Este é o segundo texto feito para o projeto o Colecionador de Maldições. O primeiro está disponível no Wattpad, clique aqui caso não tenha lido.

Devo avisar que é um texto com linguagem vulgar e ofensiva, além de cenas explícitas e perturbadoras. Se está de acordo: boa leitura!

Águia - Contra o Espelho

Volto a esta sala escura onde a única luz surge do chão ao redor de meus pés. Enxergo a camada densa de poeira, uma praia cujos grãos de pó cinzento se prolongam ao horizonte sem mar. Paredes invisíveis impedem de sair, só fico livre se vencê-lo. 

A porção de luz também irradia sob os pés dele. Corpo alto, largo. Cabelos longos e ensebados. Unhas enegrecidas e lábios rachados. Postura curvada. Ele me olha, como todas as outras vezes. 

Quero exigir respostas. Berrar pr’aquele desgraçado explicar de uma vez. Tenho vontade de esmurrar a fuça dele, abrir buracos naquela cara até obter uma resposta. Passou o tempo quando me assustava com sons de crânio se partindo, hoje não importa mais. 

Mas não farei isso. Seu crânio é invulnerável, e assim como eu está mudo. Nós apenas gememos. 

Ele dá um passo, eu faço o mesmo. Levanta o seu queixo e observa minha face, eu faço o mesmo. Deixa seus braços soltos, eles balançam conforme anda, parece escapar de seus ombros a qualquer momento; só que não cairão, assim como os meus. 

Nossos narizes se tocam. Ele ergue sua mão esquerda e eu a toco com a minha. Nos olhamos nos olhos, mergulhamos no globo escuro com borda castanha. Nessa borda algo se mexe constantemente, no primeiro momento parecem riscos. Mergulho mais fundo, as imagens se ampliam a mim, e eu enxergo um mar de formigas naqueles olhos. As formigas mergulham no abismo do centro. Mergulham tantas que preenchem o abismo, e a pupila diminui. É tomada por aquelas antenas e patas frenéticas, elas não param de se mexer, não param de andar naquele olho, não param de consumir a pupila. 

Vejo no último instante seu olho tomado por insetos, tal como o meu. Nossas pupilas consumidas não absorvem mais luz, e não enxergo mais nada. A imagem dos insetos fica impregnada na minha mente. 

Soltamos um grito mudo. Batemos na testa e derrubamos a cabeça sobre o ombro direito do outro.  

Boca seca permanece aberta, não consigo fechá-la. A saliva escapa pelos meus lábios, escorre pelas suas costas, e nas minhas sinto um tracejado morno. O pequeno riacho vai escorrendo até o trapo de pano usado como cueca absorver a umidade. Poeiras também preenchem o trapo, faz tudo formigar por dentro. Droga, esse pó entra até no cu! 

Seus braços me envolvem, eu percorro seu corpo gordo e apoio nas suas costas. Ele começa a me arranhar. 

As unhas pretas cravam minha pele e arranca sangue. Reajo como ele e a dor nos remexe. De arranhões evolui a murros. Agrido a coluna dele. Atinge o meu cóccix, e meus olhos derrubam lágrimas. 

Empurro o corpo dele e pulo na direção oposta. Minha boca sangra feito cachoeira, o sangue não acaba. O fundo do meu trapo incha, ganha cor, aos poucos o sangue que sai de meu rabo se mistura à poeira do chão. 

Meu peito está carmesim. Engasgo com o sangue que não para de sair de minha boca. A saliva se mistura e tusso. Meu estômago começa a queimar, e vomito junto com sangue. 

Demos uma nova cor ao chão. Vermelho com grãos cinzentos e gosma amarela esverdeada. Eu tinha que voltar a enxergar neste momento… Vomito mais. 

O desgraçado agarra meus cabelos e empurra minha cabeça contra o chão podre. Grito gemidos, levanto e começo a socar sua cara. O sangue de sua boca salta a cada porrada, pinta todo o meu rosto. Esmurro a boca, não quebrará os dentes, mas dói a gengiva. 

Uma grande poça surgiu com nossos líquidos acumulados. Mexo meu pé descalço tentando me equilibrar, e escorrego. O cheiro azedo arde as narinas, me afogo naquele mar escroto. 

Meu corpo adormece. 

Minha visão permanece. 

Vejo ele fincar seus dentes na minha pele e arrancá-la. Mastiga entre o sangue escorrendo de sua boca. Morde meu pescoço, braço e antebraço, inclina sua cara até mastigar a barriga. Mastiga meu intestino que não se quebra com os seus dentes. 

Volto a mexer a ponta de meus dedos, aos poucos a mão, mas meu corpo desperta, e reclama da dor dessas mordidas. Berro e assumo o controle de meu corpo, abocanho sua orelha e arranco do seu corpo. Minha orelha cai junto com a dele. Gritamos. 

Berramos um contra o outro. Ele esmurra minha cabeça, eu o seu peito. Trocamos agressões, arrancamos a superfície de nossa pele. 

Continuamos a sangrar. Sangramos mais do que mil humanos carregam consigo. 

Sangra, sangra. A gente soca, e sangra mais. Soca, fere a pele. Soca, arranca pedaço. Soca, músculo dói. Soca, berra. 

Ele tira a minha bochecha direita na porrada. Eu abro o buraco no seu coração. Nós dois temos buracos no mesmo lado da bochecha e no peito. É agora ou nunca. 

Venço outra vez esta disputa. Sou o primeiro a pegar o coração do outro. Fecho meus punhos sobre o órgão e o torço. 

Ele desmancha. O sujeito com a mesma aparência que a minha vira pó.  

Supero a maldição por esta noite. A sala escura ganha luz, luz vermelha. A claridade assume a forma de uma águia gigante. Ela consome, abraça e me leva ao mundo fora deste sonho. 

 

— Di. Di! Acorda! 

Abro meus olhos e enxergo Lara sobre mim. 

Ela desaba seu corpo sobre meu peito, encharca o rosto com suas lágrimas. 

Corpo inteiro, não sangro mais. Apenas o suor frio corre pela pele. 

— Então é você? Você era aquela criatura? 

— Sou um amaldiçoado. — Ainda chocada comigo, continuo a explicar: — Às vezes a maldição invade meu sono, tenta me consumir. 

— Amaldiçoados não salvam pessoas.

Ela sorri, e agora sim eu desperto. 

Tento retribuir o gesto, daí lembro da última imagem do sonho: a enorme águia vermelha, a Águia de Sangue. Que inferno! Ela virá hoje. 

Empurro seu braço de leve e ela sai de cima de mim. Pego a cueca e calça mais esfarrapadas e peço privacidade a Lari. 

Saio do meu quarto e vejo seus olhos castanhos curiosos. Desliza uma mão sobre a outra, as pernas cruzadas. 

— Eu preciso sair. Alguém me aguarda, mas eu voltarei, está bem? Não saia daqui. 

— Você vai ficar bem? 

— Vou. — Meu corpo tremeu. 

Ela abre a boca, eu a interrompo. 

— Eu irei sozinho, e vou voltar. 

— Vai sofrer mais? Não quero isso para você! 

— Minha vida é assim agora. Por favor, Lara. Não quero envolvê-la. 

Apoio a mão direita em seu ombro. Ela assentiu, e eu parti para enfrentar a Águia de Sangue. Eu sonhei com aquilo desta vez, algo mais irá acontecer. O que planeja desta vez, Helga?

Eu não vou me render aos deuses!

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