Mês de novembro continua, bem como as postagens especiais de O Conto do Convidado! Mantendo o lado sobrenatural, mas sem o tom sombrio das histórias anteriores, os leitores de Mitópolis vão reviver as trapalhadas de P durante alguns parágrafos.

JP Archanjo é o autor convidado de hoje. Publicou o seu primeiro livro no primeiro semestre de 2018 pela editora independente Luna. É umbandista aberto às diversas religiões e mitologias, característica que contribuiu para distribuir um pouco de cada no livro Mitópolis enquanto avança a trama na fantasia urbana pelas ruas de São Paulo.

Pássaros cantam sobre uma sequência nas histórias de P e no lançamento de um livro de pequenos contos. Enquanto esses não chegam, é melhor conferir o texto que ele compartilhou para o blog a seguir:


Mundo Alternativo

Mundo Alternativo de JP Archanjo

— Ô, seu filho da puta? PRESTA ATENÇÃO! – a Estrela diz quando tento acender as velas com um jato de fogo forte demais.

Fecho a cara, só xingando mentalmente, já que estou sob juramento de que não responderei nada começando com um “olha aqui, queridinha…” hoje. Afinal, faz mais de 3 anos que a turma não se encontra. Sinceramente, só estou reclamando por reclamar, estava morrendo de saudades desse povo.

Olho em volta para o que um dia foi uma catedral gótica, as rosáceas e os vitrais precisam de uma reforma, mas as luzes da cidade projetam suas cores de um jeito suave. Me sento sozinho no que um dia foi o confessionário, segurando um copo de catuaba (deixo a bebida um pouco mais gelada com uma baforada estilo mentos).
Não comemoramos o Natal, já que descobrimos que Cristo nasceu e renasceu em várias datas, formas e corpos. Poucos de nós, também, realmente têm uma religião, então a festa de Halloween foi a única alternativa. Somos todos monstros por fora afinal. Nada mais irônico para uma turma que é a personificação da ironia.

Depois de anos à base do vamos-marcar-de-um-dia-marcar, finalmente consegui pôr Lou contra a parede e dar o ultimato. Ainda não tenho moral nenhuma para algo do tipo com a filha de Oyá, esquentadinha por natureza, mas Hélia tem o poder secreto das mulheres sobre Hor. Pondo a Mãezinha (Lou) no controle, rapidinho os ingratos se lembraram de mim e de Miler. Pedi a Jaci que deixasse a Estrela descer por uma noite, Lupinio chamou a sakura e Margot e o grupo está quase completo.
Esse quase me dá um nó na garganta.

Me levanto e arranco uma coxa de frango das mãos de Lou, que protesta de boca cheia, dou um selinho rápido no meu namorado e até recebo um sorriso de Hélia (what??), caminhando em direção à porta.
Bem, São Paulo está diferente, eu sei.
O país inteiro está depois do que fizeram com ele.

Tudo está perigosamente perto do fim e a galera está super ocupada em montar a defesa dentro de suas esferas. Mas conseguimos canalizar as sete bênçãos e pô-las em jóias. Daí foi fácil: Lou forjou um escudo de bronze celestial e Miler o cravou com suas flechas na torre esquerda da catedral.

Do lado de fora, os destroços de onde um dia ficou o cemitério da Consolação me causa um calafrio. Faz tempo que Campos Santos vêm deixando de ser zona neutra, alguns olhos famintos me encaram de entre as lápides, meio escondidos pela Garoa, hoje comum. Não existe mais disfarces, o mundo já sabe quem somos e nossos inimigos também.

Me sento no primeiro degrau. Um anjo de mármore coberto de limo está ao alcance da luz do nosso “salão de festas”, me olhando com uma expressão tão triste que me deixo levar pela emoção. Uma raiva crescente me faz arremessar o copo contra a imagem, o barulho abafado pela hera que cresce em suas asas.

— Eu sou filho de Obaluaê, agraciado por Oyá! Por que não consigo nem te sentir por perto? Hein? – esfrego os olhos, tentando parar as lágrimas. Não quero continuar mantendo esperanças, já que tecnicamente a graça dos donos do cemitério me diria se ele tivesse partido. Ou talvez não. Não importa, não VOU ter esperança.

Espero a resposta, mas só um ventinho gelado assobia em direção aos túmulos semi destruídos, bagunçando meus cabelos no caminho. Sinto uma saudade absurda tomando conta, saudade de seu jeito doce e perfeitinho. E não sinto que estou sendo desleal com Miler por causa disso.

Nunca mais!, um corvo parece grasnar pra mim.

Desço os degraus, sem tirar os olhos da estátua. Nessas horas gostaria de conseguir ficar bêbado como os normais e pôr a culpa na catuaba, mas não dá. Não sou mais híbrido, não dou PT (PT = Perda Total).

Ouço as criaturas no escuro rosnarem, movimentos de pés estalando ramos secos, cheiro de carne podre. Um estalido misturado com estática soa em algum lugar no alto. E continuo andando, fitando o anjo. Seus olhos parecem quase vivos, sua boca meio aberta, querendo me dizer alguma coisa. Caminho pelo pequeno pátio até o limite da luz e do campo de proteção místico, ultrapasso a redoma dourada e caio de joelhos alguns metros depois, chorando.

A culpa pode ser o mais poderoso dos monstros que carregamos. Estou aos pés do anjo, levemente bêbado e filosofo, puta-que-pariu.
E é então que me dou conta de que estou realmente encrencado.

— Ai, carái – digo olhando para cima.

A poucos centímetros da minha cara, dois olhos em formato de luas negras me encaram, os dentes afiados na boca estilo Pânico bafejando. Ela tinha tudo para ser diva e maravilhosa, mas o medo que me causa é bem conhecido por todos da noite. Seu culto está tão fraco que mal consegue encarar um dragão médio como eu, imagina gastar energia com estética.

— Já ouviu falar em Colgate Enxaguante Bucal, amore?

A deusa não parece muito satisfeita com minha piada e baba um litro de gosma na minha brusinha nova. Meus reflexos estão um pouco lentos, mas ela ainda rasga minha manga quando levanto voo. Fico puto ao dar a volta no anjo.

Me viro de frente para ela, que cresce com as sombras em volta, apoiando pornograficamente os joelhos nos ombros do anjo de pedra, segurando sua cabeça. Cuspo uma rajada de fogo, que surte um pouco de efeito, mas com um grito Nyx chama a horda de morcegos vampiros, zumbis e um Ao Ao (um híbrido metade carneiro em decomposição, metade normal).

— EI, GALERA, PRECISO DE UMA AJUDA AQUI! – grito, mas a Garoa aumenta e quase ouço minha voz quicando na redoma de energia, rolando de volta pra mim.

Na segurança da catedral, meus amigos riem, se divertem, esquecidos do mundo aqui fora. Consigo entender cada palavra, mas ninguém consegue me escutar.

— Clássico- resmungo.

Estou sozinho nessa e que não sou foda o suficiente para enfrentar essa multidão de míticos sozinho. Nyx se arrasta para cima, selvagem sobre a cabeça da imagem.

— Estou te oferecendo um emprego de meio período, dragão – ela lança um novelo de fios negros que passam queimando perto da minha orelha. – O turno da madrugada paga bem. São tempos difíceis para seres como você na sua esfera.

Desço até pouco acima do alcance dos mortos-vivos, encarando a deusa, fingindo avaliar a proposta. Por mais que eu saiba as vantagens do lado negro da força, nunca sairia do lado de Jaci por uma gringa estranha. Sorrio:

— A proposta é boa. Quer uma referência? DRACARYYYSS! – encho meus pulmões de fogo.

As chamas ricocheteiam no pedestal do anjo, que tem mais ou menos 2 metros de altura, queimando parte dos míticos mais próximos. Alguns chupa-cabra em chamas saem espalhando o fogo pela noite agora clara. Ganhei tempo, mas não sei bem o que fazer com ele. Nyx cai da imagem, se afastando rapidamente do campo de força, pairando entre o anjo e o limite do pátio. Ouço o estalido engraçado novamente e quando penso que não tenho mais idade para aguentar farra a noite toda, o corvo grasna logo acima.

— Que falta faz um anjo da guarda! – resmungo pela milésima vez.

Mas não tenho tempo para mais que essa frase tosca. Procuro pela origem do som e descubro a origem do ponto falho do campo de força místico: o desgraçado do pássaro está tentando arrancar uma água-marinha! A pedra provavelmente está cedendo.

Como não adianta pedir a qualquer deus para que Nyx não tenha chegado à mesma conclusão que eu, nem vejo se ela está me seguindo quando estico meu pescoço, disparando para o alto como se não houvesse amanhã. Preciso impedir que as defesas baixem, pegando meus amigos de surpresa.

As asas dos morcegos passam rente, abrindo talhos no meu rosto, pescoço e braços.

— Tudo bem, carái, mas deixa meu look em paz! – esmago um morcego com a mão esquerda quando ele rasga minha camiseta. Ok, custou 19,90 no brechó, mas é MINHA!

Quando consigo chegar a torre e espantar o corvo, que me olha indignado, sinto a presença da deusa às minhas costas.

— Se tiver criado juízo desde que nos encontramos pela primeira vez, vai me entregar esse escudo, dragão – ela estende pra mim as garras bem-feitas pintadas de roxo.

— Pode ser… – deixo meu corpo ceder, desanimado.

Conto até dois.

Um…

Dois!

Dou minha última cartada.

O mais rápido que consigo, agarro a deusa pelos braços e arremesso-a contra a cúpula dourada de proteção. A virada de ano antecipada faz um show de luzes tão grande que finalmente minha turma sai em disparada, todos de armas em punho (com exceção de Lou, segurando um sanduíche de metro como espada).

Faço sinal para que fiquem onde estão, observando os olhos de Nyx se acenderem como carvão em brasa, sentindo uma fração do ataque das 7 bênçãos que protegem a mim e aos meus amigos, agora centralizadas nas pedras preciosas do escudo.

Isso pode me custar uma inimiga feroz na Batalha Final, mas por um bom tempo não terei notícias de sacrifícios de crianças feitos a ela (seu novo agrado favorito).

Enquanto a deusa se esvai em fumaça negra pela noite, só soldo com lava a água-marinha da bênção cristie. Não sei por que agradeço a Renato enquanto toco a pedra, sentindo a cura vinda da esmeralda, a energia que as demais me enchem, fechando os cortes, aliviando a ardência.

Com a dispersão de Nyx, quase toda a sua horda mal-cheirosa foge em disparada, se entocando em suas tumbas, só alguns lobisomens mais famintos me encaram das sombras.

Plano até a borda do pátio, me sentando de frente para o anjo de mármore.  Fecho os olhos, agradecido ao deus cristão por ter atendido ao pedido de Renato para me ajudar. Sei que tem dedo dele nessa história e pode parecer loucura minha, mas enquanto caminho de costas pelo pátio, voltando para a catedral, ouço a voz do meu ex-anjo da guarda falar pela imagem do anjo de mármore:

Onde eu estiver, serei seu anjo sempre, pra sempre e independente, Paulo.


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