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O Espadachim de Carvão (Affonso Solano)

As diversas jornadas de nossas vidas trazem mistérios a desvendar conforme avançamos na aventura. Outras vezes o mistério em si é o estopim da trilha cheia de obstáculos até obter respostas. 

Seja a espécie, lugar ou origem da personagem, as ficções sempre apresentam características reconhecíveis em nós, leitores humanos. Livros aproximam pensamentos e feições das personagens ao espectador, apesar das diferenças exaltadas pelo autor, ou assim deveria…

O Espadachim de Carvão começa a história de Adapak, o filho de um dos quatro deuses que busca respostas sobre virar alvo de mercenários. Publicado em 2013, é uma fantasia nacional de mundo próprio onde humanos coexistem com outras espécies originais do romance, além de servirem como coadjuvantes do protagonista de espécie inédita.

O Espadachim de Carvão - capa

Affonso (com dois efes de faca) Solano publica a série sobre Adapak na editora Leya, onde também atua como curador. É conhecido na internet por participar de canais como MRG, Jovem Nerd e das dublagens feitas em parceria com Anderson Gaveta. 

O carvão tomou vida!  

Adapak é alguém de origem especial, apesar de ele mesmo se descobrir durante a trama deste livro. Criado a princípio pelo sacerdote Barutir, descobre ser filho de um dos quatro deuses responsáveis por trazer vida às espécies existentes no mundo de Kurgala. Os deuses eram conhecidos como “os quatro que são um” por eles pensarem e agirem quase da mesma forma, até discordarem entre si e abandonarem Kurgala.

Adapak é então criado pelo deus até alcançar os dezenove ciclos de vida, quando é perseguido por quem lhe deseja matar. Desconhecendo o motivo, ouve os mercenários pronunciarem a palavra Ikibu enquanto se defende deles através de espada com lâminas feitas de osso.

Recorre a conhecidos da infância em busca de respostas, seres agora irreconhecíveis ao espadachim, com atitudes e opiniões adversas de quando Adapak os viu pela última vez.

Amadores ‘lutam’ e profissionais ‘resolvem’  

Solano cria o próprio mundo fantástico onde outras criaturas racionais compartilhando o espaço com humanos, de características e conceitos distintos, uns mais exploradas do que outros conforme a necessidade do enredo. Conta os detalhes da espécie aos poucos, inclusive dos personagens, e atrapalha em formar a imagem de alguns durante a leitura ao descobrir determinada característica só mais tarde.

Conceitos também foram adaptados a este mundo, como a contagem de dias ser simbolizada por luas, os ciclos de vida no lugar de anos, e sistema métrico baseado em cascos. A tentativa de adequar esses conceitos soa falha, ler a altura em cascos no fim só revela como alguém com dez cascos é maior de quem mede oito, e sua definição (explicada também no momento posterior) tem referência pouco explorada no resto do livro. 

O romance consiste em Adapak buscar respostas enquanto os capítulos alternam com passagens do passado para mostrar mais sobre o protagonista e o mundo ao leitor. Mesmo com poucas páginas, O Espadachim de Carvão consegue amarrar os eventos já ocorridos com a situação presente; os flashbacks estão longe de preencherem somente páginas vazias. Muitas das questões levantadas ao leitor são respondidas sem precisar recorrer à continuação da série, embora a história tenha apenas começado.

Adapak não discordou  

Conta muito bem da história, porém peca na apresentação do protagonista. Adapak é referenciado muitas vezes como um rapaz ou garoto pelo autor. Veja bem, o filho de um deus e protagonista do mundo com espécies diversas, e o narrador associa ele na maioria das vezes como “garoto”. Habilidoso no combate e inocente no relacionamento, suas características e feitos despertam pouco interesse, dá mais curiosidade em conhecer o seu passado relacionado aos deuses. Testemunhar alguma tragédia acontecer a Adapak traz pouco impacto, ainda mais quando o protagonismo resolve os problemas ao desvendar as capacidades do “garoto” ainda desconhecidas pelo mesmo. 

O Espadachim de Carvão foi um dos livros selecionados no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), o que possibilita a sua distribuição nas escolas públicas. O mundo inédito demonstra boas capacidades de como incentivar a criatividade enquanto conta a aventura do protagonista que embora poderoso, precisa lidar com situações fora do seu lugar comum igual aos jovens partindo de casa para ir à escola ou outro ambiente longe dos pais. Pena falhar com descrições tardias e destacar o protagonismo ao invés do protagonista em si.

Há discussões sobre se é melhor oferecer livros mais acessíveis aos estudantes jovens em vez de clássicos como Dom Casmurro, mas gostaria de levantar outra discussão: seria este livro a melhor opção para apresentar fantasia nacional aos jovens nas escolas públicas? Eu pelo menos não acredito.

Links Externos

Confira o livro

Sobre os livros selecionados para o PNLD, incluso este da resenha

A Hora do Lobisomem

Chego aqui com outra história de lobisomem. Em vez da alcateia da Serra da Cantareira  ou da Revolução Farroupilha, o livro de hoje passa em Tarker’s Mill, cidade remota dos Estados Unidos.

Sua hora chega em cada ciclo de lua cheia, uma vítima diferente por mês. A princípio imaginam ser um assassino em série, lunático e metódico. Apenas o garoto deficiente sobrevive, e ele afirma sobre os ataques serem de lobisomem.

A Hora do Lobisomem chega mensalmente na cidade de Tarker’s Mill. Publicado em versão ilustrada pela editora Suma no ano de 2017, o livro narra as aparições da Besta ao longo de um ano.

A Hora do Lobisomem - capa

Escrito por Stephen King, famoso por escrever histórias de terror, com muitas dessas adaptadas em séries e filmes.

Rosnados soam terrivelmente como palavras humanas

Dividido em meses no lugar de capítulos, o livro foca apenas no monstro lupino e nas pessoas envolvidas com ele, sejam vítimas ou relacionadas a essas.

São textos curtos, quase como contos que compõem a história. Cada mês foca em pessoas diferentes, com acontecimentos relacionados a lua cheia, embora o autor tome liberdade de não seguir os ciclos lunares de nenhum ano específico, adaptando a aparição plena do satélite natural para corresponder ao enredo.

Quando a hora chega, trechos curtos demonstram a ação impactante do lobisomem com golpes violentos. Apenas as descrições são o suficiente, porém essas são reforçadas pelas ilustrações da versão distribuída pela Suma.

A besta está em toda parte! Em toda parte! Em toda…

Esta obra é peculiar ao Stephen King, autor conhecido pelas histórias que preenchem várias centenas de páginas. A Hora do Lobisomem se predomina como uma história minimalista. As poucas tramas secundárias mesclam a história principal e servem como elementos de suspense, esses logo revelados.

Não se passa a impressão da história acontecer ao longo de um ano. Apesar da divisão da narrativa pelos meses, cada episódio mensal conta ações críticas ocorridas em questão de horas ou até minutos, salvo poucos meses. Fica incompatível ver a história de um ano em menos de duas horas de leitura.

O livro tem pouca profundidade e serve como folga entre leituras longas ou a quem deseja algo espontâneo, mas garanto agradar os leitores de histórias sobre lobisomens sem pudor contra os humanos.

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