Compartilho com vocês um breve conto inspirado na música homônima (que está disponível ao final do post) e na convivência do meu sobrinho, este apresentado um pouco mais velho na história a seguir:

Estação das Almas

“Eu quero sentar!”

Mantenho-me firme de pé. A terceira lombada seguida quase me levou ao chão imundo deste maravilhoso transporte municipal — de merda.

“Eu quero sentar!”

Minhas mãos estão encardidas, e mais partículas de sujeira se reúnem para uma assembleia em meus dedos, não importa onde eu me apoie. Seguro a respiração para que meu nariz coçando não contribua com a imundice. Tampar minhas narinas com o meu braço só traria mais pó em minha cara.

“Eu quero sentar!”

A sinfonia do motor roncando, o balanço do ônibus e dos grandes sofistas de busão que opinam sobre tudo e sabem nada, atrapalharia até os solos de guitarra do Korzus no volume máximo em meu fone de ouvido.

Mas jamais abafaria o choro do pirralho à minha frente.

“Eu quero sentar!”

Tenho ele apoiado na perna esquerda, forçando para que esta parte do meu corpo não pule junto com o ônibus e arremesse o meu sobrinho para longe.

Somos os únicos de pé neste momento. Um dos sofistas ao fundo já berrou sobre a geração mimada que chora por tudo. O restante apenas olhava a janela ou compartilhava memes em seus celulares.

Pergunto-me se aquele sofista levou pancadas na cabeça só por sua mãe não gostar de sua própria cria após inúmeras aventuras na cama. Ou se ficou meses sem família no orfanato para depois ser adotado por pessoas totalmente estranhas a ele.

“Eu quero sentar!”

Cinco anos hoje, mas já sofreu demais no primeiro mês de vida.

“Eu quero sentar!”

“Não vai sentar, Fábio. Hoje não.” Afago sua cabeça da maneira que posso. Pena não poder berrar contra os folgados para ceder o lugar a uma criança.

Sinto algo molhado no meio das pernas, mas são apenas suas lágrimas. Seu choro nunca funcionou comigo, por mais que este fosse verdadeiro.

“Eu quero SENTAR!” O agudo cortou meus ouvidos feito faca, outro sofista ordenou-me calar o garoto. Se dependesse dos outros, cada um de nós teria o nome “Viado” ou “Vagabundo”.

“Não está gostando da brincadeira?” Sorrio para o Fábio, e seus olhos encharcados encaram a minha indagação.

“Isso ne-tem graça.” O garoto fala melhor do que eu quando era criança.

“Mas ainda assim é uma brincadeira, e vamos comer um baita bolo se ganharmos!” Tomara que tenha bolo mesmo.

“Não quero bolo, quero sentar.” Criança é um ser muito complicado em sua simplicidade.

“Nem sempre podemos ter tudo o que queremos, ninguém aqui tem.”

“Fale por você, Vagabundo Viado! É só trabalhar que cê consegue tudo na vida.”

Ignoro.

“Essas pessoas estão cansadas, Fábio. Trabalharam muito para comprar o pão do café da manhã. Muitos vão estudar, outros ainda têm serviços domésticos, e o resto está exausto demais para ouvir o problema dos outros.”

Sem respostas alheias. O bom senso agradece.

Ele vira seu rosto para cada uma das pessoas sentadas. Não recebe o olhar de volta.

Seus braços escapam de minha perna. Agacho de imediato para pegá-lo antes de cair. Se eu encontrar um concurso de quedas de crianças, farei questão de inscrever este meu sobrinho.

A senhora do banco à minha frente oferece o seu assento. Seu cabelo branco, pele esticada e as rugas fizeram-me negar a ajuda.

“Isso naé justo”, resmunga mais uma vez.

“A vida é injusta, rapaz. Nossas vidas são cheias de problemas. Mesmo trabalhando duro, somos incapazes de resolver nossas vidas.”

Ergo meu dedo do meio sobre a nuca dele para não ver a minha resposta a mais um discurso do sofista julgador de vagabundos.

Ainda com o meu joelho dobrado, seguro firme seus ombros e aguardo sua atenção.

“A vida é injusta, e ficará ainda pior se você deixar de sorrir.

“Nunca corresponderemos às expectativas de todos.

“Cometeremos o erro de tornar o semelhante ao lado um inimigo por pensar diferente.

“Falharemos em deixar o coração na palma da pessoa errada.”

O menino me olha confuso. Acho que exagerei.

Era para ser um dia divertido, e eu acabo de jogar na cara dele a dura realidade do que ele terá de enfrentar.

Mas não temos controle sobre o que acontece ao nosso redor. Filhotes fofos de cachorros podem sangrar, sua mãe pode jamais retornar para casa num acidente fatal, ou seu melhor amigo pode se tornar uma peste após a separação dos pais.

Fico triste só de pensar pelo o que ele vai sofrer no futuro por causa de seu tom de pele, e desejo que ele não possua outras caraterísticas capazes de gerar mais ódio contra ele.

Eu quero do fundo do coração a melhor infância para o Fábio, mas sua linda inocência se perderá mais cedo do que nossa família espera.

“Então não é uma bincadera.” Olha para o chão.

“Claro que é!” Chacoalho seus bracinhos para erguer seu rosto. “É uma brincadeira ótima para fortalecer esta armadura que protege nossos corações.”

Uma brincadeira que nos abrigará da tempestade da vida, digo para mim mesmo. Nos deixará firmes em frente a enxurrada de lama que insistem em derrubar qualquer um. Uma brincadeira que nos ensina a viver, c@ralho! 

Amadura? Somos guerreiros?”

“Com certeza! Alguns são para tornarem-se livres, outros querem ser fortes. Só que todos devemos lutar.

“Você não é exceção, Fabinho. Então levante seu rosto, mostre seu melhor sorriso, e aprende a andar diante dos problemas da vida.”

Solto o garotinho e ele se apoia firme no banco.

Levanto para acionar o sinal de parada, e ele corre alegre na saída do ônibus ao parar no ponto.

Os demais passageiros seguirão seu destino. Compartilhamos essa breve viagem, e poderemos estar no mesmo lugar nos próximos dias, sem conhecer um ao outro ou sequer reconhecer que já partilhamos do mesmo transporte municipal de merda.

Os sofistas ainda irão reclamar, as maiores ideias continuarão sendo contestadas por memes, e as correntes de notícias falsas que eles compartilharam ainda vão chegar à minha timeline de poucos contatos.

Mas no fim todos embarcaremos no mesmo destino. Não importa o veículo nem quando. Todos iremos nos reencontrar ao chegarmos na Estação das Almas, e quem sabe lá seja possível perdoarmos uns aos outros.

Enquanto este momento não chega — e espero demorar muito —, eu comemoro por ver novamente o sorriso deste pequeno moleque que ri a cada tropeço seu.

Assim que a porta do apartamento se abre, Fábio salta ao abraço de sua mãe.

Eu não me atrevo a dizer o quanto seus cabelos perderam a cor desde que ela o adotou, principalmente quando ela recebeu em troca uma grande alegria graças ao menino.

“Brincou bastante com o tio?”

“Sim! Tio me ensinou como deixar a minha amadura mais forte!”

“Armadura?” Ela olha para mim. Apenas dou de ombros. “O seu tio está te enchendo com bobagens de video games de novo, é?”

“Isso aí, irmãzinha.” O que mais eu poderia dizer? “Bobagens de video games.”


A música inspirada é a última faixa do álbum Rock Brasil, da banda Motorocker. Com certeza é uma música que garante boas inspirações:

 

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