Olho ao redor e o redor olha de volta. Senti a queda tarde demais, devaneios atormentam meus veraneios, afligem a carne de meus pensamentos. Permito-me sangrar, outro dia a sacrificar o cordeiro em mim; nego-me a ter Senhor Pastor, e tudo faltará.  

Desperto. 

Outra vez na sala escura, luzes alcançam meus olhos, estão de dentro das molduras. Alturas diferentes, largos ou estreitos, profundos, transparentes, nítidos. Todos refletem a mim, todos com perspectivas. 

Encaro o reflexo da direita. 

A cara na tela do computador. Códigos correm na janela preta às batidas do teclado. Era apenas a programação do formulário de animal para associar ao dono, um sistema veterinário. Trabalho de faculdade, ilusão de empreender na área de poucas opções ao mercado, vamos revolucionar esta merda! Empreender no Brasil já é piada… Agora um moleque sonhando alto sem saber administrar a própria carteira, incapaz de fazer funcionar a associação do animal ao dono no cadastro. Trabalho em trio, e olha lá, solitário, ganhando nota, garantiu a todos terem o papel impresso daqui um ano dizendo vocês conseguiram! Se for pego n’alguma fraude, terá direito a celas distintas na cadeia, ou acha mesmo que diploma é entrada no mercado de trabalho?  

Ah, já desistiu do empreendimento, né? Jogou a saúde no lixo, engolia massas recheadas e enterrava as frustrações. O antigo chefe te vê e diz o quão gordo está. Sabe o quanto comeu com raiva contra as porcarias dos códigos. A prisão em espiral, sempre volta ao começo, cinco anos de aprendizado e continua na estaca zero. Exception ocorre quando o programa recebe parâmetro fora do esperado, é preciso prever esses eventos e tratá-los, caso seja competente. Exceção era deixar de ver exceptions no próprio código. Programa direito, porra! 

E hoje? Vamos refletir hoje? Diploma arquivado na pasta. Recebe propostas de trabalho, os caras te veem trabalhando das oito às dezessete. Que tal fazer algo a noite? No fim de semana? O que tu faz entre meia-noite e seis da manhã? Faz é nada, única coisa capaz de realizar na vida. N. A. D. A. 

Fecho os olhos. Não, não fecho. Rosto vira a esquerda. 

Olha aqui, as mulheres. Reconhece elas, foge delas. Trocou risadas, disfarçou alegrias. Eram as mulheres de sua vida, especial por estar entre elas. Finalmente! Pertenceu a algum lugar, ganhou admiração, todas dizendo sobre o futuro brilhante, a inteligência acima da média. As merece, claro que merece. Ondas delas desabarão a seus pés, e sem problema com a cor de pele, verdade? Se cair na rede, é sua. 

Errado. Outra vez é idiota. Nada de admiradoras, elas são políticas. Vampiras sugam essência, te descartam e seguem a vida. Fica inconformado, deu tudo a elas. Esgotado, enfurece na solidão e berra. Por que está gritando? Todas perguntam com o rosto de quem é você? Um esquisito, torcem para encontrar alguém, te empurra as outras e se livram de ti. 

Demora mas vê, pelo menos. A posição delas, das políticas. Têm nada a ver com a vida desprezível que possui, insiste em ficar na minoria, curvado ao comodismo. Elas ascendem. Alemanha, filhos, dinheiro, aposentadoria, sexo. E só vê os saltos delas tomando distância, ajoelhado à inutilidade. 

Olhos molham meu corpo, as pernas negam a se levantar. Joelhos permanecem no chão e o rosto encara a frente. 

Está aí, de novo com a cara na tela. A janela é branca, desta vez. Todo mundo usa isso aí, mas o que faz com isso? Ah, claro! Outra babaquice. Pior, se superou desta vez. Escrever. Criar historinhas inúteis. Aqueles ingratos da faculdade elogiavam sua escrita, também era o único a escrever a monografia, deu o diploma de mão beijada a eles, tinham de elogiar mesmo. Ao menos já descobriu, agora reconhece o quanto escreve errado. Conjugações misturadas, discordância verbal, crase onde mal entende, e anotações ridículas de revisão. Confirmar grafia, confirmar informação, conferir significado da palavra, buscar sinônimo. 

E qual o problema? Essas anotações melhoram meu texto. Estou saindo da espiral da programação. Posso enfim criar uma carreira agradável. 

Já negaram seu romance. Escreve tudo do zero, achando que sairá melhor. O caralho! Perderá meses de oportunidades no novo manuscrito, mandará às betas, apenas uma te devolve. Faz a revisão, acha tudo lindo, submete a análise crítica, fica submisso às anotações educadas dizendo o quão merda é o texto. Ainda acha merecer prêmio de concursos com esses continhos. Sabe a verdade, só se ilude. 

Já fui finalista em concursos do Wattpad. Os contos ainda servirão no futuro, posso publicar… 

Até quando? Quando vai desistir? Sabe, é só questão de tempo, sempre desiste. Está fazendo curso, é de praxe abandonar os sonhos depois de terminar de estudar. Bem que o pai adoraria ver o filho eletricista, vê nem pegar mais no computador. Esconde esta nova carreira, paga de incompreendido, tem medo de eles falarem a verdade. Desperdício de tempo, de dinheiro com cursos, análises, blog, livros. Mercado em crise, as duas maiores livrarias na falência. O floquinho de neve a sobreviver no deserto literário… Sequer estará aí, só se projeta no lugar onde jamais pertencerá. 

Chega! Cala essa boca. E meus joelhos escapam do chão, as molduras tombam. Ouço vidros estilhaçarem, risadas ecoarem sobre os choros, gritos de lágrimas jogadas no canto do quarto, lembro de todas elas. Ele se aproxima, o Eu olha para mim com sobrancelhas apertadas, rosto vira de um lado a outro. Pés batem no piso e ofega com rajadas picantes de dragão. 

Já perdeu de novo. Sabe, eu não sou o Senhor Hyde a ser liberto com poções. Os lobisomens tomam posse na lua cheia, eu te domino nas noites fracas, de cansaço e desprezo, todas as fases da lua. Sou diferente da ficção, desses livros aí que perde tanto tempo. Eu sou a realidade. 

Abraço o Eu. Eu arregala os olhos, perde a força e cala a boca. Envolve os braços sobre meus ombros e se desfaz. 

Alarme toca e o desligo antes de colocar os pés no chão. Sinto o piso frio, ciente de encarar o calor em breve, prestes a trabalhar. Toco o Eu em repouso no meu coração e digo. Vai dar tudo certo.

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