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A Ascensão do Alfa (Crônicas de Lua Cheia, vol. 2)

O mito do lobisomem é conhecido por todos os continentes do nosso planeta. Há diversas versões sobre a aparência física, comportamento e origens, como a partir de pecados, ausência de batismo, ou através de doenças como porfiria. 

Não faltam referências sobre a fera cujo aspecto causa uma dualidade entre o comportamento humano e racional com a contraparte bestial e impulsiva. O que realmente necessita é de livros capazes de trazer essas referências para a ficção com pano de fundo histórico e realista, melhor ainda quando o faz em terras brasileiras. 

A Ascensão do Alfa cumpre a necessidade citada no parágrafo anterior. Publicado em 2016, trata a história do jovem Sétimo de Carvalho quando passa a enfrentar uma pequena alcateia de lobisomens durante a Guerra dos Farrapos. 

Ascensão do Alfa - capa

Clecius Alexandre Duran é procurador do estado do Paraná e descobriu a vocação na escrita enquanto pesquisava sobre lobisomens. Sua esposa o incentiva com a arte da escrita, e é responsável pela publicação deste livro e da provável continuação desta antologia conhecida como As Crônicas de Lua Cheia, hoje com dois livros lançados. 

Clecius também trabalha — neste momento da postagem — como editor da edição física do livro O Brakki de André Regal. Se ainda não conhece este trabalho, clique aqui e veja a análise do livro digital de André.

Os guerreiros acreditam estar do lado certo da disputa

Sétimo de Carvalho tem mais seis irmãos, todos perdidos na Revolução Farroupilha. Não querendo se acovardar, segue com seu pai numa expedição de tropeiros. Sua determinação supera a falta de experiência, mas o coloca no caminho de vagantes cujos eventos superiores travam o conflito da tropa com a pequena alcateia de lobisomens. 

A alcateia é composta apenas por quatro criaturas. Tchevolku é o alfa vigente, mas a idade o exige escolher o novo líder do bando, tarefa que gera conflitos internos entre os lobisomens. 

A trama ainda aproveita o momento histórico da região com a Guerra dos Farrapos, onde farroupilhas e caramurus têm a infelicidade de encontrar as criaturas. 

Como se não bastasse, há a Ordem dos Cavaleiros de Judas, organização antiga de caçadores de lobisomens. Tanto a organização como as criaturas não desejam tornar a público a existência das bestas, pois quando os humanos se encontram com lobisomens, o perigo para ambos os lados é eminente, além da carnificina garantida.

Acho que vosmecê confunde carência de escrúpulos com coragem

Acompanhamos principalmente a trajetória de Sétimo e o conflito sobre a ascensão do alfa na alcateia de Tchevolku. As duas linhas narrativas se cruzam e formam uma consequência das escolhas envolvidas por esses personagens. 

Livre de escrúpulos nas cenas de batalha, o autor não poupa nas descrições viscerais dos ataques lupinos, reduzindo os humanos a mais uma fonte de alimentação das criaturas. As referências coletadas por Clecius abrange também as limitações das feras, elemento aproveitado pelo alfa em suas estratégias de sobrevivência com o grupo, mas nem sempre respeitadas na alcateia. 

Adorei vislumbrar o regionalismo do lugar e época da história. A escrita das falas reflete no sotaque de forma realista, e as palavras espanholas mesclam as frases dos personagens próximos dos países latinos vizinhos. Diversas notas de rodapé complementam a história com explicações dos acontecimentos reais durante o trecho daquela narrativa. Ascensão do Alfa não conta apenas uma história, mas divulga nas entrelinhas traços do passado nacional nem sempre acessível nas aulas de história no colégio. 

Houve uma falha do regionalismo quanto ao próprio lobisomem. A fraqueza mortal abordada no romance não é característica dos lobisomens do folclore brasileiro. Nos mitos conterrâneos também se diz sobre essas criaturas terem aspectos de cachorro, porco, touro ou cavalo. Não é “errado” inspirar-se nas mais diversas mitologias do lobisomem, só considero o quanto contribuiria com as lendas nacionais nem sempre valorizadas. 

Não tenha medo de se maravilhar com esta obra nacional muito bem escrita e trabalhada. Fiquei com vontade de vislumbrar o primeiro livro desta antologia a qual Clecius dedica e se diverte. Vale a pena conferir!

O Riso da Morte (Hale & Hastings vol. 1)

O que é a literatura além de um exercício de empatia? Viramos páginas conhecendo da vida de cada personagem. As frases compostas de letras se juntam até se formar pessoas reais em meio ao trabalho de ficção. Tal exercício foi realizado durante a leitura deste suspense nacional. 

Enquanto conhecemos os protagonistas e os envolvidos no caso, procuramos entender o responsável pelo crime capaz de chocar os investigadores presentes no romance e os leitores desta história. 

O Riso da Morte foi publicado na Amazon em 2018. Acompanha em terceira pessoa a história dos detetives John Hale e Payne Hastings, e é o primeiro volume da série de livros protagonizados por essa dupla. Este livro aborda a investigação de assassinatos cujas vítimas perdem a vida com um sorriso estampado no rosto… Através dos cortes de seus lábios. 

O Riso da Morte - capa

Débora de Mello é autora e designer. Divide suas atividades entre a escrita desta série que está apenas começando e o design de capas para livros. 

Ninguém conhece ninguém, afinal

John Hale recebe uma nova parceira de trabalho. A detetive Payne Hasting demonstra desde o começo seu posicionamento firme e ousadia. Ambos têm o mesmo tempo de experiência, só que uma sempre troca de trabalho por problemas pessoais com colegas, e o outro mantém o mesmo posto, com parcerias pouco duradouras desde o início da carreira. 

O primeiro caso desta parceria é do assassinato de um filho adotivo do juiz da cidade. Conforme o caso prossegue, mais pessoas são envolvidas, a ponto de chegar até em pessoas próximas de um dos detetives. 

Destaca-se a personalidade bastante desenvolvida em cada personagem. Os conflitos de ideias combinam com o estilo de cada personagem e causam discussões interessantes não apenas na investigação, mas na interação dos envolvidos. 

As diferenças a serem toleradas (com dificuldade) entre os dois protagonistas são uma dinâmica interessante de testemunhar. Sendo o primeiro volume de muitos por vir, serviu para apresentar muito bem os detetives enquanto a investigação prosseguia. De qualidades, vícios e intimidades distintas; reconhece-se dois humanos com suas vidas normais em meio ao caso misterioso e bizarro. 

Um sorriso. Um Tiro. Mais um corpo caiu. 

Senti-me num labirinto durante a investigação. A história me conduzia a um dos caminhos possíveis na minha frente, depois permaneci por um momento diante dos novos caminhos com as afirmações apresentadas no enredo, então o livro me direcionava a um caminho onde aparecia mais alternativas a frente. 

É raro eu tentar adivinhar o culpado nos livros de suspense, costumo me deixar levar até a conclusão da investigação. Neste caso foi diferente porque eu reconheci os personagens a partir de suas falas e comportamentos, e assim fiquei motivado a arriscar quem não era tão verdadeiro.

Eu deduzi o principal responsável a partir desta minha motivação, e acertei. Mas como disse no parágrafo anterior, a história me moveu para que eu tivesse dúvidas sobre o culpado até a sua revelação, sempre mostrava novos caminhos por onde o labirinto deste livro poderia enganar. 

Descubra de tudo um pouco sobre a dupla de detetives H. (confesso que seus sobrenomes me confundem por ambos começarem com a mesma letra), vislumbre o andamento dos assassinatos com sorrisos antes da morte, e espere pelas próximas aventuras de Hale e Hastings, cujos personagens são mais realistas do que as pessoas do seu bairro! 


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O Brakki (A Lágrima de Giius)

Como está o seu portfólio de leituras nas obras nacionais de fantasia? Não leu mais do que Eduardo Spohr, Affonso Solano e talvez um ou outro livro de André Vianco? Certamente eu preciso ler livros desses autores citados, mas hoje trago a vocês alguém diferente. 

André Regal atua, segundo o próprio, na trindade do artista pobre (ator, músico e escritor). Teve um livro publicado pela editora Chiado em 2017. Mas neste post falarei do seu primeiro trabalho lançado como escritor independente.

O Brakki é o primeiro volume de A Lágrima de Giius, uma fantasia medieval sem escrúpulos. Narrado em terceira pessoa com múltiplos pontos de vista, temos a oportunidade de explorar este universo fantástico e descobrir seus encantos através dos personagens. 

 O Brakki - capa

Quando alimentamos demais um problema, ele não morre nunca

Acompanhamos na maior parte da leitura a história de Symas, um ferreiro que teve a perna ferida em seus tempos de cavaleiro. Longe de ser um herói, gasta tempo em bordéis e bebida enquanto busca a oportunidade de vingança. 

A aventura acontece durante a caçada à fera que leva o título deste volume, principal suspeita dos ataques viscerais causados a algumas vítimas onde decidiu morar. Aceita o trabalho sob persuasão de Vescas, um ladrão inexperiente em combate que promete ajudá-lo com a vingança após garantir o prêmio em ouro a quem eliminar o Brakki. 

Bardeye é apresentado como o vilão. Um personagem complexo que mantém sua imagem para esconder suas reais intenções. Cheio de mistérios capaz de impressionar não apenas neste livro, mas na continuação desta saga.

Através de Lucca e seu irmãozinho descobrimos o criacionismo deste universo sob os deuses irmãos Koma e Giius. A mitologia revela o significado do nome da saga, além da riqueza fantástica elaborada pelo autor. 

Descobrimos com esses dois bem mais do que os encantos do mundo. Lucca sofre as mais diversas perversidades. Sem oportunidades de manter sua inocência, enfrenta problemas que causam agonia ao testemunhar o quanto que a coitada sofre. 

O corpo de um homem é o papel, mas os olhos são as letras 

O livro é indicado a quem gosta de conhecer o mundo criado pelo autor nos mínimos detalhes. André não poupa nas descrições colocadas em momentos certos, de modo que possa ser uma referência a quem busca conhecer detalhes dos costumes e vestimentas medievais. Ousa até mesmo escrever algumas falas com idioma próprio. 

Figuras de linguagem aparecem diversas vezes, principalmente no começo. Com o detalhamento incrível presente na obra, não vi necessidade de tantas comparações, essas que na maioria sempre começa com “como”. Mesmo assim não posso negar que há excelentes frases do tipo. Algumas estão aqui dividindo as seções da resenha, e tem outras capazes de fazer os olhos do leitor brilharem.

Conflitos se acirram ainda mais com a exploração das fraquezas dos personagens. Todos têm suas limitações de modo que é difícil saber o que irá acontecer em seguida. Às vezes tudo parece estar perdido, outras realmente acontece o pior. 

Não há pressa no desenvolvimento da história. O Brakki só aparece no final, após uma jornada repleta de imprevistos vividos por Symas e Vescas. O ápice desta caçada acontece no momento certo. Poupando comentários do enredo para evitar spoiler, o desfecho junta algumas pontas, mas deixa outras em aberto para a continuação, sem falar da sensação que a história está apenas no começo.

 

Seja fantasia ou outro gênero, há muita riqueza no trabalho literário nacional. Fica o convite para apreciar o que nossos conterrâneos escrevem. São oportunidades que valem a pena conferir!


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Ascensão – Bruno Crispim

O livro a ser analisado neste post é pequeno, objetivo e fascinante; com uma reviravolta no final de fazer o leitor abrir a primeira página e ler tudo outra vez.  Mesmo a abordagem da religião não sendo um dos meus maiores interesses, o carisma do protagonista roubou toda a atenção nesta história incrível. 

Ascensão foi publicado em 2017 na plataforma da Amazon. Uma história de suspense que aborda temas de espiritismo e suicídio. 

Ascensão - capa

Narrado em primeira pessoa pelo protagonista Miguel, um médium que orienta espíritos na sua Ascensão aos céus. Acompanhamos a aventura dele com o espírito de Darla, uma adolescente cuja principal suspeita da sua morte é o suicídio.

De autoria de Bruno Crispim, autor do romance O Segundo Caçador, este vencedor do III Prêmio UFES de Literatura. Além de romancista, possui um conto publicado na coletânea do Escritor Profissional e possui destaque no Wattpad com o livro Guia do Escritor Iniciante, onde compartilha o seu aprendizado sobre a escrita e o mercado literário. 

 Vivi preso, mas livre. Entre loucos, mas lúcido

Difícil de ver livros com uma leitura tão fácil quanto este. Os capítulos são curtos, assim como os parágrafos. A composição das palavras foi bem-feita para contribuir com um ritmo fluído de leitura. Cada frase era interligada com a seguinte, sem devaneios ou descrições de pouca importância. Tudo contribui para uma leitura sem pausas. 

Os personagens soam naturais, com diálogos cheio de jargões correspondentes à sua personalidade e maturidade. O modo de falar do Miguel também reflete na sua narração, é fácil se apegar a este personagem tão carismático e, ao mesmo tempo, rabugento. 

Sendo um médium, vê-se o preconceito encarando Miguel em cada passo. É uma luta quase impossível de vencer sempre que é preciso convencer um personagem secundário sobre seus dons, ao passo que o leitor aceita fácil a capacidade espírita do personagem, ou talvez não. 

Teve bastante coragem em trazer na trama o tópico de suicídio. Darla não foi a única relacionada ao tema durante a história. Os casos foram se elencando com muitos conhecidos de Miguel. 

Uma abordagem equivocada em um desses casos, e a história refletiria em ações reais igual o ocorrido em Os Sofrimentos do Jovem Werther ou 13 Reasons Why 

Mesmo que possa parecer uma solução em determinado momento, logo em seguida demonstra o quanto essa atitude é errada, que só traz dor aos familiares e próximos. Contudo há uma exceção que aconselho o autor revisar, uma passagem rápida em que citou o suicídio de um personagem como consequência de um único evento. Esta abordagem simplista quanto ao tema pode servir de má influência. 

Três batida rápidas e o jornal desliza por baixo da porta

A história termina com um choque. O leitor poderá se sentir perdido, sem saber no que acreditar. Tive duas interpretações distintas ao chegar na última página. Na primeira leitura eu me inclinei a uma interpretação por causa da influência que o Miguel me proporcionou com o seu carisma, resultado da excelente narrativa e construção do personagem. Na releitura eu fui mais cético, e acabei concordando com a segunda interpretação. 

Encontrei alguns deslizes na revisão do livro. Às vezes uma palavra estava em falta, outras em que algo deveria ter sido retirado, além de poucos erros de digitação. Não são nada que prejudique a experiência no todo, exceto aos leitores mais rigorosos. 

Aos que querem se surpreender em um suspense curto, com diálogos divertidos entre um médium e um espírito adolescente, e ainda ser desafiado a te fazer pensar no final, recomendo esta obra nacional do Bruno Crispim, autor que tem muito a oferecer e a ensinar com sua própria experiência. 


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