Sobre o quê é este conto? Não vou dizer. Se haverá uma segunda parte, só o tempo pode responder. Acompanhe o texto a seguir, se for capaz…

Treze Dias

Escuridão

Amordaçado. Amarrado. Enclausurado

Quanto mais se mexe, mais preso fica

Ele é fraco; a prisão, opressora

Faltam exatos treze dias. Precisa correr, se dedicar e ter a mínima oportunidade de ser reconhecido pelo seu mérito. Infelizmente a meritocracia está além das exigências do edital, suas regras não abrangem os seres malignos dispostos a humilhá-lo todo dia, ignora a Menina do Caos sempre à espreita, ou a Dona Furacão em sua casa, ou a Legião que sussurra pelas feições discretas do quanto Manoel é um incompetente. 

Manoel, um nome de português. Manoel foi pro céu ninguém mais ouve. Manoel cara de pastel resume sua infância. Manoel bicho do hell é ridículo. Manoel puta de Abel é o episódio atual. 

Abel tem dois seguidores na escola e quatro mil no Instagram. O cheiro de seu chulé está impregnado nas narinas de Manoel após tantos chutes na cara. Nada acontece com o bully; Manoel sofre tudo. 

Recebe socos dele e de seus seguidores. As cusparadas escorrem pelas blusas amarradas até alcançar o rosto do garoto. Ele ouve o som do zíper se abrir, e em seguida um empurrão com a voz de Abel: 

— Esta blusa é nova, arrombado! 

— Arrombado é este verme, enrolado feito sushi. 

— Feito sushi. — Risadas ecoam. 

E os passos se distanciam. O garoto fica sozinho com as suas lágrimas e o ódio deste mundo. 

Queria participar do culto e invocar o deus cósmico de nome impronunciável. Poderia ser um estranho com o poder paranormal de explodir todos da escola, ou um lobisomem que se alimenta de humanos como se eles fossem gado. 

Manoel é nada disso. É somente humano de braços finos e pernas moles. Rebate todo o corpo, um peixe fora d’água. Rasteja feito minhoca, geme mais que um cão abandonado, rodeado apenas por urubus. 

Os movimentos desesperados tiraram a manga da blusa amarrada sobre seus olhos, mas as órbitas trêmulas voltam a chorar. O curto traço de sua visão revelou o par de tênis All Star vermelho, movido pelas pernas morenas de bermudas jeans com rasuras de desgaste. Vê ainda suas mãos e o esmalte negro incapaz de disfarçar as unhas roídas. 

Fios de cabelo negro serpenteiam sobre os olhos dele enquanto as mãos puxam as blusas. Pior do que a humilhação de Abel é ficar à mercê da Menina do Caos. Seu toque provoca doença, os lábios rachados já beijaram a morte, olhos verdes não piscam enquanto transmite o horror. 

As roupas afrouxam e Manoel pula, os braços chacoalham até as peças de roupa saírem de seu corpo. Vê a franja sempre molhada dela, desce a visão no rosto e vê um sorriso. Engole o grito, a dor invade sua cabeça enquanto o frio escorre na pele através do suor.

Pernas desvencilham e escorregam até recuperar a força e correr. Ela o encara, de joelhos sobre as três blusas. Ele olha apenas o resquício de luz na porta da saída, chora de alegria por estar livre, estar vivo, estar apavorado o suficiente para desenvolver seu manuscrito, e assustar a todos. 

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