma mensagem equivocada. O autor fez bem em evitar de dar detalhes nas formas as quais os personagens iriam executar na maior parte dos casos, pena haver exceção, esta ainda descrita de maneira violenta, de agressão direta ao corpo.

“Ser diferente pode ser perigoso”

A boa intenção do romance também precisaria de atenção à escrita, sem o devido polimento esperado a de livro publicado. Há frases em parágrafos longos a jazerem dispersas, incapazes de conectar às demais e por isso acabam prejudicando o foco na leitura. Por exemplo: o parágrafo foca na interação de dois personagens, quando uma frase interrompe esta interação e descreve o clima no cenário. Os diálogos falham na veracidade pela intenção de ressoarem mensagens morais, sempre levando ao assunto em vez de mostrar a história acontecer. Verbos de pensamento desencadeiam descrições rasas, contando os sentimentos do personagem em vez de mostrá-lo viver, interagir na cena. Existe falha na revisão inclusive no título, pois “onde” corresponde a localização de um lugar, então ao apontar o destino de alguém a ir até lá, deveria ser Para Aonde Vão os Suicidas?

Mantendo o título na forma publicada: Para Onde Vão os Suicidas? careceu da responsabilidade em tratar do assunto, o qual esbanjou de boa intenção. Todo o contexto e a exploração fantástica entorno do romance possuem excelentes elementos capazes de motivar leitores a desejarem melhorar as atitudes quanto a prevenção do suicídio. Caso tivesse o empenho de pesquisar as melhores maneiras de abordar o assunto, seria uma obra exemplar a conscientizar jovens ― possível público-alvo do livro ― a ter o cuidado de abordar diferentes casos de intenção suicida.

“Deixe que elas vivam suas próprias ilusões”

* citações copiadas conforme apresentadas no livro

Capa de Para Onde Vão os Suicidas?Autor: Felipe Saraiça
Editora: PenDragon
Publicado em: 2017
Gêneros: fantasia / YA
Quantidade de Páginas: 192

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O Suicídio e Sua Prevenção (Setembro Amarelo)

Desinformação traz o perigo de piorar a situação da qual deseja prevenir, mesmo sob boa intenção. Desvirtuar logo do assunto relacionado a manter vidas pode, infelizmente, acontecer o contrário. Sem atribuir culpa total ao desinformado, pois parte do problema corresponde ao assunto ser tabu, portanto menos acessível, ainda assim há quem estude, segue rigores científicos e assim impede dos sentimentos incitarem julgamentos equivocados. Assim funciona o estudo sobre O Suicídio e Sua Prevenção, escrito por José Manoel Bertolote e publicado pela editora Unesp em 2012, o texto aborda desde a definição do suicídio até as maneiras eficazes de o evitar, comprovadas no momento da publicação.

“Deveríamos começar pela criação de condições para vidas mais significativas e sociedades melhoradas”

Partindo das definições, o autor desenvolve os argumentos ricos em explicação didática. Todo leitor terá facilidade de compreender o conteúdo sem precisar de conhecimento prévio, pois tudo está explicado no próprio texto. Tabelas e gráficos ajudam a mostrar informações condensadas sobre o tópico correspondente, acompanhados de parágrafos elucidativos sobre os dados organizados ali, ou seja, nada dificulta o entendimento do leitor. Talvez seja aconselhável apenas conhecer a importância da metodologia científica para assimilar o porquê das iniciativas de objetivos mais rigorosos serem as mais confiantes quanto a prevenir o suicídio ― breve explicação: tendo metas definidas, é possível avaliar a eficácia da iniciativa, bem como replicá-la caso outro grupo julgue algum erro na metodologia, este têm a possibilidade de testar e assim discutir a melhor abordagem. Por outro lado, explicar a metodologia científica implicaria em desviar do assunto, cuja extensão é sucinta, mas ideal de abordar a quem deseja aprender sobre a prevenção do suicídio, podendo aprofundar depois em materiais complementares.

“Deuses e religiões não eliminam o absurdo, apenas o ocultam”

Embora a abordagem na escrita impede de surgir dúvidas ao leitor, tem uma afirmação contraditória por deixar de informar por completo. O autor reconhece a possibilidade dos registros das tentativas de suicídio serem subestimados, e quando trata sobre as tentativas, afirma das mulheres realizarem com mais frequência por causa do método empregado entre as pessoas deste sexo ocasionar em menos mortes. Apesar da observação resultar dos dados disponíveis, o autor poderia levantar a questão da subnotificação como contraponto capaz de tornar esta afirmação falseável, ou talvez ter explorado melhor esta situação que comprove de as mulheres tentarem mais vezes por esse motivo.

O Suicídio e Sua Prevenção tem conteúdo fiel ao título, começa a abordar da definição e fatos sobre o suicídio, em seguida discute sobre os meios de prevenção. O livro é excelente a qualquer pessoa ler sem dificuldade de assimilar, incentiva a consciência ao abordar este assunto, podendo assim impedir das pessoas limitadas a terem apenas boas intenções acabarem prejudicando a prevenção.

“E o futuro não existe, vivemos aqui e agora”

Capa de O Suicídio e Sua PrevençãoAutor: José Manoel Bertolote
Editora: Unesp
Ano de Publicação: 2012
Gênero: acadêmico / técnico / não ficção / suicídio
Quantidade de Páginas: 138
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A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói (Antofágica)

A morte é inevitável, esta frase de significado comum e óbvio a qualquer pessoa, exceto quando aproxima a hora dela. Ao experimentar a vida durante toda a existência, de qual maneira poderia acostumar com a morte? Alguns escolhem rememorar os feitos passados, avaliando o quanto valeu a pena viver neles, afinal o momento a seguir é o fim, sem muito a presumir dele senão as consequências da partida. A Morte de Ivan Ilitch explora toda a questão da morte na perspectiva da família de um burocrata russo, escrito por Liev Tolstói em 1886 e traduzido por Lucas Simone na edição da Antofágica, lançada em 2020.

“A história pretérita […] era a mais simples e comum e também a mais terrível”

A história começa com a notícia da morte do protagonista entre os colegas de trabalho. Mal desenvolve a tensão pesarosa da partida do exemplar burocrata, e os colegas já traçam planos quanto a ocupar os possíveis cargos rearranjados a partir da vacância a de Ivan Ilitch. O funeral demonstra a vida das pessoas próximas de Ivan seguindo adiante, já os capítulos seguintes focam na vida do protagonista, desde a educação, formação profissional e familiar, até retomar o acontecimento culminante das cenas do primeiro capítulo.

“Tudo se fazia com mãos limpas, camisas limpas, palavras francesas e, sobretudo, na mais alta sociedade”

O autor conta toda a vida do personagem nesta história sob o gênero de novela, ou seja, de poucas palavras a desenvolver a trama a percorrer todos os anos de Ivan. Assim o narrador recorre a narrativas pontuais, contar passagens de tempo em poucos parágrafos, para então chegar no momento de estender as frases a situações constantes as quais pretende explorar, a consciência do personagem quanto a morte. Durante a descrição pontual da vida do protagonista, o narrador permanece distante, relata sobre os feitos dele e contextualiza os pensamentos diante das etapas da vida. Comentar a passagem desta forma deixa até a entender que esta parte da história é entediante, graças à escrita do autor ocorre o contrário. Ao compilar a história de Ivan, o narrador não conta, e sim mostra os aspectos sociais envoltos ao personagem responsáveis por influenciar determinadas escolhas.

Depois o narrador aproxima do personagem, pois chega o momento de compartilhar a dor dele por meio das palavras. Assim a escrita toma outro rumo, apesar de aproveitar o que trouxe do começo da vida de Ivan nesta novela. As cenas trazem as consequências quanto ao modo de vida do protagonista, agora enfrentadas pelo Ivan moribundo, consciente de sua partida, reagindo da condição a tornar a situação cada vez pior. O narrador segue Ivan até o fim, é incansável enquanto transcreve as palavras sentidas pelo protagonista, assim consegue mostrar ao leitor o sofrimento até chegar ao fim.

A Morte de Ivan Ilitch é um livro bem escrito a ponto de provocar sensações ruins na leitura, de tão realistas ao retratar os últimos momentos de Ivan. Aborda ainda várias questões pontuais da vida burocrata na Rússia na época descrita pelo Tolstói, demonstrando os aspectos sociais de quem trabalhava no serviço público naquela ocasião e as maneiras possíveis de seguir adiante neste tipo de vida tão bem questionada pelo próprio protagonista em determinado momento.

“[…] fez aquilo que seria considerado correto pelas pessoas que ocupavam os mais altos postos”

Capa de A Morte de Ivan Ilitch, na edição da editora AntofágicaAutor: Liev Tolstói
Tradutor: Lucas Simone
Ano da Publicação Original: 1886
Edição: 2020
Editora: Antofágica
Gênero: novela / literatura russa / literatura clássica
Quantidade de Páginas: 312

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O Hobbit (Clássico Nostálgico de J. R. R. Tolkien)

A hora de termos a resenha sobre este livro neste site chegou. O prelúdio da saga épica de anões e elfos, trols e dragões. Aventura repleta de perigos, é uma viagem inesquecível ao indivíduo cuja raça preferiria o conforto do lar. Mesmo assim o pequeno Bilbo Bolseiro enfrenta os desafios e se destaca em alguns deles. O Hobbit é uma das obras consagradas de J. R. R. Tolkien, escrita em 1937 e de nova edição brasileira elaborada pela editora Harper Collins em 2019, com tradução diferente das edições anteriores assinada por Reinaldo José Lopes.

“Numa toca num chão vivia um hobbit”

O narrador apresenta Bilbo Bolseiro, um hobbit dentre os vários a viver na mesma vila de rotina pacata. Ali Gandalf o encontra, os dois começam uma conversa confusa, afinal o mago convida Bilbo a participar da aventura, algo jamais desejado pelos hobbits, eles preferem o conforto do lar sem pensar duas vezes. Sem afirmar nada sobre aceitar tal aventura, muitos anãos chegam à casa de Bilbo e entram sem pedir, aliás pedem toda a hospitalidade, de preparar a ceia e até mais. Entre os anãos há ainda Thorin, o rei de sua raça em busca de recuperar o reino dele e o respectivo tesouro, os dois tomados pelo dragão Smaug. Entre promessas de conceder a parte do tesouro e provocações sobre ele de fato ser quem faltava na jornada, Bilbo por fim aceita e viaja nessa expedição sem garantia de retornar ― quiçá chegar ao destino ― vivo.

“[…] dava para saber o que um Bolseiro diria sobre qualquer questão sem o incômodo de perguntar a ele”

Seja a primeira leitura ou a enésima, todas serão nostálgicas quando trata de O Hobbit. Muitas características das outras histórias de fantasia foram inspiradas deste livro, mesmo quando o autor assume ter outra referência, esta ainda é provável de ter tirado algo em comum da aventura de Bilbo Bolseiro. Do chamado incerto à aventura e a viagem cheia de perigos em si, conhecemos o roteiro enquanto permitimos encontrar as surpresas elaboradas pelo autor a encantar o mundo construído por ele.

E tratando das características, Tolkien é conhecido por expor vários aspectos dos elementos da história através de longos parágrafos, desde a toca e vila onde o protagonista mora, até a linhagem herdeira das famílias Bolseiro e Tûk, isso logo nos primeiros parágrafos do romance. Há uma apresentação elaborada sobre o mago Gandalf, e assim acontece nos demais personagens e cenários. Sendo assim, é óbvio considerar o narrador de abordagem onisciente, até mesmo por prever o leitor de determinadas ações a ocorrer em capítulos posteriores. Também é o narrador consciente de sua existência e conversa com o leitor, aproxima-o da história feito um amigo mais velho.

“’Pensando em dragões e em toda aquela bobagem extravagante em sua idade!’”

O enredo não limita a jornada de um ponto a outro, pois há vários perigos além do principal, todos capazes de colocar tudo a perder. O autor desenvolve esses episódios elencando os problemas, eleva a tensão, chega a elaborar tão bem a ponto de os protagonistas nem terem a chance de vencer o desafio; e neste ponto o enredo peca, pois a solução vem de elemento alheio a todo perigo, um artifício conhecido por Deus Ex-machina. Isso acontece por várias vezes no romance, inclusive na última batalha. Além de tornar a saída previsível, impede de o aperfeiçoamentos dos personagens através da aventura; por mais que Bilbo sofra mudanças graças à jornada, algumas delas foi por causa de acontecimentos externos e pouco relacionado ao desempenho dele.

O Hobbit transpira a nostalgia de todos os leitores, desde os idosos às crianças, graças a língua acessível independente da faixa etária e por várias obras lidas por qualquer um deles também refletirem a aventura de Bilbo. Vale a pena conferir esta história rica em características fantásticas e de narrativa bem humorada.

“Nada consegue escapar de Smaug depois que ele vê algo”

Capa de O HobbitAutor: J. R. R. Tolkien
Tradutor: Reinaldo José Lopes
Publicado pela primeira vez em: 1937
Editora: Harper Collins
Edição: 2019
Gêneros: alta fantasia / aventura
Quantidade de Páginas: 336

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A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil

Autores brasileiros desbravam desde as poucas horas vagas reservadas a exercer o sonho de criar histórias, a conquistar horas de atenção dos possíveis leitores. Este segmento e até mesmo depois de atrair leituras faz parte da jornada do escritor, de etapas mistas de sucesso, perseverança e tragédia; em certos momentos a tragédia tomará os holofotes e perdurará sobre o mercado minúsculo de autores nacionais, onde um grão de poeira deste corresponde aos autores de literatura fantástica. Exagero ou realidade, é bom os iniciantes encararem tal carreira feito uma jornada cheia de provações, baixas e às vezes até vitórias. Também recomenda conferir livros técnicos e sobre o mercado de literatura, e deste último existe A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil, um compilado de entrevistas a autores nacionais elaborado pela Kátia Regina Souza e publicado através da editora Metamorfose em 2017.

“Todo escritor sabe que a boa história, e também a boa vida, é sobre a jornada”

As entrevistas foram feitas ao longo de 2016 e tem quantidade surreal de autores de ficção fantástica brasileiros, entre eles alguns editores também, todos listados no apêndice em breves biografias válidas de consultar. Por mais de os nomes serem conhecidos, seria impossível os leitores deste livro ter conferido as obras de todos eles, assim isso pode servir de guia de novas leituras ou dar a chance a eles após conferir as dicas ou ao comentarem o assunto de seus livros durante a entrevista. Conhecê-los também faz parte de uma das dicas do livro quanto a importância de saber do mercado a atuar e ter referências de leitura ao escrever obras originais.

Os dez capítulos do livro fazem alusão às etapas da jornada do herói, usadas como tópico a abordar as diferentes questões profissionais. Kátia elenca as perguntas iniciais na apresentação do tópico, em seguida deixa a transcrição do entrevistado trazer as respostas pessoais, então Kátia intercala as entrevistas com reflexões pessoais dela em relação às opiniões dos autores convidados. Detalhar a estrutura do livro assim passa a impressão de o ritmo ficar engessado, mas Kátia provoca pequenas variações entre as entrevistas a ponto de conduzir uma leitura rápida, cheia de informações úteis. Tratando de informações, por vezes elas serão contraditórias entre as respostas de diferentes autores, e isso faz parte por vários motivos: as experiências são pessoais, portanto variam sob autores de trajetórias diferentes; quase nada no trabalho da escrita criativa tem padronização; ou mesmo da diversidade em si sustentar o mercado, pois possibilita novas maneiras de desbravar esta jornada.

“Você pode pensar em desistir todos os dias da sua vida, desde que não o faça”

Por ser publicado em 2017, é natural de certas informações estarem desatualizadas. O saldo positivo é que a Odisseia de Literatura Fantástica voltou e até premiou obras em 2019, apesar do livro afirmar da última edição ter sido em 2015. Muitos autores comentaram usar a rede social Facebook no meio de divulgação, e muitos desses já deixaram a plataforma, afinal as publicações em Páginas Oficiais aparecem cada vez menos no feed dos usuários. Clara Madrigano deixou de ser editora da Dame Blanche este ano de 2020. E o mais importante: o mercado estava em crise já quando este livro foi lançado, agora na pandemia está aos cacos. Editoras paralisaram as publicações previstas deste ano, muitas oportunidades se fecharam e permanecerão assim, apesar da DarkSide ir na contramão e premiar cinco autores com publicação e adiantamento de vinte mil reais na seleção de inscrições abertas no momento (julho de 2020). Livrarias prestes a falir, editoras podem fechar, os poucos leitores dispostos a comprar os livros nacionais nem terão dinheiro, e seja quais forem as outras consequências ainda a descobrirmos. Mesmo assim vale a leitura pelas dicas que podem ser flexíveis, cabendo o leitor as adaptar na realidade pela frente, sem falar das válidas em qualquer circunstância: leia, persista, apareça e aprenda.

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil mostra os detalhes do mercado brasileiro na ficção fantástica através da praticidade, das experiências de quem persiste nele há dois ou quarenta anos. Trajetórias se entrelaçam neste mercado pequeno, trazendo a diversidade das divergências, caminhos possíveis ao escritor iniciante seguir onde for o melhor a ele. Algumas dicas podem servir de registro histórico de como era a profissão do ficcionista brasileiro fantástico antes do surto de coronavírus, e por outro lado sempre mostrará a trilha da escrita criativa marcada pela persistência e de conquistas a valerem a pena.

“Quantos mais brasileiros estiverem fazendo literatura de qualidade, a gente vai deixar de ter aquela síndrome de vira-lata”

A Fantástica Jornada do Escritor no Brasil - capaAutora: Kátia Regina Souza
Editora: Metamorfose
Publicado em: 2017
Gênero: escrita criativa / entrevista
Quantidade de Páginas: 173

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1499: O Brasil Antes de Cabral (Reinaldo J. Lopes)

Este blog já realizou várias abordagens sobre aspectos nacionais ocultos ou negligenciados por nós mesmos, ou ainda graças da carência de informação. Fora da abordagem literária, desta vez temos uma obra técnica a comunicar sobre os empenhos acumulados a entender mais sobre o chão onde pisamos, focando no tempo antes da colonização. 1499: O Brasil Antes de Cabral conta sobre a diversidade dos povos indígenas conhecidos através de trabalhos arqueológicos. Publicado em 2017 por Reinaldo José Lopes através da editora Harper Collins.

“Dizem por aí que o passado é outro país, não é?”

Quem esperar um livro dedicado sobre a vida dos tupi-guarani, xingu ou mundurucu, pode acabar surpreso do livro abordar muito além disso. Na verdade o foco está na vida indígena por aqui, retratada em ordem cronológica desde as possibilidades desses povos conseguirem imigrar no continente americano, da vida cotidiana de grupo caçadores-coletores, da formação de várias sociedades distintas e da maneira em estender o domínio pelo continente, até os motivos de sucumbirem após a chegada do povo europeu.

Conforme pontua os eventos cronológicos, Reinaldo fala da vida da tribo correspondente àquele período, deixando claro de onde retira esta informação e confessa quando há divergências entre os acadêmicos, ou mesmo dúvidas. Os acadêmicos encontram várias limitações quanto ao conhecimento dos povos antigos, ainda precisam encontrar muitas respostas pontuais para enfim montar um cenário completo da vida antepassada, por enquanto há discussões especulativas até as futuras evidências as confirmarem ou negarem. Talvez torne o livro menos atraente aos leitores por abordar esses furos e divergências ao longo dos capítulos, porém o autor fez bem em tornar esta situação das pesquisas transparente, pois assim mantém o aviso das informações contidas neste livro estarem sujeitas a mudanças em pesquisas futuras. Outro motivo positivo é o de demonstrar a partir desta abordagem de como a pesquisa acadêmica está suscetível a mudanças nos conceitos e contextualizações conforme ela avança, mostra o quanto a discussão entre pesquisas divergentes só favorecem ao melhor entendimento do todo.

A abordagem do conteúdo é excelente, por outro lado o livro deixa a desejar no desenvolvimento da escrita. O autor tenta amenizar a parte técnica usando de tons informais ou mesmo faz brincadeiras com os termos, e isso foi insuficiente. Faltou concentrar a narrativa nos pontos interessantes das pesquisas, por vezes concentrou mais em mostrar os contrapontos do tópico abordado ― algo importante de fazer, conforme dito no parágrafo anterior ― sem ao menos atiçar o leitor a este tema, deixando assim o interesse subjetivo, ou seja, depende mais do interesse particular de quem lê por causa da falta de motivação. A sinopse promete a abordagem de metrópoles “perdidas”, redes de comércio, grandes monumentos e tradições artísticas espetaculares; porém tudo isso demora a aparecer. O próprio autor confessa de quase toda a metade do livro ser o prólogo sobre a vida dos indígenas, e então narra a maioria dos pontos interessantes adiante. Poderia focar a escrita nos tópicos em vez da ordem cronológica, esta deixando em segundo plano ao desenvolver a evolução da construção dessas metrópoles e comércio; desta forma teria êxito em instigar a curiosidade do leitor, e então presenteá-lo às discussões técnicas.

“Os Tapajós teriam o costume de ‘temperar’ a comida de indesejáveis […] eliminá-las no melhor estilo ‘Game of Thrones’”

1499: O Brasil Antes de Cabral é excelente quanto ao conteúdo e a transparência sobre as abordagens divergentes das pesquisas e das limitações do conhecimento ainda em desenvolvimento sobre os povos habitantes desde antes dos europeus. Poderia ser ainda melhor caso dedicasse esforço em montar os tópicos de modo mais interessante, tarefa nada fácil que pelo menos tornaria este livro excepcional a todos os curiosos pelo conteúdo. Já na edição vigente, ainda pode ser excepcional a leitores já acostumados com abordagens arqueológicas ou a quem esforçar mais em compreender as discussões elencadas pelo Reinaldo.

“O maior rio do mundo não ganhou seu nome atual por acaso”

1499 - capaAutor: Reinaldo José Lopes
Editora: Harper Collins
Ano de Publicação: 2017
Gênero: texto acadêmico / arqueologia / história
Quantidade de Páginas: 248

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Atômica (Graphic novel sobre a Guerra Fria)

Em tempos finais da Guerra Fria, Berlim estava prestes a derrubar o muro e unir de novo os dois lados da Alemanha. O episódio é o desfecho da crise nacional a repercutir em vários países, cujos agentes conspiravam ali. O mundo todo esteve na Berlim lotada de espiões, traições, deserções; tudo acontecendo em cenário gélido. Atômica: A Cidade Mais Fria é a graphic novel a ilustrar esse cenário de espionagem. Criado pelo escritor Antony Johnston e ilustrador Sam Hart em 2012, foi publicado no Brasil em 2017 pela editora DarkSide sob a tradução de Érico Assis com a ajuda de Augusto Paim quanto aos trechos em alemão.

“Mentiras, segredos, mais mentiras… nossa vida, afinal”

Lorraine Broughton esclarece os acontecimentos de sua missão em Berlim aos superiores da MI6 ― agência de inteligência britânica. A HQ alterna entre esse interrogatório e a história ocorrida enquanto ela esteve lá, investigando sobre a morte do colega espião após ele listar todos os espiões presentes em Berlim. Assim Lorraine atua como a advogada britânica Lloyd, tendo David Perceval seu principal contato na cidade Alemã, além de forjar contatos próprios, tudo a favor da missão.

“De modo algum. Estamos na Berlim moderna, não no velho oeste”

O mais importante a falar sobre o enredo desta HQ é de jamais subestimar a inteligência do leitor. Possui a única preocupação de narrar a história, sem explorar o contexto político, explica nada ao leitor durante a leitura. É ideal entender o contexto histórico tratado na HQ ao aproveitar melhor esta história, caso conheça pouco da Guerra Fria e da situação em Berlim antes da queda do muro. Tal conhecimento pode tornar um empecilho inicial, por outro lado recompensa o leitor já ciente do contexto pela narrativa objetiva, mostrando apenas o essencial na investigação de Lorraine. A edição da DarkSide explicou alguns termos usados na história na seção de traduções das falas em alemão no final do livro, atitude capaz de facilitar um pouco a compreensão.

Tratando de espionagem e conspiração, espere acompanhar o enredo cheio de mistérios e reviravoltas ― também há cenas de ação. A protagonista visita Berlim pela primeira vez, mal sabendo falar alemão, e as tentativas de ela habituar ao lugar favorece a apresentação dos demais personagens, mostra as primeiras pistas enquanto ela traça o plano em busca de novas, essas discutidas na cena de interrogatório. Em outras palavras, há diversos elementos apreciados nas ficções policiais. É preciso ficar atento às reviravoltas até o final, pois cada virada molda o enredo, só no fim revela sobre o que trata de fato, e assim motiva o leitor a relembrar as cenas com tudo esclarecido para vislumbrar a história sem as camadas de mistério.

Atômica: A Cidade Mais Fria tem enredo maduro no sentido de satisfazer leitores acostumados a ficções policiais, portanto é HQ de nicho, sendo difícil agradar alguém fora deste perfil ou leitores indiferentes ao contexto histórico apresentado. Aproveite as reviravoltas desta espionagem onde o mundo todo está em Berlim, cada representante com as respectivas intenções nem sempre correspondentes ao país.

“É humilde, mas a ambição é maior do que as aparências”

Atômica - capaEscritor: Antony Johnston
Ilustrador: Sam Hart
Tradutores: Érico Assis e Augusto Paim (dos trechos em alemão)
Publicado pela primeira vez em: 2012
Edição: 2017
Editora: DarkSide
Gênero: suspense / ficção histórica / ficção policial
Quantidade de Páginas: 176

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The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Ao testemunhar um ato violento diante de nós, submetemo-nos ao medo. Sem sofrer danos físicos, as inúmeras indagações alimentam nossas dores quanto aos motivos de alguém fazer tal ato, e sem saber as circunstâncias, fica incerta a possibilidade de acontecer com nós também, e a ansiedade nos faz esperar o pior. O pior mesmo é caso descubra do meliante ter relação próxima com seu amigo de longa data, e este pelo visto deixou de ser tão próximo. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde* fala desta violência cometida por alguém íntimo o bastante a causar temores. Escrito por Robert Louis Stevenson em 1886 e disponível pela Amazon Classics desde 2017, esta história clássica de terror inspirou muitas criações posteriores, entre elas o personagem Hulk da Marvel.

“’Eu me pus numa punição e perigo a qual nem consigo nominar’”**

O advogado Mr. Utterson caminha pelas ruas de Londres com o amigo Ensfield quando este conta o caso recente visto em pessoa. Certo homem perambulava pela cidade indiferente ao mundo, indiferente à garota no caminho, indiferente ao andar por cima dela. Os pais estavam próximos quando aconteceu e exigiu satisfação, e o homem de aparência medonha — segundo Ensfield ao ver o incidente — ofereceu compensação em cheque, cujo valor seria retirado ao amanhecer em nome de outra pessoa. Quando Utterson pergunta sobre o nome deste sujeito estranho, Ensfield responde ser Hyde. Nunca ouvido falar de alguém com este nome, Utterson lê sobre ele de novo em pouco tempo, nomeado herdeiro no testamento elaborado pelo amigo de longa data, o cientista Dr. Jekyll.

“’Se ele é o Mr. Hyde, eu serei Mr. Seek”***

A partir de então a história desenvolve o mistério envolto desta relação de Hyde com o Dr. Jekyll. Utterson procura compreender os motivos do amigo tão querido ter tamanha afeição repentina com este desconhecido e ainda por cima perigoso, conforme o capítulo posterior demonstra. De narrativa curta, desenvolve apenas esta questão, e termina quando esclarece as resposta desta, mais nada além. Certas passagens abusam de adjetivos e advérbios de modo, resumem a cena sob o preço de entregar parágrafos fracos no sentido de deixar de explorar a ambientação das cenas. Os sentimentos e comportamentos dos personagens também são esclarecidos em poucas palavras, ainda mais em diálogos por descrever o modo como alguém falava, algo possível de representar através das palavras ditas conforme o tom em vez de de apenas contar ao leitor. A descrição física de Hyde a princípio é incerta, revelando a sensação do personagem a encarar o sujeito, uma forma de incitar o temor conforme sentido pela pessoa.

Cada capítulo foi escrito sob determinado objetivo, e este transforma a forma narrativa. Uns deixam a escrita próxima da perspectiva de Utterson, outros desenrolam as pistas ao redor de Jekyll e Hyde, também há capítulo mais focado em ação ― e portanto deixa de ter os incômodos elencados no parágrafo anterior. Tais nuances evitam a monotonia da escrita enquanto corresponde ao enredo proposto. Os dois capítulos finais são epistolares, ou seja, registros feitos pelos personagens e adquiridos durante a trama, portanto transcrito na íntegra em forma de capítulo. Assim transforma a narrativa de novo, tornando-a em primeira pessoa e por adequar ao modo de comunicar do personagem remetente do registro. O final dedica a amarrar as pontas deixadas durante a história enquanto o remetente confessa a experiência relacionada a Hyde. É o capítulo mais longo e prolongado, exige mais paciência do leitor. Apesar de devagar, entrega a narrativa satisfatória por demonstrar espontaneidade do personagem ao realizar seu registro.

The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde traz o terror ocorrido a pessoas próximas do protagonista e da angústia de obter respostas. História curta e resumida em certas partes, a escrita é fiel ao objetivo e por isso recompensa o leitor a aventurar no mistério do Médico e o Monstro.

“’E o conhecimento é maior do que ele poderia conceber’”

* resenha elaborada a partir da leitura da edição em inglês
** citações traduzidas pelo resenhista
*** trocadilho com o nome de Hyde, de pronúncia semelhante ao verbo esconder (hide), e Utterson afirmaria que iria o encontrar (seek), portanto seria o Mr. Seek

Dr Jekyll and Mr Hyde - capaAutor: Robert Louis Stevenson
Publicado pela primeira vez em: 1886
Editora: Amazon Classics
Edição: 2017
Gêneros: mistério / terror / clássico
Quantidade de Páginas: 66

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