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Esta parte em particular contém cena inadequada a leitores menores de idade, pule a cena e leia o desfecho clicando aqui.


Abre os olhos, enxerga nada. Corpo deitado, a palma da mão toca no chão de textura macia, as costas sentem frio como as pernas, as coxas, e as nádegas. Encosta nas pernas, barriga e quadril, só sente a pele, sem tecido sobre o corpo, sem roupa.

Pés descalços firmam no chão e Thiago se levanta. Deixa de sentir dor, a musculatura livre da fadiga, feridas desaparecidas. Desliza as mãos no peito, do queixo e bochecha à testa, tudo está tão rígido, inclusive a barriga com menos volume. Olha ao redor, apenas escuridão se manifesta. Anda em círculos, ergue os braços, encosta em nada. Caminha em frente, aumenta o passo, corre, salta, escorrega; toca apenas o chão macio.

Brilho azul atinge as costas. Luz fraca e distante reflete na superfície negra, Thiago se vira e vê um par de faróis azuis e duas formas verticais crescendo com o brilho da mesma cor. As formas verticais encurvam na parte de baixo e se estreita na ponta afiada, lembra os chifres vistos nos onis, apesar de menores.

O conjunto de luzes se aproxima, Thiago assimila o vulto aos poucos. De estatura baixa, pernas fortes, quadril largo, e peitos volumosos. Ouve a sacudida nas costas da silhueta, o bater de asas faz o corpo flutuar.

Súcubo - convergência

Ele a observa, pés escorregam para trás enquanto vê os dela pintados de negro, de pele morena. Ela paira acima dele, o brilho azul vem dos olhos igual os de fada, e fios de cabelo se  enrolam no par de chifres brilhantes. Diminui o ritmo das asas de morcego, desce devagar, balança o quadril, provoca o olhar de Thiago que atinge as coxas, o quadril nu sem pelos e úmido, a barriga magra, tudo sem estrias, e os peitos dela. Os peitos dela. Tem algo de diferente com Thiago.

A moça de olhos brilhantes toca os pés no chão, sorri para ele, estica apenas um lado dos lábios, depois revela os dentes e morde de leve o dedo, fecha a boca, tira o dedo babado e desliza sobre os seios, deixa a saliva escorrer. Thiago treme diante do olhar feminino, ela não pisca. Desliza passos contra ela, encabulado. Olha tudo nela, tudo bonito, sonho sensual se torna realidade, e nada acontece, sobe ou endurece.

— Então você é tímido? — diz sem tirar o sorriso. — Sei como você quer, gosta desse jeito, sem pelos, baixinha, atributos nada modestos.

Avança em Thiago e encosta seu peito sobre o dele, apenas com as pontas dos dedos no chão.

— Não é assim que sempre quis?

Flexiona mais as pontas dos dedos, aproxima os lábios dos dele, escorre a baba no queixo barbudo, beija na boca, e Thiago recua, tira o sorriso dela.

— Mas o quê? Você é gay ou… Eu nem estaria aqui se fosse. Então qual o problema? Por que seu treco está murcho?

— Eu… Eu não…

Bate as asas e se lança sobre ele. Agarra o pescoço, segura o cabelo com a outra mão, e rouba outro beijo na boca de Thiago, penetra sua língua e suga dentro dele, chupa a saliva e absorve a energia de dentro, energia sobrenatural. Morde os lábios dele antes de desprender a boca e deixá-lo cair. Thiago toca a ferida, sangue escorre por onde foi mordido e suja a mão. Ela o esgana de novo.

— A minha primeira vítima deste lugar é alguém contaminado com a energia sobrenatural que inibe a libido?

— Sei lá! — Empurra a mão dela e retira do pescoço. — Espera. A Joana, aquela mão em chamas. Foi aquilo?

— Garoto inútil. Fez eu perder meu tempo.

Volta a flutuar e apaga o brilho dos chifres, fecha seus olhos e voa até desaparecer. Tudo volta à escuridão, esta se comprime, aperta Thiago e o sufoca, expulsa-o desse lugar.

 

*

 

Desperta no chão encharcado da cozinha. Levanta assustado, movimento brusco, por pouco acerta a testa da mulher ajoelhada perto dele e faz a fada saltar do peito e acordar em queda livre. m’Ylleihon resmunga e voa para fora de casa.

— Calma, Thiago! Sou eu, a Prima. Você estava tendo um pesadelo.

— Oi, Priscila. — Segura a nuca, resmunga da pontada de dor, todos os sentidos voltam ao mesmo tempo. O corpo frio sobre a água, o cheiro feminino encharcado de suor, a cachoeira da pia e corrente de água ecoam na cabeça, o cômodo escuro iluminado pela luz de fora, o grande brilho da Convergência, essa putaria não tem fim. — Não foi pesadelo, nada disso é.

— Como vamos conseguir sobreviver, Di?

Thiago fica de pé e ajusta a calça molhada. Fecha a torneira da pia e pisca os olhos. Cabeça exausta, dor retorna no corpo. Ele range os dentes e se segura no granito, pernas querem se dobrar, Thiago prefere sobreviver.

— Eles atacaram a UPA, todos nós corremos, muitos morreram. — Ela abraça o seu braço, repousa a cabeça no ombro e olha o chão. — Perdi Joana de vista. Deus, ela pode estar morta!

— Joana tem de sobreviver, Pri. Ela merece.

— Todos nós devemos. Vi o recado da Dona Cristina na mesa, ela está bem e nós também podemos! Vamos com o seu carro, Di. Vamos fugir e resgatar quem tiver no caminho.

— Eu te dou a chave, pode fugir.

— Como?

Arrasta a cadeira e desaba o corpo nela. Pés de madeira escorregam, assento reclama do quadril pesado, racha por baixo, mas aguenta o corpo de Thiago.

— Eu já sou uma aberração, Prima.

— Joana me contou sobre vocês, e foi mesmo repugnante.

— Esquece aquilo. É algo bem mais sério.

Priscila arregala os olhos. Luz do céu noturno brilha no suor frio da pele negra e das lágrimas a se formar outra vez, e dos dentes fechando.

Algo mais sério? Ainda faz a menor ideia do que fez com ela, Di?! A deixou com medo, assustou antes de qualquer bicho estranho desta noite. — Empurra o peito dele. — Tem razão, você é uma aberração, sempre foi um monstro entre nós.

Ela se segura nos ombros dele. Thiago começa a sentir calor, aquele calor, e vislumbra a mão direita de Priscila Marina consumida pela chama negra.

—  Pri, por favor! Tenha calma.

— Não me peça calma! Homenzinho nojento, machista, escroto!

Empurra Thiago contra o encosto da cadeira, pressiona o peso do corpo dele contra o assento e quebra de vez. Ele desaba ao chão com o objeto partido em dois, raspa as pernas na madeira, recebe alguns furos com fiapos, e traz Priscila consigo na queda, bate a testa no rosto dele, provoca sangramento na boca. Prima tenta se recuperar, estica as pernas, mas os pés escorregam no chão molhado. Ela volta a cair, tenta se apoiar com as mãos, e a da direita atinge o peito de Thiago, onde atravessa a pele, afunda até alcançar o coração. E começa a queimar.

Fumaça escapa da boca de Thiago, e ele começa a gritar. Rasteja o corpo sem sair do lugar, a mão de Priscila permanece grudada ao coração, permanece ali até acabar de arder, transmitir a energia sobrenatural, conceder-lhe uma nova maldição.

O fogo desaparece da mão de Prima, e ela cai de costas. Olha os dois braços, a palma direita com o sangue de Thiago, ele levantando, queimando em negro.

E o rapaz sente o peso da energia no coração. Uma força dolorosa feito punho de ferro apertando seu órgão. Dor espalha pelo corpo, toma controle das pernas que levantam Thiago, os braços acumulam massa muscular, a cabeça embaraça os sentidos, a coluna se curva e aproxima da moça sentada, as mãos apertam a garganta dela e interrompe a passagem de ar.

— Por que você fez isso comigo?! — A voz dele ecoa na cozinha com som gutural sobre-humano.

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