Personagens clássicos de histórias em quadrinhos ultrapassam gerações e por vezes geram identidades entre os gostos dos jovens com a infância dos pais. Os enredos fecham arcos, porém as histórias jamais terminam, transportam os heróis ao tempo recente com recursos e realidade inseridos aos conceitos reciclados. A quantidade de conflitos nesses heróis é absurda, nem sempre correspondendo ao ápice dos personagens nos episódios clássicos. Também há receio quanto as adaptações das histórias em outras mídias, muitas entregando algo aquém do esperado. Esta resenha avalia uma dessas adaptações nos games.

Batman: The Telltale Series mostra a história do Batman jovem, ainda conhecendo os bandidos que enfrentará por muitas e várias vezes na trajetória sem fim. Lançado em 2016, a empresa Telltale — infelizmente falida — traz uma aventura original no jogo do Homem-Morcego.

Hora de salvar a cidade

Batman impede outro assalto de uma das infinitas noites. Os bandidos invadem a prefeitura com receio de serem impedidos pelo mito urbano, o justiceiro encapuzado com roupa de morcego, e o medo deles vira realidade. Aos poucos eles caem pelos ataques furtivos, deixando apenas o corpo inconsciente e o horror de quem ainda permanece de pé. Ocupado com os vilões, Batman flagra outra ladra aproveitando da briga para roubar o mesmo artefato da prefeitura — a meliante de vestes negras e justas ao corpo, além do capuz que lembra orelhas de gato. O Morcego recupera o item roubado pela Gata, apesar de ficar surpreso com as habilidades dela.

Após o trabalho noturno, Bruce Wayne ainda precisa cumprir outra tarefa na própria mansão: a de receber os convidados de sua festa, a celebração de apoiar o novo candidato a prefeito de Gotham, Harvey Dent. Bruce acredita nas capacidades do velho amigo a vencer o prefeito corrupto nesta eleição. Todos da mansão recuam na chegada inesperada de Carmine Falcone, líder de gangue que deseja conversar a sós com o anfitrião da festa. Na conversa entre eles, Falcone revela o relacionamento criminoso entre ele o pai de Bruce. Pego de surpresa, Bruce toma esta confissão  como calúnia, esta posta em cheque no decorrer do jogo.

Silêncio, o som da emboscada

Quem já jogou qualquer game da Telltale sabe como ele funciona. Nada de o jogador controlar os personagens ao longo das cenas. A jogabilidade foca nos diálogos, com três opções de resposta mais a alternativa de falar nada diante da interação com outros personagens. Além disso, há a parte investigativa onde podemos controlar o personagem e procurar pistas no cenário; nas cenas de ação o jogador deve apertar os comandos na tela antes do inimigo acertar o golpe no Batman.

Como demonstrado na apresentação do enredo, o jogo alterna entre a luta incansável de Batman e os conflitos na vida particular de Bruce Wayne. O jogo permite, em certos momentos, a escolha de como o protagonista resolverá o próximo conflito, pois as circunstâncias podem se resolver com a figura pública de Bruce Wayne, ou a figura obscura do Batman. As escolhas fazem o jogo evoluir e no fim trazer a conclusão do jogo e a relação com os personagens secundários.

Os vilões desta cidade precisam temer algo

Tais consequências nas escolhas podem constranger o jogador sobre as opções disponíveis no jogo, mas é um receio exagerado. O enredo no jogo é estreito, com poucas consequências, limitadas a levar o jogador a determinada cena com resultados por vezes isolados a esta, com raras exceções. As opções de diálogo interferem mais no que o personagem secundário irá reagir, seja no momento ou em outra cena posterior.

Toda obra digna do Batman deve trabalhar bem nos aspectos dos vilões, tornar as ameaças reais e acertar onde o protagonista menos espera; e eles acertam em cheio. Bruce Wayne é vítima da conspiração e corrupção que o expõe contra a opinião pública de Gotham, perde recursos financeiros e assim interfere no desenvolvimento e manutenção das ferramentas de seu alter ego.

Cenas de ação se limitam ao script do jogo, oferece nenhuma liberdade ao jogador resolver os conflitos. As investigações também oferecem pouco desafio. Programam marcas pontuais no cenário, essas simplistas demais. Na conclusão da investigação, Batman pega as poucas evidências dos conflitos e traça os acontecimentos. Tais cenas perdem a veracidade por soarem ensaiadas, quando na verdade são de ações de bandidos sob imprevistos para deixar pistas tão pontuais; sem falar da famosa capacidade do Morcego, sempre com recurso ou conhecimento de algo que dá a conclusão incomum ao aspecto banal, ou extrapola as capacidades das tecnologias e traz evidências jamais vistas por olhos humanos.

Batman: The Telltale Series leva o protagonista ao limite enquanto nos propõe a escolher entre as poucas alternativas até um dos possíveis desfechos. Peca na extravagância das habilidades do Morcego mesmo quando os recursos ficam escassos, pelo menos ainda surpreende o jogador com as capacidades dos vilões em explorar as nuances do protagonista.

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