Confira agora a segunda parte que completa o conto com a perspectiva da malvada. Há justificativas para o ocorrido na primeira parte? Deixo a vocês responderem esta questão após a leitura.


Malvada – Parte 2

Malvada - parte 2

“… entendido, senhor Guilherme. Mais alguma ordem?” 

“No momento é só. Tenha um bom dia.” 

Sem férias nos próximos 30 dias?! Eu ia tirar a minha daqui uma semana! 

Chefe maldito. Só pensa em nos humilhar. Eu preciso desses aumentos, preciso de férias, até a merreca do dissídio me ajudaria. Mas ele nega tudo. 

A porta dele abre, preciso me recompor. 

Disfarço meu sorriso, mamãe me ensinou a manter o emprego dessa forma. Abro a planilha correspondente ao relatório  e digito números aleatórios. Depois eu corrijo, ou não. O traste nem confere esses documentos. 

Ele vira seu rosto, de um lado a outro nos escriturários. Tadinhos dos meus colegas, merecem mais do que este aprendiz de Temer como nosso chefinho.

Cumprimenta o José Alcântara. Ele nunca cumprimenta nosso segurança, muito menos os caixas. Agora passeia pelo estacionamento, cada semana inventa uma mania!

Aproveito e faço uma chamada:

“Oi, Docinho. Se sente muito dodói hoje?”

“Não fale assim, Milena. Hoje não. Esta doença não é brincadeira.”

“Eu sei que não é, amor… Como foram os exames?”

“Os piores possíveis. Pegarei dinheiro emprestado do banco. Céus, precisamos assaltar o banco para fazer o tratamento!”

“É pior do que pensamos?”

Lágrimas escorrem em mim.

“Sim. Seu Docinho está nada bem. Está estragado, amor.”

“Não, não está. E nada de assaltar banco, nem fazer empréstimo. Eu… Eu darei um jeito.”

“Do que está falando, Mile-”

Interrompo a ligação.

Pego meu lencinho e enxugo o choro. Retoco as bochechas, ergo a cabeça e vou na sala de finanças, contábil, almoxarifado… tudo misturado porque este muquirana não investe no nosso conforto.

Permaneço de cabeça erguida diante dos colegas, mas me rendo. Borro meu make de vez, chorando feito chafariz. 

“Ele vai morrer! Não conseguirei pagar a cirurgia.”

Enzo aproxima de mim, me consola. Seguro firme em seus braços.

“Eu não queria. Fiz vista grossa para vocês, mas não queria participar disso.”

“Não se preocupe, Milena. Nós vamos ajudá-la. Tudo que pegarmos na próxima fica com você.”

Evandro e Elias reclamam com o nosso colega mais novo. Enzo ainda me defende. 

“Se não fosse por ela, já estaríamos todos na rua.”

Bonitinho da parte de Enzo. Aproveitei bastante dele quando descobri este esquema. Está bem, ele gostava disso, até conseguir uma namorada que agora faz o mesmo.

Os dois suspiraram. Evandro diz enfim:

“Você não é diferente dele. Mas se isso salvará seu marido, outro ser humano, todo o dinheiro de hoje ficará com você.”

Agradeço a todos, apesar de sentir nojo por ser comparada ao Guilherme só por estar em cargo superior. Eu só aproveitei do Evandro uma vez, afinal. Agora só tenho olhos para o meu Docinho, e ele está com dodói muito do mal. 

Sento de volta na minha mesa, e vejo pela janela o chefinho sair de carro. Não esperava a oportunidade surgir tão rápido. 

Enzo me acompanha até o seu Francisco.

“Ela entrou no esquema a partir hoje.” 

“É por um bom motivo.” 

“Não esquenta.” Francisco abana a mão. “Vamos passar por cima do Guilherme. Ele desconfia, mas nunca nota a diferença.” 

“Perceberia se visse meus relatórios, eu nem deveria fazer isso por ser do RH.” 

“E a Sabrina não deveria limpar o estacionamento por ser caixa, mas lá vai ela.” 

“Hora perfeita!” Enzo bate palmas e corre até Alcântara. 

O segurança vai até Sabrina e a distrai por um momento. A coitada é muito inocente. 

Enzo me acompanha até o caixa da guarita. Arranca o dinheiro de lá e passa pelas minhas mãos. Tira a gaveta do caixa e pega as notas de cinquenta, depois com uma chave abre o cofre e tira o monte Everest em dinheiro e passa tudinho a mim.

Volto correndo ao escritório, o coleguinha recolhe as notas que deixo cair.

Recebo palmas ao atravessar a porta como se eu cruzasse a faixa após a corrida de São Silvestre. O dinheiro continua a escorrer de minhas mãos.

Droga! Não precisava ser assim. 

Não tem outro jeito. O nosso governo é corrupto, tudo é caro nesta porcaria de país, a saúde pública não passa de hipocrisia.

Jogo o dinheiro todo no chão.

“Isso não é certo. Eu deveria ter denunciado todos vocês desde o começo.”

Evandro dá um tapa na minha cara.

“Agora é tarde. Você está tão podre quanto todos nós. Pega esta porcaria de dinheiro e cuide do seu marido.”

Agacho e pego tudo de volta.

As mãos tremem e deixam escapar dinheiro entre os dedos. Pego de volta, ninguém me ajuda. Não faço ideia o quanto todo esse dinheiro vai dar, talvez consiga começar o tratamento de Docinho. Terei que assaltar um banco para continuar. Mas farei por ele, tudo por ele.

Meu celular toca.

“Não podia pegar o dinheiro do caixa. A Sabrina descobriu.”

“Converse com ela. Na próxima ela leva uma parte.”

“Ela é uma criança idiota. Não vai entender o que estamos fazendo. Ela vai denunciar. Devo apagar ela.”

“Quê?! Não faça nada disso! Eu vou dar um jeito.”

“Não adianta. Eu resolvo.”

“Mas-”

Desliga na minha cara. Tenho de pegar todo o dinheiro de novo.

O celular toca outra vez. É o Francisco, mas logo ele desliga.

Volto a recolher as notas no chão. As unhas batem no azulejo, estragam o esmalte tão amado pelo Docinho.

O estrondo da porta me faz gritar. Solto tudo o que estava em mãos e me viro para a entrada.

Começo a chorar, soluço enquanto Guilherme fala com a polícia.

Está tudo acabado. Estou acabada. O Docinho… Tadinho!

 

Descabelada. Unhas Quebradas. Rosto roxo. Pernas fracas. Corpo empoeirado.

Assim eu permaneço dentro da prisão. Desta forma eu lamento todos os dias não pelas minhas atitudes, mas pela minha vida. Eu choro, choro de tristeza, de raiva, de incompetência; quando antes eu só chorava por amor.

Eu não amo mais. Acabam de dar a notícia sobre o meu Docinho. Que pelo menos Deus o tenha…

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