Primeiro de janeiro de 2018. 

Levantei às 6h50.

Precisava tomar remédio às sete por causa da alergia da gatinha (de quatro patas, infelizmente) da casa de minha irmã dias atrás. 

Pelo menos eu estava melhor, meus cachorros também. Fiquei até uma da madrugada acordado só para acalmar os meus dois bichinhos. Fogos não têm graça, perdi o prazer da virada do ano há tempos. 

Tenho o hábito de fazer compras no mercado todo domingo. Com espirros constantes e olhos avermelhados igual vampiro, resolvi adiar até o ano seguinte. Meu pai disse que estaria quase tudo fechado, e ele estava certo. 

Saí de casa com o horizonte plenamente cinza. As nuvens escondiam a luz do sol, ventos frios massageavam meu rosto. Adoraria receber o calor de um abraço da minha companheira de toda a vida, mas ela ainda não se revelou para mim. No momento aceito a companhia deste clima gelado; odeio o verão. 

Segui com o meu carro. Mal tinham passado oito horas do primeiro dia do ano. Com certeza a rua estaria deserta, encontraria somente os bêbados. Todo feriado eles brotam no chão, principalmente no ano novo. 

Porém o primeiro sujeito visto na rua estava com uniforme de trabalho. Sua bolsa grande e cheia puxava seus ombros, quase o derrubava. O zíper nem fechava com o pacote de arroz com a metade para fora da mala. 

Ele viu o meu carro e acenou. Primeiro eu desviei o olhar, concentrei na curva fechada que teria de fazer com o veículo. Acenou mais uma vez e eu pus o pé no freio. Olhei na janela do meu lado, ele já tinha ido ao outro e abriu a porta do passageiro. Quando perguntei se precisava de carona ele já estava dentro. 

Como não cheguei a pedir autorização dele em expô-lo neste texto, vou nomear aqui como Alexandor Romasnoffv.

Talvez Josué, o Hulk, seja melhor.

Hulk é o apelido dele de verdade. Ele me disse quando observou a minha camiseta. De primeira perguntou se eu era roqueiro pela cor da roupa, e acertou. Só enxergou o monstro verde quando observou outra vez. 

Conheci muito sobre Josué no curto caminho de sua carona. Digo, curto com o carro. A pé ele iria gastar meia hora e arrebentar a coluna com aquela mala pesada (não estava sob os efeitos dos raios gama). 

A nossa conversa durou mais do que muitas a vir em janeiro. Sou introvertido, ainda assim não sou difícil de se conversar. Difícil é alguém falar comigo de coisas simples, sem segundas intenções ou julgamentos. 

Mal saí do percurso durante a carona, e deixei Josué há poucos passos de seu apartamento. Ele me recompensou com algo de valor inestimável: gratidão. Não poderia receber prêmio melhor nas primeiras horas de 2018. 

Duvido encontrar Josué outra vez em breve. Desejo toda a felicidade possível a sua família com aquele saco de arroz pesado da bolsa. Até mesmo a sogra — que ele detesta — seja feliz e o incomode menos. 

Comecei este ano com o pé direito, cheio de satisfação e esperança de seguir em frente (e olhar para o lado). 

Claro, as primeiras horas do ano não foram perfeitas. Apenas um mercado estava aberto. Comprei menos da metade do que costumo levar, e o preço ainda ficou a 50%. 

Mas tudo bem. Houve um breve momento de felicidade, e isso tem de ser lembrado. Não é muito, mas a perspectiva positiva é o mais importante.

O ano novo não trará mudanças se eu deixar de mudar minha atitude, do contrário chegará dezembro e serei mais um a dizer que 2018 foi o pior ano da minha vida, assim como muitos falaram nos anos anteriores.

i am possible - 2018

Rasguei o impossível e disse: “Eu sou possível!”