Clique aqui caso não tenha lido a primeira parte

Thiago começa a tossir. Cheiros desconhecidos invadem as narinas, expelidos dos catarros do goblim, dos cabelos encharcados da bruxa gargalhando ao lado, das fezes de sirenas flutuando nos céus, do chulé do pé grande adolescente de apenas dois metros de altura, e da fumaça.

A névoa de ervas queimadas se concentra entre ele e a aberração anã. Aromas misturados ao fumo ardido arranha os pulmões do humano, inofensivo ao olfato do goblim, apesar de ele levantar a cabeça e procurar quem causa a fumaça.

Ele descobre, ou melhor, o responsável se entrega ao esmurrar o rosto do monstro. Braço largo e negro colide com a bochecha, trinca a mandíbula, entorta mais os dentes e arranca dois com o impacto. O corpo voa no outro lado da rua, bate contra o muro da casa vizinha a de Felipe, e deixa marcas de sangue da boca enquanto desliza até o chão. Sem mais sons temíveis, o goblim grita lamentos agudos, chora feito bebê.

Thiago vira o corpo, fica de joelhos, prestes a se levantar. Observa quem o salvou, a única perna negra, de bermuda vermelha, abdômen e peitoral de fisiculturista, músculos do ombro escondem parte do pescoço. De pé, Thiago ergue a cabeça e vê a dele, com um barrete vermelho acima e cachimbo nos lábios.

Saci - convergência parte 2

— O saci!

— Ora, ora! Temos um mó Sherlock Holmes por aqui.

— O que está acontecendo? Vocês vieram de onde?

— Eu, cumpadi, vim do Rio de Janeiro. Tava aqui de boa jejuando no monte do Olho d’Água quando essas paradas de gringo arruinaram minhas férias e nosso disfarce.

— Não entendo.

— A única parada que cê tem de entender é ralar o peito daqui. Vá buscar algum abrigo com os bichos do nosso lado e fique seguro, sem caô.

— Mas…

— Vaza! A sua mina já meteu o pé faz tempo.

Obedece o saci. Está perto de casa, bastaria subir o morro e depois descer a direita no Jardim Pereira. Fácil, se o percurso não estivesse lotado de monstros.

Desce a rua da Unidade de Pronto Atendimento, vê pessoas correndo até o prédio público, enxerga Joana atravessando ao lado de um ser gigante na entrada, com chifres na cabeça. Corre como os outros, pés pesados batem o asfalto, as costuras do sapatênis começa a afrouxar, suor impregna na camisa, tecido se levanta e expõe o umbigo e os pelos da barriga.

É atingido por trás. Coça a cabeça antes de atingir as costas no chão, pontas do cabelo queimam, arde quando passa a mão. Está em chamas!

Bate na nuca e consegue apagar o fogo, poucas brasas comparadas a quem o atingiu, e ela encara Thiago se recuperando da queda, bate os cacos no chão e grita com voz de mulher. O corpo de mula, a cabeça coberta de chamas.

Mula Sem Cabeça - Convergência parte 2

O corpo de Thiago entra em choque, disputa a vontade de fugir com o pavor que vibra suas pernas sem sair do lugar. Encara a besta do folclore brasileiro, ela estica o fogaréu da cabeça, bate os cascos da frente duas vezes e corre contra Thiago. Ruído de trote ricocheteia pelos ouvidos. Ele fecha os olhos, aceita o fim sem obter respostas desta noite macabra, e ouve o relinchar sobre o grunhido que interrompe o som do galope.

Abre os olhos e perde o fôlego. Uma mulher está sobre a mula sem cabeça, unhas encravadas na barriga, a outra mão no pescoço, as presas da boca sugando sangue do dorso. Tira os dentes da carne do animal e vira para o Thiago, boca suja até os queixos, olhos cor de brasa brilhando na noite clara.

— Entra logo no posto! — E a vampira morde a mula outra vez.

Corre pela calçada distante das duas lutadoras e só atravessa na frente do prédio. Tropeça entre as colunas da entrada, mas a mão do minotauro segura pelo pulso, melhor dizer, por todo o braço de Thiago. Agradece sem voz, apenas assente na altura do abdômen do ser mitológico e vá ao abrigo com os demais.

Minotauro - Convergência parte 2

Rostos conhecidos na sala de espera, poucos de nome, o resto é de ver todos os dias pelas ruas. Reencontra Joana, ajoelhada e aos abraços de uma amiga em comum.

— Horrível, Prima! A pior noite da minha vida. — Priscila Mariana apenas escuta o lamento de Joana. Encara Thiago com os lábios fechados, sobrancelhas apertadas, os braços morenos colocam mais força na amiga, segura a nuca dela contra o próprio ombro.

Ele anda até o outro lado da sala. Vasculha os outros rostos consigo, alguns moradores do Pereira. O vizinho da casa ao lado está com sua esposa, os filhos abraçados neles, o mais novo disputa o som das sirenes da ambulância com o choro. Todos distraídos demais, sem notar Thiago. Se estão aqui, onde seus pais…?

Vai até o balcão e pede o telefone emprestado ao recepcionista. Tecla os números, cancela por discar errado. Dedos trêmulos apertam a tecla do lado de novo, esmurra o telefone na base e tira, tenta outra vez, disca os quatro números comuns daquela região, mais dois, quase erra o sétimo número, aperta o último, aguarda a chamada, e uma explosão da rua antecede a queda de um poste, cai consigo os fios de energia, internet e telefonia; todos arrebentados. O telefone fica mudo, as lâmpadas apagadas, a sala ainda iluminada pela luz do céu.

Coloca o aparelho no lugar com lágrimas nos olhos. Tenta pelo celular, é em vão, nunca há sinal neste prédio.

Ventania rompe os vidros dos portões de entrada e resfria a sala, folhas dos arbustos voam da praça ao lado da Unidade até ali, no meio dos abrigados, entre o saci que trouxe os ventos fortes e duas crianças no colo. Agacha e deixa elas largarem cada um dos braços e voltarem ao chão.

— Preciso de ajuda, saci! — Thiago corre até o carioca.

— Meu nome é Saré, mané! Ou cê acha que só há um saci, uma vampira e um minotauro no mundo?

— Tudo bem, Saré. Preciso de ajuda.

— E eu tenho cara de gênio? Minha parada é proteger ocês, não ser seu empregado.

— Meus pais ainda estão por aí! Você deve proteger a eles.

— Se liga, tô fazendo isso mermo, protegendo. Só não garanto nada, somos poucos contra aqueles sinistros.

— Vocês são poucos contra um monte de sinistros, mas aí, quem são vocês? Porra, nós precisamos saber como vocês apareceram.

— Ah, tá! O mauricinho quer parar meu trampo pr’eu explicar a Convergência. Não rola, mermão. Já perdi tempo demais c’ocê.

Thiago olha ao redor, só ele resmunga. O resto de caras fechadas e corpos encolhidos contra as paredes, ou sentados nas cadeiras. Banheiro logo a frente, apesar da urina impregnada em várias calças, de crianças a adultos e adultas; também esvazia a bexiga.

Prende a respiração, fecha os olhos, aperta os punhos contra a palma. Dá o primeiro passo. Abre-se contra o perigo. Precisa de respostas, sobre essa Convergência, principalmente sobre os pais.

Avança. Tomba o ombro no de Saré, que meneia a cabeça e deixa ele passar. Alcança a entrada e ver o braço erguido da vampira em seu caminho, então o minotauro toca nela e faz ela abaixar.

Thiago está livre em suas escolhas, e decide ir às ruas iluminadas pela energia sobrenatural e passar pelos monstros a encontrar no caminho.

Comentários