Fiz uma promessa, tracei os detalhes do objetivo. Expandirei meus limites ao ponto além do atual, superarei medos sem sentido, e como recompensa ganharei uma hora a mais em cada dia útil. 

Sim. Tudo preparado. Daqui três semanas eu iria começar. Praticaria nesse tempo, aos poucos perderia o medo. Quando chegasse a hora, estaria pronto. 

Só que não. 

Na primeira semana eu cometi a besteira de me preocupar. Olhava a estrada repleta de trevas, me encolhi perante àqueles demônios. Suei frio dentro desse casulo seguro. Tal seguro me trará riscos no futuro, perigo de ser incapaz de enfrentar o imprevisto. Algum dia o casulo não me servirá mais, mas eu não serei útil também. 

As trevas criaram uma bola de neve na minha cabeça. Novos problemas chegaram e grudaram feito chiclete em mim. Eu respirava, deixava o tempo passar, pois só ele era capaz de resolver alguns dos problemas. Só que o tempo era lento demais. 

Está bem. Eu falhei com a minha pressa. Só tenho dificuldade em assumir a culpa, eu cresci ciente que precisamos ser pessoas perfeitas, tá? Erros não são permitidos. Pessoas de sucesso não erram, pessoas de bem sabem como fazer, pessoas da minha família são felizes com seus acertos. Pois eu errei, e por isso a bola de neve cresceu. 

Olhei a estrada no outro dia.

Ainda estava infestada de demônios. Eu disse a mim “não olhe”, mas teimosia é outra de minhas falhas. Os demônios aumentaram em tamanho e quantidade. Eu encolhi. 

No dia seguinte não precisava apenas do tempo, mas também de pessoas. Pessoas são complicadas, elas vivem suas vidas enquanto a minha depende delas. Quando é o contrário eu faço tudo por elas, mas eu preciso permitir que o tempo faça elas conseguirem me ajudar. Fico de mal com o tempo. 

A estrada ferve. Eu suo. Nada disso é fato, não na cabeça dos outros. Escuridão quer me acolher, e consegue. Ansiedade é a sua colega, e as trevas permitem entrar em mim, eu permito. 

Sofro calado. É errado compartilhar seus problemas com os outros. Isso se chama problematização, é um palavrão muito feio. Pessoas de sucesso não reclamam, relatam como venceram seus desafios com força e fé, ou outras palavras bonitas. 

Então prossegui nesse casulo ambulante. Enquanto a estrada adquiria mais forças negras, eu perdia o ímpeto de quando tracei o objetivo. 

Não permiti. 

Modifiquei o prazo. Cumpriria a promessa na próxima semana! Aguentei por mais um dia, fechei meus olhos contra os demônios, apesar de senti-los. 

Me preparei no sábado. Percorri a estrada das trevas, menos agressiva nesse dia. Na volta eu comprei o necessário nessa aventura. 

Não foi fácil. Os demônios pregaram muitas peças, bloquearam meu caminho no último instante. Persisti, dei voltas nessa escuridão, consegui uma oportunidade e aproveitei. Não só obtive os itens necessários, como comprei também um cacho de bananas para a minha guardiã. 

Tudo certo. Segunda-feira eu acabaria com essas trevas de uma vez. Libertaria de meu casulo finalmente. 

Mas… 

Os demônios tentaram me enfraquecer, e conseguiram. Na noite de sábado meus guardiões me mandaram ir além no domingo. O percurso não só era mais longo, mas os demônios eram mais fortes, bem mais tenebrosos; exceto aos olhares dos guardiões. Eles não viram problema algum. 

Só viram quando eu surtei. Eu falhei novamente. Uma pessoa de sucesso não reclamaria, mas eu reclamei. 

Ao menos os guardiões eram pessoas sensatas, me conheciam muito bem. 

Eles me acompanharam nessa longa estrada. Os demônios ficaram fracos, frágeis. O guardião do meu lado dormiu, mas eu prossegui, sabia o que fazer. 

O retorno foi tão tranquilo quanto a ida. Repousei no resto do dia. Na hora de dormir os demônios voltaram a atacar. Tentaram impedir meu sono. Os enfrentei por algumas horas e venci, adormeci. 

Acordei animado.

Tomei café, o combustível da minha concentração. Troquei de roupa e enfim fui ao combate à Minha Estrada de Trevas! 

Tirei o carro da garagem. Coloquei o cinto, acendi os faróis, dei play nas músicas de Deco Sampaio, e dirigi na Fernão Dias sozinho. As trevas da rodovia desapareceram da minha cabeça. Os demônios sumiram, não passavam de outros carros que percorriam o seu caminho, assim como eu. 

Percorri a Fernão Dias com tranquilidade, e segui ao meu trabalho trinta minutos antes de quando vinha de ônibus. Tive um pequeno desafio na hora de estacionar, mas eu superei. Estou pronto para aproveitar mais do meu carro de forma independente, e eliminei a escuridão criada por mim. Tenho menos falhas comigo desde então, talvez até menos do que as pessoas de sucesso tanto esforçam em esconder. 

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