Parte final da história de Manoel. Descubra o que acontece com este pobre garoto franzino. Ele conseguirá enfim escrever a sua história?

Treze Beijos

Humilhação.

Mãos, pés, pernas.

Quanto mais agridem, mais desesperado fica. Ele é inútil; a escola, opressora.

Falta apenas um dia. Precisa recuperar o desejo de prosseguir no seu sonho, superar àqueles dedicados desde o anúncio do concurso de escrita quando mal se tem uma ideia consistente.

Corpo queima, sangue escapa de seu corpo e lágrimas escorrem por ele não ser valente. A outra Legião atormenta com murmúrios agudos e desafinados. A sua voz não sai da boca, é engolida junto com o chute no rosto.

— Puta de Abel! Puta de Abel! Puta de Abel!

O bully ganha mais seguidores na escola. Sua conta no Instagram foi banida, e não gostava de usar a rede política chamada Facebook.

Incapaz de amenizar a dor dos murros e pontapés, a pele ganha novas tonalidades, o chão troca um pouco da sua poeira ao rosto e recebe líquidos humanos da cabeça e da cintura. Sua visão do sol oscila com o braço de quem lhe batia até ficar visível e ouvir a voz da coordenadora:

— Parem com isso!

— Ele roubou nossas blusas, tia.

— Sou tia coisa nenhuma, Abel. Se o… esse garoto roubou sua roupa, por que não nos avisou?

— Não queria tomar o seu tempo, Dona Giovana.

— Agora vai tomar mais! Saem logo daqui, depois de cuidar dos ferimentos do garoto eu resolvo o problema da roupa.

Prestes a obedecerem a senhora, gritos estridentes invadem os tímpanos. O susto invoca as mãos e tampam seus ouvidos, e quem procura de onde vem o grito pula com pernas sem força, perde a voz.

Ela está com as três blusas roubadas, uma enrolada em cada braço e outra sobre as pernas sentadas, todas manchadas de vermelho. Olhos sem pupila tremem enquanto a cabeça balança. Fios do cabelo sempre molhado saltam e rebatem contra a bochecha.

Levanta. Pernas dobradas para o centro do corpo movem a Menina do Caos na direção das crianças e Giovana. Saliva interrompe o grito, cospe antes de berrar a melodia aguda e gutural com a boca cheia de baba. Derrama as blusas enroladas com ela, os pulsos ainda sangram. Pés tropeçam e rosto entorta sobre o pescoço.

Eles fogem. Todos correm, todos clamam por piedade, todos repugnam a Menina, todos chamam Deus. Todos, exceto Manoel.

Costas formigam sobre a cintura tremida. Seus ombros não descem, braços reclamam do contato com o chão, continuam ardendo. Fica de joelhos enquanto vislumbra o terror em forma de Menina.

Esmeraldas voltam aos seus olhos. Gritos se convertem em gargalhadas. Pernas assumem a postura normal e os braços expõem os vários saquinhos plásticos com água vermelha furados.

Os soluços de choro dão lugar ao sorriso em Manoel, ela é sua nova inspiração.

Fica diante do rapaz, ajoelha na sua frente. A cabeça um pouco acima da dele. O polegar menos sujo da Menina seca as últimas lágrimas de seu rosto antes de estalar seus lábios na bochecha.

— Acompanho seus textos pela internet há muito tempo, adoro sua escrita.

Nenhuma palavra sai de Manoel, são engolidas em seco.

Recebe outro beijo. O garoto toca onde recebeu carinho e arranca mais risadas dela.

— Parou de escrever desde que aqueles rapazes passaram a te humilhar. Estou com saudade de ler contos bons, só gosto dos seus.

Segura a nuca e o puxa, traz seus lábios até ela e se beijam, o primeiro de Manoel; o décimo sexto dela.

— Permite-me ajudar com a escrita? Eu posso te inspirar. Salvar de todos os seus problemas.

Novo beijo, cada vez mais molhado.

— Escreve o seguinte: crie um conto sobre beijos! Nunca teve um nos seus textos, agora eu sei o porquê.

— Sim — respondeu.

— Isso, escreva sobre beijos — levou o rosto até a orelha dele, onde seus lábios acariciaram também —, no décimo terceiro você morre.

 

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