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O Conto da Aia (Distopia desconcertante)

Humanos aprenderam a viver sob significados. Cada respiro reflete as conquistas e fracassos da vida, os planos do dia seguinte convictos de existir, apenas continuamos a traçar esta reta. Formamos laços afetivos e estendemos nossas utilidades às nossas companheiras ou companheiros, na verdade adotamos uma palavra diferente, usamos ninguém, apenas dividimos momentos. E se de repente perdemos tudo isso? Esquecermos de todos os outros significados por termos a emergência de um, e portanto dedicar apenas a ele e de determinada maneira? Perdemos as parceiras para o estado autoritário por serem férteis, obrigadas a cumprir uma utilidade: procriar, pois esta é a salvação, e o estado a fundamenta através da religião. O Conto da Aia é a distopia dessa realidade, publicado pela primeira vez em 1985 por Margaret Atwood, com edição em 2017 pela Rocco sob a tradução de Ana Deiró.

“O que você não souber não lhe trará sofrimento”

Offred tinha uma filha com o ex-marido Luke, e mantém esta memória em segredo consigo enquanto atua no papel de Aia. Ela é propriedade do governo sob o dever de procriar a partir da semente do Comandante destinado a ela, independente da Esposa estar descontente por essa imposição, na verdade a procriação proporciona prazer nenhum. Uma Aia cobre todo o corpo de macacão largo e touca com abas laterais a esconder nuca e os detalhes do rosto. Deve viver conforme o estado ordena, e há Olhos por toda a parte a denunciar quem transgredir.

“[…] mesmo que sejam falsas notícias, devem significar alguma coisa”

A personagem narra a própria história por meio do fluxo de consciência, cada frase reflete a insegurança dela no ambiente onde vive e das pessoas próximas, todas desconfiáveis. Limitada a sua função, Offred perde o direito de se informar, é proibida de ler e por isso os poucos lugares livres de transitar possuem figuras no lugar de texto. As raras oportunidades de comunicação são nebuladas pela suspeita de o outro testar Offred e dedurar caso ela dê a entender alguma violação ao estado, tal pressão influencia no jeito de narrar, por mais que ela conte a própria história, por vezes passa a desacreditar de si, então pede licença e retoma a cena.

Desconcertante é a palavra-chave do romance. A vida limitada da mulher privilegiada de ainda conceber vida desconcerta todas as outras, intriga ciúmes e julgamentos irreais, afasta-as de si quando dizem promover a união. Na emergência de procriar, o estado torna o sexo uma obrigação, tira todo o estímulo natural e impõe a única maneira de efetuar, resume a uma tarefa doméstica. A narrativa mostra o desconforto consequente na vida de Offred, o fluxo de consciência é válvula de escape a ela mesma, a falar da vida normal antes dessa crise e assim reforçar o propósito de preservar a vida, de ainda poder saber o que aconteceu à família.

A partir dela, também vemos a situação do homem naquela sociedade. Privilegiado em vários aspectos a ponto de nem precisar comparar, e mesmo eles foram afetados, têm os próprios desconfortos. O Comandante deve procriar, afinal o estado define todos os homens como férteis, portanto eles tentam fecundar mesmo enquanto nunca conseguem.

“Eu gostaria que esta história fosse diferente”

O Conto da Aia mostra a vida da mulher ameaçada a todo momento quanto a cumprir o seu papel. As imposições específicas nesta ambientação fictícia remetem a reflexões de situações reais de o homem ser isento de culpa na relação seja qual for os argumentos, mostra de as próprias mulheres denunciarem as outras devido a imposição da sociedade fundamentalista, ou de representar uma mulher bem informada como o perigo do estado. É o tipo de leitura necessária, difícil de entreter, de engolir, pois denuncia situações desconcertantes de nossa sociedade.

“Isso é o que somos agora”

Capa de O Conto da AiaAutora: Margaret Atwood
Tradutora: Ana Deiró
Ano de Publicação Original: 1985
Edição: 2017
Editora: Rocco
Gênero: distopia
Quantidade de Páginas: 368

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Shogum dos Mortos: As Sete Faces do Horror

Sete brasileiros desenharam novas histórias de fantasia sombria sobre samurais. Soma a guerra constante no período histórico japonês com o líder de clã desesperado em superar os adversários, e o resultado são acordos infames responsáveis por transtornar a vida de todos, de camponeses a samurais. Shogum dos Mortos: As Sete Faces do Horror reúne sete histórias ilustradas em determinado arquipélago do Japão cujo clã local amaldiçoa os próprios moradores a renascerem zumbis após a morte. A editora Draco publicou em 2020 graças ao sucesso de financiamento coletivo.

“O Poder deixa os homens cegos”

Em meio ao desespero de sucumbir o próprio clã entre os demais existentes no arquipélago Yamato, Hideki Tachikawa visitou o Reino Sombrio dos Mortos e fez um acordo com a deusa Izanami. Desde então cada membro morto do clã volta à vida no próximo amanhecer. Tal evento encadeia transtornos distintos ao clã Tachikawa. Alguns samurais mortos-vivos se rebelam contra o clã, até os camponeses voltam à vida, inclusive Saori, esposa do herdeiro Seiji Tachikawa, ressuscita após ser assassinada sob conspiração de Hideki e devora o cérebro de Garo, filho do casal.

“Renascer para sofrer mais um dia!”

O enredo apresentado no parágrafo anterior contextualiza as setes histórias em quadrinhos desta coleção, presente em texto no livro. A obra é do tipo fix-up, ou seja, as histórias são paralelas, relacionadas a consequências da tragédia do clã Tachikawa. Assim possibilitou explorar a diversidade presente na cultura japonesa nas diversas situações a enfrentar os samurai zumbis, seja entre os guerreiros, através de ninjas, envolve até monjas e camponeses. Explora o conflito de cada parcela da população submissa ao clã. Cada ilustrador trabalhou em uma história, tudo sob o roteiro de Daniel Wernëck e edição de Raphael Fernandes, um trabalho conjunto capaz de deixar o livro único, sem nenhuma das histórias dissociar das demais.

Diálogos enfraquecem a qualidade das histórias em determinados momentos por trazer frases clichês de quadrinhos e mangás. Adjetivos dispensáveis deixam as frases redundantes sem colaborar no significado do texto, por exemplo: em “Reino Sombrio dos Mortos”, a menção dos Mortos já denota do local ser Sombrio. Alguns balões soam deslocados da história e apenas contam uma informação ao leitor a contextualizar o passado dos personagens, por outro lado a diversidade da obra compensa em possibilitar diferentes pontos de vista em número de páginas limitado.

“Destruir um castelo inteiro, guardado por soldados imortais? Mas isso é uma missão suicida!”

Shogum dos Mortos: As Sete Faces do Horror aproveita a cultura japonesa focada nos guerreiros samurai e explora diversos aspectos locais enquanto parte do fenômeno sobrenatural a traçar histórias de personagens afetados pela infestação de zumbis. A qualidade gráfica e o empenho na contextualização compensam a escrita clichê presente nas histórias.

“Como são fúteis os sonhos dos homens”

Capa de Shogum dos Mortos: As Sete Faces do HorrorRoteirista: Daneil Wernëck
Ilustradores: Breno Fonseca, Dattan M. Porto, H’D Rodrigues, Danilo Dias, Heitor Amatsu, Kazuo Miyahara e Hilton P. Rocha
Editor: Raphale Fernandes
Editora: Draco
Edição: 2020
Gêneros: quadrinhos / fantasia sombria
Quantidade de Páginas: 168

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Raposas: Contos Fantásticos Orientais

Histórias persistem ao longo dos séculos, e mesmo as autóctones chegam também a outras regiões, por vezes demonstram significados diferentes de um mesmo fenômeno, ou gera uma reflexão ímpar daquela cultura capaz de a admirar da forma apresentada. Este livro traz o exemplo da contemplação de certo animal nos países asiáticos. Raposas: Contos Fantásticos Orientais reúne algumas dessas histórias tradicionais aos leitores brasileiros. Organizado por Lua Bueno Cyríaco e traduzido por ela além de Felipe Medeiros e Yu Pin Fang, foi publicado em 2020 graças ao sucesso da campanha de financiamento coletivo.

“’E, lembre-se, também não sou uma raposa ingrata’”

São contos oriundos da China, Vietnã, Coreia e Japão, distribuídos em período de dez séculos de escrita. Alguns já são adaptações de narrativas orais para a escrita, persistentes graças as gerações a recontarem essas histórias até alguém as registrar no papel. Das mais diversas nuances, as narrativas compartilham a raposa como elemento central ao explorar os diversos significados dados a esses animais na cultura da respectiva autoria. Desta diversidade, a edição do livro engloba os contos em três categorias de raposas, as ardilosas, amorosas e malignas, e mesmo dentro desse enquadramento cada conto é único em significado.

Esta resenha não aborda cada conto em respeito ao leitor conferir por si, senão acabaria comentando detalhes prejudiciais a experiência de leitura. Por outro lado há um ponto importante em avisar a quem pretende ler esta coletânea, a publicação dedica a traduções dos contos orientais conforme eles são, sem adaptar em prosa moderna, respeitou até as narrativas de origem oral, o que tornam a escrita plana, de frases objetivas a transparecerem as intenções dos personagens e as simbologias explicadas. A coletânea é interessante quando a depara sob a curiosidade de vislumbrar o significado cultural empreendido às raposas pelos países de onde a história é contada, um material de referência útil a escritores interessados em elaborar as próprias histórias de raposas.

Raposas: Contos Fantásticos Orientais traz os olhares tradicionais de quatro países asiáticos sobre as raposas, respeita as culturas de todos eles ao traduzirem os contos da forma como são, e assim oferece uma referência de qualidade por meio do design editorial de encadernação oriental e lindas imagens feitas também por artistas vigentes aos dos períodos dos contos.

“Sua beleza fez uma raposa má se apaixonar por você”

Capa de RaposasOrganizadora: Lua Bueno Cyríaco
Tradutores: Felipe Medeiros, Yu Pin Fang e Lua Bueno Cyríaco
Editora: Laboralivros
Origens dos contos: entre os séculos VIII e XIX
Edição: 2020
Gêneros: fantasia / ficção regional
Quantidade de Páginas: 120

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Melhores XPs Literários de 2020

Parece até incrível ver o ano de 2020 está prestes a acabar. Todo mês de dezembro recheia as conversas sobre o quanto o ano vigente foi pior de todos os anteriores, sob esperança de o próximo melhorar, mas no fim de 2019 poucos acreditavam na possibilidade de haver a pandemia e o quanto dificultou a vida de todos, ainda mais por causa desses poucos ainda descrentes na gravidade da doença e agravam toda a situação. Mesmo assim mantenho o ritual de dezembro, espero encontrar um mundo melhor em 2021, que a vacina nos ajude a ter mais segurança sanitária de sair de casa e diminuir o medo de trazer a doença a pessoas do grupo de risco, além de possibilitar projetos ousados de melhorar a vida ou novas experiências.

Pela primeira vez optei entrar em recesso nas postagens semanais deste blog, também revi conceitos sobre a interação social pela internet, esses ainda pendentes a reformular a presença digital do blog. Já de resto mantive a rotina, inclusive esta, a de listar as melhores leitura do ano.

Tive o menor número de leituras desde quando inaugurei o blog, e me orgulho delas do mesmo jeito. Nego a sobrecarregar pela quantidade a troco de corresponder rankings na internet poucos significativos na prática, e ainda aumentaria o risco de entregar o material abaixo do esperado. Estou cada vez mais exigente, afinal devo valorizar o tempo investido em livros capazes de proporcionar boa experiências. Por isso, confira agora quais foram as minhas Melhores XPs de Leitura em 2020:

10 ― Laços de Família

10 - Laços de Família

Eu tenho uma história em particular sobre a escrita desta autora a completar o centenário caso estivesse viva em 2020. Li Clarice pela primeira vez quando adolescente e detestei. A culpa foi minha, falhei por esperar resultados diferentes aos oferecidos pelos contos. As histórias tratam de rotinas escritas em reflexão a proporcionar novos olhares tais como a das protagonistas revelavam pelos fluxos de consciência, ou por despertar os horrores tão corriqueiros a ponto de precisarmos nos lembrar o quanto é grave. Por esses motivos, vale a pena o esforço de explorar as histórias desta antologia.

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9 ― Atômica

9 - Atômica

Esta graphic novel tem a proeza de tomar o elemento-chave do conto ― o de apresentar duas histórias ao mesmo tempo ― e acrescentar a surpresa do mistério revelado, fazer o leitor puxar a narrativa submersa e fundir todo o enredo, façanha ideal aos apreciadores de ficções policiais. O filme mantém o nível e acrescenta cenas de ação imersivas ― sem o jogo de câmera usado a disfarçar performances desagradáveis ― e trilha sonora da época presente por quase toda a duração do filme; só o final desvirtua do enredo original, talvez por ser polêmico demais ao público de cinema.

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8 ― O Iluminado

8 - O Iluminado

E Stephen King aparece por aqui de novo, desta vez pelo livro a conquistar a minha preferência entre os livros já lidos, apesar de este figurar num ranking inferior aos dos demais ― como eu disse, ando cada vez mais exigente, e encontro livros a suprir esta demanda. Eu admirei a construção de suspense neste romance a ponto de elaborar uma matéria no blog Ficções Humanas focado nisso, exemplo do quanto a leitura agradou e ainda foi útil a conversar sobre a elaboração desse elemento importante da ficção.

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7 ― Story

7 - Story

Já é de praxe conferir livros técnicos sobre escrita tanto a melhorar minhas habilidades como autor, quanto a compreender melhor o porque de obras excelentes atenderem esta expectativa. Portanto eu teria de conferir Story, um dos livros mais mencionados entre os outros autores, e garanto ser bom o bastante a conquistar elogios de muitas pessoas. A proposta é discutir sobre as formas de enredo e aprender por si a elaboração de roteiros, dar autonomia a explorar maneiras de aprofundar a escrita em vez de seguir regras funcionais de outro autores.

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6 ― O Suicídio e sua Prevenção

6 - O Suicídio e Sua Prevenção

Eu procuro falar sobre suicídio e alertar autores que poderiam melhorar a discussão deste assunto ao escrever histórias desde o começo do blog, e busco conceitos a embasar as maneiras conscientes de tratar o assunto. No meio desta procura, encontrei o melhor conteúdo em O Suicídio e sua Prevenção. A abordagem didática é ideal a qualquer leitor aprender sobre a importância de tratar o suicídio como questão de saúde pública, sendo útil a autores refletirem os conceitos e adotá-los na hora de escrever histórias ou cenas dedicadas ao assunto, compartilhei dicas pelo blog Ficções Humanas graças a este livro.

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5 ― O Clube dos Suicidas

5 - O Clube dos Suicidas

O livro anterior também serviu de base a eu elaborar críticas ao longo do mês de setembro de ficções a tratarem do assunto em algum momento, e O Clube dos Suicidas foi o único capaz de atender minhas expectativas. Também reconhecido entre as primeiras histórias de investigação escritas, esta novela leva o nível de raciocínio dos protagonistas ao limite, arriscando as próprias vidas caso falham em prever os atos dos adversários. Publicado no fim do século XIX, a abordagem quanto ao suicídio surpreende por ter mais consciência quando comparada a obras recentes, pois essas deveriam ter conhecimento acessível ao assunto.

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4 ― A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

4 - A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

A campanha de financiamento coletivo proposto pela editora Wish superou todas as expectativas e garantiu inúmeras vantagens pelas metas estendidas e alcançadas ao longo da campanha. O resultado foi o acréscimo de novas novelas além a da história principal, essas tão boas quanto ao demonstrar a qualidade de Washington Irving em explorar as narrativas folclóricas e tornar as próprias vivas de contadores verossímeis de causos estadunidenses sob influência de lendas europeias.

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3 ― Caetés

3 - Caetés

Graciliano Ramos volta ao pódio do XP Literário. Primeiro livro publicado pelo autor, cujo protagonista reflete críticas pertinentes até a aspirantes a escritores de hoje, quase um século depois de escrito. O protagonista narra a própria história sem ter consciência de suas contradições impostas por Graciliano e que os leitores atentos podem inferir por meio dos ensaios reunidos nesta nova edição da editora Record.

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2 ― A Morte de Ivan Ilitch

2 - A Morte de Ivan Ilitch

A Antofágica se destaca em renovar histórias de domínio público num trabalho moderno e de identidade única desta editora. O título já avisa como a história acaba, o prefácio disponível da edição também explica de o leitor poder sentir a morte do personagem, e nada disso estraga a experiência de leitura, pois a escrita de Tolstói provoca tamanha sensação só por meio das palavras. Antes do ápice, a novela explora a condição social de servidor público russo daquela época, explora ainda o dilema feminino da esposa sujeita à união do protagonista, e escancara quanto mesmo na morte de um, a vida dos outros continua.

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1 ― As Intermitências da Morte

1 - As Intermitências da Morte

E outro autor português conquista o espaço de melhor leitura do ano, embora eu acredite poucos queixariam de este autor ser José Saramago. O jeito próprio de escrever fornece a leitura singular, desafiadora e ao mesmo tempo prazerosa de conferi-la funcionar diante dos olhos enquanto acompanha as consequências de um lugar onde a morte deixa de tirar vidas. Quando tem a impressão de o autor ter explorado o bastante da premissa, ele provoca o tumulto que transforma o objetivo da história em outro enquanto aproveita a explorar novas perspectivas descobertas neste ponto de virada.

Story (técnicas de roteiro, úteis a romances também)

Após se encantar pelo mundo criativo a ponto de desejar fazer parte dele, muitos empolgam e pulam a parte do estudo e aprofundamento no objetivo de compreender o motivo de essas histórias fascinarem o público. Avançam direto na parte prática e repetem as cenas reconhecidas apenas na superficialidade. Sem amadurecerem e treinarem através de falhas, ficam sensíveis a críticas e negam aprimorar a partir delas, apenas contribuem na crise constatada pelo autor deste livro. Story é uma das opções a estudar sobre criar ficções voltadas ao cinema e ainda úteis a romancistas. Elaborado por Robert McKee em 2006 e conferido na edição de 2018 publicada pela editora Arte & Letra sob a tradução de Chico Marés, o livro já inspirou diversos profissionais criativos.

“Pois talento sem o conhecimento da arte é como combustível sem um motor”

McKee usa as primeiras páginas do livro de desabafo sobre a qualidade das histórias em geral. Os aspirantes deixam de estudar as formas da obra cinematográfica e apelam aos recursos visuais, falham em aproveitar os recursos narrativos e de mergulhar nos aspectos da ficção. Também aponta questões pessoais e outras que é melhor conferir por si e tirar as próprias conclusões, pois isso faz parte do estudo.

Depois do desabafo, o texto mergulha na abordagem prática da experiência do diretor de cinema além de mencionar a influência literária, por isso torna relevante a romancistas também. O autor baseia toda sugestão em exemplos práticos existentes nos filmes, e por explicar o motivo de as reviravoltas de enredo e outros elementos funcionarem, ele teve de mencionar os principais spoilers das obras citadas, cuja utilidade das dicas superam qualquer infortúnio de descobrir pontos-chave de filmes ainda não vistos, na verdade podem até atiçar o interesse de assistir mesmo ciente das reviravoltas e conferir o efeito prático descrito no livro.

“Criatividade raramente é tão racional”

Caso tenha lido outros livros sobre estudo das ficções, é provável encontrar os mesmo termos usados por McKee em definições diferentes, às vezes por perspectivas distintas de cada autor entender aquele termo, ou no intuito de conduzir o leitor ao mesmo raciocínio enquanto aborda o tópico. O importante é assimilar o aprendizado além do conteúdo exposto, ou conforme o próprio livro demonstra: aprofundar nos conceitos para assim propor obras imersivas da mesma maneira a das exploradas em Story e demais livros cheios de exemplos práticos.

Apesar de ter a seção exclusiva a falar das diferenças entre histórias narradas em prosa, teatro e cinema, o autor compara as características correspondentes a todo momento, e favorece o conteúdo a aspirantes dos três tipos de produção. A utilidade exclusiva a roteiristas de cinema está restrita a comentários específicos sobre as práticas da produção de filmes ― enquadramento de câmera e o trabalho reservado a atores, por exemplo ―, de resto os demais ficcionistas podem aproveitar cada sugestão do autor. A única ressalva quanto a aspirantes em prosa está na qualidade do texto, que abusa da palavra “mas” e elenca os contrapontos de argumentos por todo o livro, tornando a leitura repetitiva neste aspecto.

Story é reconhecido entre os profissionais por ótimos motivos. De conteúdo equilibrado entre conceitos e exemplos práticos, cada sessão de leitura rende anotações úteis a refletir e aprimorar seus trabalhos ficcionais seja em qual formato ou gênero desejado.

“Story é sobre arquétipos, não estereótipos”

Capa de StoryAutor: Robert McKee
Tradutor: Chico Marés
Publicação original em: 2006
Edição: 2018
Editora: Arte & Letra
Gêneros: não ficção / escrita
Quantidade de Páginas: 430

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O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura

Se não acompanha por si, pelo menos conhece alguém a estampar frases motivacionais de supostos vencedores na carreira profissional por meio de esforço integral. Trabalhe enquanto eles sonham, brincam, reclamam ou algo do tipo. Na prática trabalhe também mesmo quando a família precisa de você, ignore as recomendações médicas, somam as dores musculares e de cabeça sendo parte do empenho, fracasse pela exaustão minar toda a criatividade e foco, ou porque “deixou de se esforçar o suficiente”. Buscar outro ponto de vista é diferente de fugir do trabalho ou seguir pelo caminho mais fácil e sem resultado, pelo contrário, é aliar a eficiência com o bem-estar familiar e empresarial de modo a manter a rotina produtiva.

O Trabalho Não Precisa ser uma Loucura elenca exemplos do quanto a cultura empreendedora de trabalho árduo prejudica o ambiente corporativo e quais medidas funcionam na empresa administrada pelos autores Jason Fried e David Heinemeier Hansson. Livro foi publicado em 2020 e trazido ao Brasil no mesmo ano pela editora Harper Collins sob a tradução de Daniel Austie.

“Para muitos, a loucura do trabalho acabou se tornando algo normal”

Sempre direto ao assunto tratado no capítulo correspondente, o livro proporciona leitura rápida e fácil de compreender. Segue a dinâmica de criticar a postura empreendedora contrariada pelos autores, em seguida contrastam por meio de exemplos tirados na experiência da própria empresa. Também lavam a roupa suja e cita os erros do passado, de atingir objetivos sem receber o resultado esperado, ou perceberam da necessidade ser na verdade outra, assim sobreviveram no mercado há mais de quinze anos, mesmo seguindo paradigma próprios e divergentes dos aceitáveis por outras empresas.

O conteúdo é limitado a experiências dos autores na empresa deles, salvo citações de outros profissionais de diferentes ramos com exemplos de rotina equilibrada no fim de certos capítulos e a menção de experiências pontuais de outras pessoas ― de fontes listadas na seção Bibliografia. Isso prejudica por deixar de abranger as discussões por meio de outras fontes, sejam essas favoráveis ou contrárias aos ideais dos autores, enquanto contribuiriam numa discussão justa. Na prática pode servir para reafirmar a quem já reflete da rotina de trabalho estar desgastante. Esta sugestão comprometeria a fluidez da assimilação em troca de estimular o leitor a refletir mais quanto as considerações elencadas. As dicas funcionam para os autores, e eles mesmos afirmam em determinado momento quanto a soluções de certa empresa nem sempre corresponderem a de outras, caberia o leitor a buscar a maneira por si, e nisso o livro pouco contribui.

Tratando de os autores citarem soluções e depois contradizerem de essas falharem em corresponder à realidade do leitor, há descuidos em outras menções. Não chega a contradizer, mas certas escolhas de palavras provocam desentendimentos. Um exemplo é a afirmação do quanto as metas sobrecarregam os funcionários e a direção da empresa sem necessidade, já nos capítulos posteriores continuam a falar de metas, embora com outro significado, atrapalha a compreensão por usar a mesma palavra.

“Não dá para fixar um prazo e depois adicionar mais trabalho. Isso não é justo”

O Trabalho Não Precisa Ser uma Loucura atrairá os leitores pelo título entregar a esperança de a sobrecarga na rotina profissional não corresponder ao resultado de crescimento. Os exemplos favorecem até mesmo a produtividade e a rentabilidade da empresa junto ao bem-estar dos funcionários, longe de serem desculpas ditas por preguiçosos, interessados em conseguir mais ao fazer menos. Por outro lado, as dicas são específicas das experiências dos autores, podendo ser inviáveis a demais empresas. Colaboraria mais se baseasse o conteúdo através de discussões de argumentos defendidos pela cultura do empreendedorismo através de exemplos além dos aplicados pelos autores.

“A única maneira de trabalhar mais é ter menos trabalho”

Capa de O Trabalho Não Precisa Ser uma LoucuraAutores: David Heinemeier Hansson e Jason Fried
Tradutor: Daniel Austie
Ano de Publicação: 2020
Editora: Harper Collins
Gênero: Não Ficção / desenvolvimento pessoal / empreendedorismo
Quantidade de Páginas: 240

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A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (editora Wish)

As narrativas sobre lendas locais sobrevivem não por terem apenas as aparições sombrias, mas por parecerem reais. Antes de contar sobre os monstros, elas contam sobre nós mesmos, o povo do lugar ou das semelhanças presentes nas demais populações. Gerações as transmitem em conversas, e certos autores a transcrevem ou aproveitam a lenda e traçam uma narrativa autoral. Washington Irving usou das aparições e contextos históricos ao escrever suas histórias no século XIX, e a editora Wish reuniu quatro contos do autor, entre eles A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, analisados um por um a seguir:

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Os habitantes do Vale Adormecido ― Sleepy Hollow ― vivem em paz, apesar das lendas insistentes a sair pelas bocas da população. Ali o jovem Ichabod Crane possui uma escola e dá aulas às crianças do lugar. Bem letrado, atrai atenção por onde passa, apesar de ele almejar apenas a herdeira de Baltus Van Tassel, pois além de formosa, teria a vida garantida quando recebesse a herança. O único problema é a rivalidade de Brom Bones, o pretendente mais provável dela, de força tão inescrupulosa quanto as atitudes. E toda essa história narrada em torno de Ichabod menciona vez ou outra a lenda do cavaleiro sem cabeça, conhecido como o soldado hessiano ― alemão ― a perder a cabeça com o tiro de uma bola de canhão, e desde então cavalga sem ter essa parte do corpo sobre os ombros.

“Toda a vizinhança é repleta de histórias locais, lugares assombrados e superstições obscuras”

O título original em inglês, The Legend of Sleepy Hollow, corresponde melhor ao andamento da trama, a descrever os aspectos do Vale Adormecido, prosseguindo assim mesmo ao focar na perspectiva de Ichabod, por citar aspectos do Vale interessantes a este personagem. Apesar disso o título em português direciona o tópico da história ao ser sobrenatural e também acerta, afinal a narrativa aproveita cada oportunidade de o citar, sem falar da aparição é o ponto forte da trama, transforma a história do avesso, deixando os últimos parágrafos tensos.

Além da narrativa focada no personagem e na ambientação de terror, o texto traz elementos folclóricos no sentido de os contos serem difundidos pelas próprias pessoas. A ambientação estadunidense do Vale sofre a influência da família holandesa local, sem falar do cavaleiro sem cabeça ter a origem germânica, tornando o sobrenatural europeu realista nesse contexto. Apesar de poupar nos travessões, as vozes dos moradores ecoam nos parágrafos, contando as diferentes versões do que sabe ou desconfia entorno da lenda.

Rip Van Winkle

Rip Van Winkle é sujeito de capacidades humildes, aquém da exigência de sua esposa, por isso sofre por antecedência cada reprimenda da mulher. Entre as tentativas de adiar a bronca dela, sai pela floresta na companhia do cachorro Wolf e uma espingarda. Da exaustão desta atividade vai à estalagem, onde encontra pessoas de vestes estranhas. Depois de desentender com elas, adormece. Ao acordar, perde a companhia do cão de estimação, a espingarda em mãos fica toda enferrujada. Ele está na mesma floresta onde foi caçar, perambula pelo vale onde mora de mesma paisagem, exceto de tudo ao redor ser diferente.

“[…] seus erros e tolices são lembrados ‘com mais tristeza que raiva’”

Pela narrativa dedicada ao ponto de vista de Rip, a história explora essa limitação ao dedicar as reações do personagem conforme descobre o que acontece consigo diante dos demais personagens. A descrição mescla a ambientação daquele período histórico com o desconhecido por Rip, facilitando a compreensão do leitor a reconhecer mesmo em poucos detalhes no que aconteceu em todo o país enquanto Rip ficou ausente durante o sono.

O Noivo Espectral

O barão mal tinha a riqueza característica da família em tempos remotos, mesmo assim mantém os velhos costumes. Alimenta rivalidades entre outras famílias por desavenças tidas no tempo de seu tataravô. Possui apenas uma filha, esta que ele escolhe casar ao tratar com o pai do noivo, sem sequer conhecer o rapaz, a filha muito menos. Após tudo combinado, o barão prepara o banquete de boas-vindas na noite anterior ao do casamento, momento quando os noivos enfim se conheceriam, não fosse o noivo cruzar caminho contra ladrões e perder a vida, apenas seu soldado sobrevive, encarregado de levar a triste notícia à família do barão. Ao retomar a história do banquete, vemos o desfecho acontecer de outra maneira.

“[…] pois a linguagem do amor nunca é ruidosa”

Sem detalhar muito, esta história é realista, só usa o elemento fantástico ao demonstrar o quanto as concepções humanas estão suscetíveis, podendo enganar até o leitor ciente dos dois lados da história. Este conto é outro exemplo de qualidade do autor em explorar os costumes sociais da sociedade europeia ao desenvolver a narrativa, sem causar monotonia, pois até os antigos valores podem ser repensados ao viver no presente, ainda mais quando situações extraordinárias acontecem. Caso aceite um pequeno spoiler ― senão apenas pule o resto deste parágrafo ―, a história tem desfecho positivo e até moral, por outro lado deixa subjetivo a situação do noivo escolhido pelo barão.

O Diabo e Tom Walker

Tom Walker detém a avareza comparável apenas ao da própria esposa. O casal rivaliza consigo por cada cônjuge pregar peças e tirar vantagem do outro. Um personagem desse tipo está fadado a encontrar o diabo em pessoa, e assim acontece. Tom Walker conta do encontro à esposa, e esta tenta tirar vantagem da criatura, dias passam e ela jamais retorna, então Tom Walker também tenta a sorte.

“Rezava alta e vigorosamente, como se o céu tivesse que ser tomado à força e aos berros”

Por haver tantas histórias do tipo nesses dois séculos após da publicação deste conto, a trama segue previsível, nem por isso a torna dispensável. Até os personagens do conto sabem o porquê Tom Walker tem esta consequência, portanto ficam conformados. Ao contrário do conto anterior, a situação sobrenatural causa um resultado ordinário. A descrição densa ambienta mesmo os leitores atuais aos costumes da época, mostra particularidades em torno da figura conhecida por todos, de aspectos particulares aos do local.

Capa de A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçaAutor: Washingont Irving
Tradutora: Camila Fernandes
Publicações originais: entre os anos 1819 e 1824
Editora: Wish
Edição: 2020
Gêneros: fantasia sombria / terror / ficção folclórica
Quantidade de Páginas: 192

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Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais

O título diz “agora”, mas pelo menos leia o livro antes de tirar as conclusões. Será melhor assim, a seguir as recomendações do autor, ou pelo menos recusar parte delas ― talvez até todas ― conscientes dos argumentos e da realidade apreendida após conferir a perspectiva de alguém atuante na área, além de embasar o raciocínio em reportagens citadas nos rodapés ao longo do livro. Jaron Lanier é o responsável por elaborar Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais e publicar num livro em 2018, trazido no mesmo ano pela editora Intrínseca, que curiosamente divulgou o livro através das redes sociais.

“Se você não fizer parte da solução, não haverá solução”

Os dez argumentos correspondem a capítulos sobre os tópicos elencados de forma progressiva, pois os capítulos anteriores servem de base aos próximos. Atuante na área de computação, Jaron Lanier aponta muitos exemplos pessoais no decorrer do livro, inclusive assume vender uma das próprias Startups a empresas as quais critica. O problema de Jaron está na metodologia de negócio implantada por essas empresas, pois sustentam a si ao custo de reduzir ou desvalorizar as qualidades dos usuários que a acessam de forma gratuita. Sem limitar apenas ao ponto de vista formado ao longo da carreira dele, o autor cita mais de uma centena de fontes, reportagens exemplares de mostrar os problemas vistos nos últimos anos por meio das redes sociais, não só elas na verdade, e sim por toda empresa capaz de assimilar a interação dos usuários nos seus serviços gratuitos e a partir disso personalizar novos conteúdos a ponto de manipular o comportamento deles.

“Não existe nenhum gênio maligno sentado em um cubículo de uma empresa de mídia social”

Conforme dito no parágrafo anterior, a melhor maneira de compreender o conteúdo do livro é o aproveitando de forma linear, evite pular a determinado argumento por achar o título dele interessante. Falando no título dos argumentos, a primeira vista eles soam sensacionalistas, e permanecem assim mesmo depois de conferir o conteúdo, afinal este discorre ao construir informações, mostrar as realidades provocadas pelo problema em foco e então desenvolve o argumento. Portanto se difere do apelo emocional enunciado no título, para um apelo racional direcionado ao leitor.

Ciente da perspectiva pertencente a ele, Jaron conhece o próprio limite de conhecimento e assume quando toca assuntos diferentes à experiência de vida dele, portanto o leitor deveria coletar outros materiais caso deseja entender melhor certos assuntos, enquanto Jaron foca nos problemas constatados pelas empresas manipuladoras. Tem a humildade de admitir desses serem os argumentos os quais domina, por fim incentiva os leitores pesquisarem os demais assuntos.

“A mídia social é tendenciosa, não para a esquerda nem para a direita, mas para baixo”

Ao elaborar motivos contrários às redes sociais, por vezes o autor cutuca tópicos passíveis de desencadear armadilhas de negar seu conteúdo a certas pessoas. Ao citar determinada figura pública, criticando diversas nuances de caráter mesmo quando consegue amarrar as características consequentes da rede social, tem o risco de revoltar leitores que admiram essa pessoa, invalidando os argumentos levantados só pela menção dela, independente da qualidade ou da realidade escancarada nas fontes ― conforme o próprio livro critica acontecer dentro das redes sociais. Na verdade isso pode acontecer por leitores influenciados pelo perfil virtual desta pessoa, então o livro não teria culpa, só poderia elencar argumentos sem citar o nome, estimular a todos tirarem as próprias conclusões, e assim poderia convencer até parte desses admiradores reconhecerem o problema causado.

Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes Sociais tem muito a oferecer e renderá uma matéria sobre como interagir no meio virtual sem ficar a mercê ― ou pelo menos diminuir ― da influência inconsciente proporcionada por empresas nada malignas, apenas dotadas de estratégias inconsequentes. Ao conferir todo o livro, poderá se dar a oportunidade de largar a interação passiva da rede social em troca de ir atrás do conteúdo útil.

“De início pode não parecer, mas sou uma pessoa otimista”

Capa de Dez Argumentos para Você Deletar Agora suas Redes SociaisAutor: Jaron Lanier
Ano de Publicação: 2018
Editora: Intrínseca
Edição: 2018
Gênero: Não-ficção
Quantidade de Páginas: 190

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Laços de Família (Contos Rotineiros de Clarice Lispector)

A resenha deste livro foi feita depois da segunda leitura, pois a primeira gerou nenhum impacto, quando o leitor adolescente buscava resultados espontâneos no final de cada conto, igual a personagem de O Búfalo. Dez anos depois, este leitor capta as entrelinhas do texto, conhece o fluxo de consciência, além de ler livros por prazer. Por descrever acontecimentos tão cotidianos, a autora consegue explorar significados peculiares no modo de escrever, ou revela o óbvio oculto pelas aparências. Laços de Família é uma coletânea de contos da Clarice Lispector, publicada pela primeira vez em 1960, já a edição lida nesta resenha foi a de 2007, da editora Rocco. Segue os comentários referentes a cada conto do livro:

Devaneio e embriaguez duma rapariga

É o conto da mulher dona de casa. O marido trabalha fora, os filhos estavam na casa da tia. A mulher transpira pensamentos por todos os parágrafos, tudo contado sob fluxo de consciência, mostra devaneio correspondente ao título do conto. Sempre voltada a ela, mesmo quando a cena retrata outras pessoas, apenas ela é a personagem, a mulher livre, de mérito conquistado, cujas qualidades atraem olhares. Então a ressaca lembra a realidade dela; retorna à rotina.

“[…] só Deus sabia: ela sabia muito bem que isso ainda não era nada”

Amor

Ana vivia dias seguros. Dona de família, a rotina correspondia ao ideal segundo a concepção dela, até encontrar um senhor cego no bonde, sorridente ao mascar chicles, e transforma a vida de Ana do avesso. A protagonista tinha certezas da própria convivência, e encarar essa nova realidade alheia a impressiona a ponto de preocupar. Seria certo ir atrás de conhecer algo novo? Seguindo ao diferente, ela perde o caminho de volta, e o desespero a consome.

“Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas”

Uma galinha

Uma galinha prestes a ser abatida foge do galinheiro da família. O dono vai atrás, e a perseguição surpreenderá a todos. A narrativa foca no animal do começo ao fim, demonstra as limitações de sua vida, e nem isso impede do extraordinário acontecer, para depois voltar ao normal e chocar o desfecho.

“Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã”

A imitação da rosa

Laura irá, junto do marido Armando, ao jantar com a Carlota e o marido, amigos do casal. Há tempos não os via ou jantava assim, mesmo Laura sem ter filhos. Ela ocupa a mente com a casa, segue o ritual de tomar leite, em seguida ela ficava calma, algo tão natural quanto ficar cansada no fim do dia. O leite a tranquila, já as rosas a perturba. Tão perfeitas de modo a proibir o direito de as ter. Pretende entregar à Carlota, ou quem sabe mantém consigo; o conto segue por este impasse da protagonista. Laura ocupa a cabeça no aguardo do marido, até descobrir algo capaz de ela resolver, apesar de haver nada, é apenas um exercício útil a encher a protagonista de significados.

“’Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir’”

Feliz aniversário

É a festa de oitenta e nove anos da aniversariante. Toda a família reunida nesta data especial, já a homenageada da festa permanece muda, até escancarar a verdade, o evento é compromisso ao invés de festa. Conforme narra a cena, demonstra a situação de cada membro desta família. Sob tantos anos sobrevividos, há dificuldade de encontrar motivos de ter alegria em alguém a permanecer sentada; aos filhos, netos e bisnetos interromperem um dia de vida a fazer companhia à senhora. Enfim, mostra a melancolia escancarada nessa data a fingir bem-estar familiar.

“Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais”

O jantar

É sobre alguém observando outra pessoa comer, um sujeito intimidador pela própria existência. Melhor ler o conto por si e tirar as conclusões sobre quem é o sujeito e o narrador observador, tudo demonstrado nas entrelinhas, apesar da intenção na escrita ambígua. Todo o conto persiste em narrar este personagem comendo, foca nos detalhes, pois cada gesto dele desencadeia reações nas pessoas ao redor.

“Num dedo o anel de sua força”

A menor mulher do mundo

Marcel Petre é pesquisador francês. Dentre os humanos pequenos, pretende descobrir o menor dos menores. Assim segue pela África, até encontrar o objetivo: mulher negra, grávida, e a menor de todas as pessoas. A partir do retrato desta mulher, o conto segue numa questão nada agradável, mostra a reação dos espectadores de seu retrato, encaram-na feito espécie distinta, feito alguém sujeito a ser possuído, usufruído ao bel prazer; em suma, escancara o racismo sob desculpa desta mulher negra ser diferente. O conto também trata da visão dela diante do pesquisador francês, mostrando a visão limitada a sobreviver em contraste a alguém novo, estrangeiro.

“[…] obedecendo talvez à necessidade que às vezes a Natureza tem de exceder a si própria”

Preciosidade

É sobre uma adolescente na rotina de estudos. Vida solitária, ia até a escola sozinha, de ônibus, entre os demais passageiros, tem medo de ser vista, pois apesar de não se achar bonita, já está na idade. Muda de postura nas aulas, segura do mundo. Ao voltar para casa tem companhia somente da empregada. Vive enclausurada, mesmo assim sofre o que tanto teme, mudando assim a vida dela. A escrita é capaz de transmitir o medo da personagem em cada passagem correspondente, estendendo o terror ao leitor conforme acontece na garota.

“É que eles ‘sabiam’. E como também ela sabia, então o desconforto”

Os laços de família

Catarina acompanhava a mãe ir embora, e ao voltar no lar, leva o filho rua afora enquanto Antônio, o marido, aproveita a tarde de sábado que pertence a ele. E entre essas interações, mostra quais são os laços desta família, do patriarca engenheiro e esposa talvez cansada do apartamento todo arrumado, do filho nervoso sem fazerem nada por ele, e das provocações que tornam esta relação pacífica.

“’Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um’”

Começos de uma fortuna

O maior problema de Artur é pedir o dinheiro aos pais. Tenta a manhã toda e falha, na escola há oportunidades de gastar dinheiro, até mesmo pegar emprestado, o problema é já estar devendo a outro colega de classe. Assim Artur enfrenta agora os dilemas que ele precisa preocupar quando estiver mais velho, apesar da idade já estar próxima. E nesta crise adolescente, mostra os pais lidando com o garoto entre críticas e oportunidades divergentes entre pai e mãe.

“Só que era inútil procurar em si a urgência de ontem”

Mistério em São Cristóvão

Toda a família da casa vai dormir, quando sai três moços mascarados da residência vizinha e encontram no jardim desta primeira casa os jacintos ideais a combinar com as fantasias deles. Ao tentarem pegar, chama a atenção de uma moça a berrar de susto contra eles a fugirem até a festa. O susto desperta todos na casa, apesar de este já ter passado, desencadeia emoções nesta família cheia de desconfiança, como se os membros desta vivessem mascarados. Os rapazes de fantasia somem faz tempo, e ainda assim a tensão na família permanece.

“Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio”

O crime do professor de matemática

Ele sobe até a colina, busca forças e fôlego ao tirar os óculos da face, só então ele age, tira o cachorro morto na mochila, o outro cachorro, não aquele, e começa a cavar. Aparenta ser um caso de agressão ao animal inocente, na verdade revela ser algo pior, pois este é o objetivo do protagonista sob pleno raciocínio lógico, lúcido, só que chocante ao leitor.

“Ele achava que o cão à superfície da terra não perderia a sensibilidade”

O búfalo

Desapontada no amor, ela decide ter ódio. Tenta buscar esse sentimento irracional no zoológico, só não o encontra. Explorando os animais de lá, o conto acusa a ansiedade humana em conquistar anseios imediatos, de procurar algo em seres ditos inferiores e encontrar só a própria fragilidade de si. Odeia por amar, e assim acaba amando o mundo todo.

“Ela mataria a nudez dos macacos”


Capa de Laços de FamíliaAutora: Clarice Lispector
Publicado pela primeira vez em: 1960
Edição: 2007
Editora: Rocco
Gênero: contos / ficção feminina
Quantidade de páginas: 135

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As Intermitências da Morte (José Saramago)

Esta é a história sobre a protagonista que estando ausente, fica presente como nunca. Propulsora de tragédias, mas sem ela tudo muda. O medo aparece junto às oportunidades de quem cria novas regras ao manter o lucro do trabalho, procurar motivos de manter o serviço quando deixa de ser necessário. A crise escancara os desfalques já existentes, as brechas expostas são flancos, oportunidades de outros grupos atingirem o mesmo tipo de privilégio. Tudo isso porque a morte decidiu ficar ausente. As Intermitências da Morte é o realismo mágico escrito por José Saramago, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2005.

“No dia seguinte ninguém morreu”

Assim que acontece a virada do ano, ninguém mais morre. Mesmo os indivíduos em estado terminal, eles apenas permanecem em agonia. Fora os indivíduos, a sociedade de todo o país sofre as consequências da imortalidade populacional. O atendimento médico sobrecarrega dos internados apenas a acumular, ninguém falece para deixar os leitos vagos. Setores econômicos também sofrem as consequências, entre esses os serviços de funerária e seguros de vida. Religião também perde o sentido de existir sob a ausência da morte. Quase tudo temporário, claro, pois religião e setores econômicos têm os meios de adaptar, elaboram as novas condições possíveis de sustentar a si. Assim ocorre o “novo normal”.

“Ao lado de uns quantos que riem, sempre haverá outros que chorem”

A história já começa pelo acontecimento extraordinário e mostra as primeiras consequências notadas quando a morte deixa de acontecer, havendo outros problemas ainda a serem descobertos, mesmo os existentes desde sempre. Com o tempo surgem ideias a adaptar esta nova realidade, seguindo de discussões e outras consequências, outras brechas expostas da sociedade, essas por vezes sem prejuízo aos capazes de resolver, portanto permanecem presentes. Tudo porque a morte, esta identificada com m minúsculo mesmo, é personagem desta história, e do seu conflito mal resolvido, causa transtornos em todo o país. Sem comentar tanto sobre a apresentação desta personagem na trama, por acontecer em momento tardio no romance e, portanto, revelaria spoilers, quando acontece, dá a oportunidade de mudar tudo de novo, de assustar os demais personagens e surpreender os leitores.

Saramago também é conhecido pelo jeito peculiar de escrever, usando regras próprias ao compor o texto. Compila toda uma cena no mesmo parágrafo, o que pode entender as quebras de página como transição de capítulo. Por estar tudo no mesmo parágrafo, os diálogos também são transcritos de forma contínua, sem travessões, tudo é demarcado por vírgulas, e quando a próxima frase começa em letra maiúscula indica a nova fala de personagem. É fácil de assimilar este padrão, mesmo assim é preciso concentrar na leitura, senão fica perdido no texto de linha contínua e pelas conversas mescladas. São empecilhos temporários, basta acostumar e talvez voltar a ler frases anteriores caso se confunda, por outro lado esta forma de escrever traz vantagens além das aparentes dificuldades. Proporciona a leitura fluida, contínua por toda a cena, o diálogo fica dinâmico sem a transição entre a voz do narrador e a do personagem, por vezes elas mesclam no sentido proposto da frase, fornecendo essa nova perspectiva de escrita.

As Intermitências da Morte tem muito a falar da personagem morte em minúsculo e o impacto dela tanto na presença, quanto ausência. Toda a sociedade afetada é retratada feito unidade na narrativa de Saramago, cada parte desta retratada no pedaço correspondente do texto sem quebrar a linha em novo parágrafo enquanto tratar dela. O texto fisga a leitura, incentiva acompanhar a trama sem parar até descobrir o desfecho de tudo o que acontece.

“A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste”

Capa de As Intermitências da Morte Autor: José Saramago
Ano de Publicação: 2005
Editora: Companhia das Letras
Gênero: realismo mágico
Quantidade de Páginas: 208

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