Dentre os breves contos publicados neste blog, acredito este ser de tema mais diferenciado e fora da minha área de conforto. Não por conta da protagonista, mas pelo estilo desenvolvido.

Boa leitura!

super minúscula - texto

 

Vou começar a contar a história dela. E não há nada melhor do que começar com este assalto.

Restaurante espaçoso. Bastava roubar uma cadeira e pagaria o aluguel de uma casa no centro. O bandido queria mais, claro. Aponta a arma no rosto do recepcionista engomado. O valentão treme a mão, disputa com a vítima quem sua mais, grita desafinado sobre a tal da grana. 

Pode apostar que todos estão com medo. Queriam ser assaltados com os preços das comidas sofisticadas, com mais enfeite do que fibra. Ninguém escolhe ser vítima de bandido. 

Mas há quem escolhe o contrário, e é dela que falarei.

O dedo preso ao gatilho sofre torção. Três golpes no pulso o fizeram soltar a arma.

Ele encara a mão, o dedo indicador torto. Segura o pulso machucado, olha ao redor e não enxerga nada além de pedras brilhantes sobre as mesas, na borda dos quadros emoldurados, sobre o balcão e na traseira de cada encosto das cadeiras. 

Recua dois passos com um golpe no estômago. Ele ainda não sabe, mas aquilo foi um soco, e dos fortes. O chute na canela o faz ficar de joelhos e olhos arregalados.

“O que está acontecendo?” 

“Está com medo?” 

“Quem disse isso?” 

Ele vira o corpo e só vê os clientes do restaurante tão confusos quanto. Se levanta, retoma a postura, ombros levantados e braços rígidos. Dá três passos com olhar franzido, tira gritos das patricinhas, mas no quarto passo seu pé é levantado. Tropeça e machuca o bumbum no chão, tira risadas dos mauricinhos. 

Teve a cara lambuzada por uma torta quando levantou de novo. Mais sobremesas voaram das mãos dos fregueses ao rosto do bandido. O trabalho severo de lustrar os azulejos todas as manhãs foi desfeito com os cremes, molhos e carnes macias derramadas sob ele. Escorregou de novo sem a ajuda da nossa heroína. Caiu com a ponta do nariz batendo no piso, trincou e deixou o serviço de lustrar o azulejo mais difícil com o líquido vermelho pingando.

“O senhor se rende?” Ela está com os dois pés firmes no peito dele, ao lado do botão da camisa duas vezes maior do que a nossa heroína.

“Eu só queria grana fácil…”

“Hoje não.”

Ela salta numa distância formidável, e cai na barriga do bandido que grunhe com a super força da Super Minúscula. Salta novamente em frente e pousa no chão entre as pernas, quase o acerta de novo.

Um casal de policiais entra no restaurante. Ficam parados sem saber o que fazer com o sujeito caído até os mauricinhos e patricinhas os convencerem sobre o bandido. 

Nossa heroína continua saltando. Desce de um degrau a outro, também lambuzada. 

“Eu vou me atrasar!”

Ela corre contra o seu arqui-inimigo: o tempo. 

Já está na hora. Tudo acontece de última hora. 

Ela salta até a maçaneta do Celta e escala até o capô. Quando ele vira à direita, pega carona com o Fiesta logo atrás e continua na avenida. Ela escorrega no fusca ao pousar no capô curvado, pega impulso e atinge a mão do motoqueiro da Honda Lead 110. Escapa por um triz da outra mão tentando estapear o pernilongo que o picou. 

Foge do motoqueiro e cai no teto reto de uma Belina. 

“Nunca vi carro mais feio!” 

Vai até o C4, e não resiste quando vê o Camaro. Quase perde a rota só para permanecer neste luxo, mas volta na Belina bege e barulhenta.

A lata velha passa pela rua onde precisa chegar, e a Super Minúscula mergulha na calçada de frente a lanchonete três corações, de duas estrelas.

Calçada sempre movimentada. O trânsito de pés não é fiscalizado pela Companhia de Engenharia de Tráfego. Resiste à tentação de levantar a sola igual fez há pouco com o bandido e atravessa aos pulos. 

Piso negro escurece todo aquele lugar apertado com móveis de madeira sequer vernizados. Corre até onde bem sabe o lugar do banheiro unissex. 

Ela aperta na cintura do uniforme negro todo feito de lycra e capacete de motoqueira. No mesmo instante retorna ao tamanho normal e tranca a porta do banheiro. 

Ainda precisa ficar na ponta dos pés para se enxergar naquele espelho. Tira o capacete e vê o horror pelo reflexo. Não lava o cabelo há três dias, e precisava. 

Remove seu uniforme e aciona o botão. Ele fica minúsculo e ela o guarda na carteira cheia de rosto de gatinhos. A sujeira da comida lançada pelos mauricinhos ficou apenas no uniforme, mas ainda há trabalho a fazer. 

Pega do bolso da calça de moletom o pente de emergência e trata daqueles nós do cabelo com força. Pega o batom, desliza nos lábios, escorrega e borra a bochecha. Ela ousa me xingar enquanto pega o lenço e limpa o borrão. Gasta outro lencinho quando risca o lápis fora do olho e me chama de desgraça. Quem ela pensa que é? 

Sobe os calcanhares ao máximo, quase flutua no chão. Agora vê algo algo diferente do horror: suas sardas rosadas sobre o rubor nas bochechas. A bonitinha sabe se arrumar. 

“Desta vez você consegue, Rosana!” fala consigo mesma enquanto aponta no espelho. 

Sai do banheiro e desenha seu melhor sorriso ao ctrl c + ctrl v de Chadwick Boseman que a espera. 

Seu par de All Star faz barulho no piso de madeira. Balança cintura e requebra o corpo sob a regata de algodão azul. 

Senta de frente a Moisés e inicia o embate contra o seu segundo arqui-inimigo: a timidez. 

O som da televisão preenche mais este conflito na vida de Rosana. 

Estamos presentes diante do nosso polêmico consultor de moda e responsável por selecionar as modelos mais famosas do mercado! 

Alguma palavra, senhor Míquel? 

“Tenho orgulho do meu trabalho. É uma honra trabalhar com essas modelos, todas escolhidas a dedo por mim, pois são mulheres de verdade.” 

E quais mulheres não são verdadeiras, Míquel? 

“Aquelas baixinhas, claro! Nenhuma moça Minúscula deveria existir. Isso tornaria meu trabalho mais agradável.” 

Talvez vocês estejam perguntando neste momento: quem sou eu? Eu sou o que acontece quando Rosana perde tempo fazendo planos, retocando maquiagem, estressando em cada encontro e combatendo crimes. Eu sou dela desde o seu nascimento e continuarei assim enquanto ela respirar. E que ela respire por muito tempo!

Continua…?

Comentários