Este conto é diferente dos que já compartilhei no blog. Feito em parceria com JoeFather, O Pedido do Garoto é uma pequena história presente na excelente obra Encenação Mortal. Tive o prazer de escrever a parte final do conto. Confira a seguir o texto na íntegra das duas partes.

O Pedido do Garoto - parte 1

 

Faltava uma semana para o Natal de 1982 e o garoto caminhava pelos becos de Londres em busca de comida, para o corpo e também para a alma.

Seus pais haviam morrido três invernos antes e ele fugiu do abrigo para onde foi enviado com 9 anos, a espera de uma possível adoção, o que na sua idade era muito complicado.

E o seu temperamento agressivo, herança genética do pai, também não ajudava muito, e assim constantemente ele se metia em brigas com os outros garotos.

Desde então vivia nas ruas e as adotara como seu lar, mas nestas épocas festivas sentia saudade da convivência com outras pessoas, em seus momentos de solidão ele imaginava como seria fazer parte novamente de outra família.

É claro que agora, com 13, já não acreditava mais em Papai Noel e até a sua pouca fé em Deus diminuía com o tempo, através de tantas maldades que presenciava todos os dias. É claro que existiam as pessoas solidárias e possivelmente sem elas já teria morrido de fome há um bom tempo.

Então nessa semana fria de 1982, antes de dormir enrolado num monte de cobertas velhas naquele beco, ele pediu para que o Papai Noel lhe trouxesse uma família de presente neste Natal.

E foi no dia 21 de dezembro que ele viu seu pedido realizado, o fim de uma vida sofrida nas ruas, mas que deu lugar a outro tipo de sofrimento.

Um casal apareceu no beco durante a noite. A temperatura estava baixa e um vento soprava forte, anunciando neve ainda para aquele dia.

Eles foram direto até o garoto e o convidaram para tomar um chocolate quente em sua casa, num bairro afastado dali.

O garoto silenciosamente agradeceu pelo presente, nem que fosse somente por uma noite, e entrou com eles num carro aquecido.

A casa para onde foram era grande, tinha dois andares, e depois de um bom banho de banheira, uma refeição completa e o prometido chocolate quente, o garoto foi conduzido até um quarto, que parecia ter sido preparado para ele.

Ficou encantado com o lugar e pediu aos céus para que aquilo não fosse um sonho e que ele, de repente, acordasse desolado no beco onde morava.

Dormiu com esse pensamento e na manhã seguinte acordou na mesma cama macia daquele quarto quente.

Desceu de pijama até a cozinha e encontrou o casal na mesa, o aguardando para um café.

— Que achou do quarto? Estava do seu gosto? – perguntou a mulher alegremente.

— Maravilhoso! – respondeu ele com a boca cheia de biscoitos, arrancando um sorriso dela.

— Então vá se acostumando com ele, pois se quiser, poderá morar aqui conosco – disse o homem sério – Mas existem regras que devem ser cumpridas, para que possa permanecer aqui…

Se conhecendo o suficiente para saber o quanto adorava a sua liberdade, o garoto devia ter raciocinado melhor e pedido explicações detalhadas daquelas regras, mas a alegria de ser parte de uma família novamente falou mais alto e ele concordou com um aceno e selou o seu futuro com este gesto.

Nos próximos dias ele foi conhecendo aos poucos as citadas regras que o seu pai adotivo comentara. E eram muitas para um garoto acostumado a viver nas ruas.

Descobriu depois que o homem tinha um cargo importante no exército de Sua Majestade e ele trazia as mesmas regras militares para dentro de casa e quando havia um erro ou desobediência, o castigo era similar.

O garoto passou a ser um tipo de empregado da casa. Limpava os banheiros, arrumava os quartos, cuidava do jardim e da manutenção da moradia.

Foi matriculado numa escola muito boa e mesmo após vários anos longe das salas de aula, sua notas não eram ruins. O problema estava no seu comportamento agressivo, que em casa era controlado, mas na escola, frente a provocação de outros garotos, ele não pensava duas vezes antes de lhes aplicar um corretivo.

Nestas ocasiões, assim que seu pai ficava sabendo do ocorrido, ele também era castigado, mas não com violência declarada. Ficava preso no seu quarto, sem nenhum tipo de diversão, sem escola, tendo que continuar realizando as tarefas domésticas.

Nesses dias em que o garoto era punido pelos seus erros, ele se arrependia de ter ido morar ali e amaldiçoava o Papai Noel ou o ser brincalhão que o conduzira para aquela armadilha.

Com o tempo foi aprendendo a se controlar e uma frieza se abateu sobre o seu coração. Parou de ser castigado, mas ainda era tratado como um empregado na sua casa. Inexistiam momentos de carinho e amor.

Houve somente um dia em que seu pai adotivo lhe falou palavras com uma profundidade maior e que fizeram a diferença em sua vida. O garoto ainda não tinha completado 16 anos, mas já era mais alto que ele.

— Filho, a solidão nos torna insensíveis e convivi muito com ela durante toda a minha vida, pois essa é uma das regras deste meu trabalho. Só adotei você para trazer uma companhia para sua mãe, mas percebo que você é muito mais forte do que eu imaginei.

— Me prometa algo, filho – pediu ele – Quando eu e sua mãe nos formos, busque constituir uma família também, não deixe que a solidão o transforme de forma negativa. Você me promete?

O garoto o encarou e disse algo que estava guardado dentro de si.

— Tarde demais. Não quero família alguma para mim no futuro. Estou arrependido de um dia ter desejado fazer parte de uma família. Se um dia os senhores não existirem mais, voltarei correndo para a minha solidão.

— Não diga isso, filho, nunca é tarde demais…

— Se o senhor me dá licença, tenho mais tarefas a realizar.

Menos de dois anos depois, seus pais foram fazer uma viagem e nunca mais retornaram. Se passaram alguns meses e eles foram encontrados mortos numa vila da Suíça, deitados numa cama, congelados.

O garoto, agora quase um homem-feito, herdou todos os bens deles, resolveu parar seus estudos e se dedicar a uma paixão particular que o mantinha na solidão que lhe fazia tão bem.

Na noite de Natal deste ano que passou a viver só e não compareceu a nenhum dos convites de confraternização dos parentes herdados pela adoção, teve um sonho assustador, ao mesmo tempo que revelador.

Neste sonho ele estava de volta ao beco e idealizava fazer o pedido para pertencer a uma família. Só que após refletir bem, decidiu pedir para o Bom Velhinho somente o poder da manipulação, com o qual conseguiria fazer tudo que quisesse.

Neste momento no sonho um Papai Noel vestido de preto se materializou na sua frente e com um sorriso amarelado lhe disse uma única frase:

— Este poder foi o que eu lhe dei naquela noite, você é que ainda não aprendeu a usá-lo…

Na manhã de Natal acordou assustado e em poucos minutos uma compreensão caiu sobre ele.

Fez algumas ligações e naquele mesmo dia visitou todos os parentes, sem exceção.

A partir daquela data o garoto definitivamente se transformou num homem e chegou a conclusão que o seu destino havia sido traçado naquela noite do pedido realizado.

Não sabia ainda qual era o preço que pagaria, mas tinha certeza de que não seria algo bom de ser pensado, mas logo se conformou, afinal, ele pediu um presente e não era educado ser um mal agradecido.

Tinha certeza que seu pai adotivo aprovaria aquele pensamento, se estivesse vivo para isso – imaginou com um sorriso no rosto e foi dormir.

E nunca mais sonhou…

 

O Pedido do Garoto - Parte 2

 

Esticou o braço para sua filha de cinco anos e juntos atravessaram a rua. Seguiu aqueles dedos frenéticos da menina, disparando seu desejo naquela vitrine. Um pônei branco feito de madeira, a sela tinha um assento perfeito. Ela poderia galopar por horas naquele balanço.

— Sei, filha. O natal está chegando.

— No natal? Vai comprar mesmo, papai?

— Desde que se lembre de uma coisa: você sempre terá aquilo que deseja, mas nem sempre o que pede.

Ela tombou a cabeça ao lado e franziu a testa. Ele reagiu com cafunés nos seus fios negros.

Não soltou de sua mão mesmo na calçada. Jamais soltaria se pudesse. O aperto de mãos fazia falta a quem já pertenceu duas famílias. Dependendo de si, não perderia a terceira, mesmo esta sendo instável.

Dobrou a segunda esquina e entrou na terceira a direita. Apertou a mãozinha mais forte antes de desprender e ela correr aos braços da mãe, ao lado de seu padrasto.

Cumprimentou o casal e despediu da mocinha, prometendo revê-la em breve.

A ex-esposa morava naquela mesma rua. Passou por aquele beco e viu a escuridão do corredor. Deslizou o dedo indicador em seus olhos, lembrou que era a hora de rever o bom velhinho.

Parou numa mercearia e comprou duas barras de chocolates amargas, só podiam ser estas.

Tentou atravessar, mas o veículo não cedeu a preferência sob o sinal vermelho. O próximo carro parou e assim foi ao outro lado da rua.

Entrou no prédio e foi direto a recepcionista.

— Vim visitar o senhor Charles.

Ela discou pelo ramal e em seguida respondeu:

— Terceiro andar a direita, senhor.

Agradecido, seguiu a orientação já memorizada.

Entrou no leito e os sorrisos se encontraram ao rever o velho amigo. De camisola branca, nunca mais vestiu o preto de quando vivia nas ruas, um preto não tão escuro quanto a própria cor da pele. Alguns dentes amarelados se perderam, cabelo e barba eram escassos. A alegria a mesma.

— É bom te ver, garoto.

— Nunca serei um adulto aos seus olhos, amigo?

— Não. Desde àquela época nós temos a mesma diferença de idade. Ainda é um garoto para mim, que estou a cada dia mais velho.

O garoto riu.

— Pelo menos descobriu ser bem humorado com o passar dos anos.

— Graças a você, bom velhinho.

Abriu o pacote da barra de chocolate e deu ao Charles.

— Eu te ensinei bem mais do que isso.

— É verdade.

Graças a você, eu deixei de sonhar. Parei de acreditar que o mundo se transformaria, tornaria um lugar melhor, e comecei a acreditar na minha transformação. Mudei minha vida e melhorei. Criei minha terceira família, pedi para esta ficar sempre unida, mas o desejo atendido foi o de ter o amor de volta através de minha filha. Eu realmente obtive o poder da manipulação.

— Sonhos são muito bons, garoto. Melhor ainda se o tornamos em realidade.

— Minha filha é cheia de sonhos, desejos, e pedidos. Irei ensiná-la a diferença de cada um. Darei oportunidades que não tive. E serei o bom velhinho que irá sempre abraçá-la.

Lágrima escorreu no rosto. Não enxugou desta vez. O velho amigo deu risada e abocanhou um pedaço do chocolate.

Cada visita demorava menos. Charles se cansava rápido, só não cansava de sorrir.

Despediu do senhor que iluminou sua vida no fundo do beco escuro de Londres e da sua alma.

O garoto adulto saiu do hospital, prosseguiu com o pedido de fazer tudo que pudesse. Prosseguiu em ser feliz.

 


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