O texto de hoje tem enorme valor para mim. Foi o primeiro conto que escrevi, após um momento conturbado na minha vida.

Tornei-me uma pessoa diferente depois de escrever Naufrágio, uma pessoa melhor. Essa história não é apenas sobre mim, mas das minhas reflexões sobre o que devemos dar valor, e evitar fazermos mal a nós mesmos.

Boa leitura!

Começa o conto Naufrágio

Encontro-me de pé diante do leme de meu navio, com mãos firmes no timão, embora não saiba por onde navegar.

Apenas fixo o meu olhar no horizonte em busca de meu destino, este que é definitivamente incerto. Traçar uma linha a qual se prosseguir até alcançar o objetivo é uma tarefa praticamente impossível, todavia tenho de continuar para chegar a algum lugar.

Construí este navio da melhor maneira que pude com o meu esforço e conhecimento, selecionando as madeiras de maior qualidade que estavam ao meu alcance.

Obviamente não será por essa razão que este se tornará o melhor transporte marítimo já feito, e arrisco a dizer que está bem longe de o ser. Mas só de ser algo feito pelas minhas mãos é o suficiente para me orgulhar enquanto navego pelos mares. É como dizem: “feito é melhor que perfeito.”

Não tem a menor graça construir todo o navio e navegar sozinho. A viagem fica melhor com os meus companheiros.

Dentre eles há uma criança bastante otimista, gosta de compartilhar algumas ideias comigo, principalmente durante a noite. Porém nada o impede de conversar comigo durante o dia quando eu fico muito cansado. Este pequeno garoto é conhecido como Sonho.

O outro colega chama-se Amizade, este já mais velho e que gosta de puxar conversa para descontrair e conhecer melhor uns aos outros. Também é muito alegre e sabe a hora certa de se divertir.

Além dos dois rapazes, viajam comigo três moças muito distintas e curiosas.

A Disciplina é de poucas palavras. Costuma passar o tempo me vigiando, batendo seu pé no chão do barco e sempre mantém seus braços cruzados. Ela costuma me olhar com uma feição bastante séria, mas dá um sorriso meigo quando eu me saio bem, o que me incentiva a sempre deixá-la orgulhosa.

Já a menina que se chama Amor… Bem, eu fico meio sem graça ao dizer que sei muito pouco sobre ela.

Ela costuma ficar distante olhando o mar, e às vezes me faz perguntas difíceis de responder, dos quais nunca sei se minhas respostas estão certas. Seu lindo sorriso me confunde, sua risada me assombra, e seu toque me estremece. Só sei de uma coisa, a pergunta mais difícil que eu sou incapaz de dar uma resposta é: o que eu faria sem ela?

E por último há a Esperança. Uma menina muito empolgada que gosta de chamar a minha atenção e me incentiva a seguir em frente. Seus olhos grandes, redondos e verdes que insistem em me encarar fazem abrir um sorriso espontâneo em meu rosto durante o dia, seja sob um clima quente, chuvoso ou com ventos congelantes.

Começa o conto Naufrágio

Todos sempre estão perto de mim enquanto busco o final do horizonte, algo em que acredito ser capaz de me proporcionar um resultado desconhecido e positivo no final de minha jornada.

Dias se passam, e continuo encarando o oceano sem fim à minha frente. No momento me sinto cansado, por isso o Sonho acreditou ser uma boa hora para vir brincar comigo, e eu gostei da ideia, mas logo ouvi batidas de pés mais fortes na madeira e um resmungo surdo da Disciplina. Vejo em seu rosto uma aparente desaprovação, e pedi para o sonho voltar mais tarde, além de me desculpar com Disciplina.

Logo em seguida, Amor deu outra de suas risadas, e Amizade bateu levemente em meu ombro com uma cara toda sorridente. Será que eu levo a Disciplina a sério demais?

Esperança sugeriu para eu descansar um pouco, repor minhas energias, e depois prosseguir com força total para o meu destino. Virei meu rosto para a Disciplina e vejo seus lábios levemente abertos mostrando seus dentes perfeitos. Desta forma eu soube que é uma boa hora para o descanso.

Vários dias se passaram.

Esperança sempre me incentivando a continuar. E com aqueles olhos redondos sempre brilhantes, é difícil dizer não a ela.

O Sonho fala comigo todas as noites com a tentativa de descobrir o que haverá no final do horizonte, além de outros assuntos que eu não consigo lembrar. A sua visão bela sobre o mundo faz a Esperança ficar toda empolgada, deixa Amizade motivado e faz a Disciplina assentir com a sua cabeça.

Ah, e não posso esquecer-me de Amor. Ela sempre está por aí, pelo navio. Fica difícil de encontrá-la, mas quando a vejo sempre está parada, seja olhando para o mar ou esperando alguma atitude minha.

Provavelmente eu a desaponte muitas vezes. E ainda não consigo entender o porquê dela agir assim. Não seria mais fácil vir aqui e me dizer o que pensa logo de uma vez?!

Talvez eu deva falar isso para ela.

Será que eu deveria mesmo? E se ela não gostar da minha atitude? Vai que ela se distancie de mim. Eu não sei o que eu faria sem poder vê-la com seus sorrisos enigmáticos e risadas desconfortantes.

Acho que devo prosseguir com a viagem então…

Começa o conto Naufrágio

Disciplina fica cada vez mais severa a cada dia que passa. Acredita que estou ficando desmotivado, que anseio muito pelo fim da viagem e assim não foco no essencial, ou seja, na viagem em si. “Não adianta querer o prêmio se não dedicar muito para obtê-lo” é a frase mais marcante dela.

Às vezes fico chateado com a Disciplina. Como eu vou me motivar e me empenhar mais a completar meu objetivo se eu vejo apenas um horizonte sem fim?

Mas são nessas horas que Amizade chega para acalmar meus nervos. Ele fornece a mesma mensagem de Disciplina, mas de um jeito mais descontraído. Aponta-me o quanto já progredi com todo este trabalho, e diz que só por isso a viagem já vale a pena de ser feita.

Confesso que me incomoda em saber que meus companheiros são otimistas demais. Eles fazem de tudo para eu não me desanimar, me manter firme em meu percurso.

Mas até quando? Até quando eu serei capaz de prosseguir? Até onde eu devo chegar para enfim descobrir que acabei? Até que ponto eu conseguirei ultrapassar meus limites?

Perco a conta de quanto tempo estou neste navio. Estou cansado de navegar pelo mar neste timão pesado, que só serve para deixar calos em minhas mãos. Meus braços estão ignorando o meu comando.

Amizade estava prestes a me dar outro tapa nas costas para sugerir um descanso. Mas me retiro do leme no último instante, e meu amigo toca apenas o ar. Cambaleio para o mais longe possível do timão e tombo no chão.

Talvez a Esperança esteja vindo em minha direção para tentar me animar, só que não pude vê-la com os meus olhos cansados. Sonho tenta conversar comigo, mas não consigo me concentrar no que ele dizia, e me faltam forças para poder lhe responder.

Após algum tempo ouço aquelas batidas de bota na madeira do navio. Ficam cada vez mais fortes. Eu sei quem faz isso, e ao abrir meus olhos eu vejo a imagem severa da Disciplina com um rosto nada simpático.

Quando percebe que estou a encarando, ela aponta com o olhar para onde estão meus companheiros. Todos parecem preocupados comigo. Exceto Amor, pois esta eu não consegui ver.

Agora sim estou definitivamente exausto. Não de cansaço físico. Não quero mais agradar a Disciplina. Chega de me importar com Amor e de conversas desnecessárias com Amizade ou Sonho. Sem falar da Esperança, seus olhos de esmeralda só sabem me enganar!

Ignoro todos e parto direto ao leme para ver se eu consigo chegar logo neste tal objetivo.

Quando chego lá vejo um sujeito diferente. Parece que estava esperando o nosso encontro.

Ele se apresenta como Raiva, dizendo que é o único capaz de me fazer prosseguir nessa árdua jornada.

No mesmo instante que o conheço, este tal de Raiva me pareceu um pouco familiar.

Ele me propõe justamente o que eu queria: pegar o leme e ir com tudo para finalizar minha jornada de uma vez, e faço exatamente isto.

Em vez de me cansar com o tempo, eu pressiono cada vez mais os meus braços. Sinto dor em meu corpo, mas não me importava. Eu chegarei ao meu objetivo o mais rápido possível, não importa como.

Só a companhia de Raiva me interessa agora. Não quero me iludir com aqueles meus antigos companheiros que só falam de coisas falsas.

Começa o conto Naufrágio

Fico arrependido de saber que eu não sou de ferro, e minhas forças estão esgotadas agora de noite.

Queria continuar, mas meu corpo me obriga a descansar. Deito logo abaixo do leme para prosseguir assim que eu me recuperasse.

Ao fechar meus olhos, uma nova pessoa vem para se apresentar.

Ele se chama Pesadelo, e diz que quer se divertir comigo. Mas não espera uma resposta se eu queria diversão justamente agora. Simplesmente começa a agir.

Ele implanta imagens sombrias em minha cabeça. Vi todo o mundo desmoronar enquanto eu chego perto do fim do horizonte, e lá havia apenas o abismo. Vi-me caindo neste buraco sem fundo junto com o navio, que se despedaçava aos poucos.

Durante a queda eu levo pancadas dos escombros do navio me atingindo em cheio. Coleciono várias feridas pelo corpo, até que não pude sentir mais, só sabia que estava caindo. Caindo. Caindo.

E me levanto.

Acordo subitamente. Recupero minha respiração e vejo meu navio inteiro com Raiva apontando para o leme.

Começa o conto Naufrágio

Volto a fazer a viagem. Mas não sei se vale mais a pena encontrar o final do horizonte. Não sei se devo voltar e repensar em minhas ações.

Então Raiva me dá uma ordem: “VÁ!!!” E eu o obedeço.

Não faço ideia para aonde estou indo. Meu corpo e mente estão atormentando minha alma.

A noite chega e o Pesadelo me visita mais uma vez. Está claro que somente ele irá se divertir nesta noite, com a custa de meu sofrimento. Desta vez eu estou afogando.

Queria que ele parasse com isso. Só que ele não faz questão de me ouvir, só deseja brincar comigo com toda essa humilhação. Enquanto minha visão se esvai, sou capaz apenas de ver seu sorriso sádico.

Agora que não vejo mais nada, consigo somente ouvir uma risada sinistra. Uma risada demonstrando que pelo menos alguém está satisfeito.

Está difícil de adaptar a essa nova rotina.

Raiva me obriga a focar na viagem que logo deve chegar ao fim, e assim espero.

Pesadelo agora está me visitando durante o dia também, inclusive enquanto ainda estou no leme.

Não sinto mais a presença de Amor ou de Esperança, ou dos outros antigos companheiros.

Mas sei de uma coisa: ficarei forte graças a Raiva, e superarei os desafios de Pesadelo.

Assim chegarei ao…

Esquece! Não vou chegar. Chega de me enganar.

Foi um erro ter começado essa viagem estúpida!

Eu só quero terminar. Terminar com tudo…

E de repente chega o último indivíduo desta viagem.

Ele é conhecido como Ódio, e sugere acabar com tudo isso.

Eu não sei o que lhe responder, e ele nem esperou uma manifestação minha.

Raiva e Pesadelo me seguram com força, cada um em um de meus braços. Eu não sou forte o bastante para livrá-los de mim. Obrigam-me a ajoelhar perante o Ódio.

Ódio desembainhou sua lâmina. Uma espada negra com empunhadura vermelha como sangue. Não consigo tirar a minha visão daquela espada.

Vi sua arma recuar até sua ponta ficar atrás do ombro do Ódio para pegar impulso, e num movimento que não pude acompanhar, a espada fica cravada no meu peito.

Não vi mais nada.

Não senti mais nada.

Não sou mais nada.

Minha vida acabou ali.

Começa o conto Naufrágio

Não havia nada que poderia ter feito para evitar tudo aquilo. Ou será que tinha outra opção?

Não me lembro de ter acreditado uma vez sequer na minha vida que tudo era predeterminado. Por que estou pensando assim agora que tudo acabou?

Mas acabou mesmo? Se tivesse acabado não haveria mais palavras. No entanto novas frases ainda estão surgindo…

Então quem sabe… Talvez eu ainda tenha alguma chance!

Começo a sentir um gosto salgado em minha boca.

Cuspo tudo para fora antes que eu engasgue de vez com o que parecia areia.

Sinto meu corpo jogado ao chão. Tento me erguer, mas só pude me levantar com a ajuda de alguém.

Meus olhos estão com dificuldade de se abrir, mas quando conseguem, um par de olhos verde e redondo é preenchido em minha visão num fundo de tom de pele. Água escorre a partir destes dois objetos redondos e verdes, e por fim sinto um abraço muito forte. Um abraço da Esperança.

Foi Amizade que me ajudou a levantar. Seu sorriso espontâneo me confunde por ele estar assim mesmo depois de ter agido daquela forma.

Mais a frente eu consigo ver a Disciplina. Seu pé não faz tanto barulho na areia, que agora percebo fazer parte de uma ilha. Está com uma cara de brava, mas logo volta a sorrir.

“Também senti sua falta, Disciplina”, respondo. “De todos vocês.”

Os três me envolveram em um enorme abraço.

Alguns passos a minha frente está Amor, me encarando. Cheguei perto dela, mas não sabia o que fazer.

De repente eu ouço a voz de Sonho, me dando a seguinte ordem: “VÁ!!”

Obedeço, e dou um beijo na boca do Amor, que recebe com o maior prazer, retribuindo com carícias em meu cabelo e um sorriso lindo no final de nosso beijo.

Não precisei dizer uma palavra. Não era necessário compreender Amor, apenas senti-la.

Olhando para trás enxergo meu navio todo destruído, mas nenhum sinal de Raiva, Pesadelo ou Ódio. Só vejo um sujeito vindo em minha direção.

Este é um grande amigo meu. Não posso acreditar de eu tê-lo esquecido na hora que eu mais precisava.

Ele se chama Desafio, e foi o responsável por me incentivar a construir um navio e a começar a viagem. Tentou ainda me orientar que não devemos nos limitar somente ao prêmio, mas comemorar a cada obstáculo superado em cada dia da jornada.

Eu devia ter aprendido esta lição mais cedo, e Amizade disse que também tentou me avisar disso, e ele tinha razão.

O Desafio não precisa pronunciar sequer uma palavra. Eu já sei o que ele iria me propor, então começo a recolher as madeiras jogadas no chão da ilha e selecionar as melhores para construir meu novo navio.

Começa o conto Naufrágio

Eu devo aproveitar cada momento da minha vida.

Tenho de me concentrar a não sair da linha com a ajuda e supervisão da Disciplina.

Devo valorizar cada segundo que passo ao lado de Amizade, além de sentir mais a presença de Amor.

Nunca mais largarei uma conversa com o Sonho no fim da noite. Confesso que sempre esqueço sobre o que falamos no dia seguinte, mas ainda assim vale a pena se divertir com ele.

E a Esperança. Eu jamais vou desapontá-la outra vez. Enquanto eu puder olhar em seus olhos de esmeralda, eu vou saber que estou feliz.

Esta história não vai se prolongar até eu chegar ao final do horizonte. Pois, sabe… Não há um fim.

É inadmissível chegar ao fim. As maiores conquistas são feitas no decorrer da viagem.

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