Segunda e final parte do conto “Lembre-se, Setembro”. Clique aqui caso ainda não leu a primeira parte.

Transição - lembre-se, setembro

Desconheço este rapaz. Era um forte candidato às competições de gentileza, solícito a qualquer hora do expediente e fora dele, silencioso nos últimos dias presentes na OlNew. Este mesmo garoto acaba de disparar contra mim. 

— Tudo bem, Elísio! Tem razão. Só chegarei mais perto se me permitir. 

— Proibo — diz entre soluços —, vá embora. 

— Nego a ir longe de ti. Precisa de ajuda! 

Ouço ele pegar algo do chão. Meu sistema consciente me alerta, está com o Protetor de volta na mão. Sem alerta de perigo, Elísio aponta em outro alvo, nele mesmo! Um disparo de corrente elétrica ecoa dentro de seu apartamento, em seguida um baque de metal leve no piso. Largou a arma, bom. 

Porta abre sozinha, revela meu amigo sentado contra a parede. Colete aberto de safira em cima da camisa de algodão, calças à moda antiga de moletom nas pernas, ainda com os calçados modelo B nos pés; todo esse vestuário do corpo encharcado de lágrimas, cabelo tampa o olho esquerdo, vejo somente o direito, íris pisca entre amarelo e vermelho. Que permaneça amarelo. 

Recebo notificações seguidas da Secretaria de Segurança Pública. Todas as queixas anuladas, multas e penalidades ao meu sobrenome canceladas. Disparo uma mensagem de texto, “Posso ir?”, e Elísio vê, sem responder de volta. Olha a mim, seu peito infla demais e esvazia depressa, treme a cabeça, mas enfim assente. 

Levanto a perna devagar. Encosto a ponta da bota no chão, deslizo sem provocar ruído, sem pressa de colocar toda a sola do pé de volta ao piso. Repito o processo, deixo Elísio assimilar meu movimento. Nada brusco, braços longe da roupa. Seu peito enche menos, expira normalmente. Seus olhos param de piscar, só que fica no vermelho. 

Atravesso sua porta, se fecha atrás de mim. Sua pistola Protetor caiu longe de seu corpo, bom, seu sistema consciente ainda é capaz de interromper a autoagressão. Dobro meus joelhos devagar, os braços levantados, e sento com as pernas cruzadas. 

— Permiti você entrar. Sente-se feliz? Vamos ter esta última conversa, antes de eu conseguir hackear meu sistema consciente e acabar meu sofrimento. 

— É o que mais quero contigo, Elísio. Uma conversa, uma que garante não ser a última. 

— Você nunca desiste de mim, Antônizo. 

Não mesmo. Tenho orgulho de trabalhar ao seu lado desde quando te conheci, de sobrenome G6. Adoro sorrir ao ouvir sua risada, aprendi lições contigo onde eu não encontrei nas centenas de milhares de livros acadêmicos assimilados no meu sistema consciente; nem as milhões de páginas literárias me animaram tanto como suas conversas. 

— Sempre foi um leitor assíduo. — Elísio ri com a minha reação. — Seus pensamentos passaram pelo sistema despercebido, desculpe por lê-los. Milhões de páginas… 

— Pois é. — Sorrio de volta. — Fica fácil quando leio livros pelo meu sistema. 

— Fácil… Assimilar tudo em um segundo, sem se sentir envolvido com a sua leitura. 

— É um problema — confesso. 

Inclina sua cabeça, encara o teto. A tela de seu pulso escurece, deixa os códigos de sua própria programação de lado. Um trabalho e tanto desbloquear o acesso desta forma. 

— Li pouca coisa do jeito antigo. — Ele encara o chão. — Inclusive foi uma obra escrita há três milênios. Os Sofrimentos do Jovem Werther, clássico da literatura alemã. 

— Prefiro falar de outra obra antiga. Quem sabe uma do William Faulkner?

Permanece em silêncio por um momento. Pulso acende, processa os livros escritos pelo autor, transmite tudo na consciência de Elísio. Ri no final. 

— Entre a dor e o nada, escolho a dor. 

— Nenhum ser humano merece este desejo de se tornar nada, muito menos você, Elísio. 

— Eu nasci na classe cinco, sobrenome V2F3F2D9C1, são muitas letras. Evoluir meu sobrenome foi o objetivo de vida, como qualquer civil faz. E, como você sabe, evoluí. Exceto no último ano, preso no F4. 

— Teve uma trajetória incrível. Duvido alguém ter evoluído tanto com a mesma idade que a sua!  

Balança a cabeça, ele sabe,  é o único. Pessoas passam toda a vida incapaz de avançar sua classe. Elísio se angustia por parar de evoluir. Tudo bem, faz parte de nossa sociedade. Foi a solução do passado, assim saímos do ócio, um incentivo a nos manter ativo na vida. Seja lá o que aconteceu a este garoto, teve o efeito contrário. 

— Classe cinco. Meu pai também era desta casta, antes de me criar com apenas quatro consoantes no nome. Ele sempre me dizia sobre onde ele vivia, na área rural. Você também morou nos campos, Elísio? 

— Claro. 

Interage no seu pulso. Toca a tela várias vezes, desliza outras, ordena “em todo o quarto” por voz, e a magia acontece. 

Paredes e chão do apartamento se diluem. O teto brilha forte sobre nossos olhos, pupila demora em ajustar a entrada de luz e revelar um céu peculiar, azul demais e com nuvens brancas, sem a poluição das metrópoles. Da metade das paredes para baixo brotam vários campos de juncos, simula profundidade e faz os grãos estenderem pelo horizonte. Uma ou outra casa distante. O chão se transforma, nós dois estamos sentados sobre a grama. 

— Incrível! Sempre remetia as memórias de meu pai. Minha progressão de sobrenome nunca me permitiu visitar esses lugares. 

— Acha isto bonito, Antônizo? 

— Muito bonito. E amplo. 

— Sim. Espaçoso. Com muitas plantações de juncos, muito quente de dia e gelado a noite. Muito parecido com o Aaru, o paraíso egípcio. 

— Mas para ir ao Aaru você precisa se livrar da sua vida e ser julgado pelo Anúbis. Muito burocrático. — Elísio ignora minha risada. — Quero dizer, esses campos já estão aqui. 

Ele esfrega suas mãos, arranca uma ou outra unha. Vislumbra os campos, as imagens emuladas ao seu comando. 

— Se eu voltar… Perco a minha classe. 

— Este sistema não funciona contigo, rapaz. Foque na sua vida. 

Olhos umedecem de novo, e Elísio deixa as lágrimas escorregarem. 

Toca em seu pulso e desabilita a miragem. Grama sai debaixo das nossas pernas e revela o piso negro com desenhos brancos feitos por pequenos losangos. As paredes azul-escuro, porta de prata, teto cinza. Arrepia os pelos de meus braços, estalo os ossos da coluna sem querer; depois solto o ar. Elísio tira o cabelo sobre seu olho, os dois em amarelo. 

— Eu deixei a obsessão suprimir minha alegria. Agora me lembro o quanto era feliz em casa, nos braços da mamãe. Ela partiu cedo demais… Ela detestaria me ver tão cedo também. 

— Isso mesmo, Elísio. Está de parabéns. 

Mexe em seu pulso e faz o que poucos civis ousam proceder: oculta seu sobrenome. É apenas Elísio agora.

Seguramos na mão do outro e levantamos do chão juntos. Combino com a OlNew alguns dias de folga, quero aproveitar e vislumbrar junto com o meu amigo, visitarei onde nunca fui antes por causa do trabalho e ascensão social. Vamos descobrir juntos o que é a vida sem classificações de letras e números. Vamos juntos à vida.

Entre a dor e o nada - Lembre-se, Setembro

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