Tag: amizade

Aniversário do Blog (Um Ano de Experiências)

Dia quatro de dezembro de 2017 estreava o XP Literário. Postei cinco textos no mesmo dia, cada um de categoria distinta mostrando os tipos de conteúdo compartilhados no blog. Na data de publicação desta postagem mais que especial, o site completa um ano de existência. 

Assumi o compromisso pessoal de entregar conteúdo novo toda segunda-feira, no mês seguinte percebi a possibilidade de compartilhar opinião das experiências de leituras toda semana a cada quinta-feira (talvez tenha mais resenhas por semana no futuro, quem sabe…). Ganhei nada em dinheiro com essas postagens, e posso arrecadar dinheiro com este blog no futuro, mas eu persisto neste trabalho só por gostar de fazê-lo. 

Amor ao Trabalho - Aniversário

Amei as oportunidades abertas a mim ao manter este espaço pessoal compartilhado com o público. Dediquei muito espaço do meu tempo em que eu poderia estar lendo, ganhando dinheiro com outra tarefa ou ficar em dia com as minhas séries; e com certeza valeu a pena e valerá no próximo ano. 

Muito mais leituras 

Uma das maiores conquistas com o blog é conseguir ler como jamais fiz nos últimos anos. Leio devagar a ponto de demorar quase quatro semanas para ler o primeiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo antes de começar o blog. Continuo com ritmo lento, só consumo mais páginas hoje por aumentar o tempo dedicado à leitura. 

Leio muito mais ao me comprometer em publicar resenha a cada semana. Longe de tornar uma obrigação, senti-me motivado a ler mais. Cheguei a ler vários livros em poucos dias e deixava as resenhas acumuladas enquanto encarava calhamaços por dez a quinze dias. Então me empolguei demais, e mesmo lendo livros grandes como A Fúria dos Reis, Detetives Selvagens e Terras Devastadas, tenho resenha pronta há dois meses ainda na reserva. Preciso equilibrar isso no próximo ano, o que será melhor a vocês, leitores! Terão semanas com mais de uma resenha em 2019. 

Livros - Aniversário

Também melhorei minha escrita. Os posts de segunda incentivam a manter minha produtividade em tecer palavras. Abro mão do tempo em que eu poderia dedicar aos meus projetos de romance, e de certa forma isso tem me ajudado. Os contos e crônicas me tiram o cansaço de escrever um livro completo, distraio com novas ideias e testo estilos diferentes. Algumas das histórias curtas deram ideias para livros no futuro, e já terei novos romances a escrever quando eu conseguir fazer as publicações dos projetos atuais.

 Novos amigos 

Outra meta de manter este blog literário é conquistar um pequeno espaço no mercado, obter o público que possa se interessar nos meus lançamentos futuros. Ainda não obtive a quantidade de seguidores como esperava, por outro lado consegui algo muito bom e valeu a pena do mesmo jeito: amigos! 

Ler livros nacionais fez eu conhecer mais sobre a escrita e linguagem dos autores brasileiros. Melhor ainda é criar conexões com esses escritores a partir da leitura de seus livros. Acompanho o nosso mercado a partir deles, vejo suas inspirações e memes, e compartilhamos opiniões das nossas experiências em comum. 

Amigos - Aniversário

Talvez eu tenha sorte por quase todos os autores nacionais aceitarem minhas críticas de braços abertos. A abordagem de minhas resenhas é diferente de contar se vale ou não a pena comprar tal livro, já que faço análise em tópicos: falo sobre o tema do livro, apresento o enredo e cito os pontos positivos e negativos. Posso adorar a leitura, considerar o livro entre os meus favoritos, e ainda assim critico quando encontro pontos a melhorar.  

Não sou o dono da verdade e sei meu lugar. Minha opinião pode entrar em conflito com as preferências de outros leitores e do próprio autor, e encontrei conversas agradáveis quando esses tipos de divergência aconteceram. Os escritores podem levar minhas críticas em consideração ou não, da mesma forma como eu faço ao receber as dos meus próprios textos. No fim todos ganham com as trocas de opiniões. 

Decepções 

Nem tudo são flores na vida de blogueiro. Lancei meu site quando os usuários de internet já preferem as redes sociais e vídeos. As restrições de Facebook dificultam a visualização das publicações aos seguidores da fanpage . Talvez eu crie conta no Instagram e vejo se melhora a interação. O Twitter já me desagrada. Teria mais público se desse sorte no YouTube, onde eu precisaria investir muito no audiovisual (além de tomar vergonha na cara e vencer minha timidez). A maioria das visitas que recebo hoje é de amigos dos autores nacionais quando compartilham a minha resenha ou através de pesquisas aleatórias no Google. Pelo menos posso me orgulhar do meu rank SEO por atrair visitas desta forma. 

Redes Sociais - Aniversário

Minha maior frustração é saber da pouca relevância dada a certos conteúdos feitos este ano. Só atingi a marca de cem curtidas no Facebook quando compartilhei alguns memes feitos por mim mesmo. Não vi uma interação posterior dos seguidores obtidos desta forma.  

Fiquei muito triste com o resultado do meu artigo sobre Fake News, um dos textos mais importantes escritos neste blog. Até compartilhei no meu perfil pessoal por acreditar que mesmo meus amigos distantes da literatura teriam interesse em conferir. E no fim o post caiu no limbo da minha rede. Conteúdo importante de discutir, sem memes ou coisas engraçadas, sem apelo emocional do usuário para atrair clique, apenas compilei em texto as minhas pesquisas sobre o assunto de destaque na eleição de 2018; e se somente um artigo esquecível… 

Saldo de aniversário 

Termino o primeiro ano do blog com quatro mil visitas ao site, cento e sete publicações contando com esta, quarenta e seis resenhas de livros e oito sobre enredo de jogos, trinta e cinco posts de contos e crônicas. Números interessantes, porém essas cifras são incapazes de expressar uma coisa: minha gratidão ao trabalhar neste blog. 

Gratidão - Aniversário

Muito obrigado a todos os leitores que me acompanharam neste começo. Seja lendo um post, tenha gostado ou achado ruim. Agradeço de coração, e espero te reencontrar no segundo ano do XP Literário! 

A Amiga Genial (Vol. 1 da Série Napolitana)

Eu não devo explicações sobre os livros escolhidos por mim, no entanto acredito valer a pena explicar este caso. Por que eu, um homem e aspirante a escritor de aventura fantástica, decidiria ler este romance feminino sobre a amizade de duas amigas? 

Quanto mais se consome literatura, mais estarei preparado a desenvolver minha escrita. Além dos livros do gênero que pretendo trabalhar, outras obras ímpares ajudam com desenvolvimentos específicos, técnicas de escrita, ou ter uma visão mais ampla na hora de compor seu próprio personagem. Um livro feminino me ajuda a entender e usar como referência quando eu elaborar minhas personagens mulheres. E o livro deste post me ajudou além disso. 

A Amiga Genial trata da amizade de Elena Greco e Raffaella Cerullo. Publicado em 2011, é o primeiro romance de uma série de quatro livros. 

A Amiga Genial - capa

Elena Ferrante é o pseudônimo da autora. Ela prefere não ser identificada, pois acredita haver interferência na recepção de seus livros se correspondessem à pessoa quem escreveu. 

Nosso mundo era assim, cheio de palavras que matavam 

Após algumas discussões com o filho de Lila (Rafaella) sobre o desaparecimento de sua mãe, Elena decide escrever a sua história com esta amiga, narrando desde a sua infância, quando a conheceu na década de 1950. 

A família de Raffaella se muda para o bairro onde Elena mora, em Nápoles. A nova garota chama a atenção de todos pela teimosia, mas também demonstra outros talentos na escola. Sua performance supera a de Elena (conforme a narradora sempre afirma), que era a melhor aluna da turma. 

O livro conta até a adolescência das amigas. Acompanhamos o crescimento dos demais personagens, a maioria de idade próxima, além de conhecermos um pouco de cada família. A rotina dos personagens sofre influência da época da história, da Itália após a segunda guerra mundial. Além da intolerância aos comunistas, o comércio se modifica com o avanço das fábricas e o trabalho artesanal deixa de suprir a demanda vigente. 

Os sonhos da cabeça foram parar debaixo dos pés  

A princípio presumi Lila como a protagonista da história, e Elena faria o papel de narradora, tal como o Dr. Watson em Sherlock Holmes. Esta impressão se dá por Elena sempre se comparar a amiga, e toma decisões a partir do que pensa dela. Esta preocupação leva a atitudes preocupantes a Lila, pois deixa de reconhecer Elena. 

De leitura fácil e agradável, o livro contém capítulos nada longos. Difícil se perder nos acontecimentos retomados com frequência, embora não diga o mesmo aos personagens. A quantidade desses dificulta lembrar de todos, exceto os constantes na história. 

Sem se incomodar com a intimidade, Elena conta das ações e pensamentos ousados nas cenas presentes. Revela o ponto de vista sincero e sujo sobre as relações íntimas, normalmente vistas de forma positiva. 

A Amiga Genial é um exercício de empatia aos leitores masculinos com sua história focada nas duas amigas próximas que Greco tanto revela em detalhes pessoais e íntimos. 

Naufrágio

O texto de hoje tem enorme valor para mim. Foi o primeiro conto que escrevi, após um momento conturbado na minha vida.

Tornei-me uma pessoa diferente depois de escrever Naufrágio, uma pessoa melhor. Essa história não é apenas sobre mim, mas das minhas reflexões sobre o que devemos dar valor, e evitar fazermos mal a nós mesmos.

Boa leitura!

Começa o conto Naufrágio

Encontro-me de pé diante do leme de meu navio, com mãos firmes no timão, embora não saiba por onde navegar.

Apenas fixo o meu olhar no horizonte em busca de meu destino, este que é definitivamente incerto. Traçar uma linha a qual se prosseguir até alcançar o objetivo é uma tarefa praticamente impossível, todavia tenho de continuar para chegar a algum lugar.

Construí este navio da melhor maneira que pude com o meu esforço e conhecimento, selecionando as madeiras de maior qualidade que estavam ao meu alcance.

Obviamente não será por essa razão que este se tornará o melhor transporte marítimo já feito, e arrisco a dizer que está bem longe de o ser. Mas só de ser algo feito pelas minhas mãos é o suficiente para me orgulhar enquanto navego pelos mares. É como dizem: “feito é melhor que perfeito.”

Não tem a menor graça construir todo o navio e navegar sozinho. A viagem fica melhor com os meus companheiros.

Dentre eles há uma criança bastante otimista, gosta de compartilhar algumas ideias comigo, principalmente durante a noite. Porém nada o impede de conversar comigo durante o dia quando eu fico muito cansado. Este pequeno garoto é conhecido como Sonho.

O outro colega chama-se Amizade, este já mais velho e que gosta de puxar conversa para descontrair e conhecer melhor uns aos outros. Também é muito alegre e sabe a hora certa de se divertir.

Além dos dois rapazes, viajam comigo três moças muito distintas e curiosas.

A Disciplina é de poucas palavras. Costuma passar o tempo me vigiando, batendo seu pé no chão do barco e sempre mantém seus braços cruzados. Ela costuma me olhar com uma feição bastante séria, mas dá um sorriso meigo quando eu me saio bem, o que me incentiva a sempre deixá-la orgulhosa.

Já a menina que se chama Amor… Bem, eu fico meio sem graça ao dizer que sei muito pouco sobre ela.

Ela costuma ficar distante olhando o mar, e às vezes me faz perguntas difíceis de responder, dos quais nunca sei se minhas respostas estão certas. Seu lindo sorriso me confunde, sua risada me assombra, e seu toque me estremece. Só sei de uma coisa, a pergunta mais difícil que eu sou incapaz de dar uma resposta é: o que eu faria sem ela?

E por último há a Esperança. Uma menina muito empolgada que gosta de chamar a minha atenção e me incentiva a seguir em frente. Seus olhos grandes, redondos e verdes que insistem em me encarar fazem abrir um sorriso espontâneo em meu rosto durante o dia, seja sob um clima quente, chuvoso ou com ventos congelantes.

Começa o conto Naufrágio

Todos sempre estão perto de mim enquanto busco o final do horizonte, algo em que acredito ser capaz de me proporcionar um resultado desconhecido e positivo no final de minha jornada.

Dias se passam, e continuo encarando o oceano sem fim à minha frente. No momento me sinto cansado, por isso o Sonho acreditou ser uma boa hora para vir brincar comigo, e eu gostei da ideia, mas logo ouvi batidas de pés mais fortes na madeira e um resmungo surdo da Disciplina. Vejo em seu rosto uma aparente desaprovação, e pedi para o sonho voltar mais tarde, além de me desculpar com Disciplina.

Logo em seguida, Amor deu outra de suas risadas, e Amizade bateu levemente em meu ombro com uma cara toda sorridente. Será que eu levo a Disciplina a sério demais?

Esperança sugeriu para eu descansar um pouco, repor minhas energias, e depois prosseguir com força total para o meu destino. Virei meu rosto para a Disciplina e vejo seus lábios levemente abertos mostrando seus dentes perfeitos. Desta forma eu soube que é uma boa hora para o descanso.

Vários dias se passaram.

Esperança sempre me incentivando a continuar. E com aqueles olhos redondos sempre brilhantes, é difícil dizer não a ela.

O Sonho fala comigo todas as noites com a tentativa de descobrir o que haverá no final do horizonte, além de outros assuntos que eu não consigo lembrar. A sua visão bela sobre o mundo faz a Esperança ficar toda empolgada, deixa Amizade motivado e faz a Disciplina assentir com a sua cabeça.

Ah, e não posso esquecer-me de Amor. Ela sempre está por aí, pelo navio. Fica difícil de encontrá-la, mas quando a vejo sempre está parada, seja olhando para o mar ou esperando alguma atitude minha.

Provavelmente eu a desaponte muitas vezes. E ainda não consigo entender o porquê dela agir assim. Não seria mais fácil vir aqui e me dizer o que pensa logo de uma vez?!

Talvez eu deva falar isso para ela.

Será que eu deveria mesmo? E se ela não gostar da minha atitude? Vai que ela se distancie de mim. Eu não sei o que eu faria sem poder vê-la com seus sorrisos enigmáticos e risadas desconfortantes.

Acho que devo prosseguir com a viagem então…

Começa o conto Naufrágio

Disciplina fica cada vez mais severa a cada dia que passa. Acredita que estou ficando desmotivado, que anseio muito pelo fim da viagem e assim não foco no essencial, ou seja, na viagem em si. “Não adianta querer o prêmio se não dedicar muito para obtê-lo” é a frase mais marcante dela.

Às vezes fico chateado com a Disciplina. Como eu vou me motivar e me empenhar mais a completar meu objetivo se eu vejo apenas um horizonte sem fim?

Mas são nessas horas que Amizade chega para acalmar meus nervos. Ele fornece a mesma mensagem de Disciplina, mas de um jeito mais descontraído. Aponta-me o quanto já progredi com todo este trabalho, e diz que só por isso a viagem já vale a pena de ser feita.

Confesso que me incomoda em saber que meus companheiros são otimistas demais. Eles fazem de tudo para eu não me desanimar, me manter firme em meu percurso.

Mas até quando? Até quando eu serei capaz de prosseguir? Até onde eu devo chegar para enfim descobrir que acabei? Até que ponto eu conseguirei ultrapassar meus limites?

Perco a conta de quanto tempo estou neste navio. Estou cansado de navegar pelo mar neste timão pesado, que só serve para deixar calos em minhas mãos. Meus braços estão ignorando o meu comando.

Amizade estava prestes a me dar outro tapa nas costas para sugerir um descanso. Mas me retiro do leme no último instante, e meu amigo toca apenas o ar. Cambaleio para o mais longe possível do timão e tombo no chão.

Talvez a Esperança esteja vindo em minha direção para tentar me animar, só que não pude vê-la com os meus olhos cansados. Sonho tenta conversar comigo, mas não consigo me concentrar no que ele dizia, e me faltam forças para poder lhe responder.

Após algum tempo ouço aquelas batidas de bota na madeira do navio. Ficam cada vez mais fortes. Eu sei quem faz isso, e ao abrir meus olhos eu vejo a imagem severa da Disciplina com um rosto nada simpático.

Quando percebe que estou a encarando, ela aponta com o olhar para onde estão meus companheiros. Todos parecem preocupados comigo. Exceto Amor, pois esta eu não consegui ver.

Agora sim estou definitivamente exausto. Não de cansaço físico. Não quero mais agradar a Disciplina. Chega de me importar com Amor e de conversas desnecessárias com Amizade ou Sonho. Sem falar da Esperança, seus olhos de esmeralda só sabem me enganar!

Ignoro todos e parto direto ao leme para ver se eu consigo chegar logo neste tal objetivo.

Quando chego lá vejo um sujeito diferente. Parece que estava esperando o nosso encontro.

Ele se apresenta como Raiva, dizendo que é o único capaz de me fazer prosseguir nessa árdua jornada.

No mesmo instante que o conheço, este tal de Raiva me pareceu um pouco familiar.

Ele me propõe justamente o que eu queria: pegar o leme e ir com tudo para finalizar minha jornada de uma vez, e faço exatamente isto.

Em vez de me cansar com o tempo, eu pressiono cada vez mais os meus braços. Sinto dor em meu corpo, mas não me importava. Eu chegarei ao meu objetivo o mais rápido possível, não importa como.

Só a companhia de Raiva me interessa agora. Não quero me iludir com aqueles meus antigos companheiros que só falam de coisas falsas.

Começa o conto Naufrágio

Fico arrependido de saber que eu não sou de ferro, e minhas forças estão esgotadas agora de noite.

Queria continuar, mas meu corpo me obriga a descansar. Deito logo abaixo do leme para prosseguir assim que eu me recuperasse.

Ao fechar meus olhos, uma nova pessoa vem para se apresentar.

Ele se chama Pesadelo, e diz que quer se divertir comigo. Mas não espera uma resposta se eu queria diversão justamente agora. Simplesmente começa a agir.

Ele implanta imagens sombrias em minha cabeça. Vi todo o mundo desmoronar enquanto eu chego perto do fim do horizonte, e lá havia apenas o abismo. Vi-me caindo neste buraco sem fundo junto com o navio, que se despedaçava aos poucos.

Durante a queda eu levo pancadas dos escombros do navio me atingindo em cheio. Coleciono várias feridas pelo corpo, até que não pude sentir mais, só sabia que estava caindo. Caindo. Caindo.

E me levanto.

Acordo subitamente. Recupero minha respiração e vejo meu navio inteiro com Raiva apontando para o leme.

Começa o conto Naufrágio

Volto a fazer a viagem. Mas não sei se vale mais a pena encontrar o final do horizonte. Não sei se devo voltar e repensar em minhas ações.

Então Raiva me dá uma ordem: “VÁ!!!” E eu o obedeço.

Não faço ideia para aonde estou indo. Meu corpo e mente estão atormentando minha alma.

A noite chega e o Pesadelo me visita mais uma vez. Está claro que somente ele irá se divertir nesta noite, com a custa de meu sofrimento. Desta vez eu estou afogando.

Queria que ele parasse com isso. Só que ele não faz questão de me ouvir, só deseja brincar comigo com toda essa humilhação. Enquanto minha visão se esvai, sou capaz apenas de ver seu sorriso sádico.

Agora que não vejo mais nada, consigo somente ouvir uma risada sinistra. Uma risada demonstrando que pelo menos alguém está satisfeito.

Está difícil de adaptar a essa nova rotina.

Raiva me obriga a focar na viagem que logo deve chegar ao fim, e assim espero.

Pesadelo agora está me visitando durante o dia também, inclusive enquanto ainda estou no leme.

Não sinto mais a presença de Amor ou de Esperança, ou dos outros antigos companheiros.

Mas sei de uma coisa: ficarei forte graças a Raiva, e superarei os desafios de Pesadelo.

Assim chegarei ao…

Esquece! Não vou chegar. Chega de me enganar.

Foi um erro ter começado essa viagem estúpida!

Eu só quero terminar. Terminar com tudo…

E de repente chega o último indivíduo desta viagem.

Ele é conhecido como Ódio, e sugere acabar com tudo isso.

Eu não sei o que lhe responder, e ele nem esperou uma manifestação minha.

Raiva e Pesadelo me seguram com força, cada um em um de meus braços. Eu não sou forte o bastante para livrá-los de mim. Obrigam-me a ajoelhar perante o Ódio.

Ódio desembainhou sua lâmina. Uma espada negra com empunhadura vermelha como sangue. Não consigo tirar a minha visão daquela espada.

Vi sua arma recuar até sua ponta ficar atrás do ombro do Ódio para pegar impulso, e num movimento que não pude acompanhar, a espada fica cravada no meu peito.

Não vi mais nada.

Não senti mais nada.

Não sou mais nada.

Minha vida acabou ali.

Começa o conto Naufrágio

Não havia nada que poderia ter feito para evitar tudo aquilo. Ou será que tinha outra opção?

Não me lembro de ter acreditado uma vez sequer na minha vida que tudo era predeterminado. Por que estou pensando assim agora que tudo acabou?

Mas acabou mesmo? Se tivesse acabado não haveria mais palavras. No entanto novas frases ainda estão surgindo…

Então quem sabe… Talvez eu ainda tenha alguma chance!

Começo a sentir um gosto salgado em minha boca.

Cuspo tudo para fora antes que eu engasgue de vez com o que parecia areia.

Sinto meu corpo jogado ao chão. Tento me erguer, mas só pude me levantar com a ajuda de alguém.

Meus olhos estão com dificuldade de se abrir, mas quando conseguem, um par de olhos verde e redondo é preenchido em minha visão num fundo de tom de pele. Água escorre a partir destes dois objetos redondos e verdes, e por fim sinto um abraço muito forte. Um abraço da Esperança.

Foi Amizade que me ajudou a levantar. Seu sorriso espontâneo me confunde por ele estar assim mesmo depois de ter agido daquela forma.

Mais a frente eu consigo ver a Disciplina. Seu pé não faz tanto barulho na areia, que agora percebo fazer parte de uma ilha. Está com uma cara de brava, mas logo volta a sorrir.

“Também senti sua falta, Disciplina”, respondo. “De todos vocês.”

Os três me envolveram em um enorme abraço.

Alguns passos a minha frente está Amor, me encarando. Cheguei perto dela, mas não sabia o que fazer.

De repente eu ouço a voz de Sonho, me dando a seguinte ordem: “VÁ!!”

Obedeço, e dou um beijo na boca do Amor, que recebe com o maior prazer, retribuindo com carícias em meu cabelo e um sorriso lindo no final de nosso beijo.

Não precisei dizer uma palavra. Não era necessário compreender Amor, apenas senti-la.

Olhando para trás enxergo meu navio todo destruído, mas nenhum sinal de Raiva, Pesadelo ou Ódio. Só vejo um sujeito vindo em minha direção.

Este é um grande amigo meu. Não posso acreditar de eu tê-lo esquecido na hora que eu mais precisava.

Ele se chama Desafio, e foi o responsável por me incentivar a construir um navio e a começar a viagem. Tentou ainda me orientar que não devemos nos limitar somente ao prêmio, mas comemorar a cada obstáculo superado em cada dia da jornada.

Eu devia ter aprendido esta lição mais cedo, e Amizade disse que também tentou me avisar disso, e ele tinha razão.

O Desafio não precisa pronunciar sequer uma palavra. Eu já sei o que ele iria me propor, então começo a recolher as madeiras jogadas no chão da ilha e selecionar as melhores para construir meu novo navio.

Começa o conto Naufrágio

Eu devo aproveitar cada momento da minha vida.

Tenho de me concentrar a não sair da linha com a ajuda e supervisão da Disciplina.

Devo valorizar cada segundo que passo ao lado de Amizade, além de sentir mais a presença de Amor.

Nunca mais largarei uma conversa com o Sonho no fim da noite. Confesso que sempre esqueço sobre o que falamos no dia seguinte, mas ainda assim vale a pena se divertir com ele.

E a Esperança. Eu jamais vou desapontá-la outra vez. Enquanto eu puder olhar em seus olhos de esmeralda, eu vou saber que estou feliz.

Esta história não vai se prolongar até eu chegar ao final do horizonte. Pois, sabe… Não há um fim.

É inadmissível chegar ao fim. As maiores conquistas são feitas no decorrer da viagem.

MiTÓPOLIS (JP Arcanjo)

Alguém pediu por uma história de fantasia urbana com representatividade LGBT, personagens singulares, onze palavrões em cada dez palavras ditas e marés de azar consecutivas? Talvez não, até ler o livro que trago na resenha deste post e ver o quanto é sensacional!

A abordagem de uma mitologia/religião não é o suficiente para refletir o caos das ruas na cidade de São Paulo. Todos os seres fantásticos e deuses existem, ninguém está errado e sobrevivem conforme a crença de seus fiéis.

MiTÓPOLIS é narrado pelo protagonista P, um humano amaldiçoado que se transforma num híbrido de dragão durante a noite. Publicado pela editora Luna Editora em 2018, disponível também na Amazon.

MiTÓPOLIS - capa

Primeiro livro publicado comercialmente de JP Arcanjo. Devorador de livros, idealista e sonhador; conhecido no Wattpad pelos seus livros LGBTQ+.

Meu P não é de paciência

Conhecemos o mundo através do ponto de vista de P, e logo nas primeiras páginas sabemos como é o personagem. Amargurado por sua maldição, mas sempre disposto a soltar as piores piadas em momentos aleatórios.

Novos personagens entram na sua trajetória em meio a confusões e participam na aventura mortal. Mesmo nos últimos momentos há gente nova ajudando o P, mas esses não têm tanto espaço para o leitor conhecer como os demais. Não bastam ser apenas seres fantásticos distintos (cronista, estrela, filhos de deuses…), cada um possui personalidade forte que entram em conflito com a do protagonista. O leitor se diverte com as discussões fora de hora.

Conhecemos um pouco das mitologias indígena, nórdica, grega, egípcia, japonesa; das religiões cristã, budista, wicca e umbandista. Nenhuma crença se prevalece a outra e permanece presente durante a aventura de P. Como se não fosse o suficiente, há ainda um crossover na aventura com o livro de zumbis do escritor John Miller.

Nenhuma representatividade é forçada. Algumas descrições de P têm tendências homossexuais, nada que interrompa o andamento da trama, mas que contribui com a personalidade refletida na narração em primeira pessoa.

Não suporto ver quem eu gosto sofrer sem tomar as dores pra mim

Os plots são recheados de azar constante para P. É incrível observar tantas criaturas e acontecimentos em apenas 200 páginas. Entre discussões calorosas do grupo, a amizade ressoa e mostra o que realmente importa.

[spoiler]

Aconselho o autor a revisar a cena do sacrifício (suicídio). Apesar de no capítulo seguinte já mostrar que não foi nada definitivo, a prática soou como um ato heroico. Mesmo criando um contexto que justifique o ato, insisto em pensar que o suicídio não é uma opção.

A abordagem deste sacrifício pode desencadear atos reais com pessoas que podem tomar uma ideia equivocada com esta cena.

[fim do spoiler]

MiTÓPOLIS retrata as confusões existentes no cotidiano urbano e reflete as dificuldades da vida de uma pessoa através de uma maldição. É possível observar a realidade de muitas pessoas reais sob esta fantasia.

O livro de JP passa uma lição importante aos leitores: a boa convivência entre pessoas, independentes de como elas são.


Livro físico no site da Luna Editora

E-book na Amazon

Degustação

Página oficial do Facebook

Perfil do auto no Wattpad

O Pedido do Garoto (coautoria JoeFather)

Este conto é diferente dos que já compartilhei no blog. Feito em parceria com JoeFather, O Pedido do Garoto é uma pequena história presente na excelente obra Encenação Mortal. Tive o prazer de escrever a parte final do conto. Confira a seguir o texto na íntegra das duas partes.

O Pedido do Garoto - parte 1

 

Faltava uma semana para o Natal de 1982 e o garoto caminhava pelos becos de Londres em busca de comida, para o corpo e também para a alma.

Seus pais haviam morrido três invernos antes e ele fugiu do abrigo para onde foi enviado com 9 anos, a espera de uma possível adoção, o que na sua idade era muito complicado.

E o seu temperamento agressivo, herança genética do pai, também não ajudava muito, e assim constantemente ele se metia em brigas com os outros garotos.

Desde então vivia nas ruas e as adotara como seu lar, mas nestas épocas festivas sentia saudade da convivência com outras pessoas, em seus momentos de solidão ele imaginava como seria fazer parte novamente de outra família.

É claro que agora, com 13, já não acreditava mais em Papai Noel e até a sua pouca fé em Deus diminuía com o tempo, através de tantas maldades que presenciava todos os dias. É claro que existiam as pessoas solidárias e possivelmente sem elas já teria morrido de fome há um bom tempo.

Então nessa semana fria de 1982, antes de dormir enrolado num monte de cobertas velhas naquele beco, ele pediu para que o Papai Noel lhe trouxesse uma família de presente neste Natal.

E foi no dia 21 de dezembro que ele viu seu pedido realizado, o fim de uma vida sofrida nas ruas, mas que deu lugar a outro tipo de sofrimento.

Um casal apareceu no beco durante a noite. A temperatura estava baixa e um vento soprava forte, anunciando neve ainda para aquele dia.

Eles foram direto até o garoto e o convidaram para tomar um chocolate quente em sua casa, num bairro afastado dali.

O garoto silenciosamente agradeceu pelo presente, nem que fosse somente por uma noite, e entrou com eles num carro aquecido.

A casa para onde foram era grande, tinha dois andares, e depois de um bom banho de banheira, uma refeição completa e o prometido chocolate quente, o garoto foi conduzido até um quarto, que parecia ter sido preparado para ele.

Ficou encantado com o lugar e pediu aos céus para que aquilo não fosse um sonho e que ele, de repente, acordasse desolado no beco onde morava.

Dormiu com esse pensamento e na manhã seguinte acordou na mesma cama macia daquele quarto quente.

Desceu de pijama até a cozinha e encontrou o casal na mesa, o aguardando para um café.

— Que achou do quarto? Estava do seu gosto? – perguntou a mulher alegremente.

— Maravilhoso! – respondeu ele com a boca cheia de biscoitos, arrancando um sorriso dela.

— Então vá se acostumando com ele, pois se quiser, poderá morar aqui conosco – disse o homem sério – Mas existem regras que devem ser cumpridas, para que possa permanecer aqui…

Se conhecendo o suficiente para saber o quanto adorava a sua liberdade, o garoto devia ter raciocinado melhor e pedido explicações detalhadas daquelas regras, mas a alegria de ser parte de uma família novamente falou mais alto e ele concordou com um aceno e selou o seu futuro com este gesto.

Nos próximos dias ele foi conhecendo aos poucos as citadas regras que o seu pai adotivo comentara. E eram muitas para um garoto acostumado a viver nas ruas.

Descobriu depois que o homem tinha um cargo importante no exército de Sua Majestade e ele trazia as mesmas regras militares para dentro de casa e quando havia um erro ou desobediência, o castigo era similar.

O garoto passou a ser um tipo de empregado da casa. Limpava os banheiros, arrumava os quartos, cuidava do jardim e da manutenção da moradia.

Foi matriculado numa escola muito boa e mesmo após vários anos longe das salas de aula, sua notas não eram ruins. O problema estava no seu comportamento agressivo, que em casa era controlado, mas na escola, frente a provocação de outros garotos, ele não pensava duas vezes antes de lhes aplicar um corretivo.

Nestas ocasiões, assim que seu pai ficava sabendo do ocorrido, ele também era castigado, mas não com violência declarada. Ficava preso no seu quarto, sem nenhum tipo de diversão, sem escola, tendo que continuar realizando as tarefas domésticas.

Nesses dias em que o garoto era punido pelos seus erros, ele se arrependia de ter ido morar ali e amaldiçoava o Papai Noel ou o ser brincalhão que o conduzira para aquela armadilha.

Com o tempo foi aprendendo a se controlar e uma frieza se abateu sobre o seu coração. Parou de ser castigado, mas ainda era tratado como um empregado na sua casa. Inexistiam momentos de carinho e amor.

Houve somente um dia em que seu pai adotivo lhe falou palavras com uma profundidade maior e que fizeram a diferença em sua vida. O garoto ainda não tinha completado 16 anos, mas já era mais alto que ele.

— Filho, a solidão nos torna insensíveis e convivi muito com ela durante toda a minha vida, pois essa é uma das regras deste meu trabalho. Só adotei você para trazer uma companhia para sua mãe, mas percebo que você é muito mais forte do que eu imaginei.

— Me prometa algo, filho – pediu ele – Quando eu e sua mãe nos formos, busque constituir uma família também, não deixe que a solidão o transforme de forma negativa. Você me promete?

O garoto o encarou e disse algo que estava guardado dentro de si.

— Tarde demais. Não quero família alguma para mim no futuro. Estou arrependido de um dia ter desejado fazer parte de uma família. Se um dia os senhores não existirem mais, voltarei correndo para a minha solidão.

— Não diga isso, filho, nunca é tarde demais…

— Se o senhor me dá licença, tenho mais tarefas a realizar.

Menos de dois anos depois, seus pais foram fazer uma viagem e nunca mais retornaram. Se passaram alguns meses e eles foram encontrados mortos numa vila da Suíça, deitados numa cama, congelados.

O garoto, agora quase um homem-feito, herdou todos os bens deles, resolveu parar seus estudos e se dedicar a uma paixão particular que o mantinha na solidão que lhe fazia tão bem.

Na noite de Natal deste ano que passou a viver só e não compareceu a nenhum dos convites de confraternização dos parentes herdados pela adoção, teve um sonho assustador, ao mesmo tempo que revelador.

Neste sonho ele estava de volta ao beco e idealizava fazer o pedido para pertencer a uma família. Só que após refletir bem, decidiu pedir para o Bom Velhinho somente o poder da manipulação, com o qual conseguiria fazer tudo que quisesse.

Neste momento no sonho um Papai Noel vestido de preto se materializou na sua frente e com um sorriso amarelado lhe disse uma única frase:

— Este poder foi o que eu lhe dei naquela noite, você é que ainda não aprendeu a usá-lo…

Na manhã de Natal acordou assustado e em poucos minutos uma compreensão caiu sobre ele.

Fez algumas ligações e naquele mesmo dia visitou todos os parentes, sem exceção.

A partir daquela data o garoto definitivamente se transformou num homem e chegou a conclusão que o seu destino havia sido traçado naquela noite do pedido realizado.

Não sabia ainda qual era o preço que pagaria, mas tinha certeza de que não seria algo bom de ser pensado, mas logo se conformou, afinal, ele pediu um presente e não era educado ser um mal agradecido.

Tinha certeza que seu pai adotivo aprovaria aquele pensamento, se estivesse vivo para isso – imaginou com um sorriso no rosto e foi dormir.

E nunca mais sonhou…

 

O Pedido do Garoto - Parte 2

 

Esticou o braço para sua filha de cinco anos e juntos atravessaram a rua. Seguiu aqueles dedos frenéticos da menina, disparando seu desejo naquela vitrine. Um pônei branco feito de madeira, a sela tinha um assento perfeito. Ela poderia galopar por horas naquele balanço.

— Sei, filha. O natal está chegando.

— No natal? Vai comprar mesmo, papai?

— Desde que se lembre de uma coisa: você sempre terá aquilo que deseja, mas nem sempre o que pede.

Ela tombou a cabeça ao lado e franziu a testa. Ele reagiu com cafunés nos seus fios negros.

Não soltou de sua mão mesmo na calçada. Jamais soltaria se pudesse. O aperto de mãos fazia falta a quem já pertenceu duas famílias. Dependendo de si, não perderia a terceira, mesmo esta sendo instável.

Dobrou a segunda esquina e entrou na terceira a direita. Apertou a mãozinha mais forte antes de desprender e ela correr aos braços da mãe, ao lado de seu padrasto.

Cumprimentou o casal e despediu da mocinha, prometendo revê-la em breve.

A ex-esposa morava naquela mesma rua. Passou por aquele beco e viu a escuridão do corredor. Deslizou o dedo indicador em seus olhos, lembrou que era a hora de rever o bom velhinho.

Parou numa mercearia e comprou duas barras de chocolates amargas, só podiam ser estas.

Tentou atravessar, mas o veículo não cedeu a preferência sob o sinal vermelho. O próximo carro parou e assim foi ao outro lado da rua.

Entrou no prédio e foi direto a recepcionista.

— Vim visitar o senhor Charles.

Ela discou pelo ramal e em seguida respondeu:

— Terceiro andar a direita, senhor.

Agradecido, seguiu a orientação já memorizada.

Entrou no leito e os sorrisos se encontraram ao rever o velho amigo. De camisola branca, nunca mais vestiu o preto de quando vivia nas ruas, um preto não tão escuro quanto a própria cor da pele. Alguns dentes amarelados se perderam, cabelo e barba eram escassos. A alegria a mesma.

— É bom te ver, garoto.

— Nunca serei um adulto aos seus olhos, amigo?

— Não. Desde àquela época nós temos a mesma diferença de idade. Ainda é um garoto para mim, que estou a cada dia mais velho.

O garoto riu.

— Pelo menos descobriu ser bem humorado com o passar dos anos.

— Graças a você, bom velhinho.

Abriu o pacote da barra de chocolate e deu ao Charles.

— Eu te ensinei bem mais do que isso.

— É verdade.

Graças a você, eu deixei de sonhar. Parei de acreditar que o mundo se transformaria, tornaria um lugar melhor, e comecei a acreditar na minha transformação. Mudei minha vida e melhorei. Criei minha terceira família, pedi para esta ficar sempre unida, mas o desejo atendido foi o de ter o amor de volta através de minha filha. Eu realmente obtive o poder da manipulação.

— Sonhos são muito bons, garoto. Melhor ainda se o tornamos em realidade.

— Minha filha é cheia de sonhos, desejos, e pedidos. Irei ensiná-la a diferença de cada um. Darei oportunidades que não tive. E serei o bom velhinho que irá sempre abraçá-la.

Lágrima escorreu no rosto. Não enxugou desta vez. O velho amigo deu risada e abocanhou um pedaço do chocolate.

Cada visita demorava menos. Charles se cansava rápido, só não cansava de sorrir.

Despediu do senhor que iluminou sua vida no fundo do beco escuro de Londres e da sua alma.

O garoto adulto saiu do hospital, prosseguiu com o pedido de fazer tudo que pudesse. Prosseguiu em ser feliz.

 


Gostaram do conto? Confira o livro na íntegra gratuitamente neste link e acompanhe JoeFather nas redes sociais:

Wattpad

Fanpage no Facebook

Blog

As Primeiras Horas de 2018

Primeiro de janeiro de 2018. 

Levantei às 6h50.

Precisava tomar remédio às sete por causa da alergia da gatinha (de quatro patas, infelizmente) da casa de minha irmã dias atrás. 

Pelo menos eu estava melhor, meus cachorros também. Fiquei até uma da madrugada acordado só para acalmar os meus dois bichinhos. Fogos não têm graça, perdi o prazer da virada do ano há tempos. 

Tenho o hábito de fazer compras no mercado todo domingo. Com espirros constantes e olhos avermelhados igual vampiro, resolvi adiar até o ano seguinte. Meu pai disse que estaria quase tudo fechado, e ele estava certo. 

Saí de casa com o horizonte plenamente cinza. As nuvens escondiam a luz do sol, ventos frios massageavam meu rosto. Adoraria receber o calor de um abraço da minha companheira de toda a vida, mas ela ainda não se revelou para mim. No momento aceito a companhia deste clima gelado; odeio o verão. 

Segui com o meu carro. Mal tinham passado oito horas do primeiro dia do ano. Com certeza a rua estaria deserta, encontraria somente os bêbados. Todo feriado eles brotam no chão, principalmente no ano novo. 

Porém o primeiro sujeito visto na rua estava com uniforme de trabalho. Sua bolsa grande e cheia puxava seus ombros, quase o derrubava. O zíper nem fechava com o pacote de arroz com a metade para fora da mala. 

Ele viu o meu carro e acenou. Primeiro eu desviei o olhar, concentrei na curva fechada que teria de fazer com o veículo. Acenou mais uma vez e eu pus o pé no freio. Olhei na janela do meu lado, ele já tinha ido ao outro e abriu a porta do passageiro. Quando perguntei se precisava de carona ele já estava dentro. 

Como não cheguei a pedir autorização dele em expô-lo neste texto, vou nomear aqui como Alexandor Romasnoffv.

Talvez Josué, o Hulk, seja melhor.

Hulk é o apelido dele de verdade. Ele me disse quando observou a minha camiseta. De primeira perguntou se eu era roqueiro pela cor da roupa, e acertou. Só enxergou o monstro verde quando observou outra vez. 

Conheci muito sobre Josué no curto caminho de sua carona. Digo, curto com o carro. A pé ele iria gastar meia hora e arrebentar a coluna com aquela mala pesada (não estava sob os efeitos dos raios gama). 

A nossa conversa durou mais do que muitas a vir em janeiro. Sou introvertido, ainda assim não sou difícil de se conversar. Difícil é alguém falar comigo de coisas simples, sem segundas intenções ou julgamentos. 

Mal saí do percurso durante a carona, e deixei Josué há poucos passos de seu apartamento. Ele me recompensou com algo de valor inestimável: gratidão. Não poderia receber prêmio melhor nas primeiras horas de 2018. 

Duvido encontrar Josué outra vez em breve. Desejo toda a felicidade possível a sua família com aquele saco de arroz pesado da bolsa. Até mesmo a sogra — que ele detesta — seja feliz e o incomode menos. 

Comecei este ano com o pé direito, cheio de satisfação e esperança de seguir em frente (e olhar para o lado). 

Claro, as primeiras horas do ano não foram perfeitas. Apenas um mercado estava aberto. Comprei menos da metade do que costumo levar, e o preço ainda ficou a 50%. 

Mas tudo bem. Houve um breve momento de felicidade, e isso tem de ser lembrado. Não é muito, mas a perspectiva positiva é o mais importante.

O ano novo não trará mudanças se eu deixar de mudar minha atitude, do contrário chegará dezembro e serei mais um a dizer que 2018 foi o pior ano da minha vida, assim como muitos falaram nos anos anteriores.

i am possible - 2018

Rasguei o impossível e disse: “Eu sou possível!”

© 2021 XP Literário

Theme by Anders NorenUp ↑