O que define a maldade? Existe alguém inocente? Se depender do ponto de vista de todos, pelo menos uma pessoa o julgará como malvado, e esta mesma tem suas falhas.

O conto a seguir tratará disso. Dividido em duas partes, cada uma no ponto de vista dos respectivos “vilões” da história.


Malvado – Parte 1

Malvado

Terceiro mês consecutivo. 

Meu posto de estacionamento é o mais movimentado da cidade. Nossos clientes deixam seus veículos por horas aqui, dispensam o uso de Uber. Ainda assim não tenho tanto lucro. 

Já economizei tudo o possível. Deixei de comprar assentos confortáveis aos funcionários, a garrafa de café desgastada deixa a bebida fria em questão de minutos, mascarei a correção do dissídio. 

Por que este lugar não cresce?! 

“Milena?” 

“Pronto, senhor Guilherme?” 

“Cancele todo pedido de férias dos próximos 30 dias. Nenhum funcionário terá licença ou folga por atestado. Quem discordar, convide-o a visitar o olho da rua e nunca mais voltar a trabalhar.” 

“… entendido, senhor Guilherme. Mais alguma ordem?” 

“No momento é só. Tenha um bom dia.” 

Eu não deveria desligar o telefone com tanta força. Preciso economizar até nisso. Como se adiantasse! 

Todos ficarão presentes até eu resolver este problema. Vou verificar pessoalmente o que está acontecendo. 

Aceno um bom dia a Milena ao sair da minha sala. Sempre com sorriso meigo e toda delicada com os relatórios. Sempre com as unhas azuis, pena a aliança em seu anelar esquerdo estragar tudo. 

Cumprimento os escriturários. Não mexem com o meu dinheiro, e eles mesmos compraram ventiladores usb conectados no computador de cada. Não, não podem ser eles. 

Inclino a cabeça ao segurança, ele responde. Tenho dois caixas por período, um em cada guarita do estacionamento. A mais jovem se demonstra um tanto rebelde, o único homem no caixa é experiente, velho e inteligente demais para desviar dinheiro. Será? 

“Bom dia Francisco, Sabrina.” 

Eles cumprimentam. 

“Como está o dia?” 

“Bem, e o senhor?” Sabrina responde errado. 

“Bem movimentado. Temos muitos eventos esta semana, Guilherme. Logo, logo o estacionamento estará lotado, algo difícil por temos tantas vagas.”  

A resposta de Francisco é como eu gostaria de ouvir. 

“Ótimo! Fiquem com o bom trabalho.” 

Entro no estacionamento pela guarita da saída. Todas as vagas ocupadas, tal como Francisco diz. 

Latas e sacos jogados no meio deste espaço. Quando voltar mandarei Sabrina retirar, não compensa contratar um gari só para isso. 

Prestes a retornar pela guarita de entrada, contei quase 30 vagas livres. 

“Teremos um evento daqui meia hora, chefe. Com certeza encheremos com os convidados de última hora, como é típico de todo brasileiro”, Francisco responde antes de eu sequer questionar. 

Também é típico de brasileiro dar o jeitinho, Francisco. O senhor está muito cortês… 

“Guarda?” Sempre esqueço do nome de seu Alcântara, gravado no uniforme de segurança. 

“Sim, chefe.”

“Confio em ti para denunciar qualquer furto que acontecer no estacionamento. Desconfie de todos.” 

“Começando pelo senhor?” 

Arregalo os olhos, mas logo vejo ele rir da minha cara. Só quero ver ele reclamar depois por não receber aumento. 

Vou até a porta do escritório. Volto. Coço minha barba por fazer até chegar no meu carro. 

Confiro os retrovisores, coloco o cinto e giro a chave. 

Sabrina libera a cancela. Ela não sorri. Permiti ela fazer uma consulta ao dentista durante o expediente e ela não usa os dentes. Tão jovem e não sorri. Por que eu contratei ela mesmo? 

Torno o quarteirão e paro na padaria.

Sempre com os pães aquecidos, as paredes douradas refletem no sabor de cada guloseima. Refletem no preço também. Algo que meus funcionários não poderiam comprar, ou podem?

Peço dois mocaccinos com creme, uma torta salgada e duas carolinas. Entregam na hora. Como enquanto reflito. 

Sabrina e Alcântara não conseguem disfarçar. Não estão afim de dar duro pelo trabalho. Francisco é bonzinho demais. Gente do escritório só sabe fazer fuxico, parecem ratos. Os caixas e guarda do período da noite ainda são piores de serviço. Só Milena é confiável? 

Não adianta trocar a equipe, são todos iguais! Maldito jeito brasileiro, tem na ponta da língua as brechas da lei e tira proveito. Depois o governo reclama quando sonego imposto.

Como a última carolina e engulo de uma vez a segunda xícara de café. Queima minha língua, estava mais quente que a primeira.

Gastei quinze minutos. O bastante para notarem minha falta. Hora de surpreendê-los.

Sigo até o caixa e pego o meu cartão. Devolvo à carteira e pego o cartão da empresa. Nem este café sofisticado causaria um furo no orçamento do estacionamento.

Deixo meu carro e vou a pé. Lojas vazias ao meu lado, muitas com promoções de acabar o estoque e fechar de vez. Mas o teatro está lotado, graças as formaturas. Se dependessem apenas de apresentações artísticas, já teriam fechado, assim como o meu posto, mantido por causa da família dos estudantes formados.

Alcanço o posto. Francisco pega o celular ao me ver.

“Desliga isso agora!” chamo a atenção com o meu grito, acabo o assustando. Se este senhor tiver problema de coração, problema dele.

Alcântara surge da guarita da saída e tampa a boca com as mãos. Sabrina está rígida de frente ao caixa.

“Não tenho nada a ver com isso, senhor Guilherme.”

“Explique-se, Sabrina! Alguém tirou o dinheiro do caixa?”

Ela aponta com o indicador tremendo ao escritório.

Corro feito um touro. Esmurro a porta e meu queixo vai ao chão ao ver o dinheiro do meu estacionamento.

Meu braço treme. O celular quase escapa pelos dedos, mas consigo telefonar à polícia.

Silêncio absoluto e olhares de pavor no chão. Eles se coçam, fecham o rosto com a mão. Mas a pior dentre eles está chorando.

Eu também estou.

“Você me decepcionou, Milena.”


Continua no próximo post…

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