— Ei, Zé! Preciso falar contigo. 

O Chimpanzé abaixa o caqui frente a sua boca e vê quem o chama lá de baixo. Nenhuma surpresa, o tipo dele sempre vem. Tórax cheio de ar vazio, a cauda felpuda bateria na nuca dele se não estivesse dobrada para trás. E, meu Guaraci, olhas os dentes dele! Maiores de qualquer outro Quilo. Além do tipo, é ele daquele tipo. Justo quando o dia já estava longo, ficará eterno.

— Então diga, esgote logo minha paciência e vá embora! 

— Ô, Zé nervoso. Preciso falar com você de perto.

— Eu já te ouço daqui. 

— Só converso desta maneira, já sabe disso. Desce logo, Zé!

E o Chimpanzé revira os olhos e desce do galho da bracatinga. Fiapos fazem novos furos nos vinte dedos e três mosquitos sugam seu sangue até alcançar o chão. O Esquilo aguarda, de olhos e boca aberta, os lábios do bichinho nunca fecham por causa dos dentes.

Zé dobra as pernas e solta o peso do corpo. Permite a força da natureza bater sua bunda contra o chão e as costas no tronco da árvore. Dói feito a espetada de um guarani, tanto faz com a ponta da estaca de madeira ou do… daquilo, entende?

Quilo corre até Zé, agarra o braço peludo e fala no ouvido:

— Sei o que fazer da vida. 

— Não me diga. 

— Desta vez é para valer. — Dentes de Quilo raspam no pé da orelha do Chimpanzé. 

— Prefiria quando você sonhava em contar histórias. Gastava tempo pensando nelas e parava de encher minhas bolas.

— Esta sua boca sai mais besteira que o outro buraco, Zé! Ao menos já acertou meio caminho, eu quero voltar a contar a história.

— Maravilha! Então deixarei de tomar do seu tempo. Trabalhe nessas histórias, com certeza uma ficará famosa.

— Não farei várias histórias do tipo estória, primata. Criarei nenhuma, apenas contarei A história. 

— Qual é A história? 

Dentes do Quilo saem de perto da orelha de Zé. Chimpanzé observa o pequeno bicho parado, braços levantados mal alcançam as bochechas, essas duas bolas da cara maiores das que Zé carrega na cintura.

— A verdadeira. 

Agora o Chimpanzé lembra o que deve fazer. Está na hora de bufar, tapear a testa e continuar mais essa conversa sem sentido. Ele diz:

— Pois bem. Qual é a história verdadeira? 

— Eu me inspirei em dois exemplos de humanos. O primeiro era como eu, inventava histórias que nem todos tinham interesse; então ele revelou ao mundo uma religião, atraiu seguidores milionários para financiar a esta história mítica, mas real.

— Eu já ouvi a deste humano por outras pessoas. O chamam de lunático por criar essa religião sem pé nem cabeça sobre extraterrestres. Piores ainda são quem seguem ele!

— Ai, Zé. Sempre ouvindo de pessoas erradas. — Quilo estala a língua e balança a cabeça. — Talvez o segundo exemplo te convença. É do sujeito com bigode horroroso, no começo ele queria ser pintor. O fizeram desistir desse sonho, ele era péssimo. Então investiu como soldado e virou o líder de uma nação soberana, derrubada só porque tinha muitos invejosos.

— Por Anhangá, Quilo! Ele foi a pessoa mais cruel da história da humanidade. Ele exterminava quem era diferente! É como se eu resolvesse matar primatas de pele castanha por achar a minha negra superior.

— Diga a verdade, amigo. Você ouve essas besteiras daquele humano que te enraba de noite, né? 

Chimpanzé joga o caqui no Esquilo, a fruta desmancha contra os dentes do animal e molha os pelos castanhos. Quilo apenas pisca. Sem escapatória, apoia o queixo no punho fechado e relaxa a cabeça caída de lado, gesticula com a mão livre e volta a falar:

— Está bem, conte logo como quer fazer. 

— Eu transmitirei a verdadeira história, e com ela promoverei o novo rei, cuja espécie é a melhor e a mais linda, apesar de não ter dentes como os meus. 

— Tenho medo de perguntar, Quilo. Mas me diz, quem é o rei? 

— O Aguar. 

Sangue ferve em Chimpanzé. Músculos da face esticam o rosto e arregalam os olhos avermelhados. Enterra as mãos, pois os braços estão afim de apertar o pescoço de Quilo até os olhos saltarem das órbitas e os dentes despencarem da boca. Só que precisa dar o exemplo, por isso suspira e retoma a conversa:

— O Jaguar é nosso predador, amigo. Essa espécie assassinou a mãe dos irmãos Jaci e Guaraci. É a pior ideia de todas, Quilo, e me corta o coração te ver insistindo nela.

O primata segura o peito e despeja lágrimas na terra, demonstra o sentimento correspondente a sua fala. 

— Coitado de você, Zé. — Esquilo abraça o pulso do amigo e esfrega o rosto nos dedos da mão. — O nosso mundo está cheio de mentiras. Jaguares condenando a mãe dos deuses Sol e Lua? Eles tomaram conta deles quando eram pequenos! Você acredita nas mentiras do Gaio, aquele propagador de fake news. Aguar é a nossa salvação, Zé, precisa acreditar em mim.

— Cale a boca! — Zé puxa o braço e desfaz o abraço de Quilo, vira o corpo para a bracatinga, fecha os olhos pelo cúmulo da resistência. — Passou dos limites. Desta vez teremos de nos separar, Quilo. Andaremos por caminhos diferentes.

Esquilo dá um passo adiante, estende o pequeno braço na perna do amigo. Encharca os olhos e recua, dá as costas a Zé e vai embora. 

Aguar virou rei, no fim. Os Zés choram pelos cantos, os Quilos dançam felizes, e os Gaios berram sobre os passos dos súditos felinos do novo governo. Cada espécie têm a certeza sobre o futuro, poucos indivíduos de fato sabem, só que todos descobrirão com o tempo.

Quilo e Zé - conversa de animal

* Nas minhas pesquisas durante a escrita não achei indícios sobre chimpanzés viverem no Brasil (fora dos zoológicos). Ainda decidi manter o personagem porque Zé é bem brasileiro :p 

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