Lembram do concurso da Mostra Ecos sobre ficção científica? Compartilho com vocês o texto com que vou me inscrever. Espero que o texto a seguir não passe de uma ficção…

Boa leitura!

Odiocracia - separador

Faço minha ronda pelas ruas ausentes de carro da Grande São Paulo, ou melhor, da Nova Província Paulistana. Duas ambulâncias atravessam ao meu lado, três viaturas de tarefas prioritárias, e uma da procuradoria.

Os cidadãos andam pelas calçadas, todos pedestres. De um lado os de princípios conservadores, do outro os de pensamentos progressistas. Na beira das calçadas há barreiras elétricas, todas funcionando. Graças a imposição do Regime o número de homicídios entre os dois grupos na Província é menor que qualquer cidade do Brasil, Bragança Paulista já foi exterminada, e não podemos salvar Atibaia.

Em 2018 todos ignoraram o problema, em 2022 era tarde demais. Depois deste terceiro impeachment, o Brasil sucumbe nesta guerra civil. Eu espero conseguir garantir a segurança da Província, é o que restou do país.

No próximo quarteirão os blocos trocam de lado. Os conservas estão atravessando a rua na direção do bloco deles, enquanto os mortadelas esperam a sua vez. Um agente às vezes não é o suficiente, mas hoje tem de ser.

O agente espera eu passar antes de trocar a passagem. E continuo andando em monotonia, melhor assim.

Arranha-céus parados, empresas falidas e desempregos recorrentes. Lugar de lazer nem pensar. Talvez a fome acabe pelo menos, quando todos os famintos morrerem de vez. Desenvolvimento é uma palavra muito grande, mas não é falada nos últimos tempos por outros motivos.

A barreira elétrica à direita estala, explode eletricidade e não é por alguém arremessar outra lata de refrigerante. O de cabelos grisalhos empurra um jovem contra a parede, e eu só posso acessar a calçada pela esquina.

Aciono o botão de emergência enquanto corro em socorro, em ação, em vão. Ouço grito de: “Boiola! Não devia estar aqui!” e mais estalos elétricos.

Desativo a barreira, empunho o revólver, miro. É tarde demais.

Marcas negras de queimaduras cruzam o rosto do rapaz. Lágrimas escorrem com sangue e a boca saliva, o corpo cai.

O homicida sorri, treme os dentes enquanto alega a sua defesa.

— Eu, eu vi o que a namorada fez com ele. Ele a deixou penetrar com a borracha e estava gostando! Isso é coisa de viado, de esquerdista, ele não pertencia aq…

Disparo em seu peito. O tranquilizante tem efeito imediato. A cara contra o chão se suja com os dejetos do morto, não é problema meu.

Faço o relato por áudio da ocorrência. Um colega encarcerador e o médico legista me alcançam ao mesmo tempo, cumprem suas respectivas funções, e encerro meu expediente desejando a monotonia.

Odiocracia - separador

Dois quilômetros até voltar à base, receber a gratidão do capitão Joelias, e dois mil e quinhentos metros de caminhada depois chego à entrada do meu condomínio, lar dos servidores da Província sem partido, só desejam estabilizar a ordem com o cumprimento de seu dever.

Gostaria de me deixar enganar, deitar e relaxar. Mas Anne chegará mais tarde. Se acreditasse em deus rezaria a ela. Se eu acreditasse em deus ficaria incrédulo em ver o que ele permitiu acontecer neste país.

Pego meu leitor digital e continuo a leitura de uma distopia. A história é futurista, onde a civilização regrediu aos costumes medievais após uma catástrofe. Quero me distrair com algo fora da nossa realidade, mas essa ficção parece falar do futuro da humanidade. Estamos à um toque de botão para entrar na Terceira Grande Guerra, mas meu país tem seus próprios problemas.

O telefone toca. Sem empresas querendo impor ofertas de crédito ao fim do dia, mas o telefonema ainda é perturbador.

— Tenente Albuquerque?

— Pois não, capitão?

— Esta noite o senhor fica na vigilância online.

— Mas não é o meu turno, Joelias!

— Sei disso, Jefferson. Mas o Teixeira não está mais entre nós, cometeu suicidou.

— O quê?

Visão escurece. É o sexto caso de suicídio entre os tenentes.

— Isso mesmo. É um pesar, mas o senhor sabe da importância nessa vigilância, então assuma o turno dele.

Encerra a ligação.

Xingo Joelias de maluco por impulso, mas pego o tablet oficial, me tranco no quarto secundário, e começo a inspeção.

Não me conformo em ver esta rede com nome oficial de Hatebok ter o maior número de usuários! A plataforma faz jus ao nome, com postagens preconceituosas e agressivas a todo momento, tento não rir quando leio “Pelo amor de Deus, o fulano deve queimar no inferno” só por causa da preferência culinária.

Enfim, preciso verificar mil postagens marcadas. Cinco segundos de limite para analisar cada post e decidir se mantém ou exclui da plataforma. A empresa não tem competência, somente promessas vazias, então assumimos esse controle. Só os servidores estão comprometidos com o trabalho hoje em dia, muito irônico.

Elimino foto de mutilações, de órgão sexual exposto, ou órgãos internos a mostra. Vídeos de brigas são eliminados. Não importa se o cara usa óculos, bandana ou qual o comprimento de seu cabelo e barriga, se grita ofensas, é censurado.

Textões são mais difíceis. Difícil distinguir argumentação de agressão, às vezes o autor alega ser a sua opinião quando vejo apenas discurso de ódio, deixe eles recorrerem.

— Cheguei, amor!

Mais um dia seguro com a minha esposa!  Preciso terminar a tarefa antes de vê-la, os algoritmos analisam o meu desempenho, e já perdi trezentos reais do meu salário este mês, não quero perder outro quinto.

De cinco segundos impus meu limite a três. Olho de relance e apago. Sigo apagando, apago tudo. O último item pendente é um meme de um alce com a legenda “Sua mãe gorda fez chifre maior para o seu pai.”

Apagado.

Destranco a porta e a beldade negra de cachos dourados está ali de pé, de braços abertos. Retocou o batom, ajustou as sombras, está sem as calças, mas não fez questão de tirar o salto alto para eu levantar meu queixo e encarar seus olhos escuros.

— Muito bem, An! Superamos mais um dia. — Beijo seus lábios. — Como foi o trabalho? Tudo bem?

— Foi normal.

E o normal não é bom a quem atua como mediadora entre indivíduos extremistas. Eles não respeitam o judiciário, batem boca entre si, e mesmo com a segurança aprimorada do local, conseguem chegar lá armados, mediadores também não são poupados nesses casos.

— É bom te ver, amor.

— Digo o mesmo, Jejé.

— Está com fome? Eu não. Nem quero cozinhar, cansado desse jeito. Então você pode fazer o seu melhor.

Rio do meu deboche enquanto ela faz biquinho.

— Não pedirei pizza, não. Me conformo com as frutas.

Deslizo meus braços até a sua cintura e puxo, beijo com mais vontade. Ela me empurra e vai a cozinha.

Deito na nossa cama, pensando em descansar mais cedo. Mal tiro a camisa, vejo a Anne sorridente, com uma banana na mão e cacho de uvas na outra.

— Não gosto de comida no quarto, Anne.

— Problema seu.

Descasca a banana e começa a lamber a ponta da banana.

— Você que mandou eu fazer o meu melhor. — Desliza o cacho de uvas até a cintura.

Não resisto. Levo minha boca até as uvas, e a energia esgotada de repente vem com tudo entre nossos corpos nus.

Odiocracia - separador

A primeira coisa que vejo quando acordo são os dedos de seus pés com esmalte marfim. Não me lembrava de como dormi, não importa. Beijei ali mesmo e me preparei ao novo dia.

Como maçã, barra de cereal, e pão com manteiga enquanto caminho ao trabalho. Nada de barracas de coxinhas ou pão com mortadela na zona neutra. Sinto falta dos cinemas de domínio conservador, dos bares hoje fumados pelos progressistas, sinto falta do meu emprego de escritório quando eu ainda podia reclamar de alguma coisa. Agora ou eu cumpro com o meu dever, ou sou exonerado e expulso deste lugar sem conflitos extremistas, e viro mais um a mercê da violência em um dos locais de extremistas.

Mal visto meu uniforme negro e Joelias chama de sua sala.

Entro e encaro um rosto nada amigável.

— Eu não consigo acreditar, Jefferson Jeremias de Albuquerque!

Contorce seus punhos, se segura para não socar a mesa.

— Não entendo, capitão.

— Não alegue inocência, rapaz! Se a ex-presidente não conseguiu se safar fingindo-se de burra, o senhor muito menos.

“Te encarreguei de inspecionar mil postagens online, e hoje vejo o relatório de cinquenta mil registros apagados. Cinquenta!” Esmurra e racha a própria mesa. “Acha que nos enganaria hackeando o algoritmo de supervisão? Não, Albuquerque. Foi a maior besteira feita na sua vida.”

— Mas eu cumpri apenas o combinado, aquelas mil! Vi somente aquelas, capitão. O algoritmo deve ter tido algum problema, eu juro, Joelias…

— Ainda não assume? Vai culpar o programa feito a prova de falhas? Com certeza pagou algum hacker! Quero o nome do meliante até o fim do dia.

— Mas eu…

— Cala a boca! É uma infração grave, tenente. Sua insubordinação irritou muitos cidadãos, cansei de ouvir reclamações de postagens apagadas, só nós temos o poder de deletar além do próprio usuário, e apenas o senhor cobriu o turno.

“Teu comportamento gera ódio nas pessoas, e ódio gera mortes nesta Província! Já reservei uma sala ao senhor, receberá cada cidadão que quiser tirar satisfação contigo, irá pedir desculpas. Se um, apenas um cidadão recusar o seu perdão…”

— Eu conheço o procedimento, Joelias. Estou a caminho.

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Jonas Tamiro está encarregado de me proteger. De postura firme, olhos puxados ainda mais estreitos ao me fitar. Está na porta da sala de interrogatório, não daquelas de filmes e seriados, com isoladores acústicos e vidros blindados. O cômodo é cheio de mofo, com uma mesa de plástico mais frágil do que aquela de bar e duas cadeiras de madeira.

— Trinta cidadãos o esperam, Albuquerque.

— Sabe me dizer se os primeiros serão os conservadores?

— Eles estão na mesma ordem de chegada, é inviável separar por grupos.

Respiro fundo. Tem como ficar pior?

— Quando entrar e sentar no seu lugar, eu aviso Marcos. Ele vai liberar um civil de cada vez.

Acomodei-me no meu assento. Tamiro chama Marcão e me avisa do número de pessoas na fila, agora é duzentos.

Não há relógios nessa sala, só tenho noção do tempo com a luz do sol ao invadir a sala quando a porta abre entre a saída e entrada de pessoas. Passo horas aqui.

Uma senhora chorou pelas fotos apagadas de seu filho morto aos 20 anos. Estava salvo apenas no Hatebok, desde os registros da infância. Não adiantava explicar que ela deveria fazer backup sobre qualquer coisa pessoal, não devo argumentar contra nada. Apenas posso lamentar, sentir a dor da senhora e pedir desculpas, ao menos ela aceita.

Nem todos são tão fáceis.

Um adolescente de braços largos me recebe com um soco na cara. Minha boca sangra, mas nada posso fazer contra. Exibo meu sorriso carmesim e pergunto:

— O que apaguei de você, garoto? — Odeio ter de assumir algo não feito por mim.

Ele berra muitas coisas. Entendi apenas sobre as fotos da ex usadas na masturbação diária, ouvi muitos adjetivos dessa pobre moça. O moleque elogiava somente os atributos físicos, armou sua pequena barraca sob as calças.

Peço desculpas e ele aumenta a voz. Tenta dar o segundo golpe, mas impedi este prazer.

— Eu posso denunciar sua atitude à sua ex e ela te processar por assédio, ou o senhor aceita meu pedido de desculpas e encerramos por aqui.

— Isso se sair vivo daqui, guardinha.

Ele sorri. Vai embora sem manifestar mais nada. Quem cala consente.

Depois de o sol atingir o ponto mais alto do céu um senhor chega esmurrando a mesa entre nós, rompe-a ao meio.

—Vocês não eram imparciais, seu praça comunista de merda? Por que apagar meu maior troféu na internet, hã? Aquela foto minha em cima dos cadáveres esquerdalhas era a melhor coisa que eu tinha, minha conquista após estraçalhar os inimigos defendidos por vocês, boiolas!

Tamiro intercedeu e disparou tranquilizante no homem. Outro bandido apreendido por pensar em fazer justiça com as próprias mãos.

Resolveram me dar um intervalo.

Odiocracia - separador

Entre socos e xingamentos, meu segurança só intercedeu quando houve ameaça a minha vida ou demonstração de ódio contra outro cidadão. Em suma: seguiu o protocolo.

Trouxeram uma marmita. Rúcula não fica bem temperada com sangue na boca, o bife estava muito duro ou os meus dentes fracos, e minha gengiva ardeu com o suco de limão em caixinha. Dispensei a comida.

Tenente Fátima — Sérgio de Fátima — substitui Tamira como segurança, e me avisa a quantidade de cento e cinquenta pessoas na fila.

— Mas eu já desculpei mais de cem antes do intervalo!

— Eles não param de vir, Albuquerque.

Deseja-me boa sorte e notifica a liberação de mais um civil.

Mais horas de desculpas se passam. Não sei quantos faltam, não quero saber. Recebi água quando perdi a voz depois de justificar sobre o que nunca fiz, trazer algo verossímil a uma jovem prostituta inconformada por eu apagar seu catálogo profissional. Não compreendi e nem quero.

Anne… Sinto a sua falta. Hoje é seu dia de me esperar. Vai dar tudo certo, Anne. Vamos sobreviver.

Passos leves, inaudíveis, de uma senhora de cabelos pintados. Rugas se esticam com seu sorriso, a regata esconde seus peitos murchos. Veia do pulso exposta na pele, e os dentes amarelos até soam gentis.

Sorrio de volta. A primeira disposta a conversar de verdade.

— Olá, amado!

— Boa tarde, senhora…

— Mioranda.

— Lamento por não dar a devida prioridade às pessoas de idade, Mioranda.

— Ah, mas o bom policial ofereceu a preferência. Eu optei por aguardar mesmo assim, não sou tão velha.

Só tem a pele esticada sobre o osso, voz fraca e aparência de bruxa. Não era idosa de forma alguma!

— Admiro sua paciência, Mioranda. Não quero ocupar mais do seu tempo, então fique à vontade: exponha sua insatisfação. O que foi deletado do Hatebok?

— Nada. Não tenho uma conta nesta rede social, nem uso tecnologia.

Ergo minha sobrancelha contra seu sorriso cada vez mais aberto. Algo exala perto dela, um aroma ácido. Vejo uma fumaça amarela ascender da sua cintura.

— Não ouse gritar, tenente. O segurança também morre se interceder, o que não é má ideia. Mas nós dois estamos condenados.

Meu corpo está queimando. Pulmão luta, tenta respirar, mas aspira cada vez mais do veneno.

— Por… quê? — Vejo apenas um vulto borrado diante de mim, as lágrimas queimam meus olhos.

— O senhor foi o primeiro passo. Vamos expor as falhas de segurança desse Regime Paulistano de Contenção do Ódio, depois eliminaremos os conservadores, e enfim começar a nossa utopia.

Dois borrões de braços erguem-se na minha frente, ainda consigo ver a veia na pele. Depois de ela dizer “minha parte foi cumprida”, cai sobre meus pés, morta.

O veneno me consome, queima meus órgãos e causa hemorragia. Pernas tremem e cedem ao chão, tento me apoiar nos braços, mas também perdem a força, nariz se quebra contra o chão. Sangue e ácidos escapam com vômito, tudo sangra, e minha visão se esvai, desaparece.

— Desculpe Anne, eu não…

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