Manoel resolveu existir! Saiu do meu conto de três partes e quis escrever a sua tão desejada história, e eu permiti. Confira o texto dele a seguir, espero que gostem!

Conto de Manoel

Saio da mórbida lanchonete em que trabalho há dois meses, nada como o cheiro de óleo engordurando as narinas. Não posso negar, odeio esse emprego, mas foi o que pude conseguir no momento, não há muitos trabalhos que aceitem jovens inexperientes recém-formados do ensino médio. Também não posso esconder que a timidez atrapalha um pouco o contato com os clientes, sem falar que ainda tenho certo temor da bandeja encontrar o chão e eu esbarrar na demissão.

Porta range rabugenta a minhas costas, o estabelecimento fechou faz algum tempo, mas só podíamos sair depois de lavar a louça, depois do “Tchau” do chefe. Suspiro aliviado, almejando a comodidade do lar e enfim poder descansar.

Chuva castiga o guarda-chuva a cada passo, a lama da rua sem calçamento suja meus sapatos seminovos. As luzes dos postes oscilam, ando um pouco mais depressa.

O aspecto dessa parte do bairro em que preciso atravessar já é sinistro em uma noite comum, e nessa tempestade parecia mais apavorante. Casas antigas destruídas e outras permanecem inteiras, porém abandonadas. Algumas em particular possuem o boato de serem mal-assombradas. Os contos horripilantes que meus colegas narram sobre aquela região me afligem, mas não tinha outra escolha a não ser seguir em frente e rezar para que tais coisas não passem de simples boatos.

Piso numa poça, o sapato todo entra no buraco de lama fedida.

— Mas que droga!

Vou em direção a um dos postes acesos, agacho para ver o estrago, um aspecto estranho. Passo o indicador e levo ao nariz, não parecia só lama…

Engulo em seco, olho de um lado a outro. Ninguém. Continuo o percurso pela calçada. Seguro a alça do guarda-chuva com mais empenho, o céu cairá com tanta chuva.

A luz do poste mais próximo se apaga. Escuto com pavor uma risada fina, procuro de onde vem. Nada. Continuo andando com um soluço de desespero preso na garganta. Não sou corajoso.

Outra luz se apaga, estou a ponto de correr. Avanço quase tropeçando nos próprios pés, as luzes dos postes se apagam a medida que passo por eles. A risada estridente soa ao vento de novo, chega a meus ouvidos, e a pele arrepia.

Ergo a vista para o outro lado da rua. Meu corpo gela. A única coisa que vejo é um ser escuro. Coração acelera. Estou num pesadelo? Num filme de terror?

Corri. A ventania violenta empurra o guarda-chuva, não aguento, escapa de minhas mãos, o vejo rodopiar centenas de vezes, não interrompo a corrida. Chego a esquina, as gotículas me atingem com força.

Escorrego quando o ser se materializa na minha frente. Caio sentado no barro molhado, emporcalho mãos e toda a roupa tentando me arrastar para longe, mas aquilo agarra meus ombros e me levanta.

Era tudo escuro de uma forma borrada como se eu tivesse adquirido problemas de visão de repente. Somente se pode ver dois brilhos vindo do ser maligno, pareciam brasas acesas vindo de olhos completamente brancos.

Aquele ser se aproxima, sinto meus lábios sendo sugados. Mãos agarram minha cabeça, palavras incompreensíveis são sibiladas, lacrimejo e vejo círculos no ar, vários deles. De tamanhos diferentes, no começo flutuam sozinhos, depois se juntam um dentro do outro. Subitamente não vejo mais nada. E depois o processo se repete, muitas e muitas vezes enquanto me sinto arrastado. Ainda há chuva, gotas salpicam como agulhas na pele. E não consigo mexer nenhuma parte do meu corpo. Sinto novamente algo em meus lábios e volto a ser arrastado…

Manoel

Desperto, meus sapatos continuam com a mistura de lama e sangue da poça. Chove sangue. Estou no chão coberto de poeira, sento. A visão ainda turva, mas não vejo mais círculos. Repassei atordoado os momentos anteriores. Ergui os dez dedos para contar. Oito…

O lugar em que estou não possui móveis, somente poeira, teias de arranha, uma escadaria logo à frente e uma menina abraçando os joelhos num canto.

Olha para mim e de sua garganta sai um grito que ecoa em todo o ambiente.

— Vá embora, antes que ela volte — sussurra.

— Ela quem?

— Não a deixe chegar aos 13. Se ela conseguir estará completo… você não terá um final agradável e não poderei mais ver a luz… — disse rápido demais, quase não entendi.

Os olhos verdes dela exibiam inchaço, provavelmente de tanto chorar.

— Já tentou fugir?

— Estou sentenciada… — A garota treme.

Levantou-se abruptamente, o barulho dos tênis vermelhos estrondaram cada vez menos nos degraus à medida que iam desaparecendo ao subir.

Resolvo segui-la, e logo a perco. Não tenho a visão de seus cabelos negros, não há mais o ruído de passos. Determinado a encontra-la, entro num quarto. Frascos cilíndricos com líquidos espessos e um livro estão expostos sobre a única mobília, uma mesa larga de metal.

O livro possui somente uma gravura na capa, vários círculos concêntricos da mesma forma da minha alucinação. Folheio as páginas encardidas, todas escritas a mão com variados símbolos perfeitamente desenhados. Um deles eu conhecia: o pentagrama.

— Não deveria mexer nisso! — A voz dela é pavorosa.

Fecho automaticamente o livro, olhos arregalam, o medo me soca mais uma vez.

O chiado da porta escancarada incomoda os ouvidos, faz meu corpo tremer. Abre por completo e vejo de novo aquele ser. Pescoço e pernas retorcidos, sangue nos braços. Todo o ser parecendo estar mergulhados em água, ondas negras flutuam pela pele, o cabelo longo parece estar úmido e boia, mas não parece água.

Estende sua mão, meu corpo se move contra minha vontade até a mão estendida cravar unhas pretas em meu pescoço. Puxa-me para o que parece ser seu rosto, meus lábios recebem um beijo, e depois outro e outro e mais outro.

Ela me solta e desabo, me debato, aperto a garganta que arde nos cinco cortes e o líquido vital banha as mãos, volto a respirar.

Rastejo, forço os membros magros e sigo engatinhando, alcanço a lateral do portal de madeira, pego impulso e levanto.

Cambaleio na descida das escadas e percorro o piso até encontrar a porta de entrada. A visão foi mais rápida e percebeu antes, mas o movimento é atrasado. Agarro a maçaneta, solto, já é tarde. Percevejos impregnam a mão, se alimentam da carne dos dedos, entram pelos ferimentos. Calosidades se mexem subindo pelo braço, os insetos continuam comendo por baixo da pele. Berro de dor. Lágrimas formam uma cachoeira.

Jogo o braço na parede tentando amassar os bichos, em alguns obtenho êxito, já outros alcançam o ombro.

Desisto da porta, vou vacilante pela casa estapeando os insetos dentro de mim. Encontro a cozinha, não perco tempo em observar algo, pego uma cadeira e arremesso na porta de madeira podre, abre um vão, acabo de retirar o suficiente para passar. Piso no amontoado de grama enorme. Dobro os joelhos e começo a saltitar com dificuldade.

As primeiras luzes do amanhecer me enchem de esperança dessa noite horrível terminar. Vou de pulo em pulo sem olhar para trás, os membros cansados do maltrato e esforço, a mente em choque.

Não sinto mais chão sobre os pés. Caio em um buraco. Primeiro veio o som da queda, depois a dor nas costas.

Olhos vermelhos encaram. São monstrinhos: pequenos, feios, enrugados, com orelhas pontudas, lembram a versão má dos Gremlins.

Os Gremlins sorriem e começam a me açoitar. Batem, chutam, dizem xingamentos incompreensíveis. Meu corpo empapa exteriormente do que é vindo do interior, cuspo sangue com um grande chute na barriga.

Ela aparece…

Jogado ao desprezo, vejo pela primeira vez o que calça e entendo tudo enfim. Os monstros encolhem e se afastam, mas o pior está por vir.

Inclina-se contra mim, e o molhado do beijo chega aos meus lábios, o estranho é que eu gosto. O décimo terceiro beijo é quente, doce, reconfortante. E quando acaba…

Um grito. Um suspiro. Escuridão permanente.

Comentários