Aos 25 eu enjoei daquelas músicas metálicas. Tão agressivas e frenéticas, as cordas de guitarra cortavam meus ouvidos enquanto os cantores rasgavam as próprias gargantas na técnica — ou a falta dela — de cuspir palavras guturais. Eu nasci na época certa, quando programas reproduziam qualquer tipo de música e ainda recomendavam outras do mesmo estilo. A Inteligência Artificial não era tão sofisticada, ainda assim me deu boas dicas. Sugeriu músicas acústicas, o ritmo massageava meus tímpanos enquanto a voz roca cantava a letra, sobre um homem de bem matar a própria esposa e contente pois a reverá em breve, no inferno.

Aos 35 ainda ouvia esse novo estilo de música que me cativou. Novo no sentido de eu jamais ter descoberto sem a ajuda da Inteligência. Ah! A linda Inteligência. Aprendeu, aprimorou os algoritmos desde então, deixei meu queixo derrubado enquanto descobria mais obras de arte. Ainda eram feitas pelos humanos, a tendência é mudar, ouvi algumas tentativas horríveis tocadas por robôs. A Inteligência me entendia, humanos ainda eram os melhores músicos. Arremessava minhas costas no colchão e explodia o som, fechava os olhos e flutuava na sinfonia leve marcada pelos toques de violoncelo. Sim, tudo bem. Eu ainda vou matá-la.

Aos 45 eu ainda a amava. Porra, eu juro. Entregava bombons em datas comemorativas e nas comuns, apreciava toques na sua pele apenas sob o consentimento dela. Era a dona do controle remoto, mandava na cama. Eu cozinhava, lavava a louça e trazia o prato à mesa, levava a comida à boca dela. Era dona de mim, o seu humilde comprador de sapatos, tinham mais opções aos pés dela do que meu videogame, minhas leituras, das músicas. O sangue dela também era lindo, mais saboroso quando escorria da testa. Fizemos o último amor, depois eu enterrei o cadáver no quintal.

Aos 55 ninguém ainda me prendeu, bando de incompetentes. Os algoritmos bem tentaram, enfim nenhum recomendou alguém tão bem quanto ela. Quando eu reclamei disso em voz alta, o aparelho ouviu e me explicou, ele sabia desde o começo, só ela era ideal a mim, pouco importa o quanto pedisse por novas indicações. Criaturinha dedicada, esta Inteligência, sempre presente nos melhores programas. Lamentei por deixá-la de lado, a Inteligência, porque eu me entreguei. Tudo perde a graça, sabe? Cansei de ficar escondido das autoridades, então confessei, sem entender o meu motivo e nem do policial ao me dar o soco.

Aos 65 eu estava fraco. Comida podre da prisão, idade avançada e proibido de aproveitar as novidades. Nada a reclamar, na verdade. Sorria todos os dias, mesmo depois de perder alguns dentes, ganhando novos socos. Pouco importava o desprezo dos outros bandidos, os cuspes dos agentes e a bunda do diretor. Matei todos. A pergunta “como?” só tem uma resposta: “sei lá”. Acordei certo dia e agi, um a um eu espremi. Dedos contra os olhos, cabeça abriu miolos, tripas foram meus espólios. Eu segui regras, agi como sistema onde os algoritmos moviam meu corpo, saí pela porta da frente.

Aos 75 eu fui capturado pela equipe competente demais. Eles vestiam jalecos carmesim quando me estudavam. Entendi na segunda vez, quando vinham de cor cinza significava estupro. O de cabelo cacheado me odiava, fazia questão de atingir meu intestino com o seu de 30cm. Levaram muito tempo no estudo, no estupro, então concluíram que eu não tinha sistema, chip ou outro dispositivo implantado. Havia apenas ideias em meu consciente e subconsciente, programadas a despertar em meu cérebro em determinados momentos, eles chamam de gatilhos. Ainda sobrou piadas como quantas vezes deveriam me foder até disparar outro gatilho. Nunca disparou. Pena.

E aos 85 estou para morrer. Vivi sob vigilância, mas fui compensado — segundo eles — por descobrirem o perigo implantado na Inteligência em sugestões tão inocentes há 60 anos. Houveram muitos assassinos como eu, e graças aos estudos feitos em mim eles puderam condenar todos os outros. Talvez o sexo também tenha ajudado, algo que eles continuam fazendo comigo, sempre os mesmos, os pais de família de bem. Deve ter músicas sobre isso. A certeza verdadeira que tenho é a de minha vida no fim valer quase nada. Cem palavras resumem o que passei a cada dez anos. Sem carpe diem.

Comentários