Page 2 of 25

Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos (folclore nacional)

Buscar mérito literário no mercado de ficção nacional é uma peleja sem fim. O desafio agrava quando os guerreiros empunham o lápis a batalhar na criação de cenários brasileiros, usando do nosso folclore a arma principal. Esta batalha vale a pena ser combatida, por nos trazer exemplos de aproveitar as tradições ou criaturas tão distantes de nós, apesar de compartilharmos o mesmo espaço. De riqueza quase exótica, tais livros podem ajudar-nos a descobrir sobre a terra onde pisamos. Dentre essas ficções há Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos, escrito por Gabriel Billy e publicado pela Avec Editora em 2018. O enredo passa no país homônimo ao livro, retratando o Brasil no período vitoriano de características fantásticas misturadas ao steampunk, onde curupiras, sacis, mapinguaris e outras criaturas folclóricas coexistem com aparatos criados pelos inventores brasileiros.

“― Vera Cruz tem muitos gênios, inclusive padres, como eu”

Vera Cruz tem dois reinos principais os quais guerreiam entre si. Lisarb é o maior em extensão cujo governo imperial foi substituído pela ditadura militar sob o comando de Kaput. A princesa Isabel ― filha do ex-imperador Dom Pedro II ― é foragida do novo governo de Lisarb, e durante sua busca em encontrar meios de retomar o poder tirado à força, é convidada a ir ao portal para Ivi Marã Ei e tomar o artefato do deus Jurupari antes de pessoas mal intencionadas.

O outro reino é Ouro Preto, lar do povo escravizado pela Lisarb. Preferem a magia em vez da tecnologia. A princesa Zaila guarda rancor do ladrão Pedro Malazarte, reconhecido por toda a Vera Cruz, este mesmo que seu pai, Chico-Rei III, pede à filha ajudá-lo a pegar a borduna de Jurupari. Encontram Urutau no caminho, o indígena sobrevivente da tribo dizimada pelo bandeirante de Lisarb chamado Domingos. Urutau possui o arco lunar, arma da deusa Jaraci, funcional apenas sob a presença da lua.

Além das terras humanas, Vera Cruz tem lares reservados a outras criaturas, entre elas a árvore Brasil e a Vitória Régia Sagrada, onde vivem os curupiras e mutucus, respectivamente. Ambos os povos são protetores da natureza, os primeiros fazem por meio da persuasão, já os mutucus optam pela violência. Por esta discordância, os dois povos travam conflitos. Mesmo sob trégua, os curupiras acusam os mutucus de envenenar a árvore Brasil. O príncipe Oiti deseja averiguar tal acusação, e para isso conta com a ajuda de Yataí, princesa dos mutucus e sua amante.

“― Não quero fugir. Quero unir nossas raças e um dia ser respeitado como um grande rei. E domar um porco selvagem!”

No momento de o leitor conferir este livro pela primeira vez, admirar a capa colorida com dirigíveis a indicar a ambientação steampunk, do título remeter ao antigo nome do Brasil, folhear e descobrir o livro dividido em dois conteúdos: a história em si e os apêndices cheios de criaturas e figuras históricas inspiradoras a ponto de fazer parte do romance; a primeira impressão é de ousadia a pegar ótimas referências e delas entregar esta história de fantasia nacional. As primeiras páginas do livro são compostas de prefácio, prelúdio e agradecimentos, depois ao começar cada capítulo há citação de autores ou pessoas importantes na história brasileira; tudo a elevar o trabalho presente no romance. Com tanta propagação do trabalho de pesquisa, resta pouco da obra em si, esta aquém do prometido no resto da edição.

O narrador onisciente alterna a perspectiva entre os personagens, realizando a transição por meio de cenas. Essa perspectiva não é respeitada, pois o narrador cita o nome de personagem recém-chegado na cena e desconhecido de quem acompanha a perspectiva no momento. Tantos pontos de vistas engrandecem a história de maneira positiva, caso aproveitasse a oportunidade de explorar as várias características do universo elaborado pelo autor. No caso deste livro, tudo ocorre rápido demais, mal deixa o leitor vislumbrar o cenário vigente e segue direto à trama central do livro. A ambientação do cenário por vezes é resumida em um ou dois adjetivos, e por usar tão poucas palavras, atropela ainda mais o ritmo. Caso fizesse os personagens explorar mais Lisarb e as consequências sofridas pela família da princesa Isabel, cenas capazes de exaltar a riqueza cultural existente em Ouro Preto, abordasse mais do povo indígena e mostrasse as façanhas de Pedro Malazarte em vez do narrador somente citar em várias passagens de ele ser o maior ladrão daquela história; cativaria o interesse do leitor ao longo da hitória. O universo do autor tem potencial, só faltou aproveitá-lo.

Tudo é esclarecido ao leitor, tão informativo a ponto de subestimá-lo. Diálogos são usados para apresentar os personagens entre si, trazendo conversas inverossímeis, pois em vez de falarem entre si, informam as características dos personagens. Certas explicações são feitas em três frases redundantes, inseguras da capacidade de compreender logo na primeira. A escrita deste livro é elucidativa, portanto deixa de ser literária.

Vera Cruz: Sonhos e Pesadelos é o debut de uma história com características impressionantes, possíveis graças à nossa história brasileira e folclore. Porém o desenvolvimento deixa a desejar, aproveita pouco da ambientação ― gigante pela própria natureza ― e exagera na explicação. Longe de desanimar, essas críticas têm o intuito de incentivar o autor a aprimorar na escrita, pois a história em si possui potencial.

“Era uma vez um mundo forjado com raios fúlgidos por um povo heroico de brado retumbante”

Vera Cruz - capaAutor: Gabriel Billy
Editora: Avec
Ano de Publicação: 2018
Saga: Vera Cruz #1
Gêneros: fantasia steampunk / aventura
Quantidade de Páginas: 184

Confira o livro

A Ilha do Tesouro (Clássico dos Piratas)

Certos autores vivem na eternidade de suas obras, outros vão além e são levados às histórias posteriores. Escrevem histórias de gênero reconhecido, e inovam as características de tal forma que novos trabalhos fazem questão de homenagear a inspiração a ponto de tornar algo quase verídico por ter os mesmos elementos. Canções feitas à capela, mapas com “X” demarcando o local do tesouro, papagaio no ombro e perna de pau. Tudo começou com A Ilha do Tesouro, lá no ano de 1881 lançado em periódicos por Robert Louis Stevenson, e republicado no Brasil em 2019 pela editora Antofágica sob tradução de Samir Machado de Machado e enfeitado com as ilustrações de Paula Puiupo.

“Ali estava o tipo de homem que tornava a Inglaterra o terror dos mares”

Jim Hawkins ajuda na estalagem do pai, este adoentado quando um marinheiro entrou e exigiu hospedagem até quando bem entender. Identifica a si somente por capitão, e deu tarefa extra a Jim, a de avisar caso visse o marujo com perna de pau. A saúde do pai deteriorava, o tal capitão alegou carecer de moedas a pagar pela hospedagem, mesmo assim continuou ali, a beber e cantarolar a canção do pirata. Os velhos conhecidos deste capitão o alcançam, exigem a justiça pela Marca Negra, e Jim descobre entre os trapos do capitão um mapa de ilha com “X” demarcado e breves orientações escritas, onde ele irá arriscar a encontrar o tesouro escondido na companhia do Dr. Livesey, o fidalgo Trelawney e do cozinheiro Long John Silver.

“― E lhe digo que eu vivi de rum”

Narrado por quase toda a história por Jim, o autor mostra os acontecimentos do romance a partir da perspectiva do garoto, este com escrita espontânea diante da narração feita da aventura passada. O enredo é dinâmico, todo capítulo ocorre ações ou revelações a mudar os planos feitos de início; reflete na sobrevivência dos piratas, esses na busca de obter a vantagem ignoram os escrúpulos, trapaceiam e tornam a história imprevisível. Nem parece ter sido escrito no final do século XIX devido ao dinamismo da história.

Mesmo sendo a aventura de Jim, a história é capaz de aprofundar os demais personagens, todos possuindo interesses transparentes na expedição. A caracterização vai além de protagonistas bonzinhos e vilões, os primeiros possuem defeitos e agem por si ao invés de em grupo ― e às vezes ajudam a todos por isso, apesar de trazer muitos riscos conscientes ―, e os segundos seguem princípios, transparecem a humanidade neles, recusam a serem meros adversários no enredo, possuem a própria história, e o conflito desta com a dos protagonistas é que resulta na história contada por Jim.

“― Marinheiro mimado, diabo criado”

Stevenson usou certos atalhos ao compor a estrutura dinâmica no texto, usando de adjetivos e advérbios tantas vezes a ponto de serem notados. Nada capaz de prejudicar a leitura da aventura juvenil, apenas poderia melhorar a experiência criativa já evidente na história. O autor recebeu elogios pela forma de contar na perspectiva do personagem, embora certas escolhas sejam vistas de outras formas em narrativas recentes. Stevenson usou outro personagem a narrar acontecimentos alheios a Jim quando precisavam ser contados, e o fez apenas por preencher esta lacuna, sem elaborar mais questões inerentes à perspectiva levantada por outro personagem. Em relação as outras limitações da narrativa de primeira pessoa, foram corrigidas com explicações breves da informação pendente no momento ocorrido, pois foi adquirida depois. Apesar de resolverem as questões da narrativas, são artifícios fáceis, pouco elaborados a ponto das inúmeras obras inspiradas na Ilha do Tesouro fazerem bem em formular outras soluções.

A Ilha do Tesouro sobrevive aos séculos com facilidade graças a escrita agradável a leitores atuais, com capítulos recheados de aventura e personagens marcantes pelas características a princípio, depois pela autenticidade em adequar à situação vigente do romance. Nem tudo permanece ideal aos elementos atuais da narrativa, apesar de esses relevarem a qualidade que ainda sobra da obra.

“Tínhamos dois aliados úteis: o rum e o clima”

A Ilha do Tesouro - CapaAutor: Robert Louis Stevenson
Tradutor: Samir Machado de Machado
Ilustradora: Paula Puiupo
Publicado pela primeira vez em: 1883 (edição em livro)
Edição: 2019
Editora: Antofágica
Gênero: aventura / infantojuvenil / ficção histórica
Quantidade de Páginas: 368

Compre o livro

A Canção dos Shenlongs (Diogo Andrade)

Alojado em casa, sob horário de almoço, em parques ou na condução de trabalho ou estudo ― nada disso por causa do coronavírus, a resenha foi escrita antes da crise, então permaneça em casa o máximo possível, por favor ―, e entre outras várias situações possíveis de ler livros, todas elas são realizadas em ambiente normal, natural da região correspondente, seja Brasil, Portugal, na região metropolitana de São Paulo ou no pantanal. O leitor permanece acomodado neste tipo de lugar enquanto viaja na leitura por onde as palavras o levam, às vezes a outro país, ou traz a perspectiva do protagonista de situação social diferente, ou ainda convida a conhecer culturas peculiares as do leitor. Esta resenha trata de história sobre esse último caso, e mesmo assim ainda escrito por brasileiro.

A Canção dos Shenlongs é um dos livros publicados no meio independente mais bem reconhecidos, conforme as diversas avaliações positivas disponíveis na internet. Publicado em 2016 por Diogo Andrade, conta a história de Mu, monge guerreiro com muito a aprender a partir do conflito enfrentado nesta história.

“Como shenlong, acredito que todos somos irmãos em jornada”

Mu testemunha a expulsão de monge no templo pela primeira vez, e foi logo com Ruk, o seu irmão. Irmão de criação, cruzaram o mesmo caminho, desentenderam-se e depois ficaram amigos, tiveram a mesma oportunidade de seguir o caminho dos shenlongs no templo Shanjin. A vida segue sem Ruk, Mu continua nas tarefas do templo, no constante desenvolvimento shenlong sob ensinamentos de Sarujin, Shizu, Velha Gilga e Abade Kame, e na companhia dos amigos Nili e Aga, quando possível.

Shanjin é restrito aos monges, únicos cientes de sua localização dentro da floresta de Linshan, também devido a aura capaz de permitir apenas os monges de atravessarem. Ou assim deveria ser, pois os monges ficam apreensivos quando um espadachim desconhecido da maioria dos monges chega no templo, exige conversar com abade e compartilha a notícia surreal: o Império Housai pretende atacar os quatro templos shenlongs, no intuito de conquistar os Tomos das Formas protegidos pelos monges.

“Sejamos firmes como as raízes da montanha”

Narrado em primeira pessoa, Mu divide a narrativa entre contar a história e as impressões dele no momento narrado do passado. Compartilha a rotina de Shanjin, esta que o leitor assimila sem precisar de infodumping, pois Mu conta sobre a vida conhecida por ele, de conhecimento ainda limitado de onde convive conforme ele encara as novidades vindas pelo conflito relacionado a ameaça do Império. Assim o protagonista transmite a sabedoria compartilhada entre os shenlongs, da canção e demais aspectos da cultura, como o próprio meio de defesa.

Falando em defesa, o conflito acontece de forma direta, através de combate, cuja ameaça surge previsível em relação ao protagonista e determinado personagem, apesar de não mencioná-lo ao evitar spoiler por aqui, o conflito entre eles é óbvio e falha em impressionar. A narrativa abordada em primeira pessoa neste livro deixa a desejar nas cenas de reviravoltas ou ações, pois a narração de Mu cede espaço às impressões pessoais dele no meio do acontecimento, onde seria melhor vê-lo ativo em vez de reflexivo, afinal é protagonista além de narrador. Fora quem conta a história, há contradição também no comportamento de outro personagem, ora ele assume a falta de segredos entre os shenlongs, e momentos depois fica todo receoso, recluso aos monges a ponto de recusar a dizer o que sabe do problema eminente. É normal testemunhar alguém ocultando segredos por insegurança, beneficiar de tal segredo ou outro motivo, nenhum desses esclarecidos no enredo deste primeiro volume.

“Preparados para tudo, mas sem nos esquecermos de cultivar a harmonia”

Abordar cultura diferente da acostumada do leitor com eficiência traz conhecimento sobre a mesma, e fazê-la de forma literária fornece a vantagem  de acomodar o leitor a vislumbrar toda esta novidade. A Canção dos Shenlongs distribui partes da sabedoria dos monges em algumas passagens de textos onde a forma de interpretar deles mescla com a linguagem portuguesa escrita pelo autor conterrâneo, formando parágrafos belos de palavras decorrentes desta fusão. Ao entregar primeiro as passagens de sabedoria ordinária do templo onde acontece toda a história, a revelação posterior de capacidades extraordinárias, mesmo já vistas em outras histórias de temática oriental, surpreende no contraste de aparecimento sutil à possibilidade espetacular, incentivada pelo conflito a incitar os personagens e entregarem o melhor de si ao defender os princípios ensinados durante toda a experiência de vida.

A Canção dos Shenlongs aproveita a cultura oriental ao entregar algo peculiar na literatura brasileira. O autor soube aproveitar os conceitos conhecidos dos monges, e através da estruturação do enredo entregou revelações surpreendentes mesmo sobre aspectos comuns a este tema. Faltou aproveitar melhor a escolha narrativa quanto a escrita em primeira pessoa, equilibrar as descrições de ação e reflexão em momentos correspondentes.

“O verdadeiro adversário de um shenlong surge no reflexo da água”

A Canção dos Shenlongs - capaAutor: Diogo Andrade
Editora: publicação independente
Ano de Publicação: 2016
Gênero: Fantasia
Série: Guerras Épicas do Império de Housai #1
Quantidade de Páginas: 97

Compre o  livro

Ultra Carnem (horror nacional de César Bravo)

Enfrentar o desafio incapaz de vencer atiça a vontade insana de determinadas pessoas. O livre-arbítrio permite as pessoas despejarem a racionalidade em troca de desejos carnais, banais pela imaginação limitada do sujeito. Há quem atenda esses pedidos, alguém nada ordinário propõe o pacto e reconhece a hora de cobrar o valor devido. Ele é o personagem principal de todo este terror nacional.

Ultra Carnem explora os podres mais característicos nas cidades interiores do sudeste brasileiro, seja nas aparência e nos pensamentos. Publicado em 2016 por César Bravo através da editora DarkSide, o livro é composto por quatro novelas intercaladas.

“Rituais: porque disso o mundo também era feito”

Tudo começa com Wladimir Lester, órfão de ciganos, rejeitado pela própria tribo quando a irmã bate na porta do orfanato de Três Rios e convence o padre Giordano a cuidar desta criança. Giordano compartilha o fardo com a madre Suzana, os dois já experientes em cuidar das demais crianças, ciente das traquinagens de algumas delas. Ainda assim Wladimir traz desafios a eles, a começar pelo ensinamento religioso do rapaz, divergente com o cristianismo a ponto de retrucar as lições do padre com perguntas ousadas. Por outro lado o garoto possui obsessão pela sua tinta, vermelha em tom de sangue, usada nos quadros que ele tanto gosta de pintar, dignas do talento capaz de tirar o orfanato da pobreza. Assim Giordano fez pacto com o garoto sobre os quadros e tentar melhorar o convívio dele no orfanato, sem saber do pacto feito por Lester com seres horríveis antes dele.

“Cristianismo não se ensina com carinhos”

Ao dar o desfecho da primeira novela do livro, uma nova história é contada em relação ao novo protagonista, da situação ordinária até o ápice sobrenatural quando o personagem de destaque faz a aparição e executa a conclusão desta novela. Apesar de voltado ao novo protagonista, os elementos disponíveis a partir da novela do menino Lester chegam mais cedo ou mais tarde, então acrescenta detalhes essenciais às tramas.

O trabalho gráfico na edição deixa bem claro o objetivo deste livro, e o conteúdo cumpre a promessa implícita desde a capa sombria, das ilustrações do miolo e as bordas das páginas pintadas em vermelho sangue: o horror é eficiente nesta história, sem pudor nas descrições. Depois de demonstrar as características do protagonista, a narrativa aproveita das mesmas ao elaborar os piores cenários, moldando o ambiente sobrenatural correspondente a atormentar o personagem e o leitor. Acomode o corpo na superfície mais macia, ajeite a coluna e coloque o livro sobre o apoio, sem cansar os braços, e a leitura continuará desconfortável com o horror vívido pintado nas palavras de César Bravo. Com exceção de uma cena em particular, sem contar spoilers, esta conclui no capítulo seguinte como sendo nada além de sonho ruim ― o pior tipo de clichê em histórias de horror, e por acompanhar as demais cenas extraordinárias do livro, dá um banho de água gelada no leitor.

Outro motivo a despistar leitores sensíveis é a linguagem crua presente em toda narrativa e diálogo, condizente nas devidas situações. Difícil do narrador perder a oportunidade de tornar situações ordinárias as piores possíveis por meio da descrição, o percurso do trabalho, bairro onde o protagonista mora, a família do outro; pouco importa, há misericórdia a ninguém. Da ambientação descrita desta forma, os personagens comportam de acordo, reativos à miséria convivida, não à toa eles aceitam os piores pactos possíveis. Só faltou criatividade em abordar a podridão relacionada às personagens femininas, quase todas são vítimas de estupro, e todas ― sem exceção ― sofrem assédio, seja por exaltar alguma parte do corpo dela ao sexo, ou criticar a falta de beleza dela e ridicularizá-la por isso. Lembra da linguagem vulgar? Pois bem, ela repercute nesta abordagem pornográfica nas personagens femininas.

“― Gente ruim vive e gente decente morre. Pessoas boas não tem chance nesse mundo”*

Certos detalhes ou escolhas narrativas deixam a desejar. Há muitas frases em que quantificam o tempo decorrido e a distância do espaço, e como a narrativa foca na compreensão do personagem na cena vivida e quase nenhum deles tem característica precisa com números, deixa a descrição inverossímil. Seria melhor dar a impressão do espaço conforme o personagem percorre por ela ou pela quantidade de objetos disponíveis no lugar, e quanto ao tempo, descrever gestos conforme o tempo passa entre as ações. Outro detalhe é a transição de capítulos quando ainda é a mesma cena, sequer tem passagem de tempo na transição, muda o capítulo apenas a tentar atribuir o suspense, motivar o leitor a continuar a leitura, nem todas as tentativas são eficientes, assim o recurso perde a força pela quantidade. Também deveria ter tomado cuidado numa situação na última novela também, quando a personagem agonizava de fome, e poucos capítulos adiante ela recusa tomar desjejum por de repente ficar sem fome.

Falando da última novela, esta perde o ritmo em relação as demais histórias. Com várias novidades logo na etapa final da história começada por Wladimir Lester, tudo é passado por meio de infodumping, onde os personagens conversam ao explicar os conceitos à protagonista mulher e ao leitor. Vítima de estupro também, a protagonista desta novela ao menos teve o privilégio de agir além das situações impostas as demais personagens femininas, tomando posição de destaque conforme as qualidade alheias ao sexo.

Ultra Carnem entrega uma ótima história, restrita a quem possuir estômago forte ao digerir palavras impiedosas, capazes de tornar os cenários vívidos na mente do leitor, sujeito a pressentir uma assombração puxando pelo pé a qualquer momento durante a leitura. Certas considerações pontuais poderiam ser cortadas ou aperfeiçoadas e assim prevenir alguns constrangimentos ao longo da leitura.

“― Parece que Deus estava distraído quando aconteceu”

Ultra Carnem - capaAutor: César Bravo
Publicado em: 2016
Editora: DarkSide
Gênero: horror / sobrenatural / fantasia urbana
Alertas de Gatilho: suicídio / estupro (em mulheres e homens homossexuais) / violência extrema
Quantidade de Páginas: 384

Confira o livro

* citação transcrita conforme impresso na edição, com erro de concordância verbal

Romancista Como Vocação (Haruki Murakami)

Quando o autor idoso possui mais da metade do tempo de vida de carreira na escrita, ele deve possuir algum conhecimento literário. Sarcasmo à parte, toda a trajetória de vida vira fonte de aprendizado quando o escritor decide contar a própria vida, das maneiras e dificuldades encontradas ao insistir em contar histórias. Conhecer as variadas técnicas de escrita criativa é importante, apesar da literatura também ser produzida a partir da experiência, e vale a pena ao menos conferir o trabalho do autor disposto a compartilhá-la.

Romancista Como Vocação é a autobiografia de Haruki Murakami, o autor disposto a compartilhar o pouco que aprendeu na vida. Publicado em 2015 e trazido em 2017 no Brasil através da editora Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras ― sob a tradução de Eunice Suenaga, a escrita fluida de Murakami persiste nas breves passagens de aprendizado.

“Mas por que um escritor tem que ser um artista? Quando isso foi decidido, e por quem? Ninguém decidiu isso”

Cada capítulo consiste em perguntas feitas a ele ao longo da vida, algumas o autor revela sentir intimidado pela incapacidade de respondê-las em poucas palavras. Por mais simples seja a pergunta, ele considera toda a experiência ao responder, precisando de palavras o suficiente a escrever este livro. Combina as respostas práticas com aspectos de sua vida, fala desde o trabalho como dono de clube de jazz à premiação a garantir o primeiro livro publicado, até a carreira internacional a partir das publicações feitas nos Estados Unidos. No meio de toda essa jornada, tem lições a novos escritores sobre as possibilidades de criar histórias e desenvolver a carreira literária.

“Essa é minha opinião, mas isso não muda muita coisa”

Toda declaração presente em Romancista Como Vocação é de cunho pessoal, e Murakami faz questão de afirmar e relembrar disso. O leitor tem a oportunidade de conhecer detalhes pessoais do autor, um resumo da trajetória após garantir várias publicações de sucessos comerciais. Garantiu poucos prêmios, e ele comenta sobre o assunto em determinado capítulo, dá opiniões sinceras sobre as premiações, tudo condizente com as declarações dos demais capítulos, ou seja, passam longe de serem desculpas por deixar de vencer os concursos ― inclusive o prêmio Nobel de Literatura.

Apesar dos fãs de Murakami ainda poderem aproveitar este livro, o conteúdo é dedicado a autores e aspirantes, afinal o foco é óbvio. Só deixa de ser tão claro a utilidade das dicas passadas pelo autor japonês. Os escritores precisam estar dispostos a acompanhar as maneiras encontradas pelo autor de seguir na carreira e avaliar quais delas seriam viáveis na própria rotina. Murakami é restrito quanto as dicas, compartilhando as bem sucedidas para ele, e é honesto ao confessar a inviabilidade de servir a quem ler, inclusive faz comparações a comportamentos dos demais autores japoneses e revela a diferença dele com a maioria. Lembrando da nacionalidade dele, Murakami fez carreira nos aspectos do mercado editorial no Japão ou até em fatores sociais — entre eles o sistema educacional da época —, inclusive lembra o leitor da situação política do país durante sua vida, do Japão em crise após a Segunda Guerra Mundial. Mesmo quando começou a publicar nos Estados Unidos teve de adaptar a forma de trabalhar por ser japonês, então cabe ao leitor fazer o mesmo, conferir as dicas e verificar a possibilidade de ajustar a própria realidade, isso caso a dica funcione.

Romancista Como Vocação é um resumo da vida do autor. O conteúdo também convida aos escritores encontrarem os meios de produzir literatura a partir da reflexão das dicas oferecidas por Murakami. São ensinamentos prático e rasos, há livros sobre escrita de melhor conteúdo, escrito por profissionais com experiência em formar escritores, entre eles o trabalho da Francine Prose, enquanto este é limitado a dicas pontuais e ainda incertos da utilidade; ao menos o autor é honesto em afirmar isso.

“Eu já havia me tornado romancista; e a vida é uma só”

Romancista Como Vocação - capaAutor: Haruki Murakami
Tradutora: Eunice Suenaga
Ano da Publicação Original: 2015
Editora: Alfaguara ― Grupo Companhia das Letras
Edição: 2017
Gênero: Não ficção / autobiografia / escrita
Quantidade de Páginas: 168

Compre o livro

A Plague Tale: Innocence (horror medieval)

Há diversas ficções ambientadas em Idade Média, seja em livros, seriados ou games; isso tudo nas produções atuais. No tempo onde vivemos dentro de salas fechadas, restritos às obrigações cotidianas, indo de ponto a outro em ruas focadas a transportes velozes a ponto de mal ver o mundo ao redor; as ficções medievais mostram a aventura de tempos mais simples, da liberdade de trafegar pelos vilarejos e cidades — liberdade concedida apenas a certos personagens — e o mais importante: destaca os cavaleiros, guerreiros imbuídos de honra ou perseguidores de sonhos alcançáveis através dos punhos, da armadura resistente e espadas lendárias.

Há outras ficções capazes de lembrar os horrores nos tempos de cavaleiros, onde os poucos privilegiados de se armarem obedeciam ordens cruéis, livres a destruir casas e famílias sem sofrer alguma penalidade. E lembremos das doenças, mortais pelos conhecimentos limitados da época. A Plague Tale: Innocence retrata este lado da Idade das Trevas. Publicado em 2019 pelo estúdio Focus Home Interactive e feito pela Asobo, a garota Amicia e seu irmão mais novo devem sobreviver às atrocidades cometidas pelos destemíveis e temidos cavaleiros da Inquisição.

“Para constatar o quão inescapável a religião é na sociedade”

Amicia é a filha mais velha da família Rune. Convive a maior parte do tempo com o pai cavaleiro, enquanto a mãe alquimista vive ocupada em formular poções a tratar do irmão mais novo, Hugo, nascido com a Mácula no sangue. Amicia vai a caçada junto ao pai, armada apenas com atiradeira de pedra contra o javali à vista. O cachorro da família também ajuda na caça, fareja a caça em fuga e segue adiante, mostrando à garota onde percorrer. Amicia perde o cão de vista, tenta procurá-lo e encontra o javali morto, com a carne já estragada, e ao andar mais a frente, vê o animal de estimação sendo puxado por um ninho negro, morto enquanto caía.

Mal conseguiu notar que aquela ameaça é uma ninhada de ratos, o pai manda Amicia retornar ao lar da família e alertar sobre o perigo. Enquanto ela conversa com a mãe Beatrice, a Inquisição chega, rende o patriarca da família e o executa. Amicia então foge com o irmão caçula, o início da jornada de terror contra os cavaleiros da Inquisição e dos portadores da Peste Negra capazes de devorar pessoas em segundos ao agirem em conjunto: os ratos.

Ratos, os portadores do terror

Quando chega nesta cena, sabe que o terror não está para brincadeira

“A alquimia fascina cientistas tanto quanto inspira artistas”

O jogo trata da jovem incumbida de cuidar do irmão mais novo enquanto toda a Inquisição busca por ele. A jogabilidade furtiva mescla o enredo de sobrevivência e colabora ao criar tensão, pois ao verem Amicia, os cavaleiros avançam dispostos a cravar a espada nela sem remorso, pois eles cumprem ordens, mesmo havendo nenhuma honra em violar uma garota. O desespero molda as habilidades da protagonista, obrigada a usar os poucos recursos consigo e sobreviver, a ponto de assassinar cavaleiros.

Depois revela o estopim de toda a ação da Inquisição: a infestação de ratos em vários locais da França. Portadores da Peste Negra, a quantidade absurda desses animais conseguem roer a carne de humanos em segundos. O “escudo” contra essas criaturas está na luz, podendo manipular até aonde os ratos vão impondo a iluminação neles. Por outro lado basta um segundo com o pé na escuridão, e as pequenas feras devoram a protagonista ainda viva. Imponente contra os cavaleiros e até nesses pequenos animais, fica instaurado o clima de terror na jogatina.

Escuridão - A Plague Tale

O chão escuro é lava, representada por ratos

Tensão define cada momento do jogo, inclusive nos conflitos entre irmãos. Longe dos pais, precisam cuidar do outro apesar das desavenças, na diferença de idade e dos problemas singulares de Hugo. Novos personagens surgem na jornada com conflitos próprios, sob meios em comum para aliarem aos dois irmãos. Os aliados oferecem novas opções a prosseguir pelo cenário, seja por ações deles ou ensinarem Amicia a produzir outra ferramenta. Por outro lado a inteligência artificial deles também podem atrapalhar o jogador, ficando no caminho a ponto dos inimigos te verem por causa disso ou falhar em dar a devida cobertura a Amicia quando prometem fazê-la.

“Por força da ética, ele [o Manual do Inquisidor] favorece o bem maior acima do bem individual e advoga por sentenças cruéis para dar exemplos que aterrorizem a população”

Com o tempo o clima de terror perde a força por causa dos recursos disponíveis ao jogador. As ferramentas das mais diversas utilidades tocam o terror nos cavaleiros, podendo até abrir mão da furtividade e enfrentá-los de frente, tornando a jogabilidade até fácil. Isso vale até determinado ponto, pois a parte final reserva novas mecânicas dos inimigos capazes de restaurar a ameaça original e aumentar a dificuldade.

Tragédia - A Plague Tale

Tão jovens, e já veem o pior da humanidade

De progressão linear, as atividades secundárias consistem em encontrar itens especiais. Entre flores, presentes e artigos curiosos, todos ficam “escondidos” ao jogador achar e descobrir mais do ambiente e contexto retratado. O mais interessante é estarem dispostos em lugares correspondentes a função deles, nenhum item foi forçado a permanecer em lugares secretos só com intuito de dificultar o jogador, tornando esses detalhes mesclados a tudo representado nesta ficção.

A Plague Tale: Innocence entrega algo diferente nas histórias medievais, pois transforma os “admiráveis” cavaleiros em vilões e impõe a perspectiva sobre a dupla de crianças inocentes que precisam fazer atrocidades ao sobreviver neste clima de terror tão bem retratado — exceto em parte do enredo — e aproveitado pelos criadores.

“Matem a irmã! Peguem o garoto com vida!”

Desenvolvedora: Asobo
Distribuidora: Focus Home Interactive
Lançamento: 2019
Gêneros: stealth / terror / aventura
Idioma: legenda em português

Compre o jogo

Vidas Secas (e a triste história da cachorra Baleia)

Chegamos em outra história onde o espaço vivido pelos personagens os molda. Difícil importar por algo a vir na frente enquanto agoniza no momento presente. Ciente do lugar e da pobreza, faltam escolhas disponíveis a agir, sobreviver neste tipo de vida. Isto na possibilidade de ao menos existir tal escolha, na verdade, tão raras ao ponto de exaltar, divagar nas possibilidades antes da vida lhe forçar no único caminho. Reconhece o papel na sociedade, papel de bicho, sem jamais perder as esperanças.

Vidas Secas moldam a família de Fabiano, sinha Vitória e ― claro ― a cachorra Baleia. Publicado pela primeira vez em 1938 por Graciliano Ramos, o Grupo Editorial Record lançou a edição comemorativa de 80 anos em 2018, dispondo trechos do manuscrito original de cada capítulo rabiscado à mão pelo autor, exceto no conto Baleia, onde a versão final divide cada par de páginas com o rascunho do texto sob edição.

“Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça”

Fabiano perambula pelo sertão junto à família, composta da esposa sinha Vitória, os dois filhos identificados por todo o romance em menino mais velho e menino mais novo, e a cachorra de nome curioso, Baleia. Tinha papagaio também, este já comido pela família, devido a falta de alimento na perambulação. Os pés eram moldados pelos seixos no solo, aliás todo o corpo era moldado na seca. Um dos filhos cede ao cansaço, logo recuperado pela bronca de Fabiano, único meio de encorajar o filho. Eles chegam enfim a algum lugar, em terreno abandonado onde eles ocupam, conseguem trabalhar e manter um teto sobre as cabeças. Conquistam alívio, pena encontrar novas dificuldades em breve.

“Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo”

O romance veio a partir de Baleia, de início era o conto isolado, até depois inspirar Graciliano a rabiscar mais capítulos sobre a família de Fabiano. A cachorra humanizada pela narrativa sofre os últimos momentos de vida, confusa de tanto sofrimento sob o punho de quem sempre lhe cuidou e tratou feito família. A escrita esboça o medo sentido pela personagem, a reação dela com toda a dor, e finaliza revelando o desejo dela, deixa o fim implícito para o leitor sentir o desfecho da coitada. Igual a raposa de Ninho de Cobras, a cachorra sofre a descoberta da tragédia, e a história desta repercute na criação dos demais capítulos, de certo modo sendo contos entrelaçados na mesma narrativa, sobre os acontecimentos anteriores e posteriores deste episódio da Baleia.

Quanto ao resto da narrativa, é sobre a história de toda a família. Dedica capítulos/contos dedicados a cada personagem, bem como alterna o ponto de vista de um a outro entre os parágrafos. Fabiano toma a maior parte da narrativa pela proporção da responsabilidade. Seus defeitos são explorados na história, sempre lembra da família a cuidar diante das oportunidades perdidas por causa dela. Sinha Vitória tem as devidas responsabilidades, além de sobreviver por meio de desejos e da sabedoria a qual Fabiano aprende admirar. E sobre os filhos, é melhor ler o final do livro e descobrir por conta própria, admirar a esperança resiliente mesmo nas dificuldades impostas.

“Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha”

Capítulos breves e de pouca quantidade provocam o defeito do livro em ser curto demais. Por nascer do conto, o autor acrescentou mais narrativas breves até formar a história estreita, restrita à família. Vê pouco além dos personagens principais, apesar do ambiente bem explorado. Ao ler as passagens de cada membro da família, já tem a consciência de a história logo acabar, e disso vem o desejo negligenciado de ler mais sobre Fabiano e companhia pelas poucas páginas restantes.

Vidas Secas demonstra domínio em impor peso dramático sobre os ombros dos protagonistas. A escrita reflete no comportamento dos personagens, os deixam próximos ao leitor e faz este imaginar toda dificuldade passada por eles, com oportunidades humanas tão escassas, que por vezes passam a viver feito animais. Ao mesmo tempo atribui humanidade à cadela quiçá mais importante da literatura brasileira.

“A catinga ficaria verde”

Vidas Secas - capaAutor: Graciliano Ramos
Publicado pela primeira vez em: 1938
Edição: 2018 (especial de 80 anos)
Editora: Grupo Editorial Record
Gênero: ficção regional / clássico
Quantidade de Páginas: 320

Compre o livro

Bloodchild (Outro incrível conto da Octavia E. Bulter)

Humanos são animais sencientes. Classificamo-nos ainda seres racionais, cujo raciocínio garantiu nossa sobrevivência acima dos demais animais, dentre eles os alheios do nosso convívio, distantes da tecnologia exclusiva da nossa espécie. E dominamos os animais submissos, com acomodações condizentes a sua utilidade, deixando-os proliferar e os engordando até o abate, ou adotamos outra espécie na busca de trocar mimos e ter mais estima. E se existisse uma espécie racional e superior a da humana? Nada impediria fazer o mesmo conosco.

Bloodchild* mostra a relação entre humanos e esta raça superior. Lançado em 1984 por Octavia E. Butler, este conto de ficção científica traz o terror da submissão em servir de hospedeiro a novos indivíduos alienígenas.

“Você não é dela. Você é apenas propriedade dela**”

Os Tlics dominam o mundo habitado por Gan, um dos humanos Terrans. Gan vive com a mãe e irmãos em ambiente controlado chamado Preserve, onde os Tlics cuidam das famílias humanas, alimentam e acariciam. Em troca, toda família deve ceder um filho ― de preferência masculino ― ao Tlic, conforme regulamenta o governo, para servir de hospedeiro aos ovos da raça superior. T’Gatoi é a Tlic responsável por cuidar da família de Gan, e ela mesma plantará ovos nele, o hospedeiro escolhido daquela família. Um vizinho está prestes a dar a luz às larvas da Tlic ausente no momento, e T’Gatoi realiza o parto em seu lugar, com a ajuda de Gan, que testemunha o nascimento da raça alienígena, de como acontecerá a ele em breve.

“É melhor permanecer assim e saber que ela me amou mesmo sob toda essa obrigação, orgulho e dor”

Contado na perspectiva do garoto, ele fala da rotina inerente a dele, trazendo pouco significado ao leitor a princípio, pois ainda aprenderá a situação do personagem conforme a história acontece. Esta forma de narrar é típica da autora, presente também em Parábola do Semeador, primeiro demonstrando a humanidade dos protagonistas, então deixa o elemento extraordinário da história mais visível aos poucos, e quando a realidade da história vem a tona, o leitor já está fisgado, pronto a acompanhar o protagonista até a resolução. Novas informações vêm sem pressa e terminam de amarrar as questões pendentes.

Outra característica de Octavia é chocar, sendo direta na situação descrita, confiante de a cena em si provocar receios quanto aos personagens e reflexões sobre nós mesmos. Neste conto a humanidade é submissa de outra espécie, usada como meio de proliferação, cuidada apenas por ser útil a raça superior, de forma semelhante de tratarmos os animais de gado, essencial na alimentação de muitos de nós. Tem ainda a questão dos homens serem a preferência dos alienígenas na procriação, algo inédito a este gênero sexual, e imposto por quem domina e governa esse mundo com leis nada favoráveis a seres de minoria.

Mesmo assim vai além da submissão à força. Os humanos são seres racionais, apesar de estarem numa camada inferior da outra espécie, e o conto aproveita essa característica ao demonstrar a relação com os Tlics. A espécie submissa ainda pode argumentar, pois são ouvidos pelos alienígenas interessados em buscar o consentimento. Ainda pode haver diálogo, e assim a autora mostra caminhos a melhorar de vida, mesmo sob as piores e extraordinárias situações.

Bloodchild exercita a humanidade mesmo sob dominação de seres superiores. Traz temas desconfortáveis na reflexão gerada durante a leitura de ritmo consistente tanto de escrita, quanto de construção do enredo neste conto.

“Eu sabia que o nascimento era doloroso e sangrento, não importa a maneira”

* Conto lido e analisado no idioma original (inglês)

** Citações traduzidas pelo resenhista

Bloodchild - capaAutora: Octavia E. Butler
Ano de Publicação Original: 1984
Edição: 2014
Publicado por: Headline Publishing Group
Gênero: ficção científica / conto
Quantidade de páginas: 31

Compre o livro

Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Existe algo em comum entre a categorização desta obra em romance moderno e a repercussão após a publicação: incitou discussões interessantes sobre quedas de paradigmas. No primeiro caso há a disputa com livro Dom Quixote quanto a qual dos dois inaugura como romance moderno, no segundo tem acusações direcionadas ao autor por transgredir conceitos já estabelecidos, seja provocar paródias sobre romances de cavalaria ou desnudar o adultério em meio a críticas à moral cristã e demais insinuações de deboche do autor. As qualidades vão além dessas, como será visto ao longo desta resenha.

Madame Bovary é a obra geradora de polêmicas e qualidades literárias. Publicado pela primeira vez em 1856 por Gustave Flaubert e com edição em 2007 pela editora Nova Alexandria sob a tradução de Fúlvia M. L. Moretto, conta da rotina provinciana em vila remota francesa e das aventuras de adultério cometidas por Emma Bovary.

“Aliás, não era ela uma mulher da sociedade e uma mulher casada? Uma verdadeira amante, enfim?”

Primeiro apresenta Charles Bovary desde a infância, um garoto tímido com dificuldade de falar o próprio nome, incapaz de conquistar reconhecimento ao longo da vida. Mesmo depois de estudar medicina, conseguiu apenas graduar como oficial de saúde em vez de doutor, e ainda assim com dificuldade. Segue na vida adulta, ausente de acontecimentos extraordinários. Tem uma esposa, cujo matrimônio dura pouco pela morte abrupta dela. Viúvo ainda jovem, trocou olhares com a Emma, filha do cliente Sr. Rouault, e logo realizou o novo casamento.

Deste momento em diante a Sra. Emma Bovary ganha espaço na narrativa. Ela sofre infelicidades a princípio difíceis de reconhecer, pois o matrimônio soa diferente dos muitos conferidos por ela nos romances literários. Alcançava algum prazer na vida quando interagia em ambientes alheios aos do marido, desejando tê-los com mais frequência e assim conhecer mais pessoas interessantes, homens interessantes… Primeiro com León, e com Rodolphe fica mais intenso. Ela cede à loucura de romper o compromisso fiel e sucumbe no amor vindo de alguém diferente a quem prometeu amar.

“[…] considerava a música menos perigosa para os costumes do que a literatura”

O foco narrativo alterna durante o romance, e isso acontece de um parágrafo a outro, focando também nos demais personagens além do casal protagonista. A mudança de perspectiva adapta não apenas o que o personagem focado presencia, mas ainda reflete o pensamento dele, expõe a opinião sobre determinado assunto conforme a experiência de vida, esta também relatada quando preciso. Nenhuma mudança de foco ou abordagem é explícita, cabe ao leitor perceber as nuances conforme a leitura, favorecendo assim o ritmo narrativo, interessado em mostrar a história.

Tal cuidado permanece na forma de conduzir as descrições, oscilando entre diálogos expostos ou descrevendo a fala do personagem no mesmo parágrafo, este último é na verdade um recurso com que garantiu reconhecimento ao autor pelo uso do discurso indireto livre, aproveitado em obras posteriores ao constatar sua eficiência. Assim uma cena com inúmeros personagens interagindo e conversando poderia ser escrita sem precisar de cada passagem dita em diálogo, fundindo falas com a narração, pintando tudo num mesmo quadro ao invés de desmembrar a imagem descrita em parágrafos quebrados.

Ambientado em vila humilde, a história tem propostas e críticas ousadas na época quando foi publicada. Discute as mudanças políticas após a Revolução Francesa conforme as interações entre os personagens for oportuna. Provoca ceticismo ao cristianismo a partir de determinado personagem numa época e país em que desenvolveu o iluminismo. Já a trama central nem precisa de comentários, a de tornar protagonista uma mulher adúltera, uma afronta aos bons costumes! Além de outras segundas intenções pontuais, sempre a implicar a sociedade pretensa a manter as aparências sem esforçar em corrigir as condutas quando elas estão ocultas.

Madame Bovary é um trabalho de destaque em seu tempo por transgredi-lo e sugerir novos meios de contar uma história. Dentre outras qualidades, abriu oportunidades a romances posteriores em arriscar, questionar valores vigentes por meio do exercício literário.

“Ela bem que gostaria de apoiar-se em algo mais sólido do que o amor”

Madame Bovary - capaAutor: Gustave Flaubert
Ano de Publicação Original: 1856
Editora: Nova Alexandria
Edição: 2007
Tradutora: Fúlvia M. L. Moretto
Gênero: ficção / clássico
Quantidade de Páginas: 360

Compre o livro

Passei dos Limites (ou conto para não enlouquecer)

É isso, cheguei ao limite. Perdi oportunidades de ver pessoas queridas, agora perdidas. Gastei horas em troca de dinheiro, dinheiro em troca de conforto, conforto em troca de mentiras. O problema da mentira é quando a gente a descobre, descobre que a vida está condenada, fracassada, predeterminada a aprisionar as pessoas a fazer o bem. Chega! Foi a gota d’água eu precisar de atendimento e faltar condições de chamá-lo. Era atendimento público, e precisei da iniciativa privada a pedi-lo, eu teria quatro dispostos: um telefone fixo, uma conexão de internet, e dois chips de celulares. Tudo desconectado, e não foi por causa de azar. Longe disso! Foi omissão, omissão dessas empresas, omissão do governo local em falhar em desenvolver a região em vez de só propagandear voos de pombos como se fossem gaviões. A omissão foi minha, de ter me segurado por tanto tempo. Desta vez agirei.

Visto a camisa mais surrada, tal meu estado atual. Nada de jeans, esta bermuda preta ocultará a sujeira prestes a fazer. Tênis também surrado, só evitando de sujar meus pés. Saco a lâmina, exauri de amolá-la todo dia, corta só de olhar seu fio. Pego também o martelo, combinarei golpes com as duas ferramentas. Mãos suam, antecedem a ansiedade da loucura a realizar em breve. Tanto faz, cansei de deixar de fazer algo só por dizerem ser errado. Hoje eu posso arrebentar tudo.

Está ali, na minha frente. Como uma muralha até onde posso chegar, igual o guarda em Diante da Lei de Kafka a impedir-me de entrar na Lei, exceto eu me recusar a esperar. Abrirei caminho na base do martelo. Acaricio na altura da nuca, imóvel, quase sinto o suor de enfim me ver tão perto, tão próximo de cometer esta loucura. Hoje ninguém rirá, cansei de recuar. Vou apenas avançar, ataco o martelo onde acariciei e destruo aquele pedaço inútil deste que pensa em nada.

Adrenalina corre pelo corpo. Eu estou certo, agora é a hora! Esmurro outras vezes. Cinco, sete. Perfuro a lâmina no ponto vital deste já inconsciente, pressiono e afundo carne adentro com o impulso do martelo, respingando tudo em mim. Adiantou em nada vestir bermuda preta, sujeira impregna a cada golpe, pena só ter roupa de cor diferente da qual arranco dele agora. Apenas detalhes, nada impede de eu continuar agora, a bater, bater, esmurrar. Quebro pela última vez, agora é só aparar com a lâmina. Riscar, diluir a superfície e revelar camadas internas, forjar sulcos. Poderia pegar a lixa, mas prefiro deixá-lo rústico, com as marcas de minhas mãos, continua belo assim, e a falta de delicadeza reflete meu estado atual, a arte funciona deste jeito, mesmo em mãos grossas e peludas e sujas, empoeiradas. Os últimos acertos foram na parte pontuda, neste queixo fino, eliminando gorduras desnecessárias.

Perco o fôlego, até a vista por momentos, o momento de suspiro e o de liberdade. Quem é a Lei agora, Kafka? Toco no meu trabalho, neste gesso lapidado até tornar girassol, cujas pétalas estão ligadas ao formato de coração. Sendo gesso, é incapaz de seguir o sol, por isso lapidei neste formato. Esta arte nasceu do meu peito, e ela sempre refletirá nisso: nada mais irá me omitir.

« Older posts Newer posts »

© 2020 XP Literário

Theme by Anders NorenUp ↑