Hora do jantar, hora chata do jantar. Miguel senta no outro lado da mesa, distante da tevê, do suco e de si. Nada de olhar a companhia, abaixa o rosto e encara as cores no prato. Verde, laranja, marrom, marrom, branco. Ervilha, cenoura, carne, feijão e arroz. Michele deve ter pego sorvete em casca, certeza, antes dos refris e pipoca. Refrigerante, não, suquinho natural; ela está de regime. A vida saudável é interessante a Miguel, menos quando come ervilhas. Bolinhas verdes saltam da colher antes de chegar à boca. Nem elas querem ser comidas.

O talher raspa no prato, colhe a comida e perde a metade antes de dar outra mordida. Isso irrita, ele tem certeza. Ele fecha a cara e provoca as rugas no rosto da mãe.

— Vamos comer direito, Miguel?

— Estou comendo, estou comendo.

O prato dela vazio. O dele, cheio.

— De que adianta fazer essa cara? Era só pedir desculpas.

— Só peço quando faço coisa errada.

— E não fez? Você pintou os cachos do Matheus de rosa.

— É que ele…

Pôs a colher cheia na boca, inclusive as ervilhas. Tira a mãe da visão e mastiga o sabor amargo, morde a língua. Teria bombons por lá também, preços baixos após a Páscoa. E ele comendo ervilhas.

— O gato comeu a língua, Miguel? Fale o motivo.

— Ele chamou o Super Mago de bobo.

A mãe suspira, engole castigos e reprimendas e as digere no intestino da responsabilidade.

— Bobo. Bobo é brigar por isso.

— Você não entende, mãe.

— Não mesmo! Como é difícil botar bom senso nesta cabeça. Esse Super Mago é imaginário, moleque! Em vez de se divertir, fica brigando por causa de heroizinho. Já deveria procurar emprego.

— Mas eu só tenho dezessete anos.

— Eu trabalhei com treze, sem perder tempo com gibi, nem tinha essas porcarias de sunga em cima das calças no cinema.

— Também não tinha tempo para estudar. Por isso você acredita em astrologia até hoje.

— O quê?

É hora de Miguel ficar quieto, continuar a comer. Engolir verde, marrom e laranja e colocar mais branco na boca; pode até engasgar, tudo bem, melhor do que dar razão ao tabefe. Bater em filhos é proibido por lei, como se evitasse… Ele termina o prato e coloca a louça na pia, vira e olha a mãe apontando de volta. Encara a torneira e depois o dedo dela, ameaça um passo longe da pia e treme com o chinelo na mão da mãe.

Engole o choro.

Range os dentes na água fria sobre as mãos. Primeiro os copos, devagar depois de quebrar um ontem. Nada de olhar o resto de caldo do feijão nos pratos, tem nojinho. Coloca os talheres no escorredor. Como é chato limpar panela! Ele enxuga a pia e a mãe coloca a jarra de suco. Diz nada, prende a reclamação na garganta e lava também.

Pronto. Agora termina.

— Poderia me deixar agora, te ajudei em casa.

— Esqueceu o castigo? Ficará em casa até segunda. Nada de internet também.

— Eu vou perder o filme!

— Ainda estará em cartaz na próxima semana, caso comporte.

— Semana que vem é tarde. Hoje já é muito tarde. A Spoiladeira vai atacar com tudo.

— Espoi-quê? Pare de falar essas palavras feias.

— Você sabe, mãe. Ela vai me…

— Olha, Miguel, cansei desta conversa. Vai para o quarto, tranco você lá. Quando sua irmã voltar, ela destranca a porta para dormir. Entendeu?

Ele olha o chão.

— Entendeu, Miguel?

Balança o rosto.

Tropeça a cada bronca. Mais rápido! Não tenho o dia todo! Ele perde o dia desde o castigo, por tirá-lo da chance de ver Os Poderosos: Fim de Jogo, filme que encerra o ciclo dos heróis Super Mago, Morciga e Minúscula. Fechou todas as redes sociais, fone de ouvido durante a escola, perdeu aula, o preço de evitar spoiler. História já contada nas HQs, cinco livros já adaptaram os quinze anos de quadrinhos em romances. Miguel só vê os heróis no cinema, sem querer ler a história já sabida, o importante é descobrir na grande tela com som imersivo e pipoca recheada de leite ninho.

Porta trancada. Miguel entrega o corpo aos tormentos da cama ortopédica, vinte e quatro parcelas desde que Michele quebrou a antiga. O castigo dela foi de lascar! Perdeu o campeonato de Lulo, afogada nas próprias lágrimas. Miguel não chorará. É injusto. A irmã, todos os amigos, até alguns professores e o próprio diretor. Todos na cadeira enumerada, de óculos 3D e sorriso de caroços de pipoca nos dentes, risadas contagiam a alegria de ver o espetáculo da Terra: a estreia do grande filme. Não chorará. Fecha os olhos. Engole o soluço, a tristeza. Engole! Saberá quem morreu, como o vilão foi derrotado e como trouxeram os heróis mortos à vida.

Miguel chora.

Ninguém o vê no conforto das lágrimas. Tão molhadas e quente, permite deslizar pelo rosto e umedecer o colchão, falta apenas doze prestações. Soluços atacam e prendem o ar nos pulmões. Deixe assim! Ninguém precisa ser forte o tempo todo. Deixa extravasar, desabafa a angústia, tampa o rosto e chore. A escuridão o conforta, bicho papão só aparece caso pense nele. Ai, ele pensa, perde o sono. De olhos abertos, toma o escuro como terror, o pior ainda chegará.

Fecha os olhos. Funga o nariz. Escuta. Tampa os ouvidos e escuta, a chave raspando no buraco, a maçaneta desce, a porta range, e ela entra.

— O melhor filme de todos!

Pula no Miguel. Sem os tênis, as meias pisoteando o peito do irmão já basta. Doze anos de pisadeira, de provocação. Bagunça o cobertor, descobre o rosto de Miguel e aperta o chulé no nariz. O “sai daqui” de Miguel sai abafado, quase mudo. Os pezinhos dela estão mais molhados, além do suor, a meia recebe o choro do rapaz. Michele ri de tudo. O dia não podia ficar mais saboroso. Pipoca, nachos, trufas, suco de limão e a humilhação neste menino chato. Só precisa de uma coisa para finalizar:

— Super Mago morre!

E a Spoiladeira ataca novamente.

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