Ainda há poucos exemplos de produtoras e editoras atentas a efeitos negativos de certa cenas, capazes de comprometer pessoas sensíveis a reviver o passado traumático ou incentivar a cometer automutilação. Cenas de estupro, violência e consumo de drogas podem significar pouco à maioria dos espectadores, por outro lado transtorna a minoria quando poderia evitar apenas avisando sobre determinado conteúdo, publicando notas de alerta de gatilho.

Avisar sobre o gatilho passa longe de ser a carta branca que impedirá as pessoas sensíveis a assistir determinada cena. É muito difícil julgar a intensidade do conteúdo nas pessoas sensíveis, além de fatores subjetivos e do momento mental de quando a pessoa é exposta à cena. Mesmo assim é aconselhável manter o aviso a precaver de tais transtornos, pois o próprio público já procura saber de possíveis gatilhos antes de consumir determinada história. Também há abordagens de tema sensível sem provocar conflito a quem experiencia, até mesmo faz o efeito contrário, o de motivar o debate da situação ou traz pontos de vista esperançosos diante da problematização.

Como o blog traz questões sobre a prevenção do suicídio e publica análises de livros e às vezes de games, este artigo apresenta obras que retratam o suicídio em algum momento e aponta quais deveriam ter alerta de gatilho, além de bons exemplos de abordar esse tema sem expor os leitores/espectadores comprometidos.

Sekiro: Shadow Dies Twice, da From Software

Lançado no primeiro semestre de 2019, Sekiro foi a nova proposta da empresa reconhecida por fazer jogos desafiantes — Dark Souls e Bloodborne —, desta vez ambientando os combates no japão feudal. A cena em questão trata de um dos finais alternativos do jogo, então fica o aviso de spoiler — apesar de quem precisar saber do gatilho, pouparei dos detalhes. Este final acarreta em suicídio, prática comum no período retratado no jogo, mas poderia ter maior cuidado em expor. O problema deste ato foi ter parabenizado o personagem por executar a si próprio, servindo de exemplo a outro personagem ter uma jornada semelhante até chegar ao mesmo fim “honroso”. Evite de retratar o suicídio como alternativa.

Depois do Azul, de Élaine Turgeon

A novela foca nas consequências enfrentadas por uma família após perder a filha pelo suicídio. A irmã gêmea idêntica a falecida também sofre, pois muito veem nela o rosto da garota ausente. Sem gatilho algum, o livro sabe retratar a dor da família com a perda do ente querido, abordagem rara na ficção e que pode conectar leitores com situações semelhantes. Ao comprar este livro, parte do valor é repassado ao Centro de Valorização da Vida — CVV.

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Apesar da qualidade do livro inquestionável, pode  ser perturbador ler — spoiler Bentinho enquanto decide cometer suicídio. Chega até a procurar pelos remédios que podem fazê-lo mal, tudo ainda explícito em detalhes na narrativa. Ele decide desistir da ideia, de maneira ainda perturbadora: após ver a cena de suicídio no desfecho da peça teatral de Otelo — fim do spoiler. Em suma temos dois problemas, mostrar detalhes de como a pessoa pretende realizar o suicídio e a discussão de oferecer motivos ao realizar este ato — igual a Sekiro. Machado de Assis fez história na literatura, e apesar dessa crítica, tenho nada contra ele ou esta obra em particular, só é preciso cuidado para não levar pessoas sensíveis a este trecho apenas por ser obra clássica da literatura brasileira.

Homens Imprudentemente Poéticos, de Valter Hugo Mãe

A melhor experiência de leitura deste blog no ano passado passa mensagens lindas sobre a prevenção do suicídio. O livro trata da vila próxima à floresta reconhecida no Japão por muitos realizarem o suicídio por lá. Apesar da situação triste, Valter Hugo Mãe foca na esperança àqueles pretensos a encerrar a vida na floresta, mostra os moradores dispostos a oferecer conforto, dar a oportunidade de repensar a atitude, e por vezes consegue evitar a tragédia. Também vale notar o cuidado em trabalhar nesse lugar reconhecido por haver suicídio, o livro não cita o nome correspondente e até altera sua localização no romance, tirando o foco da floresta em si para destacar a mensagem de esperança.

É possível trabalhar com temas sensíveis e contornar esses gatilhos. Sendo “limitadores” à primeira vista, pode levar os autores a desenvolverem ótimos trabalhos conscientes, sem necessariamente conter mensagem motivadora, também pode trazer abordagens saudáveis a proporcionar debates.

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Saiba o que são “trigger warnings”, ou alertas de gatilho, sobre séries e filmes

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