Dentre as frases mais marcantes do personagem Seu Madruga do seriado Chaves, destaco esta para abrir uma discussão neste artigo: “Não existe trabalho ruim. O ruim é ter que trabalhar.” [grifo meu]

Seu madruga - Ter que trabalhar

Há quem ri desta fala mesmo ao ouvir pela milésima vez, tirando sarro do caráter preguiçoso do pai da Chiquinha. Todavia tenho uma opinião diferente. O ruim não é trabalhar, e sim a expressão ter que.

Meu pai fez cateterismo há menos de duas semanas. A principal recomendação médica após a operação foi ele ter que descansar por uma semana. Ele dizia várias vezes nos últimos dias o quanto estava cansado por ser obrigado a ficar em repouso.

Quando fazemos algo de nosso prazer sob condições favoráveis, temos a sensação agradável de realizar nossas tarefas. Do contrário, até o que mais adoramos torna algo desgastante.

A profissão de nossos sonhos fica chata se permanecemos no emprego que não nos agrada ou o ambiente de trabalho for sobrecarregado, só tendo que trabalhar para pagar as contas. Quem não arranja motivos para estudar além do que a escola/faculdade ensina, uma hora vai ficar decepcionado com algum professor e fará apenas o suficiente, tira uma nota satisfatória, passa de ano inconformado por ter que estudar assim até se formar.

Sempre senti repulsa ao ouvir esta expressão. Ficava puto quando alguém falava para eu ter que ficar calmo por estar nervoso. Desligava minha audição quando meus parentes gordos diziam que eu tinha de maneirar na comida.

Nervosinho - ter que ser assim

Não vejo sentido na obrigação de todos serem felizes. Felicidade é um acontecimento espontâneo e passageiro. “Ter que ser feliz” soa como uma imposição desconfortável em encontrar um caminho confortável na vida. Focamos nas metas que não acabam, sentimos pressionados em perseguir a felicidade quando poderíamos comemorar com o quanto já alcançado.

Consequência que temos de aturar

Sem falar da noção de fracasso ao não cumprir uma tarefa. Ser incapaz de fazer algo é visto como uma derrota em vez da oportunidade em refletir onde erramos e melhorarmos. Mas por que refletir e mudar nossas atitudes? Afinal é só termos que fazer tudo certinho e não teremos problemas.

Na obsessão de realizar as tarefas, pecamos em aprimorar nossas qualidades. Não temos tempo para estudar ou sequer relaxar porque temos de fazer o quanto antes. Se não consegue ou acha ruim, tem outros milhares querendo sua vaga.

É uma expressão venenosa. Ao seguirmos à risca, atenderemos as demandas imediatas. Porém perdemos o foco em desenvolver novas habilidades, a ponto de sermos incapazes de atender novas demandas ou ser substituído por algo automatizado.

Impus a mim uma rotina com o blog XP Literário. Publico um artigo toda segunda e análise toda quinta, além das postagens diárias. Mas eu não tenho que fazer nada disso! Faço por reconhecer como um exercício de escrita, faço para os leitores entenderem a frequência e visitar o blog nesses dias cientes de um conteúdo novo. Faço por motivação, e não obrigação.

Caso seja escritor, não terá que escrever todos os dias. Mas irá escrever para desenvolver o hábito e criar sua obra sem perder o ritmo de escrita.

Ou seja, ficamos desmotivados em realizar algo só por termos que fazer. Quando compreendemos a situação, traçamos metas e observamos a nossa progressão, buscamos formas de melhorar. Não lamentamos pela nossa incapacidade, e sim aprendemos com os erros.

Não sejamos amaldiçoados por esta expressão. Ninguém tem que fazer nada, quando temos motivos para alcançar tudo que sonhamos.

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