As eleições se aproximam. Quantos discursos de presidenciáveis já assistiu? Eles só falam bobagens? Já imaginou como seria os bastidores nos últimos minutos de se pronunciar ao público?

Eu imaginei através da pequena crônica a seguir. Não é o reflexo de todo político, mas sim dos muitos vistos por mim.

Boa leitura!

Campanha

Cinco minutos até eu me apresentar ao povo brasileiro. Tenho de provar a eles como serei a salvação deste país em decadência. 

Tudo está pronto: investi no terno da Itália, vim de automóvel japonês com mecanismos de segurança produzidos na Alemanha e conduzido pelo melhor motorista holandês, este fala até português! Botas Australianas e óculos de design americano. Não tive tempo de comprar relógio, pedi ao garoto malabarista comprar de qualquer camelô da rua antes de fechar o sinal, mas os ponteiros estavam parados. 

Tudo está pronto: exceto meu discurso. Afinal, sou Brasileiro. Tenho tempo o suficiente se planejar tudo a partir de agora. Se não der certo, o improviso está no meu sangue. 

Começando com segurança. Já vi sugestões de mais fiscalizações nas rodovias quanto ao limite de velocidade. A justificativa é boa, os motoristas não respeitam as leis exceto quando correm risco de serem multados, agora o risco à vida é ignorado, pois nada acontecerá com eles, quando é motorista de caminhão principalmente. 

Entretanto tenho um problema. Como vou chegar as inúmeras cidades andando a oitenta ou sessenta por hora? Meu tempo anda esgotado, meus amigos! 

A culpa é das autoescolas, só formam motoristas sem habilidade. Condutores competentes sabem escapar de caminhão que jogam seu veículo sobre o deles. E ultrapassar só pela esquerda? Bobagem! Não tive problema em ultrapassar em nenhum lado, até no acostamento, só porque o motorista incompetente dirige devagar, no limite da velocidade. 

A educação ficará a salvo graças ao Escola sem Partido. Criança precisa estudar, não ouvir besteiras de professores despreparados, enviesados de ideologias. Cazuza morreu. Brasil precisa de trabalhadores, não de pensadores. 

Saúde é complicado. A população acha o quê? Por acaso leram o livro Doutores Fantásticos e Onde Habitam e quer torná-lo real? Doutor também é gente! Eles precisam pagar as contas, por isso atendem muitos pacientes. O cidadão quer médico como o seu coaching da saúde, por isso reclama. E se fizerem o diagnóstico completo por paciente do jeito como desejam, reclamam também. Assim aconteceu semana passada, quando meu amigo Dr. Garcia me atendeu com muito cuidado. 

Não. Não, não, não; não. Falar isso é um tiro no pé. A grande população carente não quer ouvir verdades. Cadastrei meu nome como Wandegívio para me aproximar dos nordestinos, Pedro só agradaria os saudosistas. Mas se mudar meu discurso a favor do paciente, os médicos são mais organizados, podem me tirar da campanha, inclusive Garcia. 

— Três minutos e começaremos, Wlandevídio. 

— Chame-me de Pedro mesmo, Judas! Nem consegue aprender meu nome. 

Este primo de meu sobrinho só traz problemas. Parece aqueles servidores públicos: fazem o mínimo e recebem seu pagamento em dia. Quando atuei como deputado eu ajudava todo colega disposto a me pagar por fora, aprovei muitos de seus projetos, até consegui emenda à prefeitura de minha cidade e reformei três escolas da mesma maneira. 

E imposto. O país sobrevive sem o controverso imposto? Poderia cobrar menos se não gastasse tanto com servidores, se tirasse benefícios de deputados e senadores que não colaboram, se os artistas mamadores não tiverem de onde tirar verba pública para seus projetos culturais.  

O imposto é alto, mas insuficiente. Deixei de fazer três viagens importantes pela falta de verba com hospedagens cinco estrelas. 

Dinheiro público não é roubo. Roubo é deixar de investir em campanhas publicitárias à nova copa, e priorizar a prevenção do suicídio. Suicida não faz gol, só fica no canto sem produzir nada, gastando energia da família preocupada com ele. Não suportei aquela campanha de… Qual mesmo? Para falar a verdade não teve mesmo, mas precisamos investir no futebol, o Brasil precisa recuperar sua glória. 

— Um minuto, Wan. 

— Olha o respeito, Judas! Não sou seu namorado, não me chame assim. Diga Pedro, só Pedro. 

Falta pouco tempo. Tudo que pensei em dizer tem um lado negativo. Tudo o povo critica. Se faz critica, se deixa de fazer critica, se abre um debate só vem crítica! Mas preciso oferecer minha cara à tapa. Minha campanha não pode ser alvo de ódio, isso não. 

Preciso pensar. A ideia já está aqui, na ponta da língua. Quer sair, mas não vem. Pense, Pedro! 

— Trinta segundos. 

Já sei. Vou usar a estratégia do espantalho. Vou direcionar a crítica a algo que muitos não gostam, ou deixarão de gostar após esclarecer meus argumentos. Ainda haverá quem não goste, mas será a minoria, não importa se minha mamãe seja deste grupo. 

— Prepare-se, Pedro! Em cinco, quatro… 

Enfim posso me apresentar ao povo amado. Ergo meus braços perante a plateia exaltada. Meus colegas sabem escolher o público, até o carpinteiro está lá, devo três meses a ele, mas posso oferecer um cabide quando eu ganhar. 

Parentes à frente e nos fundos. Parente de Garcia e Malaquiaz, de Jacinto e Marino, de Teonor e Te Hemir. A esposa de Dilmo Youssef é uma graça, poderosa por sustentar este par de melões, e ela ainda queria ser feminista. 

— Amada população brasileira! Venho por esta tribuna esclarecer-vos sobre a sujeira em nosso país. Ela escorre sob nossos pés sem enxergarmos. Somos insipientes à esta adversidade. Mas chega, nobre população. Este que vos representa soube da verdade. Esta sujeira prejudica a nossa saúde, esgota os recursos financeiros do cidadão trabalhador aos problemas de toda repartição pública. Gastamos tanto recurso: mão de obra, tempo, tudo por uma coisa fácil de dirimir. Vejo muitos amigos cidadãos perplexos, porém quando eu falar a solução contra toda essa sujeira, os senhores ficarão banzados pela simplicidade da solução. Sem mais dilações, digo a todos meu bordão de como fazer do Brasil um país limpo. 

É agora: 

— Tapete bom é tapete queimado! 

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