E continuamos os posts especiais de novembro com o conto do convidado! Outro autor teve o prazer de compartilhar um de seus textos e mostrar do que é capaz, lembrando que no fim do post tem link com seu perfil e indicação de livro. Se não viu o conto de Wan Moura que abriu o mês com esta novidade, clique aqui e conheça.

Auryo Jotha é o autor do conto de hoje. Sua obra principal é Carne Morta, um livro do Wattpad que foi um dos vencedores do maior concurso da plataforma, o The Wattys 2018. O livro mantém-se atualizado com novas histórias de mitos já conhecidos com uma pegada mais sombria. É um entusiasta da mitologia existente em nosso território, seja ela brasileira ou anterior a chegada dos europeus.

Assim como o convidado antecessor, Auryo nos trouxe uma demonstração tenebrosa de suas habilidades narrativas com a história sobre o mito grego, mas ainda com elementos brasileiros. Então tire as crianças da sala durante a leitura! Ou se você for uma criança, recomendo ler O Pequeno Príncipe. Brincadeira! Pode (e deve) ler O Pequeno Príncipe na idade que quiser. Aproveite o texto de Auryo Jotha a partir de agora:

Carne Morta - Auryo Jotha


Um Banquete à Borrasca

Sim… como havia sentido falta daquilo.

De novo o toque fresco de outro corpo ao seu.

Sem cama, sem tempo. As roupas? Rasgue-as, puxe-as! Pois nem o cheiro, nem o gosto dele a sacia. Mais… Mais… Mãos. Apertos. Um passar de língua.

O frio do chão contra as costas dele. Os dedos deslizando pelo suor naquele corpo, entre os pelos, pelo umbigo. Um carinho. Machuca.

Isso…!

Sob o peso dela: lágrimas e desejo e um pouco de calor. Forçava. Arranhava. E ele mantinha o olhar parado no rosto dela.

Curve-se! Ela alcançou uma boca à espera. Saliva.

As rugas pesavam em seus olhos. O tempo secava sua garganta. Sozinha, restava-lhe sobreviver.

Da cabeça dela o cabelo ralo e branco escorria pelas eras; enquanto seu corpo foi lentamente perdendo a força, a firmeza, a opção de não tremer; mas mesmo assim permaneciam: ela e suas penas negras.

No entanto, tudo já era tão velho… A poeira se acumulava vagarosamente em cada pedra. O vento do meio dia entrava pela abertura da caverna e se deitava sem forças no escuro entre o pó, entre cacos, entre ossos, entre…

Ah…!

As mãos sobre a pele deixavam um rastro de sujeira. Seus dedos imundos abriam a boca dele e enfiavam algo lá dentro. Era inútil. Mesmo assim, ela o agarrava, o colocava dentro de si novamente, tinha que aproveitar o calor que ainda restava nele.

Feitos em asas, seus braços o cobriam. As escamas de suas pernas roçavam na pele jovem. Sua língua preta, seca, passeava por aquele corpo já morto, ainda quente.

A Harpia parou. Ergueu o rosto:

— Quantas visitas… — Saiu de cima do rapaz, com uma mão entre as pernas tentando conter o que escorria por suas plumas. — Quantas visitas me honram hoje.

Deu dois passos lentos que não perturbaram a camada de poeira. Direita, esquerda, direita: com a cabeça ela procurava. Eles estavam bem à sua frente.

Um deles engatilhou uma arma. A Harpia se virou para aquela direção, arqueando as asas e abaixando o pescoço, em seus olhos leitosos ainda havia um tom selvagem e ameaçador.

Uma mulher se pôs no caminho daquele olhar, tirou a arma das mãos do companheiro, sem emitir um som ela moveu os lábios em um expressivo “idiota”. Lançou um olhar para cada um do grupo. Depois voltou-se para a criatura com um enorme sorriso, contudo ao se lembrar que a catarata filtraria seus gestos ficou séria.

— Perdão. Que espécie de visita sou eu, que puxa uma arma assim. — Abaixando-se — Veja! — Colocou a arma no chão. — Agora estou desarmada. Me desculpe mais uma vez.

Ao ouvi-la chutar a arma, a Harpia se endireitou na medida do possível já que sua coluna havia se curvado com as décadas que se agarravam às suas costas. Esperou…

— E quem é você, minha coisinha?

— Ninguém. Eu só estava per…

— NINGUÉM!? — Um passo. — Já sou cega, mas não burra. Ninguém? Como tantos outros antes de tu? — Um passo. — Como tantos outros heroicamente enviados para a Morte? — Bateu os dentes do bico com força. — São tantos os que caem. Não acredite em tudo no que dizem; não, não acredite, e não tente me enganar, Ninguém. — O ar lhe saiu como uma leve gargalhada.

— Luna! — Apressou-se. — Luna. Desculpa, não ter dito antes. Esse é meu nome. — Mentiu. E fez um sinal para que os outros três avançassem para os fundos da caverna e procurassem o que vieram buscar. Pés cautelosos, olhos na Harpia e onde pisar.

— Humm… Pois bem, Luna-Ninguém…

A criatura se virou abaixada com a uma pata erguida em busca do corpo nu atrás de si. Elegante. Fincou as garras no crânio dele, e o levantou devagar. Um sorriso contido. As pernas dele arrastaram-se na pedra, quando foi mostrado para a visita.

— Amigo seu? Ou de ninguém? Encontrei esse mais cedo andando por minha caverna.

— Não! — Não era uma resposta ao que fora perguntado. Os olhos fixos no rapaz marejaram. Recompôs-se. — Felizmente, não.

— Muito bem, Luna, e quantos vêm contigo? — Sua voz saiu rasgada, áspera.

— Sou apenas eu.

— O quão imprudentes são os Homens, não? — Soltou, e o corpo caiu sem jeito. — Mas é uma pena serem tão frágeis.

A moça fechou os olhos, respirou fundo, tentando se acalmar. Dois de seus companheiros já haviam sumido nas sombras ao fundo da caverna, o outro ficou no meio do caminho para caso algo desse errado; Luna olhou para ele, arma em punho, mira na Harpia, qualquer movimento atiraria, sabiam do risco, por isso ela não havia jogado tão longe a arma, estava ali no chão ao alcance; a criatura veria se tentasse?

— Sei que parece um absurdo, vir… — ela prendeu o fôlego quando a criatura começou a se aproximar de novo — um absurdo vir até aqui desacompanhada.

— Realmente, minha cara. — Mais três passos. — O que tens? Não tenha medo, pode se aproximar, como vês já tenho comida… para hoje.

A Harpia ficou séria de repente. Inclinou a cabeça para um lado. Suas garras arranharam a rocha. Ela ouvirá algo? Não!

— Me desculpe!, — Luna deu uns passos p’ra frente — de novo. É que estou muito cansada, não queria ser mal-educada. É que nos últimos anos viajo sozinha — os olhos da criatura voltaram a mirar sua visita — e acho que desaprendi como lid…

— Pois me conte. Você acertou meu ponto franco, sempre estou disposta para uma boa história; e se tiver sorte não só eu a conhecerei…

Nem todos juntos a matariam; só agora entendia isso. Essa era a oportunidade. Agarre-se! Tinham que conseguir o que vieram pegar. Fale!

— H…? Bem… Vi lugares e seres incontáveis. Ouvi — fez uma pausa involuntária ao perceber que havia se afastado do local onde havia jogado a …! — Ouvi os mais extraordinários mitos, lendas. Perigos vindos em todas as formas. Porém nesse tempo havia mais gente comigo, lógico, eramos…

— E o que houve?

A Harpia chegou tão perto; Luna não podia recuar.

O medo é fétido.

Olhou para trás em busca da arma. Continue!

***

Uma bagunça. O ar em podridão no fundo da caverna fazia com que os dois respirassem rápido e prendessem o fôlego; a saliva se acumulava não querendo ser engolida. O chão estava escorregadio de umidade e das sobras de antigas refeições.

“Entendo.” A voz da Harpia rastejava até eles pelas sombras.

“Principalmente porque não sabíamos o que era aquilo”. A de Luna também. Estava tudo correndo conforme as instruções recebidas.

As luzes das lanternas passavam por ossos, palha, tecidos retalhados, algo que lembrava um ninho, restos de animais, um livro, espadas, joias que mal brilhavam por baixo da sujeira. Cadê?

“Descemos o rio…” Enquanto as vozes conversassem eles estavam a salvo. “… ele ‘tava ferido, mas ainda conseguia ficar…”

Tinha que estar ali; trazido junto com alguma refeição antiga. Perdido há anos, finalmente localizado; a informação era certa, tinha que estar ali. Talvez estivesse encoberto pela sujeira.  Um deles apertou com a mão uma medalha que trazia no peito: um santo carregando uma lança e um lampião – São Longino.

“…ntramos o que ‘tava causando todas aquelas mortes…” Acabou. Não havia mais para onde ir, tinham agora que revirar cada corpo, cada monte de roupas, revirar os minutos que não possuíam. “…tínhamos que queimá-la…”

E se jamais fora levado p’r’aqui? E se nunca…? Não! A informação era confiável. Não era?

“MENTIRAS!” A Harpia berrou. E o som de asas pesou o ar.

***

— Estou velha, como pode ver. Mas, séculos e mais séculos não mudam os Homens; o que verdadeiramente quer aqui?

— Eu… — hesitou.

— Sem timidez, diga-me. — O hálito forte.

— Por favor, eu… — a criatura entortou a cabeça para ouvir. — Eu sei… que parece…

— Mais mentiras? Insistirá nisto? Então, eu mesma descubro. — Encostou o bico no braço de Luna e respirou fundo. — Estranho. Não sinto o seu cheiro.  Por quê? De onde vieste?

— Br… Brasil.

— Impossível. Como conseguiste fugir de lá se as fronteiras estão fechadas para nós? Eu sei, Luna-Ninguém… Nem se espante. Posso viver isolada, mas sei de muito do que acontece em outras terras. A opressão e a caça que ocorrem lá chegaram até meus ouvidos.

— Eu… — A proximidade da Harpia a incomodava.

— Não houve fuga. É isso…? Livre acesso? Livre saída? E isso é o que me deixa mais curiosa por saber quem te enviou. E como fala tão bem o meu grego? Sua língua foi encantada com prata? Peixe Babel? Diga-me.

— Fugi pelo sul do país com a ajuda de um espírito e cavalos invisíveis.

— Pséma! Pséma. Mentira! Eu sei que o Errante se levanta… que escolas bruxas foram fechadas, oráculos perseguidos, vampiros mortos, sei que licantropos servem como cães farejadores. Mesmo que escondam… é um país em guerra. Responda-me: por que alguém que fugiu de tamanhos horrores iria querer morrer aqui?

— Vim em busca de algo para deter tudo isso.

— Se é no que acreditas.

A Harpia abriu as asas, desprendendo de seu corpo uma lufada de odor e podridão. Suas asas envolveram a moça, taparam sua visão. E com uma das patas agarrou-lhe o queixo.

— Mentiras! MENTIRAS. — Sentiu o cheiro do sangue a escorrer pelas pontas das garras em contato com a pele. E puxou. O maxilar da moça foi arrancado, e sua língua balançou em sangue. Sem gritos, sem gemidos, os olhos se apagaram de dor.

A poeira dançava ao redor. Ouviu-se um tiro. Tarde demais.

ATIRA!

Ela caíra mole no chão.

ATIRA! ATIRA!

O gatilho. As balas. A criatura se virando. Aqueles olhos brancos. Cegos.

VAI! ATIRA!

Um grito agudo, seco rasgou-se da garganta daquilo e jorrou-se por entre os dentes, por entre o bico aberto.

Não, não.

Ela não morria; POR QUÊ?!

Em segundos as garras da Harpia se encaixaram no crânio do que ficara de guarda; e a pata desceu… Ossos esmagados, algo escorrendo por entre os dedos: silêncio.

…!

Ela esperou mais algum ruído… eles sempre faziam.

— QUEM OS ENVIOU ATÉ MIM?

Com os compridos dedos entrelaçados às costas, caminhava em direção aos fundos da caverna deixando uma pegada de sangue pelo caminho, junto com raras gotas vindas das feridas deixadas pelas balas.

— MAS ME DIGA QUEM DISFARÇA O VOSSO CHEIRO? Magia… não? Tanta CAUTELA assim… Quem seria…?

Os joelhos se dobrando ao inverso dos dos Humanos a levavam mais e mais perto dos dois últimos visitantes encostados à parede.

— Ah eu sei o que quereis… O que tu procuras há muito foi levado.

Abriu as asas tentando fechar a passagem. Curvada, caçava: movia lentamente as asas para alcançar qualquer coisa viva. Um único som era o que precisava.

— Não há recompensa para esta missão. Não há caminho de volta. Não haverá banquete à tua espera. Ficarás aqui: meu caro herói anônimo… derrotado no meio da jornada. Como ninguém.

Cega: ela agarrava o ar. Mais um passo. A respiração presa deles dois iria denunciá-los quando fosse solta. Mais um passo. Os dedos da criatura quase os tocavam. Aquela língua seca, negra queria ser saciada. Mais um passo. Cada pena de seu corpo arrupiava-se com a Morte.

Os dois precisavam arriscar. Um olhar, um acenar de cabeça. Soltaram o ar quase juntos, e saíram correndo para lados opostos. Sacaram as armas; mirar e correr: atiraram ao léu.

A Harpia agarrou um jogando-o no chão. Bem seguro, deitou-se sobre ele, abriu o bico, inclinou-se; uma bala entrou-lhe pela garganta, mas a criatura continuou, fechou o bico com um único movimento entorno do rosto de sua visita, que se fora com um estalo. E a arma ainda fumegante caiu inerte no chão.

O último de seus visitantes era agora passos distantes. Iria atrás dele? Ensopada, um pouco ferida, levantou. E os olhos brancos dela miraram a saída.

***

Sim! Estava a salvo. Tremia, as lágrimas lhe escapavam como o ar dos pulmões. Sobrevivera. Descera a montanha esperando ser içado aos céus a qualquer momento, depois ser arremessado lá de cima. Mas, agora… estava sob a proteção de um bosque, e mesmo que próximo da caverna não haveria mais perigo.

— Consegui! — Um sorriso ergueu essa palavra no ar por alguns instantes.

A Harpia estava morta, sim… era isso que diria para todos. Mesmo que não tenha conseguido salvar mais alguém do seu grupo, e nem recuperado o que tentaram achar, matara a Harpia, isso já era muito, já seria uma história e tanto. A criatura ia terminar de se apodrecer naquele lugar. Morta com um tiro na garganta. Ele mesmo que a enganara contando histórias, arriscara-se muito e sozinho, sozinho, mas era o único jeito de acabar com aquela aberração. Sua própria bala rompera a vida dela. Isso… Um herói!

O melhor é que não sobrara alguém para desmentir sua história. Um herói.

A glória enfim estava pronta para ser colhida.

Por entre as árvores uma sombra de asas passou sobre ele seguida por um vento forte com cheiro de chuva.

— Um gavião… — Disse para si. — É só… um gavião…


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