Um estalo da fechadura após a virada da chave. Eles empurram a maçaneta, a porta ainda permanece trancada. Abrem apenas quando dão a segunda volta na fechadura, o clique precede a rangida das dobradiças antigas. Agora podem entrar. 

Thiago e Joana atravessam a porta ao mesmo tempo. Abraçados e entre beijos. Tropeçam na sala escura, o jovem bate as costas na porta, sente uma pontada na cintura com a maçaneta. Fecha a cara frente a dor, esfrega onde bateu e abre o sorriso de volta. 

Caminha na escuridão com a sacola plástica em mãos, bate o nó dos dedos numa peça de granito, guarda a sacola ali, na mesa agora visível com a luz acesa pela namorada. A embalagem amarela do mercado escorrega e derruba a garrafa de refrigerante e os pacotes de salgadinhos, só as duas barras de chocolate ficam no saco. 

Troca olhares com Joana até ela fitar o chão aos risos e bochechas avermelhadas, iguais as dele. Cabelo alisado a tarde, unhas roxas feitas um dia antes, camiseta com a imagem do último álbum do Grave Digger, nunca vista por ele, comprada e reservada nesta ocasião especial. 

Sem roupas novas, só faz barba aos sábados, os pelos castanhos cobrem o rosto nesta quarta-feira; cabelo despenteado. Pelo menos cortou as unhas mais cedo, afinal, é um dia especial. 

— Pronta para a nossa primeira noite a sós? 

— Pronta. — Ela apoia as mãos nos ombros e lhe beija a bochecha. — Nervosa, mas preparada. 

— O Felipe disse que deixou o chromecast instalado na TV do quarto. Podemos assistir aquele lançamento da Netflix. Quer dizer, vamos apenas começar a noite com o seriado, né? 

Dois selinhos e se soltam, ela precisa ir ao banheiro. Thiago adianta os preparos, abre a porta do quarto e coloca os salgados no criado mudo. Liga a TV, única luz necessária naquele quarto; sincroniza a Netflix com o chromecast, deixa na página do Mundo Sombrio de Sabrina, pronto para transmitir. 

Joana chega no quarto, para na entrada e tira os tênis Converse, guarda o par ao pé da cama e salta sobre o colchão. Cai ao lado de Thiago, já deitado. Ataca o pescoço dela com cócegas, e Joana contorce todo o corpo; chuta as pernas, arranha o peito dele e diz “bobo” antes de ajeitar a cabeça no travesseiro. 

Thiago dá play no celular e a TV começa a passar o primeiro episódio da série. Exibe o logotipo de fundo prateado e letras vermelhas, então a tela escurece. O aparelho desliga junto com a luz de todo o quarteirão. 

— O destino quer acelerar as coisas pra gente, Jô. 

Ela liga a lanterna do celular, flagra os olhos de Thiago sobre os seios e a mão direita a caminho da cintura. Segura o braço dele. 

— Thi, preciso conversar contigo antes. 

— Conversar? — Estala a boca com os lábios fechados. — O Felipe emprestou a casa dele pra gente enquanto ele viaja, e você quer conversar? 

— É coisa séria, Di. 

— Odeio quando me chama assim. 

— Desculpa. É mais fácil falar Di do que Thi, todos da escola te chamavam desta forma. 

Thiago solta o ar denso pela boca. Arrasta o corpo, as costas contra o encosto da cama. Encara os olhos dela, cabeça deitada no travesseiro, abaixo dele. Pescoço se contrai, ela engole em seco, desvia o olhar e fala: 

— Você tirou algumas fotos de mim, escondido. 

— Como? 

— Eu percebi, Thiago, não sou tonta! Faz um mês que fotografa minhas pernas, bunda, os peitos. 

— Sim, mas nós somos namorados. 

— Somos, amor. Só peço respeito. Adoro quando vê minhas fotos, só que não desta forma, de surpresa. 

Silêncio. 

Ele desliza as costas até encostar os ombros no travesseiro. Olha a camisa que veste, de cor azul e sem estampa, algumas dobras sobre a barriga gorda. Enxerga apenas pelo flash do celular da namorada, sua mão persegue a luz, e ela recua. 

— Você apagará essas fotos, Thiago. 

— Claro, Jô. Deixa que amanhã eu… 

— Agora! 

— Larga de ser chata. 

Atravessa o braço sobre a barriga dela e avança. Mãos pequenas tentam tirá-lo de cima, derruba o celular no colchão. Fecha as pernas sobre ela, prende o corpo franzino que se debate abaixo dele.  

— Era para ser o nosso dia, Joana. 

— Egoísta! — Bate no rosto dele. — Só quer perder sua virgindade. 

Lágrimas escorrem até o queixo de Joana e caem na camisa, molham a estampa de olhos revirados da menina zumbi com a faca ensanguentada na mão.

Thiago desliza o dorso da mão no pescoço, deita o peito sobre o dela, beija as bochechas molhadas de choro, e recebe uma mordida que rasga o lábio inferior. 

Algo explode do lado de fora. O brilho branco atravessa a fresta da janela e ilumina todo o quarto num instante, reflete no sangue escorrendo no lábio. Televisão reacende, retorna a luz no bairro, e explodem gritos de terror nas ruas. Thiago levanta o rosto, encara a janela, pisca luzes vermelhas, laranjas e brancas do lado de fora. Sente a barriga queimar, arde onde Joana o empurra, volta a encarar as mãos dela. Estão em chamas! 

Fogo negro da ponta dos dedos com esmalte roxo à palma da mão. Joana está de olhos fechados, sem sentir calor, apenas empurra e bate no Thiago, tenta tirá-lo de cima. Dá socos na barriga, sobe aos poucos, atinge o peito, mas em vez de acertar a pele, atravessa o corpo. A mão toca no coração dentro do diafragma. Thiago berra, Joana abre os olhos e só então vê o que fez, está queimando o seu namorado. 

A chama dispara uma energia pelo corpo de Thiago, aquece o corpo. Fumaça negra escapa pelas costelas, e por fim a mão se solta do peito. 

Sai da cama. Segura onde foi queimado, ou seja lá o que aconteceu. Encara a namorada, sem chamas nas mãos, sentada de joelhos, olhos esbugalhados iguais os dele. 

— Como você fez comigo, Joana? 

— Eu… O que foi isso? 

— É o que estou perguntando! 

— Eu não sei. 

Acende a luz do quarto. Ainda há gritos na rua. Os dois imóveis, ele alterna a visão da janela a Joana, da fresta ao rosto, da rua aos peitos dela. Os peitos dela. Tem algo de diferente com Thiago. 

— O que vamos fazer? — Ela estica as pernas e desliza da cama. 

— Vamos embora. Levo você em casa, depois vou na minha. 

Ela assente e ergue a mão. Ele recusa a pegar. Vão até a saída da casa sem se tocarem. Fecha a porta, busca a chave nos bolsos da calça, quis tanto ficar sem as calças, sem a cueca; da forma que veio ao mundo, sobre ela. Hoje não. Vira uma vez na fechadura, então se vira. Porta, casa e planos falhos tornam-se coisas do passado ao encarar a rua.

O céu noturno está claro. A luz branca prevalece por todo o horizonte, ofusca as estrela e as lâmpadas dos postes. Humanoides correm pelas ruas, peles coloridas como azuis ou lilás, outros com escamas, cabeças de formatos diversos, alguns com apenas um olho na cabeça! 

Um deles pula sobre Thiago e o derruba. Quase na metade de seu tamanho, pele cinzenta toda enrugada, olhos largos. Dentes não cabem na boca, tortos no lado de fora. 

Goblin - convergência

Thiago esmurra o rosto. Tenta puxar a nuca, tirar a máscara. Não é disfarce, ninguém planejou uma festa de 31 de outubro nas ruas de Terra Preta. Não, um goblim está em cima dele, é de verdade, e agora fareja o rosto de suor frio do Thiago. 

— Sinto uma essência sobrenatural em você, humano. — Desliza a língua áspera, com muitos caroços na ponta, e lambe a ferida aberta da boca. — Bem-vindo ao grupo!


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