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Um Banquete à Borrasca, de Auryo Jotha

E continuamos os posts especiais de novembro com o conto do convidado! Outro autor teve o prazer de compartilhar um de seus textos e mostrar do que é capaz, lembrando que no fim do post tem link com seu perfil e indicação de livro. Se não viu o conto de Wan Moura que abriu o mês com esta novidade, clique aqui e conheça.

Auryo Jotha é o autor do conto de hoje. Sua obra principal é Carne Morta, um livro do Wattpad que foi um dos vencedores do maior concurso da plataforma, o The Wattys 2018. O livro mantém-se atualizado com novas histórias de mitos já conhecidos com uma pegada mais sombria. É um entusiasta da mitologia existente em nosso território, seja ela brasileira ou anterior a chegada dos europeus.

Assim como o convidado antecessor, Auryo nos trouxe uma demonstração tenebrosa de suas habilidades narrativas com a história sobre o mito grego, mas ainda com elementos brasileiros. Então tire as crianças da sala durante a leitura! Ou se você for uma criança, recomendo ler O Pequeno Príncipe. Brincadeira! Pode (e deve) ler O Pequeno Príncipe na idade que quiser. Aproveite o texto de Auryo Jotha a partir de agora:

Carne Morta - Auryo Jotha


Um Banquete à Borrasca

Sim… como havia sentido falta daquilo.

De novo o toque fresco de outro corpo ao seu.

Sem cama, sem tempo. As roupas? Rasgue-as, puxe-as! Pois nem o cheiro, nem o gosto dele a sacia. Mais… Mais… Mãos. Apertos. Um passar de língua.

O frio do chão contra as costas dele. Os dedos deslizando pelo suor naquele corpo, entre os pelos, pelo umbigo. Um carinho. Machuca.

Isso…!

Sob o peso dela: lágrimas e desejo e um pouco de calor. Forçava. Arranhava. E ele mantinha o olhar parado no rosto dela.

Curve-se! Ela alcançou uma boca à espera. Saliva.

As rugas pesavam em seus olhos. O tempo secava sua garganta. Sozinha, restava-lhe sobreviver.

Da cabeça dela o cabelo ralo e branco escorria pelas eras; enquanto seu corpo foi lentamente perdendo a força, a firmeza, a opção de não tremer; mas mesmo assim permaneciam: ela e suas penas negras.

No entanto, tudo já era tão velho… A poeira se acumulava vagarosamente em cada pedra. O vento do meio dia entrava pela abertura da caverna e se deitava sem forças no escuro entre o pó, entre cacos, entre ossos, entre…

Ah…!

As mãos sobre a pele deixavam um rastro de sujeira. Seus dedos imundos abriam a boca dele e enfiavam algo lá dentro. Era inútil. Mesmo assim, ela o agarrava, o colocava dentro de si novamente, tinha que aproveitar o calor que ainda restava nele.

Feitos em asas, seus braços o cobriam. As escamas de suas pernas roçavam na pele jovem. Sua língua preta, seca, passeava por aquele corpo já morto, ainda quente.

A Harpia parou. Ergueu o rosto:

— Quantas visitas… — Saiu de cima do rapaz, com uma mão entre as pernas tentando conter o que escorria por suas plumas. — Quantas visitas me honram hoje.

Deu dois passos lentos que não perturbaram a camada de poeira. Direita, esquerda, direita: com a cabeça ela procurava. Eles estavam bem à sua frente.

Um deles engatilhou uma arma. A Harpia se virou para aquela direção, arqueando as asas e abaixando o pescoço, em seus olhos leitosos ainda havia um tom selvagem e ameaçador.

Uma mulher se pôs no caminho daquele olhar, tirou a arma das mãos do companheiro, sem emitir um som ela moveu os lábios em um expressivo “idiota”. Lançou um olhar para cada um do grupo. Depois voltou-se para a criatura com um enorme sorriso, contudo ao se lembrar que a catarata filtraria seus gestos ficou séria.

— Perdão. Que espécie de visita sou eu, que puxa uma arma assim. — Abaixando-se — Veja! — Colocou a arma no chão. — Agora estou desarmada. Me desculpe mais uma vez.

Ao ouvi-la chutar a arma, a Harpia se endireitou na medida do possível já que sua coluna havia se curvado com as décadas que se agarravam às suas costas. Esperou…

— E quem é você, minha coisinha?

— Ninguém. Eu só estava per…

— NINGUÉM!? — Um passo. — Já sou cega, mas não burra. Ninguém? Como tantos outros antes de tu? — Um passo. — Como tantos outros heroicamente enviados para a Morte? — Bateu os dentes do bico com força. — São tantos os que caem. Não acredite em tudo no que dizem; não, não acredite, e não tente me enganar, Ninguém. — O ar lhe saiu como uma leve gargalhada.

— Luna! — Apressou-se. — Luna. Desculpa, não ter dito antes. Esse é meu nome. — Mentiu. E fez um sinal para que os outros três avançassem para os fundos da caverna e procurassem o que vieram buscar. Pés cautelosos, olhos na Harpia e onde pisar.

— Humm… Pois bem, Luna-Ninguém…

A criatura se virou abaixada com a uma pata erguida em busca do corpo nu atrás de si. Elegante. Fincou as garras no crânio dele, e o levantou devagar. Um sorriso contido. As pernas dele arrastaram-se na pedra, quando foi mostrado para a visita.

— Amigo seu? Ou de ninguém? Encontrei esse mais cedo andando por minha caverna.

— Não! — Não era uma resposta ao que fora perguntado. Os olhos fixos no rapaz marejaram. Recompôs-se. — Felizmente, não.

— Muito bem, Luna, e quantos vêm contigo? — Sua voz saiu rasgada, áspera.

— Sou apenas eu.

— O quão imprudentes são os Homens, não? — Soltou, e o corpo caiu sem jeito. — Mas é uma pena serem tão frágeis.

A moça fechou os olhos, respirou fundo, tentando se acalmar. Dois de seus companheiros já haviam sumido nas sombras ao fundo da caverna, o outro ficou no meio do caminho para caso algo desse errado; Luna olhou para ele, arma em punho, mira na Harpia, qualquer movimento atiraria, sabiam do risco, por isso ela não havia jogado tão longe a arma, estava ali no chão ao alcance; a criatura veria se tentasse?

— Sei que parece um absurdo, vir… — ela prendeu o fôlego quando a criatura começou a se aproximar de novo — um absurdo vir até aqui desacompanhada.

— Realmente, minha cara. — Mais três passos. — O que tens? Não tenha medo, pode se aproximar, como vês já tenho comida… para hoje.

A Harpia ficou séria de repente. Inclinou a cabeça para um lado. Suas garras arranharam a rocha. Ela ouvirá algo? Não!

— Me desculpe!, — Luna deu uns passos p’ra frente — de novo. É que estou muito cansada, não queria ser mal-educada. É que nos últimos anos viajo sozinha — os olhos da criatura voltaram a mirar sua visita — e acho que desaprendi como lid…

— Pois me conte. Você acertou meu ponto franco, sempre estou disposta para uma boa história; e se tiver sorte não só eu a conhecerei…

Nem todos juntos a matariam; só agora entendia isso. Essa era a oportunidade. Agarre-se! Tinham que conseguir o que vieram pegar. Fale!

— H…? Bem… Vi lugares e seres incontáveis. Ouvi — fez uma pausa involuntária ao perceber que havia se afastado do local onde havia jogado a …! — Ouvi os mais extraordinários mitos, lendas. Perigos vindos em todas as formas. Porém nesse tempo havia mais gente comigo, lógico, eramos…

— E o que houve?

A Harpia chegou tão perto; Luna não podia recuar.

O medo é fétido.

Olhou para trás em busca da arma. Continue!

***

Uma bagunça. O ar em podridão no fundo da caverna fazia com que os dois respirassem rápido e prendessem o fôlego; a saliva se acumulava não querendo ser engolida. O chão estava escorregadio de umidade e das sobras de antigas refeições.

“Entendo.” A voz da Harpia rastejava até eles pelas sombras.

“Principalmente porque não sabíamos o que era aquilo”. A de Luna também. Estava tudo correndo conforme as instruções recebidas.

As luzes das lanternas passavam por ossos, palha, tecidos retalhados, algo que lembrava um ninho, restos de animais, um livro, espadas, joias que mal brilhavam por baixo da sujeira. Cadê?

“Descemos o rio…” Enquanto as vozes conversassem eles estavam a salvo. “… ele ‘tava ferido, mas ainda conseguia ficar…”

Tinha que estar ali; trazido junto com alguma refeição antiga. Perdido há anos, finalmente localizado; a informação era certa, tinha que estar ali. Talvez estivesse encoberto pela sujeira.  Um deles apertou com a mão uma medalha que trazia no peito: um santo carregando uma lança e um lampião – São Longino.

“…ntramos o que ‘tava causando todas aquelas mortes…” Acabou. Não havia mais para onde ir, tinham agora que revirar cada corpo, cada monte de roupas, revirar os minutos que não possuíam. “…tínhamos que queimá-la…”

E se jamais fora levado p’r’aqui? E se nunca…? Não! A informação era confiável. Não era?

“MENTIRAS!” A Harpia berrou. E o som de asas pesou o ar.

***

— Estou velha, como pode ver. Mas, séculos e mais séculos não mudam os Homens; o que verdadeiramente quer aqui?

— Eu… — hesitou.

— Sem timidez, diga-me. — O hálito forte.

— Por favor, eu… — a criatura entortou a cabeça para ouvir. — Eu sei… que parece…

— Mais mentiras? Insistirá nisto? Então, eu mesma descubro. — Encostou o bico no braço de Luna e respirou fundo. — Estranho. Não sinto o seu cheiro.  Por quê? De onde vieste?

— Br… Brasil.

— Impossível. Como conseguiste fugir de lá se as fronteiras estão fechadas para nós? Eu sei, Luna-Ninguém… Nem se espante. Posso viver isolada, mas sei de muito do que acontece em outras terras. A opressão e a caça que ocorrem lá chegaram até meus ouvidos.

— Eu… — A proximidade da Harpia a incomodava.

— Não houve fuga. É isso…? Livre acesso? Livre saída? E isso é o que me deixa mais curiosa por saber quem te enviou. E como fala tão bem o meu grego? Sua língua foi encantada com prata? Peixe Babel? Diga-me.

— Fugi pelo sul do país com a ajuda de um espírito e cavalos invisíveis.

— Pséma! Pséma. Mentira! Eu sei que o Errante se levanta… que escolas bruxas foram fechadas, oráculos perseguidos, vampiros mortos, sei que licantropos servem como cães farejadores. Mesmo que escondam… é um país em guerra. Responda-me: por que alguém que fugiu de tamanhos horrores iria querer morrer aqui?

— Vim em busca de algo para deter tudo isso.

— Se é no que acreditas.

A Harpia abriu as asas, desprendendo de seu corpo uma lufada de odor e podridão. Suas asas envolveram a moça, taparam sua visão. E com uma das patas agarrou-lhe o queixo.

— Mentiras! MENTIRAS. — Sentiu o cheiro do sangue a escorrer pelas pontas das garras em contato com a pele. E puxou. O maxilar da moça foi arrancado, e sua língua balançou em sangue. Sem gritos, sem gemidos, os olhos se apagaram de dor.

A poeira dançava ao redor. Ouviu-se um tiro. Tarde demais.

ATIRA!

Ela caíra mole no chão.

ATIRA! ATIRA!

O gatilho. As balas. A criatura se virando. Aqueles olhos brancos. Cegos.

VAI! ATIRA!

Um grito agudo, seco rasgou-se da garganta daquilo e jorrou-se por entre os dentes, por entre o bico aberto.

Não, não.

Ela não morria; POR QUÊ?!

Em segundos as garras da Harpia se encaixaram no crânio do que ficara de guarda; e a pata desceu… Ossos esmagados, algo escorrendo por entre os dedos: silêncio.

…!

Ela esperou mais algum ruído… eles sempre faziam.

— QUEM OS ENVIOU ATÉ MIM?

Com os compridos dedos entrelaçados às costas, caminhava em direção aos fundos da caverna deixando uma pegada de sangue pelo caminho, junto com raras gotas vindas das feridas deixadas pelas balas.

— MAS ME DIGA QUEM DISFARÇA O VOSSO CHEIRO? Magia… não? Tanta CAUTELA assim… Quem seria…?

Os joelhos se dobrando ao inverso dos dos Humanos a levavam mais e mais perto dos dois últimos visitantes encostados à parede.

— Ah eu sei o que quereis… O que tu procuras há muito foi levado.

Abriu as asas tentando fechar a passagem. Curvada, caçava: movia lentamente as asas para alcançar qualquer coisa viva. Um único som era o que precisava.

— Não há recompensa para esta missão. Não há caminho de volta. Não haverá banquete à tua espera. Ficarás aqui: meu caro herói anônimo… derrotado no meio da jornada. Como ninguém.

Cega: ela agarrava o ar. Mais um passo. A respiração presa deles dois iria denunciá-los quando fosse solta. Mais um passo. Os dedos da criatura quase os tocavam. Aquela língua seca, negra queria ser saciada. Mais um passo. Cada pena de seu corpo arrupiava-se com a Morte.

Os dois precisavam arriscar. Um olhar, um acenar de cabeça. Soltaram o ar quase juntos, e saíram correndo para lados opostos. Sacaram as armas; mirar e correr: atiraram ao léu.

A Harpia agarrou um jogando-o no chão. Bem seguro, deitou-se sobre ele, abriu o bico, inclinou-se; uma bala entrou-lhe pela garganta, mas a criatura continuou, fechou o bico com um único movimento entorno do rosto de sua visita, que se fora com um estalo. E a arma ainda fumegante caiu inerte no chão.

O último de seus visitantes era agora passos distantes. Iria atrás dele? Ensopada, um pouco ferida, levantou. E os olhos brancos dela miraram a saída.

***

Sim! Estava a salvo. Tremia, as lágrimas lhe escapavam como o ar dos pulmões. Sobrevivera. Descera a montanha esperando ser içado aos céus a qualquer momento, depois ser arremessado lá de cima. Mas, agora… estava sob a proteção de um bosque, e mesmo que próximo da caverna não haveria mais perigo.

— Consegui! — Um sorriso ergueu essa palavra no ar por alguns instantes.

A Harpia estava morta, sim… era isso que diria para todos. Mesmo que não tenha conseguido salvar mais alguém do seu grupo, e nem recuperado o que tentaram achar, matara a Harpia, isso já era muito, já seria uma história e tanto. A criatura ia terminar de se apodrecer naquele lugar. Morta com um tiro na garganta. Ele mesmo que a enganara contando histórias, arriscara-se muito e sozinho, sozinho, mas era o único jeito de acabar com aquela aberração. Sua própria bala rompera a vida dela. Isso… Um herói!

O melhor é que não sobrara alguém para desmentir sua história. Um herói.

A glória enfim estava pronta para ser colhida.

Por entre as árvores uma sombra de asas passou sobre ele seguida por um vento forte com cheiro de chuva.

— Um gavião… — Disse para si. — É só… um gavião…


Mais de Auryo Jotha:

Perfil do Wattpad

Livro de contos Carne Morta

Infortunium, de Wan Moura (Conto do Convidado)

Tenho novidade para os posts do blog nas segundas-feiras! Trarei autores convidados que vão compartilhar um de seus textos no blog neste mês de novembro. Aqui terá uma amostra de seus talentos, e após o conto tem os links das redes sociais para conhecer mais do autor e de seus trabalhos.

O primeiro convidado é o escritor Wan Moura. Possui uma mão cheia para preencher folhas em branco com elementos de horror dos mais diversos contos já escritos. Mais do que escritor, é um entusiasta do terror, adora buscar histórias macabras em livros conhecidos ou através de autores independentes. Esse amor inusitado começou desde quando era criança, quando sua vó Madalena lhe contava histórias sombrias do folclore nordestino, experiência compartilhada no livro em homenagem a ela.

Agora fique com o conto Infortunium. Boa leitura (e pesadelo)!


Infortunium, de Wan Moura - capa

“As almas mais escuras não são aquelas que escolhem existir no Inferno do Abismo, mas sim aquelas que escolhem se libertar do Abismo e circular silenciosamente entre nós.”

HALLOWEEN — O Início

A luz oscilante do abajur destaca a pilha de revistas “Mestres do Terror” em cima da escrivaninha. Pôsteres do Donkey Kong e Castlevania decoram as paredes, assim como prateleiras abarrotadas de brinquedos e alguns frascos de remédios. Tudo coberto por poeira e teias de aranha.

O quarto é um labirinto de quinquilharias. A janela permanece fechada, mas através do vidro um brilho esquálido ilumina o garoto sobre a cama. As mãos dele vibram, os dedos percorrem um objeto com agilidade. Os olhos são bolotas acinzentadas, a boca adota o formato de “O” e após um bocejo se fecha.

Inspira e expira, pinça as pálpebras.

Recomeça a missão.

Sincroniza as seis faces de seis cores diferentes com tempo recorde. As dores no pescoço incomodam, o fedor de mofo dificulta a respiração, mas nada o impede de registrar na mente a centésima vitória sobre os mecanismos do Cubo Mágico.

O menino observa o relógio e verifica que a meia noite chegou. Joga o Cubo para baixo da cama. Olha em volta. Desliga a luz do abajur e esconde o corpo sob o lençol com estampas do Pac-Man.

Encharca o pijama com suor. Os pés coçam, um formigamento alcança as costas. Gira sobre o colchão, se contorce em agonia.

Não há sono algum.

Senta na cama; a coluna encurvada, mãos no queixo. Vislumbra o isolamento.

As prateleiras, os pôsteres, os brinquedos, tudo retém a escuridão. O guarda-roupa agora se assemelha a um caixão e faz o menino imaginar Bela Lugosi surgindo com presas sedentas por sangue.

Stanley sorri. Aos onze anos sabe que não há nada na escuridão ou sob a cama esperando o momento certo para atacar. Porém, pensar nisso incomoda.

O sorriso desaparece.

O menino abraça os joelhos, fixa o olhar num dos cantos do quarto e relembra o que a mãe dizia quando a visitava no hospital: “É tudo produto da nossa imaginação.”

A recordação o conforta até algo deslizar de uma parede a outra.

O garoto treme. Escuta estalos no teto, arranhões no chão, sussurros próximos ao ouvido. Uma gargalhada.

Vultos rastejam nas paredes; entram no guarda-roupa, escorrem para debaixo da cama e escavam o colchão.

Stanley deseja gritar, no entanto a voz se esconde na garganta. Sente o azedume desgastar a língua como as limonadas que toma antes de ver Caverna do Dragão.

Os sussurros se tornam gritos agudos.

O jovem cerra os punhos e fecha os olhos.

As sombras se aproximam pelo forro de madeira, desprendem um odor de comida estragada.

Stanley joga o lençol para o lado e liga o abajur; a luz falha como a respiração de um asmático em crise.

Olhos apavorados correm pelo quarto. O pânico pulsa, rasteja pela coluna. A frieza do medo o toca na nuca com arrepios.

O menino levanta da cama. Corre e aciona o interruptor próximo da porta; a luz do quarto brilha como o Sol. Stanley caminha até o guarda-roupa. Conta até três e abre as portas.

Roupas, tênis, pôsteres da Nintendo, fotos dos pais. Tudo empoeirado no mesmo lugar de sempre.

O silêncio reina.

Stanley abandona o quarto ainda com o medo pulsando nas veias. Chega ao corredor, desce a escada até a sala de estar. O clarão azulado sinaliza que o pai ainda jaz vendo TV. Ele o vê esparramado na poltrona e o chama.

Não há resposta.

Tenta outra vez.

Nada.

O homem permanece imóvel; o braço esquerdo dependurado, as pontas dos dedos tocam o chão. O braço direito flexionado num ângulo reto, a mão repousando sobre o controle remoto.

Stanley se aproxima nas pontas dos pés, observa a cena com atenção. A cabeça do pai no encosto reclinável, as pernas estendidas para frente sobre a mesa de centro. O cigarro ainda respirando no cinzeiro e o porta-retratos com a foto da esposa arrebentado no chão ao lado de uma garrafa de uísque.

“Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado…”

Stanley estende as mãos e sente a frieza do pai queimar os dedos.

O fôlego falha, os olhos se enchem de lágrimas e o pijama fica ainda mais cheio de suor. As laterais da cabeça ganham agulhadas e na garganta ocorre um incêndio.

O garoto vê os olhos do homem brancos como neve. As pálpebras esticadas, a língua pendendo do canto da boca e sangue seco manchando das narinas ao queixo.

Antes que o grito se forme e ganhe impulso nos pulmões, Stanley nota a barriga do cadáver crescer. Observa um nó surgir sob o queixo, os olhos inflarem nas órbitas e algo escorrer dos ouvidos deixando um rastro sinuoso. Os botões da calça e camisa desprendem, a carne do rosto estica e veias saltam da testa.

Stanley chora e ao evocar mais uma vez o pai uma mão alcança seu braço. Aperta.

O garoto olha para a coisa na poltrona. Observa o morto gorgolejando sangue enquanto grunhe uma frase:

— É tudo culpa sua!

O menino se liberta. Corre. Sobe os degraus gritando sem ouvir a própria voz. Tranca a porta do quarto, voa para a cama e esconde-se sob o lençol. Ouve passos marcando os degraus da escada, rápidos como o palpitar de seu coração.

As luzes oscilam.

Stanley grita até sentir os pulmões arderem e a visão ficar turva. Começa a tossir e cospe uma porção de terra misturada com sangue. Ouve algo rastejar dentro dos ouvidos, leva as mãos às têmporas.

A sombra chega à porta desejando entrar. A madeira começa a ceder, as dobradiças rangem, rachaduras nascem na superfície de mogno e a maçaneta gira.

De súbito os empurrões cessam.

O silêncio sepulcral se abriga no ar.

Stanley salta da cama, corre para olhar pela fechadura e não percebe uma névoa vermelha se materializando sob a cama.

Ele vira para o lado e projeta as costas para a parede. Da névoa nascem garras, faíscas, um par de olhos negros e uma criatura que surge brandindo ódio. O fedor estrangulador perfura as narinas de Stanley, sua face é um misto de pavor e alegria.

O infante segura a vontade insana de correr para longe, lançar-se pela vidraça da janela.

Stanley desdobra os braços; as mãos espalmadas, os dedos em riste, os olhos marejados nublando a visão. A boca é um abismo de onde grunhidos escapam tentando formar frases compreensíveis.

A criatura vai ao encontro do garoto. As garras brilham, as presas gotejam uma saliva gosmenta, o corpo escamoso libera insetos asquerosos e os cabelos despejam um líquido viscoso.

Eles se abraçam.

Stanley sorri em meio a lágrimas.

A Coisa o aperta. Asfixia. As costelas do garoto cedem ao abraço do reencontro, o sangue escapa pelos cantos dos olhos e narinas. Os membros alcançam ângulos impossíveis, a carne fica azulada e os lábios roxos. Mais terra escapa da boca, os dentes apodrecem e caem. O rosto empalidece, as juntas ficam rígidas e o fedor de carne em decomposição sobrepuja todos os outros. Apesar de tudo o sorriso permanece.

A névoa se enovela nos tornozelos de Stanley e o arrasta para debaixo da cama. Depois para dentro do Cubo Mágico. A fera se mistura à bruma e some como a luz do abajur no momento em que os barulhos na porta recomeçam.

A chave é introduzida na fechadura; a maçaneta gira e um homem entra no quarto cambaleando, maldizendo a vida. Em uma das mãos carrega a garrafa de uísque. Inclina o vidro sobre a boca e despeja o líquido, engole o álcool em doses cavalares. Limpa os lábios com a costa da mão. Desliga o Walkman, retira os fones do ouvido.

O sujeito joga os olhos pelo quarto e vê o relógio marcando meia noite e treze. Ao lado o calendário com imagens do Super Mario Bros. Ostenta, rabiscado sobre o dia 2 de Julho de 1989, um “X” feito com giz de cera. O homem jura ter ouvido barulhos vindos do quarto do filho, mas não há nada fora do lugar.

A bombinha para asmáticos, os frascos dos remédios que não surtiram efeito, os pôsteres dos jogos que o garoto adorava, as revistas tenebrosas que alimentavam a imaginação, a data de seis meses atrás marcada com giz no calendário e o Cubo Mágico esquecido sob a cama. Tudo intacto desde o estrangulamento de Stanley pela mãe, portadora da Síndrome de Münchausen.

O homem fecha a porta com o choro travando a respiração, injetando dor nos pensamentos. No caminho de volta desliga a lâmpada do corredor quando a luz começa a oscilar; bebe outro gole de uísque e retorna para a sala sussurrando arrependimentos.

Dentro do quarto algo arranha a porta.

As sombras parecem mais vivas agora.


Mais de Wan Moura:

Perfil do Wattpad

Perfil no site Mal do Horror

Publicação original de Infortunium

Livro Madalena

Melhores XP Literário do Primeiro Semestre de 2018

Julho já está quase no fim, o primeiro mês do segundo semestre. Consegui ler 27 livros de janeiro à junho, meu recorde de leituras anuais foi no ano passado, quando consegui finalizar 35 livros, porém este ano facilmente superará essa quantidade.

O blog incentivou a me comprometer com a leitura através da dedicação de publicar resenha toda semana (embora algumas sejam sobre enredo de jogos). Foi uma experiência muito legal e nada desgastante, pois tal compromisso me fez usufruir mais do que eu já gostava.

Com o tanto de leitura realizada, seria um desperdício eu não olhar o passado e avaliar quais foram as melhores experiência literárias neste primeiro semestre de 2018.

Listo a seguir os cinco melhores livros lidos neste semestre na minha opinião, com menções honrosas no final:

#5 Desonra

Desonra - 5 dos melhores

Em quinto lugar indico o livro cujo gênero eu procuro me aventurar às vezes. Desonra tem uma linguagem fácil de ler, embora recheada de referências literárias pela formação do protagonista. Longe de ser uma história bonita, traz diversos problemas na vida de David Lurie por conta de seu próprio caráter e pelo aspecto político muito bem aproveitado quanto ao pós-apartheid da África do Sul.

Resenha no blog

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#4 Deuses Caídos

Deuses Caídos - 4 dos melhores do primeiro semestre de 2018

Deuses Caídos entrou numa situação perigosa: minha expectativa só aumentava  a cada dia próximo de seu lançamento. Hype excessivo poderia resultar em decepção se não fosse atendido, mas Gabriel Tennyson entregou uma história enlouquecedora e muito bem feita. Caso deseje um livro nacional de qualidade, Deuses Caídos é uma das melhores opções.

Resenha no blog

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#3 A Ascensão do Alfa

Ascensão do Alfa - 3 dos melhores livros do primeiro semestre de 2018

Outro livro nacional de qualidade. Clecius criou uma trama complexa ao usar o regionalismo e contexto histórico para compor a sua história sobre lobisomens, complexidade muito bem dominada pelo autor. Como se a Revolução Farroupilha não fosse violenta o bastante, os lobisomens escondidos na terra gaúcha cruzam caminho com os tropeiros e garantem o massacre.

Resenha no blog

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#2 1984

1984 - 2 dos melhores do primeiro semestre de 2018

Uma das distopias mais recomendadas, e eu reforço a recomendação neste ranking. 1984 traz duras críticas a regimes autoritários, censura e eliminação de todo registro contrário à política vigente. A desinformação causa o maior problema e temor que refletiu inclusive em mim quando terminei de ler.

Resenha no blog

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#1 A Escolha dos Três

A escolha dos três - o melhor do primeiro semestre de 2018

A Escolha dos Três responde algumas das várias perguntas levantadas no primeiro volume d’A Torre Negra e traz personagens incríveis que devem impressionar ainda mais nos próximos volumes. Com descrições sinistras e violentas, humor negro e superações improváveis dos personagens ao limite, A Escolha dos Três tornou a melhor leitura até então deste ano.

Resenha no blog

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Menções Honrosas

Clique no título das obras para conhecê-las melhor:


Gostou das indicações? Provavelmente pode discordar da posição dos livros ou incluir outro mesmo eu tendo lido nesses primeiros seis meses do ano. Então aproveite e fale sobre suas melhores leituras nos comentários!

1º Concurso JoeFather de Escrita [ATUALIZADO]

Mudanças no edital:

  • O participante deve basear o conto na curta história presente no capítulo 33, não precisa ler todo o livro;
  • Inscrições prolongadas até o dia 31 de janeiro de 2018;
  • O vencedor concurso será premiado também com um exemplar entregue pelo correio sem custo do livro Sobre a Escrita, de Stephen King; e
  • Todos os participantes terão a oportunidade de ser sorteado para receber a obra O Pistoleiro, primeiro volume da saga A Torre Negra de Stephen King.

A seguir o texto na íntegra sobre o Concurso com as devidas modificações:


 

É com grande prazer que anuncio um concurso em aberto o qual terei o prazer de avaliar as obras participantes! O objetivo do concurso é de prosseguir com um conto existente dentro do livro Encenação Mortal, publicado periodicamente no Wattpad de autoria do amigo JoeFather.

Encenação Mortal - livro de JoeFather

O vencedor terá como recompensa a adição da sua história ao roteiro de uma peça a ser encenada no final do livro, além da divulgação do trabalho pelo autor de Encenação Mortal e por este blog.

A seguir o pronunciamento oficial do concurso feito pelo Joel Garcia da Costa (JoeFather):

Edital do 1º Concurso JoeFather

Como vão todos!

Seguindo uma excelente ideia do amigo DiRock S., apresento aos amigos o 1º Concurso “JoeFather” de Escrita!

O objetivo deste concurso é muito simples: redigir a parte final de um conto existente dentro do meu livro “Encenação Mortal”, que se encontra no capítulo 33, denominado “O pedido do garoto”.

Não é necessário ler o livro todo para poder participar, basta se concentrar neste capítulo específico, pois é nele que será baseado o julgamento do concurso.

Para quem ainda não conhece esse meu trabalho, ele foi um dos vencedores do Prêmio Wattys 2017, na categoria Grandes Descobertas e 2º colocado em concurso promovido pelo SuspenseLP também em 2017.

Neste capítulo citado, cujo texto do conto eu disponibilizarei um trecho abaixo, o professor de Artes, Sr. Adam Green, faz uma narrativa para os alunos da sua classe e pede para que os mesmos façam a complementação do conto, visando ganharem papéis numa peça de teatro. Desta forma, o conto e a citada complementação serão utilizados como base para o roteiro da peça que será exibida na escola.

Então eu creio que vocês já compreenderam qual a intenção deste concurso, estou certo?

Ainda não? Então eu explico!

Os participantes escreverão a complementação do conto, como se fossem os alunos da classe e o texto vencedor terá o seu trabalho incluído no meu livro e, como citei acima, não estava brincando, ele será a base para o roteiro da peça que incluirei na minha obra, com os devidos créditos ao seu escritor.

Vamos ao prometido trecho do conto:

O Pedido do Garoto

“Na noite de Natal deste ano que passou a viver só e não compareceu a nenhum dos convites de confraternização dos parentes herdados pela adoção, teve um sonho assustador, ao mesmo tempo que revelador.

Neste sonho ele estava de volta ao beco e idealizava fazer o pedido para pertencer a uma família. Só que após refletir bem, decidiu pedir para o Bom Velhinho somente o poder da manipulação, com o qual conseguiria fazer tudo que quisesse.

Neste momento no sonho um Papai Noel vestido de preto se materializou na sua frente e com um sorriso amarelado lhe disse uma única frase:

— Este poder foi o que eu lhe dei naquela noite, você é que ainda não aprendeu a usá-lo…”

Confira o conto na íntegra clicando aqui.

Regras

  • O ambiente do texto deve ser o mesmo do conto, se passando na Inglaterra;
  • O gênero a ser utilizado é o mistério/suspense;
  • O texto deve ser escrito num único capítulo, sem limite de palavras;
  • A narrativa deve ser, assim como no conto, em primeira pessoa;
  • Não é necessário que seja feito um livro somente para essa participação, ele poderá ser incluso em algum diário ou livro específico do participante [do Wattpad].

Avaliação

A comissão julgadora será composta por mim, JoeFather, e pelo seu idealizador, meu amigo DiRock S.

Os critérios de avaliação serão voltados especificamente para a escrita, mas nada impede que seja confeccionada uma capa para a obra, ilustrações dentro do trabalho ou vídeo.

Inscrições

As inscrições para o concurso poderão ser realizadas de 1º a 31 de janeiro de 2018, bastando para isso uma mensagem nesta publicação [a original, disponível clicando aqui], indicando o nome da obra e o link;

Serão aceitos trabalhos de equipes, compostos de até três participantes.

Independe da quantidade de participações, a comissão julgadora poderá se abster de premiar um dos participantes, caso se entenda que os trabalhos não estão aptos a fazer parte do livro “Encenação Mortal”.

Dependendo da quantidade de participações, este autor poderá compor um novo livro, onde incluirá todas as participações, inclusive a vencedora, relacionando este livro ao meu livro.

Premiação

O primeiro colocado, além de ter seu trabalho adaptado dentro do meu livro, receberá, sem custos pelos Correios, o livro Sobre a Escrita, de Stephen King, para ajudá-lo a aperfeiçoar ainda mais a sua escrita.

Entre os participantes, com exceção do primeiro colocado, será realizado um sorteio online que eu irei gravar em vídeo, que publicarei no meu canal do YouTube, concorrendo ao livro O Pistoleiro, de Stephen King, que é o primeiro livro da saga da Torre Negra, visando incentivar a leitura desta excelente obra, pois ler é o combustível principal de quem escreve.

Literatura – Estréia do Blog

Seja muito bem-vindo ao primeiro post do XP Literário! 

O artigo de estreia deste blog não poderia ser outro senão uma contextualização de Literatura, especialmente quanto ao seu significado. 

O dicionário Aurélio define Literatura por “escritos narrativos, históricos, críticos, de eloquência, de fantasia, de poesia, etc.” 

O dicionário de Oxford também considera Literatura todo trabalho escrito que possua algum mérito artístico. 

Acredito que muitas pessoas concordam com estas definições. Outros complementariam como trabalhos que incitam emoção durante a leitura e/ou representações dos comportamentos humanos através dos escritos. 

Emoções na leitura - literatura

Ou seja, Literatura é baseada em cada trabalho realizado através da escrita, correto? Talvez não exatamente. 

Bob Dylan recebeu o prêmio Nobel de Literatura em 2016. Apesar do cantor ter trabalhos publicados em livros, as suas composições musicais foram as principais responsáveis por ele merecer a indicação. 

Nem o próprio músico alegou que produzia Literatura com suas músicas. E ainda assim foi premiado em meio a outros escritores renomados. 

O trabalho reconhecido de Dylan não é composto apenas de palavras. Mesmo sendo possível ler a letra da música, só provoca uma emoção singular quando a escutamos com melodia.

Bob Dylan - Literatura

Ao pesquisar mais sobre o significado de Literatura, constatei que simplesmente não há uma definição exata. Seu significado muda conforme a época ou pela opinião individual de quem a consome. 

Ainda assim há quem desconsidere que música seja Literatura, e está tudo bem.

Enquanto uns mantiverem um posicionamento mais restritivo, eu particularmente tomarei o significado de forma mais livre ao trabalhar neste blog. Mesmo as obras que não são consideradas Literatura podem ser úteis a mesma. 

Um trabalho de ficção científica precisa levar em consideração os conceitos discutidos e testados no meio acadêmico para trazer uma história verossímil mesmo que faça adaptações de licença poética. 

Adicionar os elementos burocráticos da advocacia numa obra protagonizada por um advogado também é um exemplo que traz um reconhecimento da vida real para os leitores desta ficção. 

Os trabalhos áudio visuais (cinema, animes, curta-metragens ou até certos jogos eletrônicos) também usam a Literatura como um dos elementos de seu trabalho.

Aspectos como enredo, desenvolvimento de personagens, e a identificação humana podem cativar o público com a obra possuindo mais do que boas cenas de amor, lutas frenéticas ou uma ambientação espetacular.

Texto sobre o desenho - Literatura

Eu vou me basear nesta visão abrangente nas próximas publicações deste blog. Os contos, crônicas e análise sobre livros serão intercalados com artigos de pesquisa e uma visão sobre o elemento literário em obras de outros campos [Saiba mais sobre a minha proposta neste link] 

Assim serei capaz de compartilhar a Experiência Literária obtida ao conferir e desenvolver trabalhos relacionados, além de compartilhar do pouco que aprendo sobre tudo que possamos descobrir enquanto vivemos.

 

Referências:

Bob Dylan Nobel prize speech: this is ‘truly beyond words

Bob Dylan finally accepts Nobel prize in literature at private ceremony in Stockholm

Isso é Literatura? (Li Num Livro)

Definição no Dicionário Aurélio

Definição na Oxford Dictiocnaries

What is Literature?

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