Saí da Bahia faz oito minutos, e já vejo a reconstrução do Cristo Redentor na antiga capital carioca.

Cinco horas e 27 minutos até a conclusão do dia, segundo o implante de meu pulso, que só pisca em vermelho. As fileiras de arranha-céus ficam inúmeras entre Rio e São Paulo, tão apertados, quase tocam no trem! Desabilito minha visão e volto a enxergar somente as paredes internas do vagão. Claustrofóbico e ao mesmo tempo maravilhado passar por esses trilhos aéreos, mas… Chega.

Toco no óculos virtual. Pisco três vezes diante da televisão agora visível e começo assistir vídeos engraçados de gatos. Pergunto-me se o senhor ao lado assiste a cidade no lado de fora, ou se assiste algo na TV como eu; assistiria alguma das telenovelas ancestrais de três milênios atrás? Preciso parar de bisbilhotar.

Exceto com Elísio, sobrenome F4. Toco no dispositivo de meu pulso, aciono o contato dele e só recebo a luz vermelha, ligação negada. Sempre estava presente na OlNew Techisan. Era meu tutor, apesar de possuir um terço de meu tempo de experiência absoluta. O prodígio, o vencedor. Melhor rendimento da empresa, o melhor do xadrez e o melhor em corrida. Abandonou o esporte quando decidiu trabalhar remoto e viver em casa. Tornou-se o melhor em palavras-cruzadas, o melhor programador de inteligência quântica, primeiro lugar nos últimos quatro torneios de BlooBlend nas três modalidades do jogo; céus, sua lista de conquistas não termina!

— Com licença, senhor?

Uma moça 4,3 centímetros mais alta. Pele bronzeada, olhos puxados, o cabelo dread atinge suas pernas, três argolas pequenas no lábio inferior esquerdo. Metabolismo mega acelerado instalado em seu sistema vital. Nome: Saras S4P0H2.

— Sim. Antônizo Z3F1, prazer. — Concedo acesso a interação.

— Muito gentil. — Sorri e pisca seus olhos vermelhos na cor violeta. — Procuro encontros para um breve bate-papo. Participo do torneio de cafés aleatórios, quero ganhar na categoria melhores conversas.

— Desconheço esta competição, Saras. O que consiste esses cafés?

— Visitamos uma cafeteria, tomamos algum lanche, perguntamos o porquê da escolha de cada um, conversamos sobre nossos trabalhos, nossas competições. No fim sorrimos e nos despedimos. Só isso.

Acesso seu ranking e vejo sua posição: 12449, nada mal. Pelo sobrenome, é uma cidadã de terceira classe, grupo bastante amigável. Merece posição melhor, esta moça linda, gentil, de bom estilo e bom gosto musical; até ouve aquela banda anciã, Legião à Nova Urbana.

— Eu queria te ajudar. Lamento enfrentar um problema pessoal neste exato momento, moça.

— Obrigada. Espero não ser um problema grave. Aproveite o resto do dia.

Ainda trocamos sorrisos e despedidas. Apesar de ela ganhar alguns pontos, cai no ranking, agora 12530. Temo seu sobrenome denegrir de H a I, ou até J; eu mesmo tenho certeza virar Z3G2, uma pena, gosto de ser Z3F1.

Tão próximo do F4, ainda assim distante. Elísio insiste em me recusar. Vive recluso, ganha de tudo, mesmo sem avançar seu sobrenome a F3. Tive pesadelos de ver 0 em seu registro vital. Irei salvá-lo!

Saio do metrô na plataforma municipal Bom Jesus dos Perdões. Sem a denominação dos municípios, fico perdido onde estou. Tudo é igual, tão avançado, passageiro…

— Com licença, posso ajudar?

Meneias Z6O3, de boné azul e jaqueta de couro artificial, poucas vestes metálicas comparadas a mim. Função principal: localizador.

— Antônizo, Z3F1. Quero localizar o lar de um rapaz.

— Temo o rapaz reprovar essa exposição de sua localização. — Ele fita meu pulso de luz sangrando de chamadas negadas. — Eu posso instruir onde ele mora, mas preciso advertir: o senhor pode violar uma lei muito grave.

— Não precisava lembrar, Meneias. Estou ciente, só faço isso porque temo pelo pior.

— Torço pelo sucesso do senhor. — Pisca seus olhos castanhos em azul e transmite a informação. — Odiaria ler outra notícia de assassinato pela manhã, igual a de Pedreira da semana passada.

Lembrar daquilo gela minha espinha. Foi um episódio trágico, e eu quero evitar acontecer hoje. Nenhum de nós dois precisa morrer.

Vou ao corredor a direita, entro na fila. Tudo é tão apertado! Pisco duas vezes, as paredes somem da minha visão, pisco de novo e tiro os arranha-céus do horizonte. Isso! As estrelas, as luzes que viajaram milhões de anos me alcançam agora por este céu escuro. Escuro. Escuridão pode abraçar meu amigo. Não! Não é legal estar no escuro. Volte os prédios, venham as paredes. Fito quem está na minha frente da fila. Pele morena, bem pequena, cachos negros e alguns de azul, vestido de prata refinada com detalhes de ônix, ombros expostos com tatuagens tribais de neon cor amarelo. Amarelo, uma boa cor. Avalio seu estilo com nota alta, ela vira para mim e agradece antes de entrar na cabine.

Entro após ela se transportar. Transmito a localização obtida por Meneias na tela. Cabos plugam na interface do meu cérebro, deixa-me inconsciente, e desperto na cabine de destino.

Estou na rua Categoria 5 Sub 7 Letra C. Elísio está no segundo condomínio a frente, terceiro prédio da fileira Ícasus, décimo nono andar. Atravesso a entrada do condomínio, sem guardas, profissão suspensa há séculos por falta de necessidade, é o que dizem. Existe uma profissão do que pretendo fazer ao meu amigo? O termo intrometido ainda me define, entretanto prefiro o mesmo da eterna capital da Bahia.

Entro no prédio. O tapete aciona a estática e atrai toda a sujeira de minhas botas, limpa meu calçado e causa cócegas na solas do pés. Lembra minha infância, quando pai dizia como era andar descalço na grama. Ainda não visitei o campo, desconheço como é pisar em piso feito de grama. Azulejos são confortáveis.

Acesso o poço de elevador. Eletromagnetismo envolve meu corpo, impede a ação da gravidade até eu transmitir qual o andar de destino, então me puxa pelo túnel vertical. Aumenta a velocidade, é um elevador avançado, identifica meu pavor pelas paredes próximas e encurta minha ansiedade pela passagem em menor tempo. O sistema falha, continuo nervoso.

Eletromagnetismo me leva ao corredor do piso antes de soltar meu corpo e voltar ao poço. Três, sete, onze, quinze portas. Quinze apartamentos neste corredor, digamos, apertado. Todos com isolamento acústico, apenas um trancado, o de Elísio.

Notificação acende em meu pulso. Mensagem: “Vá embora”. Sem opção de resposta. Aproximo da porta. Outro aviso, este da secretaria de segurança pública, um alerta. Dou outro passo até o apartamento, recebo multa, caio em todos os rankings vinculados ao meu nome. Pouco importa, Elísio! Denuncie à vontade. Por mais que negue, eu quero te ajudar.

Pulo na parede. Ele dispara com a pistola modelo Protetor. Faz buraco em sua porta, passa rente sobre minha nuca. Um segundo atrasado e eu seria desligado.

Ouço Elísio chorar. Derruba a arma e grita:

— Não invada meu espaço!


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