Jamais me sinto solitário na companhia do café. Como eu estaria com este amigo tão sincero e humilde? Nós trocamos silêncio todos os dias, e nele desabafamos palavras.

O café sempre me confessa o quanto ele é amargo, nada daquele acompanhante superficial metido a doce. O meu colega diurno é obscuro e seca minha garganta com esse gosto ímpar. Eu gosto dele por incomodar minha língua e tomar o lugar daqueles organismos capazes de me deixar a mercê do cansaço, essa sim uma companhia desagradável, sempre vem com aquela conversa de eu depositar meu corpo na cama e assistir vídeos fúteis.

Está bem, eu traio o café todas as noites com o cansaço. Troco-o antes da madrugada e me submeto ao descanso. Passamos a noite juntos na cama e o dispenso pela manhã. Sento de volta à mesa com o café, ele me bate pela traição com aquele gosto ímpar. Assim desperto no novo dia.

Nem pense que deixo essa bebida me dominar. Arranco sua beleza escura e misturo o café com o leite. Gosto do sabor UHT sem adornos doces, e é perfeito com o amargo. Ouço o café berrar quando o branco invade seu corpo, até chora ao ser esmagado pelo companheiro indesejável. O leite pisa nele, esmaga com a força das moléculas bovinas até fundirem numa só bebida. Ainda vejo as lágrimas cafeinadas no reflexo da luz, eu apenas sorrio, e ele aceita a nova condição.

Quem tento enganar? O café dá revanches, é claro! Sempre mais violento no nosso segundo encontro diário, antes das nove da manhã. Cafeína penetra nas veias. Imagine uma mão agarrar o cabelo e puxá-lo, a cabeça fica erguida, tapas invisíveis mantém o rosto ligado. Essa violência matinal me permite trabalhar, tira aquele folgado do cansaço e deixa minhas costas eretas.

Deixe-me confessar algo a mais. Não preciso da terceira dose, digo, é raro de eu precisar, só o quero mesmo. A cafeína do segundo encontro mal sai de mim e o pego de novo. Como poderei fugir desse sabor, faço a menor ideia. ‘Tá, eu faço.

Acredito de eu ser bom em escolher o momento das minhas companhias. Troco-as quando eu bem entender. Depois do cansaço, volto com o café mais tarde e aceito a vingança. Pena chegar outras companhias independente de minha escolha, dependente do dia. Eles são o frio, a chuva e o calor.

Frio é aquele de toque feminino. De unhas bastantes afiadas, arranham minha pele e deixa tudo mais sensível. Deixa-me desperto com seus golpes externos, mas meu organismo interno reage e fico fraco em certos momentos por isso. Odeio quando o frio me derrota, às vezes ele exagera e ataca sem perdão, atinge bem no nariz que escorre catarro e toda a minha disposição junto. Eu te adoro, juro te amar; só peço para vir com mais calma! Depois não reclame quando me aqueço com o café.

A chuva é de fato feminina. Às vezes gentil, outras histérica, até mesmo deseja levar meu mundo abaixo nos momentos quando cai o céu junto dela. Gosto do ambiente molhado por causa dela, além de ser a única capaz de realizar milagres, como propiciar o encontro pacífico entre mim, café e o cansaço. É ótimo ficar debaixo do edredom, ter a sensação chamada conforto.

Agora o calor, este deve ir à cadeia. Impossível elogiar, sempre atropela os limites, atormenta até minha alma! Eu o proíbo de me desanimar, mas é como se eu pedisse esquentar muito mais. Sinto murros constantes na minha cabeça, aquelas mãos invisíveis e sem unha me amassam, espremem todo o suco de meu suor e deixam só o bagaço. Quando quero me entregar ao cansaço de noite, o calor impede, fica aqui me apertando a noite toda.

O pior de tudo? É que o café sabe do meu ódio do calor, e está nem aí. Aproveita e se diverte comigo. Queima minha língua sensível e me entrega à companhia horrível do dia claro. Tento castigar, o abandono na xícara até esfriar, e ele apenas ri da minha cara — dá pra acreditar? —, pois ele sabe, ainda o tomarei mais tarde mesmo com o sabor morno. Ao menos posso submetê-lo ao leite gelado uma vez ao dia em casa.

Tenho vontade de chorar quando eles mexem comigo no começo de ano. O calor vem com tudo e me desgraça. A chuva chega em uns dias, deixa até o frio vir também. Só me iludem. O calor volta e me cozinha de novo! Onde eu posso conseguir aquela ordem judicial para impedir de ele aproximar de mim? Como o mundo é injusto, tenho de me forçar a esta situação.

Tudo bem. Aguarde o seu momento, companhia infernal. Fugirei de você, irei onde apenas a chuva e o frio me alcancem, e levarei apenas boas companhias. Café com leite jamais pode faltar. Nada de 15 a 30 e vice-versa. Vou me trancar de 10 a 20 e ser feliz, porque eu mereço! E quando isso acontecer, ah! Quando acontecer, só me restará agradecer pelos companheiros possíveis, suportando uma ou outra inconveniência.

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