Então há a continuação da história de Manoel

Muito bem, continuamos a ver o que acontecerá com este rapaz, até aonde ele vai.

Treze Monstros

Solidão.

Entre tios e primos e parentes desconhecidos.

Quanto mais falam, mais quieto fica. Ele é tímido; a família, opressora.

 

Faltam exatos cinco dias. Descartou os dez rascunhos anteriores, precisa escrever algo novo,  mas não será hoje.

Hoje é o aniversário do cunhado da Dona Furacão, e Manoel está na festa quando preferiria escrever seu conto do concurso literário. O número Treze não sai da cabeça, só que nada complementa o tema. Poderia encontrar alguma inspiração nesse caos?

Murmúrios penetram seus ouvidos. Sílabas aleatórias se sobressaem nas palavras dispersas. Eles falam, todos falam. Falam demais, o importante é falar. Expor a sua fala entre bifes temperados com farofa, expelir palavras entre cuspes e engasgadas. A Legião de corpos humanos se converge num quadro pitoresco de rostos distorcidos, unidos com o melhor da família brasileira. Só Manoel está divergente, cansado de ver gente.

— Fala alguma coisa, moleque! — Primo de segundo grau.

— Esse não, só fica nos compiuter! — Tio.

— Tem namoradinha? — Tia, irmã da Dona Furacão.

— Ele faz nada! Geração mimada e inútil! — Primo dois anos mais velho que Manoel.

— Vamos, filho! Pare de ficar quieto e faz alguma coisa. Tanta criança legal com quem brincar, não pode ficar só no canto. Fica demais naquele quarto, se não perde tempo no celular é com livro! Vem com a mãe, eu te levo até a filha da Juliana. Ela é bonita e ajuda a família em casa. Só estou te dizendo, Manoel, que… — Dona Furacão.

Juliana tem um dente a menos e bafo de sobra. Uma mão no cigarro e outra na bebida. As rugas de seu rosto completam os traços de um troll. A garotinha dela tem o rosto do pai, braços trabalhados de carregar produtos do mercado da família, rouba goles da lata quando Juliana se distrai; é uma duende.

Ao invés do gigante de gelo, Mateus é o gigante gordo. Pernas mal se sustentam depois de três garrafas, mas mantém a postura de rei do mundo, rei entalado no próprio trono. Já são três monstros na nova história de Manoel, só faltam dez.

Manoel vê ao redor e encontra mais. Pelos de lobisomens, pé torto de Curupira, boca escancarada de Oni bebendo cerveja, peles de zumbis, um Boitatá aprisionado nas calças de seu primo com as primas. Boca calada, mas a cabeça latejando de novas ideias.

As palavras da primeira frase estão nas pontas dos dedos, basta escrevê-las, basta fugir da Legião familiar e ficar escondido da Dona Furacão, basta fazer o impossível.

Um escorregão na cerveja derramada — ou outra coisa amarela — acaba com seus planos . Gargalhadas explodem seus tímpanos e lágrimas  escorrem com o catarro da vergonha. Dona Furacão o arranca do chão, estapeia, tenta tirar a sujeira da roupa, e puxa pela orelha até chegarem em casa.

Não grita pela dor. Os monstros deixam de existir na mente, dão lugar à decepção de si mesmo. Do garoto sem personalidade sem coragem e sem talento. Só podia se chamar Manoel.

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