Continua a receber murros no coração, a dor controla o corpo, mãos apertam Priscila Mariana. Engasgada, sangue escorre do nariz dela, olhos esbugalhados choram, palavras são diluídas na garganta e perdem sílabas, sobram apenas suspiros e gemidos fora da boca, e suas finas e frágeis mãos empurram o peito de Thiago.

Empurrões o incomodam, perturbam a ele e a força presente no peito. Só combate a dor com dor. Alivia a garganta da moça e fecha os dedos no próprio punho, aperta as unhas nas palmas. Prima adquire fôlego e reage com socos na face de Thiago, e isso o ajuda. Retrai os braços, aperta o corpo, soca seus próprios ombros, a barriga, o peito, a face; a força do coração perde controle, aumenta a intensidade, e Thiago usa o impulso contra si, martela a nuca com o punho direito, machuca e deixa o cabelo ensopado em vermelho, a força enfraquece.

— Di, Thiago. — Ela cospe o restante do sangue, a luz da Convergência brilha sobre o suor da pele. — Você não é o mesmo.

— Eu te disse, Pri. E agora estou pior.

— Eu causei isso? Coloquei um demônio dentro de ti?

— Duvido ser demônio. Existe uma energia sobrenatural dentro de mim, ela me transforma e domina o corpo. Estou me transformando naquelas criaturas a cada vez que alguém queima meu coração com chamas negras, isso me condena a uma nova maldição.

Prima se levanta, dá dois passos na direção de Thiago, ele recua.

— Não quero te causar mal com minhas maldições, Priscila. Pegue o meu carro e busque abrigo.

— E o que você fará?

— Buscarei respostas, e redenção.

Pés de Thiago deslizam no chão molhado, param somente quando apoia as mãos na parede da cozinha, mancha o azulejo com o toque recheado de sangue, sua mãe não reclamará desta vez. Escurece a caminho do quarto, sempre foi escuro. Procura pela chave e documento estapeando a cômoda, a mão bate na miniatura de Darth Vader feita de gesso, pouco depois o som da peça partindo em pedaços arranca lágrimas, seu pai sempre avisou que isso aconteceria. Bate no objeto de metal e no plástico ao lado, pega a chave e o documento, retorna e vê Prima na sala.

— Pode ir. Não recue por mim. — Ele ergue as chaves.

— Ótimo, bom ter lembrado do documento. Vai que tenha blitz com policiais verificando a habilitação de duendes.

— Força do hábito, engraçadinha. — Thiago teve de rir.

— Di. — Ela o abraça e beija no rosto. — Desculpe ter sido agressiva, apesar de ainda achar ter merecido. Eu espero ver você de novo, se cuida!

Ele acena e observa a vizinha ir embora. É péssimo com despedidas. Aguarda a abertura dos portões, o som de ignição do motor, o deslizar da roda do carro comprado mês passado, mal passeou com ele ainda. Sai de casa quando Prima já está longe. Agora é sua vez.

No meio da rua, ele deixa a dor no coração o dominar de novo. Postura curvada frente as criaturas no caminho. Agarra o goblin pelo pescoço, permite as mãos torcerem o corpo do pequeno monstro e paralisar esses olhos para sempre. O cabeça de cuia perdido longe do lago tem a nuca inflada demolida após vários murros. O Jack da Lanterna recua, Thiago o alcança, torce seus dedos, agarra o punho, o cotovelo, e quebra o antebraço; Jack grita e expele fogo dos olhos e boca abertos na cabeça de abóbora.

Jack da Lanterna - Convergência

— Eu já estou acostumado com as chamas! — A frase gutural de Thiago tira o fôlego de Jack. Sem ar, o fogo sobre a cabeça é apagado. Um murro atravessa a face de abóbora, escancara o buraco do rosto em um único grande e redondo, e faz outro quando o braço perfura atrás. Sem o membro acima dos ombros, o corpo morre. E Thiago continua vivo.

Enxerga a mula sem cabeça na rua João Bento, paralela de onde está, só que abaixo. Difícil dizer se é a mesma mula, desconfia da vampira lutar contra o mito brasileiro até a morte enquanto protegia todos, proteção que falhou. Pouco importa os detalhes, Thiago terá a revanche.

Desce o escadão onde interliga as duas ruas. Os vizinhos drogados fumavam entre os degraus, porém jamais teriam visão parecida com a de hoje. Thiago nunca fumou ou bebeu, e agora alucina com a realidade da Convergência.

A mula profanadora relincha e dá meia-volta, bate os cacos no chão e inclina o corpo, derrama fagulhas no asfalto. Thiago bate no peito, inclina a coluna cervical, e escorre saliva da boca até o chão. A mula impulsiona as patas traseiras, os primeiros passos são de saltos das quatro patas, e são os últimos. Botas do tamanho de van escolar esmaga o animal de fogo no instante que surgem. O resto do corpo começa a se formar, pele turquesa repleta de rugas do tamanho da cabeça humana. Joelho se forma acima das árvores do terreno ao lado. É preciso inclinar muito a cabeça para enxergar a bermuda do gigante.

Correntes de ar atingem as costas de Thiago e formam o redemoinho entre ele e o monstrão. O vulto de vermelho e moreno desacelera junto com a ventania e dá forma ao saci já conhecido.

— Qualé a desse bixo? E qualé a sua parada, mané?

— Eu já sou igual a vocês, quero partir pra briga e entender o que acontece.

— Vixe, o maluco toma uns whey protein e já se acha monstro. — Saré expele a fumaça do cachimbo, ela paira no ar, toma densidade, se dissipa e despeja armas de fogo. AK-47, M4A1, HK MP7, uma Taurus de calibre .36 e duas de .38, Peacemaker de calibre .45, Glock 18C, e Colt 1911.

— Que porra é essa? — Thiago estremece.

— Num qué brigá? Amarelô só de ver as arma de fogo? Boiola da peste. — Saré traga o cachimbo de novo, assopra e forma um tacape com ferro atravessado na ponta, cai aos pés de Thiago. — Te vira com isso então.

Agacha e toma a arma, só consegue tirá-la do chão com o impulso da energia sobrenatural dentro do humano.

Chama verde acende diante de Thiago, dois seres saem das brasas. Um de baixa estatura com pés virados para trás, e a mulher com escamas misturadas a pele dos braços, cabelo ensebado com as pontas no quadril, ela dá a volta e mostra seu rosto de crocodilo e olhos amarelos, exibe os dentes afiados.

— O bando chegou! Ó Raoni e Angélica, esse moleque tá do nosso lado, o marica tem medo de pegá em pistola. Tamo bem garantido, viu?

Thiago vira o rosto e resmunga pela garganta.

— Relaxa, ô esquentadinho. Esses dois nem senso de humor têm.

Rua escurece com a enorme sombra sobre os quatro guerreiros sobrenaturais, em seguida um grito gutural vem na altura do céu. O gigante enfim completa o corpo, estapeia as casas da rua Maria do Valle e destrói as paredes, despencam junto com o teto e a mobília até a João Bento e arrasta consigo mais casas.

O Gigante - Convergência

— Achou que eu não conseguiria atravessar, Odin? — O eco do gigante mergulha nos tímpanos de Thiago, atordoa e aciona um zumbido estridente, escorre filetes de sangue das orelhas. — Esta Convergência servirá de nada! Destruirei Midgard, nenhum Aesir tomará poder daqui, e apenas Jotunheim prevalecerá no Ragnarök.

— Entendeu a parada da Convergência agora, mané?

— Ahn? — Thiago responde o movimento dos lábios de Saré, ouve apenas zumbidos. Batida do peito explode em energia, equilibra o senso de direção, recupera a audição. — Agora a noite começa — diz e sorri para Saré.

Chamas saem da ponta da flecha de Raoni e das garras da Angélica. Combinam combustões, brasas crescem e aumentam antes de disparar.

O humano também dispara, só que a si mesmo. O corpo repleto de fogo negro por dentro se joga à bota do monstro, crava os dentes na clava de madeira, deixa as mãos livres, e salta na perna do gigante. Pelos prateados tomam proporções de cipós por serem do gigante, Thiago consegue se sustentar neles sem arrebentar, e começa a escalar.

Vê as chamas verdes voarem acima dele e atingir o abdômen e quadril, acompanhadas dos disparos de bala. Saré tem um fuzil em cada mão, sem deixar de soltar fumaça pelo cachimbo e construir algo grande, uma catapulta.

Agarra nos pelos quando o gigante corre, indiferente a Thiago ou até dos projéteis. O tacape só machucaria o olho do monstro, é preciso escalar mais, tipo bastante. Toma um pequeno impulso e sobe três pelos, está quase no joelho. Segura-se, deixa o inimigo completar o passo, e sobe mais quatro.

Toma fôlego e sente o calor do fogo, não param de atacar, nem vão interromper e esperar Thiago escalar. Fecha o punho direito sobre os pelos, solta a mão esquerda e pega o tacape segurado pelos dentes, a madeira toda babada. Leva a arma para cima, e solta o peso do braço no joelho. Se ele pudesse procurar nesse momento, não encontraria algum arranhão desse golpe. Tenta outro, marreta o terceiro, quarto, berra no quinto, o sexto muda o tom em turquesa mais escuro, no vigésimo poderia deixar a pele roxa.

A catapulta de Saré está completa. O saci a aciona e lança uma bola gigante de metal na altura do quadril do gigante. O globo bate no cóccix do inimigo e explode. É uma bomba!

Explosão dispara fragmentos de metais que perfuram a bermuda e a bunda turquesa. Chamas escalam o corpo, queimam os pelos da barriga e a pele do gigante, não mais indiferente ao dano, e começa a sacudir. Estapeia onde foi atingido, depois a barriga. Sacode o corpo de um lado a outro, balança o Thiago junto, que rompe os pelos onde se segurava e entra em queda livre.

Grita por Saré, em vão. Sequer ele ouve o próprio desespero por socorro, de pedir só mais uns minutos de vida, de desejar tudo isso ser sonho e acordar. Seus pesadelos sempre acabam em queda, talvez a vida também.

Segura firme no tacape, única coisa capaz de segurar. Perna do gigante se distancia cada vez mais, o tempo desacelera com flashbacks de despedida. A graduação do ensino médio, a viagem a Belo Horizonte há dois anos, as discussões com o pai sobre problemas do carro, a noite com Joana.

— Me perdoa, Jô. — E fecha os olhos, prestes a repousar por definitivo.

Abre os olhos quando dois braços o agarram e flutuam com ele a sete palmos acima do chão. Vê asas transparentes sustentando o corpo da salvadora com armadura de metal pesado, as tranças de cabelo loiras na altura do peito balançando, algumas batem na testa de Thiago, sob o par de seios dela. Os seios dela. Ele já entendeu.

Desce até o chão com ele e solta. Incapaz de segurar o riso, escancara uma gargalhada conforme retoma o fôlego. E Thiago continua vivo.

— Obrigado!

— Não chegou a hora de sua morte — diz a loira de asas.

— Seja quem for que decide, não vai muito com a minha cara. Só me deixa sofrer mais.

— Errado. — Ela pega o tacape do chão e ergue para Thiago. — Eu decido e gostei de você.

— E quem é você para julgar quem vive ou morre? — Retoma o tacape, braço volta a tremer.

— Helga, uma das valquírias responsáveis por levar os mortais à Valhalla.

Valquíria - Convergência

Ele volta a rir.

— Aquele gigante disse que isso tudo é culpa do seu deus.

— Odin destrancou o canal antigo entre Midgard e todos os demais mundos onde abrigam os seres sobrenaturais e divindades, sejam os sustentados pela nossa árvore dos nove mundos ou a de outros panteões.

— Puta merda. — Thiago mantém a boca aberta. — Os deuses existem mesmo! Tá na hora de eu deixar de ser ateu.

Helga pisca os olhos azuis uma vez, inexpressiva.

— E por que o papai do Thor fez isso?

— A Convergência atraiu os seres desses mundos até aqui, foi inevitável, mas há o objetivo mais importante: o de restaurar a conexão dos humanos com os Deuses, a única maneira que Odin encontrou de superar o Ragnarök.

Thiago suspira. Isso é muito maior do que imaginava.

— Ainda pretende lutar, humano?

— Como você disse, minha vida está em suas mãos. — Ergue os braços e olha o gigante, pouco longe, com três partes do corpo em chamas.

A valquíria bate as asas e tira os pés do chão. Flutua até Thiago, segura pelas axilas e o levanta no ar. Atravessam a altura das árvores em segundos, está acima do nível da Rua Maria do Valle, alcança a altura da barriga do gigante. Mal consegue ver Saré e os outros dois aliados, na verdade cinco; Helga não é a única a chegar no meio do combate.

Corpo enfraquece conforme voam mais alto, nariz começa a sangrar. Thiago pisca os olhos, sente a luz sobre o céu noturno perder a intensidade, ou ele a visão, juízo é certeza que perdeu. Coração bate mais forte, adapta os sentidos dele na baixa pressão atmosférica, foca a força no braço em segura o tacape, ele torce para a energia não mandar o braço acertar a cara da valquíria, e a visão fica mais nítida, mas a luz ainda enfraquece.

— Alcançamos o ombro dele — grita Helga. — Vou me aproximar e te deixar na cabeça, os gigantes sentem a presença das valquírias, ele tentará me acertar, então aproveite a distração e acerte o olho dele.

— Pode deixar!

Ela arremessa Thiago a dois metros de distância. Ele flutua sobre o ar gelado, vê o gigante expelir fumaça fria das narinas, enquanto abdômen e peito exalam fumaça das chamas. Os guerreiros terrestres não passam de pontos lá embaixo, meros vagalumes piscando com o fogo verde. Olha a frente, vê fios grossos de prata sobre a nuca turquesa, a orelha do tamanho do humano, os braços tentando acertar Helga feito inseto.

Enfim alcança o gigante, agarra a orelha com a mão direita, tacape firme na esquerda, mas coloca na boca de novo. Segura o cabelo da parte lateral e começa a escalar na horizontal. Movimentos vagarosos, a cabeça do gigante se mexe mais que as pernas por acompanhar o zigue-zague da valquíria, o vento bate mais forte, e a queda muito mais aterradora.

Chega no final do cabelo. Helga flutua de frente ao gigante, e ele fecha o punho turquesa nela. Traz a mão mais perto e vê o rosto feminino, o resto do corpo e asas apertados entre seus dedos, e sorri por capturá-la.

Thiago admira a coragem e confiança da valquíria, deixa o inimigo distraído. Salta do cabelo à sobrancelha, corpo balança pelo ar, apoiado somente pelas mãos. O olho enorme do gigante pisca para Thiago, a mão livre se aproxima. Ele solta da sobrancelha e agarra a pálpebra do olho, tem de ser agora! Abre a boca, pressiona a mão esquerda, empunha a clava com a direita, e golpeia o olho do infeliz.

O gigante fecha os olhos e berra contra a dor. A mão escorrega da pálpebra e Thiago aperta firme na pele abaixo do olho, apesar de enrugada, o suor da face turquesa faz os dedos da mão esquerda escorregarem, é preciso agir rápido. Levanta a arma acima da cabeça, ainda alcança o olho. Golpeia de novo, e de novo, vê o globo se diluir junto com o sangue escorrendo. O gigante curva a cabeça, Thiago escorrega da face e cai distante dela, vislumbra a bocarra gemendo de dor, a valquíria voando livre da mão, mas não irá salvá-lo. Ela terminará o serviço, se aproxima do outro olho.

Está à mercê da gravidade, passa pelas camadas de fumaça e as chamas esverdeadas, imagina ser fuzilado, mas Saré descartou as armas de fogo há tempos, até a catapulta, um grande redemoinho dispara correntes de ar para cima e golpeia Thiago. Coração bombeia, acelera, está frenético, braços e pernas rígidos nem tentam buscar apoio em meio ao ar. A luz do céu desaparece, dá lugar à lua cheia e as estrelas. Ele retoma os flashbacks, permanece no último. E pede perdão à Joana antes de colidir no chão.

*

Abre os olhos, incapaz de sentir o corpo. Continua na rua João Bento, no meio do asfalto, corpo ensanguentado e lambuzado com algo gosmento. Olfato retorna e presenteia com cheiro azedo e forte, vira a cabeça ao outro lado, na direção do odor, e se assusta com o gigante ao lado, melhor dizer, a cabeça do gigante, duas órbitas sombrias e cheias de sangue no lugar dos olhos, uma fenda escancarada, cheia de dentes. Ergue a cabeça e vê o resto do corpo, tudo queimado abaixo do pescoço, as pernas atravessam todo o terreno de área preservada. Tudo imóvel, morto.

Helga pousa entre Thiago e o gigante, única que permanece entre os aliados. Ela agacha e segura seu ombro, e neste instante o tato volta a funcionar.

— Argh! Isso dói, caralho!

— Você é um excelente guerreiro para recrutar em Valhalla. Mas fique tranquilo, não o levarei hoje. — Sorri antes de bater as asas e sumir pelo céu.

E Thiago continua vivo.

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