Sabe o que é desgraça? Sei muito bem, sou um exemplo disso. A vida toda sempre foi assim, não vivo no planeta Terra. Eu moro no mundo chamado Desgraça.

Mãe me disse que eu deveria parar de repetir esta palavra. Contou até uma historinha bem curta: o jovem se casou, mas não parava de reclamar, nada era o suficiente. A esposa não aguentou tanto ódio e largou dele, e assim começou a perder tudo.

Respondi depois de ouvir esta história que casamento é uma desgraça mesmo. Apanhei na cara.

Hoje não me bate mais. Está fora de alcance.

Ninguém mais da família além de mim mora na terra de meu avô, aquele bêbado desgraçado. Graças à tecnologia sou importunado por eles no celular.

Saio do grupo, a família coloca de volta. Eles mandam aquelas malditas correntes cheias de mentiras ou difamações. Eu reclamo, aponto os erros da corrente, mostro quando é vírus; e eles me xingam de chato. Sou expulso por alguém ao mandar a merda, comemoro, mas logo eles me colocam de volta.

Trabalho e pago as minhas contas. Quando se é adulto tudo se resume a contas. Os happy hours não agregam em nada, só alimentam ilusões sociais quando todos deveriam pagar suas dívidas. No dia seguinte falam de seus problemas financeiros. Eu escuto, e trabalho enquanto escuto. Basta abrir a minha boca e perderia o emprego na hora. Minha principal função é ouvir. Deveria ganhar um aumento!

Preciso ir na academia, só que meu tempo já está esgotado. Quando vou poder desgraçar da vida se eu ficar treinando bíceps? Melhor engordar com este doce de milho sem sabor, nada mais tem gosto.

O celular recebe chamadas. Vinte vezes. Atendo na vigésima quinta. Falo “porra” para o meu irmão. Marcos nunca desiste quando teima em falar comigo, sempre a mesma conversa.

“Já viu as correntes do grupo? Compartilhou para doar aqueles cinco centavos?
“Você tem que passear comigo, agora que estou com um [cita um modelo de carro diferente toda vez].

“Pare de usar sua mão e arranje uma garota.

“Mantenho segredo se curte garoto, só deixe de usar a mão.”

Tudo deboche. Só no fim fala algo sério. Desta vez foi:

“Fiz um convênio em seu nome. Tem cobertura com os hospitais de onde mora. Só faça alguns exames, está bem? Pelo amor de… Faça por você mesmo, e pela família.”

A família é o pior tipo de corrente. Nunca fui livre com eles. Nunca é o bastante. Eles sempre querem mais de mim. Terminei meu mestrado enquanto o resto se contentou com cursinho técnico. Mas no fim eu estou sempre errado, nunca faço nada direito. Não falam, mas eu ouço entrelinhas que sou a vergonha da família.

E sou vagabundo também. Minhas mãos não ficam calejadas no fim do expediente, logo eu não trabalho.

Aqui há mais feriados que no resto do Brasil. Nesses dias dão uma pausa nas correntes tradicionais e mandam a clássica “vida boa, hein? Só nos feriado!”, nem têm o trabalho de escrever, copiam e colam até o fim do dia.

Gravo um áudio com a voz do fundo da garganta em resposta. As mensagens dizem que áudio é apenas para o gemidão do zap. Além de impor regra, é uma regra tosca.

No dia seguinte recebo multa do condomínio pelo berro. Recebo outra por acrescentar “porra” no meu pedido de desculpas.

Paguei, depois caguei.

Os colegas insistem em convidar nas confraternizações. Cinco anos de recusas não são o suficiente para eles entenderem. Eles perguntam: por quê? Mas não querem saber o porquê, porque já sabem a minha resposta. Por que eles enchem tanto o meu saco?!

Duzentas mensagens recebidas no grupo da família. Imagina o caos se eu não tivesse desabilitado as notificações. Abro, todas iguais. Não perco tempo em ler, encerro o expediente e vou embora enquanto o resto gritam para eu ficar. Até estão tristes quando me veem saindo. Caguei.

Ruas totalmente desertas. Todos os dias é uma disputa desgraçada de pedestres para permanecer na calçada, mas não vejo nem os carros na rua.

Acelero o passo. Oito quadras até o apartamento. Ainda estou sozinho.

Lojas fechadas. Todas as casas trancadas até nas janelas. Corro ainda mais e nada.

Celular toca. Atendo e Marcos grita:

“Veja as porra das mensagens, Pedro!”

Se meu irmão meteu palavrão no meio da frase, é coisa séria. Tinha mais de cinquenta cópias da corrente sobre a seguinte notícia: guerra de facções no fim do dia, e é exatamente na minha cidade.

Corro pra caralho. Tropeço entre as pernas, mal caio, me levanto e continuo correndo.

Suo frio e ouço estrondos, rachas de pneus e tiros.

Polícia chega. Tentam me apreender, mas mudam de ideia quando grito socorro. Entro no carro e eles prometem me levar até onde moro.

Ruas são preenchidas com carros das gangues. O policial desvia de três. O quarto, quinto e o sétimo batem na viatura. Meu corpo bate de um lado para outro, esqueci de por o cinto. Sangue escorre da minha cabeça, os policiais gritam mais palavrões que eu.

O carro bate outra vez e eu fico derrubado no banco de trás. Ouço os disparos, vejo a cabeça do motorista sendo aberta por bala. Apago.

A dor percorre o meu corpo. Dói até ao abrir os olhos. Vejo tudo branco entre os borrões. Maca, lençol, parede, uniforme… O enfermeiro é negro, não que isso faça diferença.

Ele me tranquiliza. Segura meus braços até eu relaxar. Pergunta quantos dedos erguidos há na sua mão, mas acho estranho enxergar seis.

O sorriso do profissional me deixa tranquilo. Prossegue com suas análises, me engasgo com o palito na garganta (sempre acontece), e no fim ele pega meu celular.

Tela toda rachada, mas ainda funcionando. Mostra a mim a corrente da família. Cheia de mensagens de carinhos, xingamentos e comemorações em nome de Deus; gratos por eu ter sobrevivido.

“Você tem uma família e tanto!”
“É. Na verdade eu tenho sim.”

O que mais eu poderia dizer? Sou grato por estar vivo.

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