Faço companhia às margens do rio. Três horas de caminhada iniciadas ao final da madrugada, tenho que chegar ao trabalho no começo da manhã, sem horário de voltar, tampouco hora extra. Ando até minha carreira, pretendo alcançar os sonhos, procriar e oferecer vida melhor aos meus filhos, assim como papai fez enquanto esteve vivo. Filhos… Nem namorada tenho, sequer sobra tempo de arranjar uma, dormir antes da meia-noite é questão de sorte, e as horas a mais de trabalho, bem, esquece.

Passo por um senhor sentado rente ao rio, boné de pano puído e vara de bambu na mão. Linha na água parada, barrosa. Meus avôs diziam daquele rio já ter sido limpo, no tempo dos bisavôs deles. A situação faz o pobre senhor pescar aqui, em água sem vida. Tenho as moedas da coxinha do horário de almoço, ele precisa mais delas. Pego todo o dinheiro e levo a ele, de sorriso aberto antes de eu chegar, balança a cabeça de um lado a outro quando deixo sobre a sacola.

— Agradeço a caridade, garoto, mas tome o dinheiro de volta.

— Fique com o senhor. Estou a caminho do trabalho, onde arranjo mais dinheiro.

— Você é pago apenas no fim do mês, e este mal começou. Passará fome sem a coxinha do almoço.

— Como o senhor sabe que iria comprar coxinha?

— Só consegue comprar coxinha com este valor. Ainda consegue. Além do mais, você precisa movimentar a economia, garoto. Eu contribuo nada nessa idade.

Ele apanha as moedas e segura na minha frente, chacoalha e aponta o olhar nas minhas mãos fechadas. Eu fecho os olhos e estendo a palma, as peças redondas de metal batem entre si e caem de volta a mim.

— Como a pesca está indo?

— Indo a lugar algum. — O senhor ri. — Tudo parado, a linha só move com o vento. Tenho a impressão de chegar aqui cedo demais.

— Com todo o respeito, se chegasse tarde demais teria o mesmo resultado. Nenhum peixe vive aqui desde antes de eu nascer.

— Ah, eu já fisguei algo muito bom.

Minhas sobrancelhas crescem, formo mais rugas que o velho pescador possui. Tenho meu horário a cumprir, e terei de acelerar o passo por perder tempo com ele.

— Não preocupe tanto com o horário — ele lê meus pensamentos? —, ainda mais hoje. Você estará demitido.

— Como? Por que eu estaria?

— Você terá mudanças na vida. Essas que você tanto teme, prolonga e nega; precisará tomar outro rumo, seja melhor ou pior.

— Eu me dediquei tanto a este trabalho! Perdi oportunidades, desisti de outras. Este emprego é a minha melhor chance. É injusto perdê-lo!

Os lábios dele ficam fechados, assim me responde tudo. Eu já respondi. Fiz as escolhas, agora tenho as consequências. Pouco adianta lamentar pelos imprevistos — previsíveis ao pescador, ao que parece —, a vida continua e eu pretendo acompanhá-la.

— Compreendeu agora, garoto?

— Entendi. O senhor não está aqui pela pescaria.

— Claro que eu estou! — Ri de novo. — Vá. Não deixe eu tomar mais do seu tempo.

A aurora risca os primeiros traços do sol, um peixe morde o anzol do pescador e parte a linha ao meio, bate a cauda fora d’água e vai embora.

— Hoje o dia será difícil, garoto. Arranje coragem e insista nos sonhos. Viva a vida, pois ela fica muito boa quando muda de perspectiva.

***

E o garoto foi. Lábios fechados e bolhas nas mãos, nos pés dentro dos sapatos também. É muito divertido, sabe. Vê-lo aqui de cabeça abaixada, antes de todas as conquistas a partir deste dia. As mudanças são de dar medo, com certeza, as variáveis trazem valores bons e ruins, pode colocar o parâmetro que for, o resultado sairá imprevisível nesta época do tempo dele.

Está na hora de eu voltar ao meu tempo. Adoro a nostalgia de encarar o eu do passado e sorrir para ele, relembrar de tudo o que eu passei, cada dificuldade e tragédia. Tudo valeu a pena.

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