Dois minutos de desatenção e o baque seco avisa da nova arte provocada pelo meu sobrinho. O pequeno pilar de gesso divide em si em dois, mais quatro cacos e seis gramas de poeira — medidos pela ferramenta chamada achômetro. O sobrinho prende o ar na garganta só por eu dar bronca ao quebrar algo feito há anos e presenteado pela sua mamãe, também segura as lágrimas no olhar inocente de sapeca.

Fica no cantinho, acorrentado pelos elos compostos por minutos, faltam-lhe três até ficar livre das amarras. Aproveito o silêncio imposto e tiro o atraso da leitura. Ela sempre atrasa porque jamais conseguirei ler todos livros pretendidos na vida, o importante é aproveitar o que puder aproveitar. Olhos aceleram nas palavras rumo ao término do capítulo. Dois minutos e o menino volta à ativa, a elaborar traquinagens durante o mínimo de descuido.

Claro, o menino não é autômato preso a algoritmos e regras intransponíveis. Levanta do chão, olhos vidrados na janela e boca aberta.

— Tio!

Tudo bem, posso respeitar essa pequena transgressão. Ainda sou humano.

— Sim?

— Olha lá fora.

Obedeço o garoto. Céu azul há tão pouco, agora tudo tomado por nuvens escuras. Nenhuma fenda sequer por onde a luz do Sol possa vir enquanto em casa as lâmpadas continuam acesas a 110 volts.

— Deus esqueceu de pagar a luz, tio!

Desculpe, rio do garoto, faço-o tremer o lábio e o assusto com gargalhadas. Este tipo de discussão ainda chegará, sobre eu ser ateu. Respeito quem acredita n’Ele e incentivo a persistir nela, contanto respeite também a crença do outro. A criatividade do menino é que causa essas risadas.

— Puxa a toca da blusa, garoto. Vamos ver como está lá fora.

Com a toca dele na cabeça e meu livro fechado sobre o sofá — falta apenas duas páginas do capítulo —, tomo a mão do sobrinho e vamos porta afora. As paredes laterais do quintal cobrem o vento a levar sacolas e embalagens de salgadinho dos vizinhos sobre a calçada, nenhuma brisa beija o rosto do sobrinho ou o meu.

Ficamos no lado de fora. Deixo o garoto ver as novidades da vida, fora das telas de celular ou tevê. Ele aponta o dedinho ao céu, sorri contra a folha voando pela liberdade conquistada pelo vento, escapada da árvore a sete casas a esquerda, ao fim do quarteirão. Dois gatos saltam no muro de casa e correm, pegam atalhos até os lares deles, pois namoros felinos desmancham sob água. Araras dão o ar da graça, cada vez mais raras, elas pintam o céu cinza com as asas azuis, buscam abrigos e encontram o toldo do bar.

Sigo a sensatez das aves e trago o sobrinho para dentro de casa, ao fechar a porta a chuva cai. Aproveito a atenção do garoto e compartilho uma lição, trocando a palavra “natureza” por “Deus”.

— Viu como Deus esqueceu de nada? Apenas decidiu ser a hora da chuva, das criaturas estarem prontas a receber a benção dos céus e saciar a sede do mundo.

Chega outro baque, este de fios estalados no poste da rua. Apaga a luz de toda a casa, o celular do garoto estava na tomada e carregou apenas doze porcento da bateria, o meu ainda fica na metade, e o deixo desligado na estante.

— Deus não esqueceu, mas você não pagou a conta de casa. Né, tio?

Desta vez ele gargalha comigo, sem sustos. Trocamos outras risadas e inventamos brincadeiras, disputamos duelos de brinquedos e nos abraçamos antes de comer paçocas como café de tarde. A casa continua escura, já lá fora o Sol volta a atravessar nuvens brancas. Carrego o guarda-chuva numa mão e o sobrinho na outra, podemos atravessar as ruas, ensopar a sola dos nossos tênis com o chão molhado e levar meu sobrinho a novas descobertas pelo mundo afora, dos prazeres disponíveis ao ar livre tão poucos metros longe dos celulares.

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