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Parte 1

Parte2


Pernas queimam, musculatura endurecida e tornozelos fracos. Thiago se esgueira entre centauros e trolls, salta e foge de projéteis mágicos dos elfos, corre de outra mula sem cabeça e de diabretes. A ponta do calçado raspada de tanto tropeçar no grande morro da entrada do Jardim Pereira. Pedras minúsculas grudam na pele, arranham nas feridas feitas nas quedas e pelas garras das harpias.

Não é o protagonista do confronto, as criaturas brigam entre si. Entre xingamentos e fogo cruzado, Thiago ouve gritos de acusações entre eles: bruxas contra harpias, lobisomens contra oni, outros yokais contra ninfas. Só os elfos não acusam, se defendem de todos, alegam da Convergência acontecer para combater um perigo maior, impedir o crepúsculo definitivo. O humano quer apenas evitar o próprio fim e o da sua família.

Alcança o topo, infla o peito e tosse o carbono do corpo, fôlego exige retomar a respiração depois do trabalho intenso nas pernas.

Casas à esquerda destruídas, sangue tinge os quintais de várias, uma com braço humano largado na  batente da porta, sem o resto do corpo e dois dedos a menos. À direita a área florestal protegida pela Secretaria do Meio Ambiente, mas não da Convergência. Corpos de cachorros e gatos saem da terra, enterrados pelos vizinhos. Peles rasgadas, olhos comidos por bactérias, ossos expostos e dentes podres, línguas comidas pela metade; assim voltam à vida. Dois homens e uma mulher também se levantam abaixo da terra, Mairiporã sempre teve bons locais para desovar corpos.

Cinco árvores despencam junto com a caçamba na rua. Os cascos da criatura explodem o som agudo ao cair no metal da caçamba. Pelos longos e afiados por todo o corpo, cabeça estreita em contraste com o corpo largo, gordo, e alto. Thiago tampa os ouvidos contra o grito gutural do monstro, um som que sai na altura do estômago. Confuso, descobre o porquê quando a criatura vira o corpo e olha ao redor: seu único olho ocupa quase toda a parte da cabeça, e a gigante boca fica na barriga. É o mapinguari.

Mapinguari - Convergência

Hora de correr pela mata. Thiago tropeça entre galhos caídos na terra, interrompe a queda porque bate no tronco do coqueiro de pé a frente. Respira, retoma o fôlego. Observa o mapinguari andando na rua, a baba escorre pela boca na barriga e encharca coxas, pernas, cascos e chão, o odor da saliva parece rasgar o nariz de tão azedo. Os mortos-vivos correm floresta adentro, um dos cachorros tropeça em outro galho, a pata direita desgruda do corpo com o impacto, ainda sobram três, e ele foge junto com os gatos e humanos. Fica somente Thiago, que perde o fôlego.

Confia nas pernas dormentes e anda entre os troncos. Evita pisar em galhos, sem tropeçar nas madeiras nem chutar a cobra-coral. Como esse bicho ainda está lá, parado, em meio a todo esse caos? Contorna o réptil enquanto encara o monstro brasileiro.

Luzes verdes pairam sobre a cabeça de Thiago, depois vem outras de cor violeta, rosa, amarela; não são vaga-lumes. Abana os braços, assopra, sussurra “sai daqui”, e elas desobedecem, batem as asas na frente dele, encara com os olhos iluminados, e começam a se segurar em Thiago. Camisa, calça, antebraços, puxam seu cabelo, outras entram nas botas, uma de brilho violeta segura na orelha e sussurra:

— Ajude-nos!

Fadas - Convergência

As outras fadas repetem o pedido e piscam, brilham com mais força, e fazem piscar o olho do mapinguari, que olha Thiago todo colorido.

— Agora ele nos viu, suas filhas da puta! — berra quando começa a correr.

O monstro persegue Thiago. Passos nada ágeis, mas as pernas compridas encurtam a distância entre o humano. Um dos dois cascos encontra a coral e esmaga o corpo quando pisa, a serpente reage, ergue a cabeça acima dos cascos e morde a perna do monstro. Mapinguari continua a andar, indiferente ao réptil que rasteja na direção contrária com a parte do meio do corpo amassada.

Ambos saem da mata, prestes a descer a rua da casa de Thiago. O monstro começa a sugar o ar com a sua boca, aspira com força e arranca algumas fadas do corpo de Thiago. Incapazes de se segurarem, elas caem no abismo daquela abertura do estômago. Desacelera o passo e fecha os lábios, mastiga as pequenas criaturas que explodem gritos de dor e horror abafados dentro da boca. Engole todas de uma vez.

Entre choros agudos, as fadas sobreviventes desprendem de Thiago e flutuam na altura do único olho monstruoso. Acendem o brilho intenso a ponto de ofuscar a visão do humano contra a luz do céu noturno e fazer o olho do mapinguari lacrimejar. Desequilibrado, o par de cascos batem entre si e fazem o joelho dobrar, a coluna do monstro se curvar, e a cabeça atingir o portão da casa ainda inteira da rua, de grade de barras enferrujadas e pontas com setas afiadas que furam o olho do monstro. O sangue escorre pelos ferros dentro do globo ocular, desce pela rua, e mapinguari não levanta.

— Conseguimos, conseguimos! — grita a fada ainda na orelha de Thiago.

— Obrigado. — Leva a mão à orelha e acaricia as costas da fada com o dedo indicador. Provoca risadas na menininha voadora, mas ela se segura mais forte nele.

— Estou cansada, quero descansar.

— Está bem, fada, descanse. Você merece.

— Meu nome é m’Ylleihon.

— Vou te chamar de fada mesmo.

As colegas de m’Ylleihon se dispersam de volta a área florestal, e Thiago alcança a rua Maria do Valle. Atravessa a casa da Priscila Mariana, telhado derrubado dentro de casa, vê o sofá partido em dois na janela trincada.

— Estou cansada — repete m’Ylleihon.

Thiago alcança o lar. A janela do quarto dos pais aberta, o portão do quintal fechado. Portões escancarados na casa da frente, o Uno do vizinho não está lá, tampouco o Gol de 96. Volta a encarar o portão da própria casa, sem cadeado, abre a trinca e corre pelo quintal com o Palio estacionado e intacto. Abre a porta da sala, a lanterna ligada sobre o sofá. Pega e confere o cômodo, a luz brilha na tela da televisão, nos quadros de fotos ao chão molhado, entra na cozinha de cadeiras espalhadas, torneira aberta e água encharcando o piso, porta do fundo aberta. Volta a iluminar a mesa e enxerga o pedaço de papel toalha no centro com rabiscos feitos a caneta.

“Thiago,

“Fugimos com o Moacyr e seu irmão até a Igreja de Terra Preta. Nós tentamos te ligar, mas ficamos sem internet e você sabe como o sinal daqui de casa é horrível. Fique com Deus, que Ele te dê força e proteja a Joana, e faça a gente se reencontrar depois deste pesadelo. Te cuida.”

— Péssimo momento ao falar de deus, mãe. — Thiago aperta o bilhete. — Fomos abandonados.

— Estou cansada.

— Eu já entendi, fada!

— Eu…

m’Ylleihon espirra. Em vez de catarro, espalha pó violeta que flutua, alcança o rosto de Thiago e invade o nariz. O cheiro doce de uva toma conta de sua atenção, o pó entra no organismo e relaxa a musculatura, inibe a dor de todo o corpo, tira a força e a consciência de Thiago. Ele cai no meio da cozinha, bate a nuca na quina da mesa sem resmungar, sem dor. Costas despencam contra o chão e ali permanece, de olhos fechados. A fada deita sobre o seu peito e dorme.

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