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Creepypastas: Lendas da Internet 2 (Divulgação)

Vivi o começo da infância na década de 1990, tempo de acesso limitado a internet. Eu mesmo só comecei a acessar depois de 2006, antes até existia conexão em casa, mas achava muito difícil de usar, deixava aquilo para minha irmã. Chega a ser inacreditável lembrar deste passado! Eu uso da internet a manter este portal online, é de onde tiro a maior parte do material de leitura, escrita, de muitos outros recursos desta rotina, assim como qualquer leitor a visitar este site.

Todo acesso comum hoje era novidade nos anos ‘90, isso quando existia, pois esqueça vídeos ou toda a família presente nas redes sociais. Sendo novidade no passado, os primeiros programadores de internet ainda descobririam as possibilidades, muitas dessas desconhecidas aos usuários. E o desconhecido é a palavra-chave provocadora do medo, segundo H. P. Lovecraft. Nesta época ainda tinha outra particularidade, a facilidade de acesso à internet durante a madrugada, bem oportuno a proporcionar o fenômeno das Creepypastas, histórias macabras dúbias de serem reais ou ficção, com imagens perturbadoras e relatos de conspirações, assassinatos, aparição sobrenatural; um mundo virtual repleto de terror.

A editora Lendari resolveu homenagear este fenômeno lançando uma coletânea de contos nesta temática, e o sucesso da coletânea gerou a possibilidade de uma nova chamada para publicar o segundo volume. O mais incrível foi o sucesso em número de participantes e colaboradores no financiamento coletivo a ponto de garantir a publicação simultânea da terceira coletânea! Entretanto focarei em falar de Creepypastas 2, e quem acompanha este blog sabe: quando eu falo de algum livro por aqui na primeira pessoa, é por motivos especiais. Desta vez é por eu ser autor de um dos contos publicado no livro!

É a segunda oportunidade de mostrar um texto de minha autoria a partir da seleção e edição profissional. Esta postagem seguirá na mesma intenção da Revista A Taverna a qual participei, apresentando os contos presentes no livro, destacando as qualidades. Creepypastas 2 tem uma diversidade de contos, tanto em quantidade quanto em tópicos abordados dentro do contexto das lendas da internet, então preferi falar só de alguns afim de demonstrar o que o leitor pode esperar do livro no geral. Saiba mais sobre eles apresentados a seguir:

A Sombra do Disco ― Mauro Plastina

Júlia tem nove anos, órfã de pai e briga a todo momento com o irmão. Ela ganha um LP de presente da mãe, entre as músicas presentes há aquela especial, pois ouvia junto do pai antes de ele falecer, e por isso toca o disco logo quando recebe. Ela posiciona a agulha da vitrola a tocar direto na faixa preferida, assim a nostalgia começa a trazer alegria e angústia, até que o aparelho para de funcionar. Inconformada, pede ajuda à pessoa mais próxima capaz de entender como uma vitrola funciona, o irmão. Ele vai a contragosto e ensina a maneira de ela tocar o LP, e assim Júlia acaba tocando o disco ao contrário.

De narrativa focada na criança protagonista, o conto desenvolve a história a partir da ingenuidade infantil além das intrigas casuais entre irmãos, apesar de no fundo sabermos o quanto se amam. Mauro é pontual em demonstrar os sentimentos da menina em cada situação, exercendo a empatia ao mesmo tempo de coordenar a tragédia na garota, abusa da boa vontade dela ao provocar a desgraça reservada a este conto.

“É como diz o ditado: ‘se matarmos todos os assassinos, os assassinos seríamos nós.’”

ERISinninthcirclexxxiv ― João Marciano Neto

O conto começa com um aviso. Pare de ler, apague esta mensagem, de preferência descarte o computador usado no acesso deste relato. Continuando a leitura, avisa sobre manter o domínio mortis.com intacto, em seguida há a narrativa sobre a programação da inteligência artificial chamada ERIS. O protagonista é o narrador, um dos programadores e, de certo modo, “segurança” deste sistema. Enclausurado pelo causador do temor, também o motiva a fazer de tudo pela sobrevivência, a dele e da humanidade, e o conto comprova o quanto este “fazer de tudo” significa.

“ERIS nos chamava em sua dimensão eterna, querendo nossos segredos […]”

O Horror no Bairro da Pedreira ― Igor Moraes

Rafael é colecionador de artefatos dos mais diversos países e culturas, de armas a amuletos de tempos remotos, ou de épocas recentes, o importante é o valor apavorante atribuído ao material colecionado. Por isso investiu o dinheiro restante numa coleção nazista, cuja simbologia faltava em seu estoque de atrocidades. Vieram informações anexas aos itens, sobre o misticismo envolto do nazismo, sobre a mensagem de alguém envolvido ter vindo no Brasil, e sobre o projeto Werwolf, este de surpresas interessantes no conto.

A descrição de Igor mistura referências de povos tradicionais a elementos recentes, e dentre as tradições escolheu a certeira de causar desconforto quando citado: o nazismo. A História exerce o papel acadêmico de relatar as consequências internacionais deste partido eleito na Alemanha, já as tantas outras histórias ficcionais ou conspiratórias possuem impacto garantido pelo respectivo contexto. Assim a história ocorre na perspectiva de Rafael, tudo fica crível, e complementa com a história em torno da relíquia nazista prosseguindo no Brasil décadas depois.

“[…] uma figura em decomposição, extraída de de alguma história em quadrinhos de Alan Moore”

Onde está a Duda? ― Alane Brito

Bia enfim recebe de presente da mãe a famosa boneca Duda, em homenagem ao aniversário de quinze anos. A temporada da boneca já tinha passado, nem se produzia mais, então óbvio da mãe ter comprado uma usada, embora bem conservada. Já o irmão de treze anos detestou o presente, na verdade a palavra correta é temer, pois ouviu histórias desta boneca ser amaldiçoada.

O conto usa o tropo clássico de terror, usando de artefato infantil ao aterrorizar jovens do jeito que nem mesmo adultos poderiam superar, caso esses fossem as vítimas. Sobrevivendo ou não, é um episódio a ficar marcado por toda a vida, e só poderia ser assim. Conhecendo tantas histórias macabras, ninguém imaginaria ser alvo delas. E quando acontece, bom, é preciso fazer de tudo ao sobreviver, ainda que tudo pareça loucura.

“O que eu deveria dizer sobre aquela noite era que um homem invadiu nossa casa e tentou nos matar”

Dias Sombrios, Noites Claras ― Diego de Araujo Silva

Fernando sofre de insônia e tenta seguir a rotina de trabalho enquanto tenta descobrir a causa das noites em claro. A narrativa segue em fluxo de consciência, ou seja, descreve conforme o protagonista pensa durante as cenas, de mente atordoada por permanecer desperto. O protagonista é alguém comum, vive sem ambições, manter o emprego de contábil seria o suficiente, pois o extraordinário da vida dele está em Mirela, a esposa que saiu a negócios bem na crise de insônia dele. Pois mesmo uma coletânea de Creepypastas fala sobre o amor, apesar deste tipo de conto ainda provocar o autor a revelar os espinhos desta rosa. E o que mais teria neste conto? Uma referência a Machado de Assis, claro.

“Não durmo, não concluo o dia, relógio desperta às cento e vinte e seis horas e contando.”


Creepypastas 2 - capaOrganizadores: Glau Kemp e Mário Bentes
Editora: Lendari
Ano de Publicação: 2020
Gêneros: terror / creepypasta / horror
Quantidade de Páginas: 230

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Melhores XPs Literários de 2019

O momento chegou! Deixamos o ano atrás, agora um tempo apenas de lembranças e muitas leituras, as quais algumas destacam entre os melhores XPs Literários de 2019. Oitenta ― sim, oitenta ― livros finalizados recebem a oportunidade de entrar em destaque nesse ano recém acabado, na verdade parte desta quantia já foi considerada e entrou no pódio do blog Ficções Humanas, e aqui os livros competidores devem ter passado por resenha neste blog ao longo de 2019,  e isto ainda deixa a disputa acirrada, com mais de cinquenta competidores!

A lista funciona igual o ano passado, primeiro vem a lista das melhores leituras do segundo semestre de 2019 com breve comentário do motivo de ser o melhor, então ao fim da postagem tem a lista definitiva dos melhores do ano, levando em consideração os livros eleitos no primeiro semestre. Sem mais delongas, vamos aos finalistas do segundo semestre:

10 – Lovestar

LoveStar - resenha

Esta ficção científica tem argumentos tão inteligentes a ponto de virar insanos! A sanidade foge da descrição do autor ao elaborar conflitos absurdos a partir da tecnologia imaginada pelo autor. Deve aproveitar a leitura com a mente aberta, assim desfrutará dessa escrita maluca e ainda assim entendível ― quer dizer, certo ponto da história fica inviável compreender dado o nível da maluquice, mas faz parte da experiência.

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9 – A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison

Só mesmo um autor brasileiro muito criativo poderia escrever esta história steampunk tomando personagens de obras clássicas da ficção nacional. A escrita reflete na época onde a história acontece, desde a ortografia até o modo de falar dos personagens, e o autor ainda ousa alternar a narrativa em primeira pessoa de um a outro, moldando as frases conforme a personalidade do narrador e do meio onde é gravado esta narrativa epistolar. É uma viagem literária por meio das obras homenageadas.

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8 – A Balada de Black Tom

A Balada de Black Tom

“Se tanto critica, por que não faz melhor?”, um argumento tosco por ignorar a capacidade de crítico que desenvolve qualidades distintas as do autor cujo livro foi analisado. Pelo menos serve quando compara outro autor, e Victor Lavalle de fato entregou uma adaptação capaz de superar a inspiração original. A Balada de Black Tom reconta a história de O Horror em Red Hook, usando dos personagens originais além do protagonista elaborado pelo Lavalle ao apresentar a perspectiva da pessoa negra na história do universo de Lovecraft, tece críticas ao racismo do autor e reaproveita os elementos deste ao criar a sua versão da história.

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7 – O Gato Preto

O Gato Preto - resenha

Igual o anterior, reaproveita a história clássica de terror, desta vez a adaptando aos quadrinhos. Imagens e textos se complementam ao pintar a história do narrador condenado à morte, atormentado pelos simbolismos trazidos pelo seu animal de estimação tão amado. A história oferece informações ao leitor e deixa outras em aberto de propósito a permitir cada um tirar suas conclusões enquanto vê as ilustrações criativas, nascidas da inspiração do conto original.

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6 – Um Banquete Para Deuses Mortos

Um Banquete Para Deuses Mortos - resenha

E Gleyzer Wendrew aparece em outra lista entre os melhores do semestre com esta história sobre  o vampiro Drácula, um ser considerado deus nesta história. Uma história curta de enredo composto de forma criativa pelo autor, sem deixar de lado as qualidades descritivas quando trata de contar como o sangue flui sob o ataque das vítimas dilaceradas.

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5 – Desafiadores do Destino

Desafiadores do Destino

Outra HQ conquista esta lista, e ao lê-la é fácil perceber os motivos. Esta aventura steam fantasy é rica em mitologia ao criar a trama onde o grupo de guerreiros deve cumprir sua missão enquanto divide os quadros para apresentar o contexto deles, e ainda assim consegue entregar do melhor e na medida certa.

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4 – Sons da Fala

Sons da Fala - Resenha

Foi o conto de estreia do Projeto Cápsulas da editora Morro Branco, jamais poderia começar com escolha melhor. Responsável por trazer as histórias de Octavia E. Butler no Brasil, vemos em Sons de Fala as qualidades narrativas da autora nesta história sucinta, de descrição objetiva e ainda capaz de chocar. Ainda leu nenhuma história da Octavia? Aproveita este conto disponibilizado de graça pela Morro Branco e conheça as qualidades da autora.

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3 – Memórias Póstumas de Brás Cubas

Memórias Póstumas de Brás Cubas - resenha

Um personagem contando a própria história depois de morto, é esta a premissa do livro de Machado de Assis que soube aproveitar da situação criada e elabora a narrativa distinta por conta da perspectiva excepcional do narrador. Mesmo sendo publicada gerações atrás, ainda é capaz de divertir ao acompanhar os relatos ditos pelo protagonista no ponto de vista enviesado dele, possibilitando interpretações conforme o assimilado pelo leitor, e o próprio Brás Cubas brinca com isso em certos capítulos, supondo reações dos leitores ao longo do livro.

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2 – O Auto da Maga Josefa

O Auto da Maga Josefa - resenha

Aqui destaca duas qualidades dos autores brasileiros: a criatividade e o regionalismo nacional. A história acontece em alguns lugares do nordeste brasileiro, com situações cheias de fantasia, capaz de proporcionar ótimos momentos de humor sem deixar de denunciar as dificuldades vividas pelas pessoas locais.

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1 – S. Bernardo

S. Bernardo

Falando do nordeste, um autor alagoano conquista o primeiro lugar das melhores leituras do semestre. A história de S. Bernardo acontece no interior de Alagoas, narrada pelo próprio protagonista em busca de refletir atitudes passadas. Graciliano Ramos nos entrega o protagonista não para concordar ou inspirar, a proposta é refletir as questões envolvidas ao homem de campo, este influenciado a agir feito tal, e capaz de agir além quando tem mais oportunidades, apesar de ainda possuir pouco discernimento.

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Menções Honrosas:

Ninho de Cobras: entrega narrativa singular, desafiante e moldada com a intenção da prosa do autor
Favela Gótica: mistura os monstros mitológicos com as camadas sociais brasileiras de modo claro e excepcional
Adágio: pelo ótimo uso da ficção científica ao tratar de assuntos vigentes

Uma lista diversa, com certeza! De sci-fi a terror; quadrinhos, romances, e até conto. O mais impressionante: os três primeiros colocados do semestre são livros nacionais! Sem parcialidade, Machado de Assis, Graciliano Ramos e Paola Siviero demonstraram qualidade na escrita a ponto de serem bem elogiados nas resenhas e tiverem pontuação máxima no Skoob e Amazon por mim. É um orgulho ver livros de conterrâneos conquistando as primeiras posições, sendo um deles ainda de autora contemporânea. Quem sabe em 2020 o pódio seja de autores brasileiros atuais? Será difícil, pois ainda pegarei livros de brasileiros clássicos e valiosos, bem como excelentes romancistas estrangeiros; o melhor a fazer é torcer.

Os melhores de 2019

Antes de dar a lista definitiva, lembremos dos finalistas do primeiro semestre, os quais competem com os dez destacados acima:

10 – A Arte de Escrever
9 – Medo Clássico – Edgar Allan Poe Vol. 1
8 – Mago e Vidro
7 – Ordem Vermelha – Filhos da Degradação
6 – A Pirâmide Vermelha
5 – Para Ler Como um Escritor
4 – A Revolução dos Bichos
3 – Fahreinheit 451
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

Sem quadrinhos e nenhum clássico brasileiro, e os concorrentes continuam sendo de peso. A hora é agora, as melhores experiências de leitura do ano 2019 são:

Melhores XPs Literários de 2019

5 – Fahreinheit 451
4 – O Auto da Maga Josefa
3 – S. Bernardo
2 – Araruama – O Livro das Sementes
1 – Duologia Semente da Terra

E os melhores do primeiro semestre conquistaram os dois primeiros lugares de todo ano. Parabéns ao Ian Fraser por ser o autor brasileiro que mais chegou longe na classificação. E uma congratulação excepcional à editora Morro Branco por enfim trazer essa duologia da Octavia E. Butler ao Brasil, vinte anos após a publicação original nos Estados Unidos ― antes tarde do que nunca ―, e só agora tivemos a oportunidade de conhecer sua escrita, destrinchando críticas sociais, ambientais e políticas por meio desta distopia em dois volumes.

Por hoje é só. No fim deste semestre veremos quais leituras se destacarão ao longo de 2020. As expectativas são altas, pois a literatura é igual o universo, infinito em obras com qualidade excepcional.

Esse Ano de 2019… (Retrospectiva pessoal e literária)

Esse ano de 2019 foi um período dividido em doze meses igual a todos os outros. A diferença a mim foi a divisão também em vários acontecimentos, altos e baixos oscilados com tamanha agressividade, feito montanha-russa. Toda surpresa agradável sucumbiu à tragédia vinda em seguida. Apesar de soar negativo, nenhuma tragédia impediu de eu sorrir no dia seguinte, e por isso atravessei a virada do ano feliz, lembrando dos acontecimentos positivos e com a certeza de que esses fizeram toda dificuldade valer a pena. E esta postagem tem o objetivo de listar esses altos e baixos em relação aos assuntos focados neste blog, o da escrita e literatura.

Começo pelas resenhas. Bati o recorde de leituras pelo terceiro ano consecutivo graças ao incentivo autoimposto ao manter o compromisso com este blog e persistir na ideia da leitura ser o combustível da escrita. Ainda tive a surpresa de fazer parte do blog Ficções Humanas, assim fui cobrado com ainda mais leituras, e aceitei todas de bom grado, descobri ótimas histórias e aprendi com os defeitos dos livros analisado por lá ― inclusive de títulos vencedores de prêmios, pois nenhuma obra é perfeita. Continuarei mantendo o trabalho nos dois sites, então ainda terá muitas resenhas a conferir!

Bati o recorde de leituras esse ano, porém tenho dúvida de superá-lo em 2020. Li oitenta histórias, sejam quadrinhos, novelas, romances curtos ou calhamaços de seiscentas a novecentas páginas . Infelizmente atingi o limite, teve vezes que eu lia por obrigação, quando antes só via prazer neste esforço todo. Comecei o ano lendo como nunca, acomodei novos horários de leitura e aproveitei brechas de tempo livre a abrir o livro ou ligar o Kindle. No começo fiquei contente, com a certeza de alcançar cem leituras ao fim de dezembro, depois desleixei com livros de qualidades desanimadoras e também porque me sobrecarreguei. Leio devagar, e jamais esforçarei a ler mais rápido no intuito de atingir metas, pois prejudica meu entendimento e por consequência afeta a qualidade da resenha ― já cometi erros (qualquer humano está sujeito) só de ler no ritmo normal, imagina se acelerasse… ―; e deixarei de impor mais horas de leituras quando estiver indisposto. Alguém pode contestar de, por eu fazer da leitura um trabalho ― embora nada remunerado ―, é meu dever esforçar mais. Creio ter a obrigação de entregar o melhor conteúdo que eu puder, e forçar à exaustão prejudica esta qualidade.

Na mesma questão de sobrecarregar, eu quebrei o compromisso de entregar textos no blog toda segunda-feira. Seja crônica, miniconto, as matérias do XP de Escrita ou as de pesquisa sobre assuntos diversos; ao menos uma dessas categorias era lançada toda semana, então tinha boa quantidade de posts ao longo do ano. Porém a quantidade não acompanhou a qualidade, publiquei alguns textos mesmo consciente de poderem ser melhores, só cumpria a meta de postagem. Libertei-me disso, ainda posto conteúdo na segunda-feira, quando este for bom, assim consigo dedicar até por mais de uma semana no mesmo texto e entregá-lo na melhor forma vigente.

Foquei em melhorar a qualidade, e isso ajudou em nada no outro fator: a visibilidade. Pouco importa o esforço dedicado nos textos, muitos passam despercebidos. Até os assuntos capazes de atrair atenção por serem de fato polêmicos, atraem sequer um bot no site. Tenho culpa nisso, só falta entender qual parte erro: a qualidade dos textos talvez ainda precisa melhorar, falho em alcançar o público-alvo, o formato do conteúdo é incompatível ou desagradável… Também tem as redes sociais, o meio por onde atrairia o público neste meio de publicação online, onde entrei há pouco tempo e perco o interesse cada vez mais. Só quem provoca mais tumulto é lido, os donos das redes prometem mudar os algoritmos para filtrar este tipo de comportamento, mas na prática limita os canais menores de materiais interessantes. E os produtores irrelevantes têm a proeza de driblar esses algoritmos e continuar transmitindo besteiras, ou os novos algoritmos dão destaque a novos baderneiros virtuais. Pelo menos alguns bons canais sobrevivem nessas regras das plataformas, o que pode alertar a minha falta de eficiência em trabalhar nas mídias sociais.

Deixei por último o motivo de maior alegria em 2019: o de ser selecionado em publicação de antologia! Venci dois concursos de contos, um da segunda edição da revista A Taverna e outro na segunda edição da antologia Creepypastas da editora Lendari, a lançar no começo de 2020. São duas conquistas obtidas a partir do reconhecimento da qualidade dos meus contos, pois nenhum dos dois concursos foram feitos com pagamento dos autores selecionados, e assim só entrou na antologia quem de fato demonstrou qualidade aos olhos dos respectivos editores, de gente capacitada no meio. Ainda vou publicar um romance pela primeira vez, talvez em 2020, embora acontecerá no momento certo. Prefiro ser na forma de publicação tradicional, obtida a partir do romance reconhecido por profissional experiente e confiável. Pena este tipo de profissionalismo seja escasso no Brasil e incapaz de atender muitos escritores competentes, então na falta desta oportunidade, arrisco a publicação independente. O importante é: consegui reconhecimento por meio de dois contos, então estou no caminho certo!

Espero que a minha retrospectiva pessoal da escrita tenha ajudado a refletir sobre as possibilidades de erros e acertos os quais qualquer escritor e/ou blogueiro está sujeito a experimentar. Evito fazer promessas de ano novo, nem acredito dos acontecimentos serem melhores apenas por este novo período de doze meses o qual todos vamos passar, por isso desejo um bom dia a você, leitor que chegou até aqui, e que tenha muitos dias bons neste futuro a vir!

Meu XP com a trilogia Sprawl

Ano passado eu me dei a oportunidade de conferir a obra Neuromancer, primeiro volume da trilogia Sprawl escrito por William Gibson. O livro é referência quando trata do gênero cyberpunk, sendo um dos primeiros lançamentos deste estilo, e por este motivo tem a devida importância. No entanto nada evitou do livro dividir a opinião dos leitores, como a dificuldade em compreender os aspectos do romance por causa da escrita. Eu adquiri o exemplar digital mesmo ciente de tais críticas, afinal eu quis formar a minha opinião sobre a obra de Gibson, além de conhecer mais do universo cyberpunk através da obra pioneira neste gênero.

Neuromancer - Sprawl

E eu gostei de Neuromancer, apesar de reconhecer os problemas tão criticados. Acompanhei Case ao longo das páginas, conferi os detalhes do ambiente cyberpunk e aprovei a criatividade do autor ao propor tecnologias com funcionalidades semelhantes às existentes hoje, depois do lançamento do livro. Comecei pelo glossário do livro e conheci os termos próprios do romance em geral, e isso ajudou na compreensão até certo ponto. O problema nunca foi esses conceitos usados no livro, e sim nos desleixos da escrita do autor. Progride a história sem oferecer informações suficientes ao leitor e deixa de citar qual pessoa disse determinado diálogo ou quem realizou tal ação.

Mesmo o resultado da leitura saindo como mediano, foi suficiente para eu conferir o resto da trilogia. Demorei ao adquirir a continuação, como demoro com qualquer saga, pois evito de sobrecarregar o blog com resenhas da mesma série, mas confesso estender demais na leitura entre um volume e outro. Ao decidir comprar Count Zero, já peguei Mona Lisa Overdrive junto, assim o intervalo de leitura entre o segundo e o terceiro livro ficou menos da metade de entre o primeiro e o segundo.

Count Zero - Sprawl

Alguns leitores preferem Count Zero entre os livros da trilogia, já para mim este foi o pior. O ambiente de Sprawl deixou de ser novidade após Neuromancer, apesar de Count introduzir conceitos interessantes como as entidades de religião africana existindo dentro do ambiente da Matrix. Habituado com o universo criado por Gibson no primeiro volume, eu desejei aspectos melhores na continuação, e por isso me decepcionei. Em vez de apenas Case, aqui acompanhamos a história de três protagonistas cujos focos alternavam entre capítulos, porém a coordenação deles falhou em levá-los a algum lugar até que de repente os arcos dos três intercalam rumo a conclusão. Soma esta falha do enredo com os problemas de escrita ainda pertinentes, e o resultado é a minha insatisfação com o livro.

Mona Lisa Overdrive - Sprawl

Como já comprei o terceiro volume, dei uma chance ao Mona Lisa Overdrive, até porque faltava apenas este da trilogia. Coloquei as expectativas lá embaixo, e com isso Overdrive as superou. Ainda comecei o terceiro volume pelo glossário, relembrei dos termos já usados antes e já notei mais destaque ao ambiente japonês só pelas definições das palavras ali. Então comecei os capítulos com um, dois, três, quatro arcos diferentes! Fiquei contente por Gibson melhorar a coordenação desses arcos comparados ao volume anterior, pude reconhecer onde cada personagem foi no capítulo correspondente. As descrições estavam mais claras — finalmente! —, ainda com ressalvas quanto a qualidade, pelo menos a leitura superou a expectativa de ser tortuosa.

A maior decepção ficou por conta do final, sem entrar em detalhes nem dar spoiler: a coordenação tão bem feita com a progressão das protagonistas foi deixada de lado, deu conclusão a apenas um arco delas — este pelo menos aceitável, por contribuir na criação do universo mesmo nas páginas finais — e as demais tiveram o último capítulo genérico, apenas dispensando-as da história. Pondo os pontos positivos e negativos na balança e com a baixa expectativa somada na equação, Mona Lisa Overdrive saiu como mediano igual Neuromancer.

Após me dedicar a ler toda a trilogia do Sprawl, considerei escrever este post analisando toda a trilogia e de forma pessoal, expondo minhas expectativas e pensamentos quanto a leitura, em suma, compartilhei a experiência completa de leitura desta série. Pretendo fazer posts como esse quando completar outras sagas — lembrando que só faltam dois volumes até eu concluir A Torre Negra e um das Crônicas dos Kane, qual dessas sagas será a próxima?


Confira a trilogia

A Taverna: Volume 2 da Revista de Contos (Divulgação)

Já tive a oportunidade de conferir a Revista de estreia do blog A Taverna com cinco contos muito bem escolhidos, caprichados e aperfeiçoados pelo trabalho de edição. Toda iniciativa a trazer maior visibilidade aos trabalhos nacionais é bem-vinda, e esta Revista serve como exemplo por trazer oportunidade a autores reconhecidos ou iniciantes a conseguirem publicar seu texto entre os demais em destaque.

Muitos aproveitaram a chance de ter o conto publicado na segunda edição da Revista A Taverna, poucos passaram pelos critérios rigorosos — e justos — dos editores do blog, e dentre eles houveram cinco escolhidos a terem seus contos conhecidos nesta pequena antologia digital. O mais surpreendente é, entre esses cinco, eu sou um deles. Isso mesmo! Eu, Diego Araujo, criador e editor deste site, venci o concurso e pude compartilhar meu conto junto com os demais quatro autores de contos extraordinários.

Reconheci a qualidade dos contistas premiados na primeira edição, e está difícil expressar tamanha gratidão por eu estar entre os cinco selecionados do novo trabalho da equipe A Taverna. Mas este post não é apenas uma comemoração, apresento a seguir cada conto disponível na Revista. Recuso a chamar de resenha, pois fico pouco à vontade de avaliar meu próprio texto. A intenção aqui é divulgar esta edição, mostrar os melhores pontos de cada conto e torcer para que a iniciativa do blog A Taverna persista e cresça cada vez mais.

Enfim, vamos aos contos!

“O que o Vento Sul Sussurra”, de H. Pueyo

Conhecemos Elías Bazuá em seu serviço solitário, o de manter o escudo da região Ushuaia contra colisões de cometas. O planeta Terra sofre impactos astronômicos há tempos, apenas os escudos protegem os locais da colisão. Elías conta com a ajuda de Heloise, um sistema de inteligência artificial, e enfim recebe uma colega de trabalho humana de acordo com as características pedidas por ele, a Lola. Tanto Elías como Lola são autistas, apesar de o rapaz ter maiores dificuldades com esta situação.

O conto de ficção científica situa o planeta no ambiente posterior a calamidade, que para variar é desconhecida da maioria das pessoas, essas alheias aos estudos científicos. Apresenta dois casos de autismo e torna nítida a diferença no desenvolvimento da pessoa em tais condições, de como a ausência de tratamento adequado pode prejudicar alguém, como privá-lo da interação com outras pessoas. Além do tratamento, os recursos desta ficção científica auxiliam os autistas, quando esses têm condições de obtê-los. O que o Vento Sul Sussurra representa esta minoria de necessidades específicas ao demonstrar de perto como tais pessoas convivem, ou no caso a dificuldade de elas conviverem.

“O Touro Vermelho”, de Ana Lúcia Merege

Antonio está na excursão com os amigos sobre a civilização minoica. Presunçoso quanto as informações dadas, o garoto demonstra a falta de coragem em outros aspectos, aquela insegurança comum de adolescente. Se distrai na excursão ao desenhar as peças em exposição, e de repente fica surpreso com a aventura disponível a frente.

O conto acompanha a intimidade do rapaz protagonista quanto aos dilemas típicos da idade. No plano de fundo há menções sobre a civilização apresentada nesta excursão, a contextualiza antes de levar os personagens rumo à conclusão inesperada, apesar da prova de superação por parte do Antonio.

“Limiar”, de Jaime de Andruart

Aqui encontramos um gaúcho a serviço de encontrar o touro sequestrado do patrão, exceto de nada do desenrolar desta história ser simples. O gaúcho ouve a profecia tanto pelo representante guarani quanto de cristão, e as mensagens demonstram pouca clareza quanto ao destino da caçada como também da humanidade.

O conto mescla conceitos de velho oeste adaptados na realidade da região sul brasileira. Além da ambientação bem representada, a narrativa em primeira pessoa carrega a linguagem distinta do gaúcho por todo o texto, enfeita as descrições com termos característicos e sempre mantém o ritmo da história no enredo reservado a esta aventura.

“Alameda dos Ratos”, de Guilherme Alaor

El Ratón puxa conversa com Ruan, um dos “Reportadores” do Conde a serviço de flagrar delitos na Alameda dos Gatos. El Ratón o convida a conhecer a outra parte deste bairro, a Alameda dos Ratos, e mostra de boa vontade a realidade negada pelos cidadãos de “Sangre”.

O conto constrói a sociedade elaborada pelo autor com terminologias próprias enquanto mostra ações ordinárias das pessoas desprovidas de benefícios. El Ratón coordena toda a história, desde a narrativa, as descrições e a interação de Ruan com o cenário a ser descoberto pelo Reportador junto com o leitor. Os argumentos sobre as diferenças de classes conclui pela justiça poética, ainda tendo espaço a mostrar outras particularidades da sociedade.

“Lembre-se, Setembro”, de Diego Araujo

Antônizo procura pelo colega de trabalho Elísio, o menino prodígio da empresa. Enquanto interage nessa realidade futurista, o amigo insiste em falar com o garoto após ele insinuar a desistir da própria vida.

Nesta ficção científica, a tecnologia funciona a favor do conforto de cada pessoa, atende as necessidades individuais enquanto prezam pelo respeito alheio. A sociedade previne o ócio através das competições constantes, motiva as pessoas a serem ativas ao entrar nas mais diversas disputas, sejam no trabalho ou na vida particular. Mas tal sistema não acomoda a todas as pessoas, e Antônizo busca a solução a Elísio por conta própria. Além das especulações científicas, este conto transmite a mensagem de conscientização e prevenção ao suicídio, acima de tudo: sobre a valorização da vida.


A Taverna Vol2. - capaAutores: Ana Lúcia Merege, Diego Araujo, Guilherme Alaor, H. Pueyo e Jaime de Andruart
Editora: A Taverna
Edição: 2
Ano de Publicação: 2019
Quantidade de Páginas: 103

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Melhores XPs Literários do Primeiro Semestre de 2019

O primeiro semestre do ano chega ao fim e tenho motivos para ficar animado. Li quarenta livros nesta primeira metade do ano, e agora tenho a chance de compartilhar quais foram as minhas leituras favoritas do ano até agora! Muitos livros me impressionaram neste ano, cujas qualidades até dificultaram na hora de escrever a resenha, por sintetizar os melhores pontos na análise e mantê-la concisa na leitura.

Antes de listar minhas melhores experiência de leituras, devo fazer algumas observações. Primeiro é que este ano eu comecei a colaborar no Ficções Humanas com resenhas também. Os livros analisados por lá foram desconsiderados na classificação deste blog, pois pretendo fazer a lista com as melhores leituras dedicadas aos Ficções no fim do ano. O outro detalhe é de ainda haver livros lidos por mim com resenha não publicada, então esses concorrerão no segundo semestre de 2019.

Preparado? Confira quais obras chamaram a minha atenção!

10 – A Arte de Escrever

A Arte de Escrever - Resenha

Começando com a seleção de ensaios sobre a escrita do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. As críticas afiadas são pertinentes até hoje, séculos após da concepção das mesmas. Quando digo pertinentes, é longe de abaixar a cabeça diante de toda análise ríspida disponível neste livro, na verdade é útil a refletir e debater quais pontos continuam relevantes mesmo hoje. Assim fiz no blog Ficções Humanas ao escrever o artigo sobre a importância das traduções frente as críticas de Schopenhauer dispostas neste livro.

9 – Medo Clássico – Edgar Allan Poe Vol. 1

Edgar Allan Poe: Medo Clássico Vol. 1 — Resenha

Outro autor que “vive” por séculos graças aos textos. Edgar Allan Poe é famoso pelos contos de terror e suspense, é possível termos a amostra de sua qualidade por meio desta coletânea preparada pela editora Darkside, reunindo três contos em cada um dos cinco temas, o poema The Raven junto com as traduções de Machado de Assis e Fernando Pessoa, além de conteúdos exclusivos desta edição com homenagens ao autor.

8 – Mago e Vidro

Mago e Vidro - resenha

O quarto volume da saga Torre Negra entra na classificação das melhores leituras. O livro retrocede na linha do tempo e conta uma passagem importante na vida de Roland, esta essencial para compreender o que espera dos personagens acompanhados do Pistoleiro na jornada à Torre Negra. Este calhamaço de ótimo conteúdo é excelente na construção de personagens e por levar a história adiante.

7 – Ordem Vermelha: Filhos da Degradação

Ordem Vermelha: Filhos da Degradação - resenha

Olha o livro brasileiro provando a capacidade de estar entre os melhores! Filhos da Degradação é o primeiro volume da duologia Ordem Vermelha, fantasia épica elaborada por Felipe Castilho com um excelente time de edição por trás. A história conta sobre o domínio opressor na cidade de Untherak, cuja soberana é a deusa Una. Os protagonistas são diversos quanto a origem e objetivo, mas todos se unirão sob a tutela de Aparição.

6 – A Pirâmide Vermelha

A Pirâmide Vermelha - resenha

Saímos da história dominada por uma deusa e entramos nesta aventura cheia de divindades egípcias! A Pirâmide Vermelha é o início da trilogia As Crônicas dos Kane, uma das várias sagas escritas pelo Rick Riordan, escritor famoso pelas histórias baseadas na mitologia e com protagonistas adolescentes. A Pirâmide Vermelha acerta em tudo, com ótimas cenas de ação e descrições da cultura e mitologia retratada neste trabalho. O segundo volume deixou a desejar quanto ao conteúdo mitológico, motivo do primeiro volume merecer o destaque.

5 – Para Ler Como Um Escritor

Para Ler Como Um Escritor - resenha

Começo a listar a segunda metade das melhores leituras com outro livro técnico. Para Ler Como Um Escritor propõe a realizar a leitura atenta enquanto a autora Francine Prose compartilha as experiências e aprendizado dela nos trechos de obras disponíveis ao longo de todo o livro. É possível aproveitar muito desta leitura para aprimorar a própria escrita, e a edição brasileira tem o bônus com conteúdo dedicado à leitura da literatura brasileira quanto as particularidades dos textos produzidos aqui.

4 – A Revolução dos Bichos

Este clássico está cheio de sátiras e críticas pontuais a determinado regime totalitário, muitas pertinentes a qualquer governo suscetível a mesmas falhas, independente de viés ideológico. De linguagem simples, funciona como uma fábula em que os animais de determinada fazenda representa a população do país criticado. A progressão dos eventos impressiona mesmo ao saber o desfecho da obra, por acompanhar toda a construção do enredo até a conclusão da história.

3 – Fahreinheit 451

Fahrenheit 451 - Melhores XPs

Este livro quase atingiu o primeiro lugar desta lista, confesso que eu gostaria de colocá-lo ali devido ao impacto de enxergar a atualidade nesta distopia escrita na primeira metade do século XX. Fahrenheit 451 fala da decadência no interesse por livros em troca da assimilação espontânea de conteúdo. As consequências desta realidade só são vistas ao enxergar além do habitual, e quem consegue descobre o quão perturbador pode ser. O livro tem falhas, o autor força o seguimento do enredo ao demonstrar o argumento do romance, este que todos deveriam dar a chance de conferir antes de vivermos algo paralelo a esta distopia.

2 – Araruama – O Livro das Sementes

Araruama: Livro das Sementes - Melhores XPs

Já disse neste blog como eu adoraria ver algum livro brasileiro no topo das minhas leituras favoritas, e O Livro das Sementes chegou perto. O primeiro volume de Araruama me impressionou pela qualidade de escrita do Ian Fraser, por conseguir mesclar o idioma da civilização retratada com a nossa linguagem e criar expressões singulares ao longo da leitura. A escrita é rica em significado e linda no ritmo. Ainda devo a leitura da continuação que foi sucesso no financiamento coletivo ano passado, e quero me impressionar outra vez com o texto deste escritor.

1 – Duologia Semente da Terra

Duologia Semente da Terra - Melhores XPs

O primeiro lugar não fica com apenas um livro, mas dois! A Parábola do Semeador e A Parábola dos Talentos se igualam em qualidade e entregam a história emocionante de Lauren Olamina. A distopia mostra a especulação de um futuro próximo e transtornado pela crise ambiental que levou a problemas sociais e políticos. Narrado em forma de diário da protagonista, explicita cada dificuldade passada por Lauren, cenas violentas e difíceis de testemunhar, choca os leitores menos sensíveis. Os livros da Octavia E. Butler demoraram a chegar no Brasil, esta duologia publicada nos anos 90 só chegou aqui no ano passado, pelo menos chegou na melhor hora, pois muitas situações mostrados nos dois livros refletem em nossa realidade, inclusive brasileira.

Menções Honrosas

Fica aqui a menção de excelentes livros tal como os dez acima:

Primeira Edição da Revista A Taverna: uma excelente iniciativa do blog de literatura fantástica A Taverna que soube escolher muito bem os cinco contos presente nesta pequena antologia;

Crônicas de Espada e Feitiçaria: outra antologia fantástica, esta com grandes nomes da literatura mundial, alguns com obras indisponíveis até então no Brasil;

Homo Deus: A continuação de Sapiens traz muitas reflexões sobre a evolução da ciência e tecnologia atual e de como isso pode afetar o futuro.


Ufa! A lista chega ao fim. Agora resta aguardar o fim do ano, onde terá mais dez livros selecionados no segundo semestre e no fim listo quais desses entrarão na lista definitiva de melhores XPs Literários do ano de 2019. Conhece todos os livros citados? Recomenda algum fora desta lista? Fique à vontade e fale de suas próprias experiências de leitura!

Melhores Experiências Literárias de 2018

Por bem ou por mal, 2018 acabou. O primeiro ano de experiências literárias com o blog, e apenas isso já fez esse ano valer a pena. O compromisso com as resenhas me fez ler mais livros e aproveitar melhor cada leitura, analisar pontos fortes e fracos de cada obra e compartilha-los por aqui.

Fechei 2018 com 62 livros concluídos, a maioria com resenha disponível no blog. Agora é a hora de ver quais dessas obras merecem destaque, na minha opinião.

Já fiz a lista com as melhores leituras do primeiro semestre. Os cincos livros premiados dessa lista estão classificados para concorrer entre os melhores do ano, são esses: Desonra (J.M. Coetzee), Deuses Caídos (Gabriel Tennyson), A Ascensão do Alfa (Clecius Alexandre Duran), 1984 (George Orwell) e A Escolha dos Três (Stephen King).

Apresento a seguir as cinco melhores experiências de leitura do segundo semestre de 2018, e no fim deixo a classificação definitiva do ano.

Os Cinco Melhores do Segundo Semestre

A Dança dos Mortos

A Dança dos Mortos - Resenha

Com resenha publicada já em 2019 apesar de lido entre os dias de natal e ano novo. Gleyzer Wendrew aproveitou do que foi apresentado no primeiro volume d’As Crônicas da Aurora e caprichou na escrita de sua continuação! A violência explícita exige leitores de estômago forte, o continente de Dünya é recheado de sangue e mortes imprevisíveis numa leitura fluida e criativa.

A Fúria dos Reis

A Fúria dos Reis

George R. R. Martin é trapaceiro em conquistar as listas das melhores leituras, não? O gigantesco e complexo mundo de Westeros justifica esta conquista. Os reis explodem com as ambições particulares e desencadeiam a disputa pelo trono de ferro governado por Joffrey, um garoto cujo poder de herança é indigno, segundo alguns.

O Cavaleiro da Morte

O Cavaleiro da Morte - título

Outro romance de cavalaria, este de ficção histórica baseado no rei saxão Alfredo e a guerra contra os guerreiros nórdicos. Bernard Cornwell sabe mostrar batalhas e provocar cheiros de carnificina através da escrita. Neste segundo volume de As Crônicas Saxônicas, Uhtred deve escolher em qual lado lutar na guerra, as opções são entre uma vitória improvável ou morte certa.

Clube da Luta

Clube da Luta

Já adaptado aos cinemas, Clube da Luta rendeu sucesso ao escritor Chuck Palahniuk, conquista muitíssima justa! Usando a narrativa em fluxo de consciência combinada ao enredo e a situação do protagonista, este livro surpreendeu como há muito não acontecia comigo.

Homens Imprudentemente Poéticos

Homens Imprudentemente Poéticos - título

E nesta lista com maioria de histórias violentas e ambiente medieval europeu, eis aqui o livro sobre cultura japonesa feito em prosa poética escrita por Valter Hugo Mãe. Duzentas páginas de composição literal impressionam com o olhar distinto sobre a cultura japonesa, e a abordagem quanto a floresta dos suicidas no Japão deve servir de exemplo por quem pretende falar de locais semelhantes.

Menções Honrosas do Segundo Semestre

Mais alguns livros merecem destaques entre minhas leituras do segundo semestre, mesmo ficando fora da lista definitiva. São esses:

Sapiens – Uma Breve História da Humanidade
Resenha
Compre o livro

O Pequeno Príncipe
Resenha
Compre o livro

Dom Quixote
Resenha

Os Melhores de 2018

Os candidatos foram apresentados junto com os cinco do primeiro semestre. Chega a hora de revelar a lista definitiva dos melhores de 2018 (rufem os tambores!). Confira:

#10 Desonra
Resenha
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#9 Deuses Caídos
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#8 A Dança dos Mortos
Resenha
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#7 A Ascensão do Alfa
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#6 A Fúria dos Reis
Resenha
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#5 1984
Resenha
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#4 A Escolha dos Três
Resenha
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Classificação dos melhores de 2018
A Classificação até agora

#3 O Cavaleiro da Morte
Resenha
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#2 Clube da Luta
Resenha
Compre o livro

#1 Homens Imprudentemente Poéticos
Resenha
Compre o livro

Os Três Melhores de 2018

Parabéns ao Valter Hugo Mãe por publicar o livro vencedor do Melhor XP Literário de 2018! Clube da Luta me surpreendeu, mas Homens Imprudentemente Poéticos provocou uma leitura ímpar na minha vida. Fora da minha área de conforto, teve o desafio de me agradar dentre tantos exemplos de literatura fantástica lidos por mim este ano. Este livro foi além e superou todos eles.

Fiquei impressionado quando li cada livro desta lista, não chegaram aqui à toa! Agora fiquem à vontade em citar os seus livros favoritos de 2018 nos comentários. Podem ser os mesmos livros em ordem diferente, sem problema algum, afinal cada leitor tem gosto próprio e a diferença estimula a troca de experiência.

Que todos tenham um ótimo ano cheio de alegria, conquistas e leituras!

Aniversário do Blog (Um Ano de Experiências)

Dia quatro de dezembro de 2017 estreava o XP Literário. Postei cinco textos no mesmo dia, cada um de categoria distinta mostrando os tipos de conteúdo compartilhados no blog. Na data de publicação desta postagem mais que especial, o site completa um ano de existência. 

Assumi o compromisso pessoal de entregar conteúdo novo toda segunda-feira, no mês seguinte percebi a possibilidade de compartilhar opinião das experiências de leituras toda semana a cada quinta-feira (talvez tenha mais resenhas por semana no futuro, quem sabe…). Ganhei nada em dinheiro com essas postagens, e posso arrecadar dinheiro com este blog no futuro, mas eu persisto neste trabalho só por gostar de fazê-lo. 

Amor ao Trabalho - Aniversário

Amei as oportunidades abertas a mim ao manter este espaço pessoal compartilhado com o público. Dediquei muito espaço do meu tempo em que eu poderia estar lendo, ganhando dinheiro com outra tarefa ou ficar em dia com as minhas séries; e com certeza valeu a pena e valerá no próximo ano. 

Muito mais leituras 

Uma das maiores conquistas com o blog é conseguir ler como jamais fiz nos últimos anos. Leio devagar a ponto de demorar quase quatro semanas para ler o primeiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo antes de começar o blog. Continuo com ritmo lento, só consumo mais páginas hoje por aumentar o tempo dedicado à leitura. 

Leio muito mais ao me comprometer em publicar resenha a cada semana. Longe de tornar uma obrigação, senti-me motivado a ler mais. Cheguei a ler vários livros em poucos dias e deixava as resenhas acumuladas enquanto encarava calhamaços por dez a quinze dias. Então me empolguei demais, e mesmo lendo livros grandes como A Fúria dos Reis, Detetives Selvagens e Terras Devastadas, tenho resenha pronta há dois meses ainda na reserva. Preciso equilibrar isso no próximo ano, o que será melhor a vocês, leitores! Terão semanas com mais de uma resenha em 2019. 

Livros - Aniversário

Também melhorei minha escrita. Os posts de segunda incentivam a manter minha produtividade em tecer palavras. Abro mão do tempo em que eu poderia dedicar aos meus projetos de romance, e de certa forma isso tem me ajudado. Os contos e crônicas me tiram o cansaço de escrever um livro completo, distraio com novas ideias e testo estilos diferentes. Algumas das histórias curtas deram ideias para livros no futuro, e já terei novos romances a escrever quando eu conseguir fazer as publicações dos projetos atuais.

 Novos amigos 

Outra meta de manter este blog literário é conquistar um pequeno espaço no mercado, obter o público que possa se interessar nos meus lançamentos futuros. Ainda não obtive a quantidade de seguidores como esperava, por outro lado consegui algo muito bom e valeu a pena do mesmo jeito: amigos! 

Ler livros nacionais fez eu conhecer mais sobre a escrita e linguagem dos autores brasileiros. Melhor ainda é criar conexões com esses escritores a partir da leitura de seus livros. Acompanho o nosso mercado a partir deles, vejo suas inspirações e memes, e compartilhamos opiniões das nossas experiências em comum. 

Amigos - Aniversário

Talvez eu tenha sorte por quase todos os autores nacionais aceitarem minhas críticas de braços abertos. A abordagem de minhas resenhas é diferente de contar se vale ou não a pena comprar tal livro, já que faço análise em tópicos: falo sobre o tema do livro, apresento o enredo e cito os pontos positivos e negativos. Posso adorar a leitura, considerar o livro entre os meus favoritos, e ainda assim critico quando encontro pontos a melhorar.  

Não sou o dono da verdade e sei meu lugar. Minha opinião pode entrar em conflito com as preferências de outros leitores e do próprio autor, e encontrei conversas agradáveis quando esses tipos de divergência aconteceram. Os escritores podem levar minhas críticas em consideração ou não, da mesma forma como eu faço ao receber as dos meus próprios textos. No fim todos ganham com as trocas de opiniões. 

Decepções 

Nem tudo são flores na vida de blogueiro. Lancei meu site quando os usuários de internet já preferem as redes sociais e vídeos. As restrições de Facebook dificultam a visualização das publicações aos seguidores da fanpage . Talvez eu crie conta no Instagram e vejo se melhora a interação. O Twitter já me desagrada. Teria mais público se desse sorte no YouTube, onde eu precisaria investir muito no audiovisual (além de tomar vergonha na cara e vencer minha timidez). A maioria das visitas que recebo hoje é de amigos dos autores nacionais quando compartilham a minha resenha ou através de pesquisas aleatórias no Google. Pelo menos posso me orgulhar do meu rank SEO por atrair visitas desta forma. 

Redes Sociais - Aniversário

Minha maior frustração é saber da pouca relevância dada a certos conteúdos feitos este ano. Só atingi a marca de cem curtidas no Facebook quando compartilhei alguns memes feitos por mim mesmo. Não vi uma interação posterior dos seguidores obtidos desta forma.  

Fiquei muito triste com o resultado do meu artigo sobre Fake News, um dos textos mais importantes escritos neste blog. Até compartilhei no meu perfil pessoal por acreditar que mesmo meus amigos distantes da literatura teriam interesse em conferir. E no fim o post caiu no limbo da minha rede. Conteúdo importante de discutir, sem memes ou coisas engraçadas, sem apelo emocional do usuário para atrair clique, apenas compilei em texto as minhas pesquisas sobre o assunto de destaque na eleição de 2018; e se somente um artigo esquecível… 

Saldo de aniversário 

Termino o primeiro ano do blog com quatro mil visitas ao site, cento e sete publicações contando com esta, quarenta e seis resenhas de livros e oito sobre enredo de jogos, trinta e cinco posts de contos e crônicas. Números interessantes, porém essas cifras são incapazes de expressar uma coisa: minha gratidão ao trabalhar neste blog. 

Gratidão - Aniversário

Muito obrigado a todos os leitores que me acompanharam neste começo. Seja lendo um post, tenha gostado ou achado ruim. Agradeço de coração, e espero te reencontrar no segundo ano do XP Literário! 

O Despertar, de Clecius Alexandre Duran

Mês de novembro está acabando, e as postagens especiais também. Eu sei, pode pegar seu lenço e enxugar as lágrimas. Achei uma ideia tão bacana que quero repetir no mês de novembro do ano que vem, então não precisa ficar triste! Alegre-se e sinta o terror com a história de hoje! Exato, dei uma folga a vocês com o conto do convidado passado, e agora volto com tudo neste texto d’A Maldição do Lobisomem.

Clecius aceitou compartilhar um texto no blog. Não é um conto como os demais, mas sim a disposição do primeiro capítulo de seu livro na íntegra neste post.

Autor de dois romances e um conto, Clecius merece aplausos por trazer as histórias viscerais de lobisomem em contraste com as versões amigáveis e felpudas de certas obras, além de trazer a realidade das lendas às cidades brasileiras tanto atuais como na Revolução Farroupilha. É um escritor independente cuja dedicação garantiu um serviço como editor da nova versão de O Brakki, escrito por André Regal e relançado sob o selo Acervo Books. Clecius promete a publicação de um livro inédito de terror, além do terceiro volume da antologia Crônicas da Lua Cheia, histórias que estou ansioso para ler!

Com as devidas apresentações dadas, confira o capítulo O Despertar de A Maldição do Lobisomem. Não se esqueça de seguir Clecius nas redes sociais e conferir seus livros, todos os links estarão após o texto:


Capítulo 1 – O despertar

28/Jul/2015 (terça-feira) – 1º dia do ciclo da lua cheia

CONFUSÃO.   CACOFONIA.   UMA   MIRÍADE   DE   ODORES  se mesclando na escuridão. Cheiros que ele conhece de longa data misturando-se com fragrâncias inéditas ao seu olfato. Os demais sentidos   ainda   estão   entorpecidos.   Os   membros,   paralisados  e dormentes. Este é o momento que ele mais odeia. O Despertar.

Vagarosamente a penumbra da inconsciência se afasta, descortinando o véu da realidade. Ele acorda exausto, dolorido e sentindo-se derrotado. – É sempre assim! – pensa com rancor. Esse é um dos fardos da maldição que ele carrega. Aos poucos, o animal percebe a dor que lhe perpassa o corpo, como uma avalanche infinita de agulhas em brasa. Ainda deitado em posição fetal, ele luta contra a vontade de permanecer imóvel até que cesse o martírio da recente transformação. No entanto, ele sabe que precisa se levantar e pôr-se em guarda.

A criatura bestial estica lentamente cada um dos membros, alongando os músculos e acompanhando cada movimento com um baixo grunhido sentido. Embora tenha vontade de urrar, revelando ao mundo a dificuldade da tarefa posta em execução, o monstro contém o impulso. Ele tenta se colocar em pé, mas falha miseravelmente caindo sobre suas quatro patas, retorcendo-se em intenso sofrimento. O demônio profano sente o aperto dos trapos espalhados por sobre seu corpo. Trapos impregnados com um cheiro que, num só momento, é e não é o seu.

Com o pingar dos segundos que aparentam durar uma eternidade, ele recupera a capacidade de movimento de cada um de seus membros. Um a um. Pouco a pouco. Embora a dor seja excruciante, sua capacidade de recuperação não é menos notável. Com o autocontrole voltando paulatinamente, a criatura rasga os restos das roupas que ainda insistem em se grudar ao torso. Enfim, completamente livre das amarras humanas!

Respirando lentamente e com dificuldade, o licantropo recupera suas forças e sua mobilidade, finalmente sentindo-se capaz de se pôr em pé. Sua altura prodigiosa é capaz de assustar mesmo o mais corajoso caçador e enganaria aqueles que, porventura, tivessem antevisto apenas o animal com a postura contraída e colocado sobre as quatro patas. Ao ficar ereto, o tronco hirsuto e musculoso do lobo se expande, revelando uma espantosa criatura antropomórfica: uma silhueta corporal que lembra um gigantesco ser humano, com exceção da longa cauda e das pernas cujo desenho ainda guarda estrita semelhança com as patas traseiras de sua ancestralidade animal, o canis lupus signatus. Por outro lado, ao arriscar uma olhada de mais perto, a visão de uma cabeça extremamente volumosa coroada com uma grande cabeleira e um par de orelhas triangulares e pontiagudas, além de uma poderosa mandíbula protuberante encimada de um focinho pronunciado, não permitem confundir a hórrida entidade com um ser humano. Sua pelagem escura tem a cor castanha, apresentando no dorso uma lista negra que se estende da nuca ao final da cauda.

Ao seu redor, uma fina película de vapor o envolve, resultado da contraposição do clima frio ao corpo hipertérmico do lobisomem.

Num rápido exame, ele aponta o focinho em direção ao céu e aspira profundamente o ar da noite para se localizar e determinar eventuais perigos à espreita. Assim como o olfato, os demais sentidos da criatura também são mais desenvolvidos, mais sensíveis, embora temporariamente reduzidos pelo recente e turbulento despertar. Ele já conheceu outros predadores. Alguns são aliados, outros não. Alguns são fortes, outros são numerosos, mas todos são capazes de representar um perigo à sua sobrevivência.

Terra úmida, mato recém-cortado e algumas árvores são os cheiros mais próximos. Nenhum perigo imediato foi revelado pelos odores captados. O fedor pungente de urina e fezes de animais menores destaca-se ao olfato. Utilizando a visão que se adapta à noite, como convém ao animal de hábitos noturnos, a fera esquadrinha a escuridão à sua volta, reconhecendo o território e percebendo estar em um local ermo, ligeiramente distanciado das casas e edifícios que rodeiam aquele pequeno perímetro parcamente arborizado. O lobo se encontra numa praça na cidade de Londrina chamada pelo apelido de Zerão em razão de seu formato ovalado. Um pequeno espaço de verde com árvores altas, vegetação rasteira, um amplo gramado e duas quadras cimentadas, encravado no centro da cidade. Junto ao leito do pequeno riacho onde ocorreu a transformação, o lobisomem toma consciência de que se encontra, novamente, cercado pelas construções com luzes artificiais que, mesmo com sua visão acurada, ofuscam o brilho das estrelas. Ele está em território hostil, longe das árvores abundantes de uma floresta ou de um mero matagal, que são seu habitat natural.

Apesar das dores lancinantes e da tontura provocada pelo excesso de informações que seu cérebro busca processar, a criatura tenta caminhar, mas é vencida pela vertigem, tombando de encontro ao chão. A dor em seu estômago aumenta repentinamente e ele sente o latejar de seu esôfago preparando-se para expelir todo o conteúdo estomacal semidigerido: pães, vegetais, frutas e apenas um pouco, somente um pouquinho intoleravelmente diminuto, de carne. A fera caliginosa sabe que precisará conseguir comida de verdade. Uma quantidade generosa de carne para saciar sua fome e satisfazer seu apetite voraz. Mas, antes, precisa livrar-se daquilo que a aflige.

As convulsões, então, aumentam provocando intesos espasmos até que o líquido quente e malcheiroso que se alojava em suas entranhas sobe pela garganta e é arremessado ao chão num jato multicolorido com predominância da cor verde. Uma pasta espessa composta de restos de folhas de alface, arroz, tomate, beterraba e outras folhas, frutos e raízes – que compõem o banquete de uma vaca, um cavalo ou qualquer outro ser nas escalas inferiores da cadeia alimentar, e não o repasto digno de um predador – é depositada no espaço à sua frente, entre seu corpo e um banco de concreto.

O monstro lupino respira com dificuldade em arquejos curtos, ainda não totalmente livre do enjoo.

Um novo regurgitar expulsa o resto da porcaria que ainda lhe ataca o estômago, sobressaindo em sua língua um toque ácido, levemente picante.

Imediatamente, o lobisomem torna a olhar para o céu noturno à procura da posição do pequeno disco prateado. A lua cheia, parcialmente escondida por nuvens escuras, indica, pela sua trajetória orbital, a proximidade da meia noite.

—Ladrão maldito! — é o insulto que cruza sua mente enquanto um nó dolorido lhe aperta a boca do estômago. — Dessa vez, sua beberagem não conseguiu atrasar minha chegada!

Depois de vomitar todo o conteúdo estomacal, o monstro metamórfico percebe o desaparecimento de grande parte de sua fraqueza anterior. A náusea que lhe limitava os movimentos e entorpecia parcialmente seus sentidos aguçados é substituída pelo ímpeto atávico de se alimentar.

A fome o envolve como uma amante antiga e familiar, abraçando todo seu corpo e fazendo surgir uma irrefreável vontade de saciar seus instintos primevos. O licantropo anseia não somente pela carne que lhe arrefecerá o vazio na barriga, mas também pelo sabor cúprico do sangue quente da presa a escorrer por sua boca, encharcando o pescoço.

Obedecendo ao desejo imperativo que lhe é inerente, a fera torna a se erguer sobre as patas traseiras, farejando o ar a fim de perscrutar os arredores na tentativa de localizar uma presa apetecível.

As lendas referentes aos hábitos alimentares da sua espécie ditam que os lobisomens têm especial predileção pela carne humana. Na verdade, esta espécie de predador consome qualquer animal, racional ou irracional, grande ou pequeno. Os animais de maior porte são preferíveis aos pequenos pela maior quantidade de carne oferecida, bem como por darem menos trabalho no momento da caça – os animais menores são excessivamente medrosos, rápidos para empreender fuga e encontram refúgio em diversos locais não alcançados pelas garras lupinas. Se a escolha da presa for entre um coelho e uma vaca, fica-se com a vaca. Por sua vez, a grande frequência do ataque aos humanos decorre do simples fato que esta presa encontra-se em qualquer localidade e com maior abundância. A caça selvagem a que os licantropos estavam acostumados no Velho Continente está incrivelmente escassa. O mesmo acontece em toda a América e no resto do mundo. A fauna abundante que permitia o sustento tranquilo dessas criaturas não mais existe. Em contrapartida, os seres humanos encontram-se disponíveis no cardápio de qualquer local, isolados em pequenos grupamentos rurais ou reunidos em grandes aglomerados urbanos.

Dos  odores  trazidos  pelo  gelado  ar  noturno,  destaca-se  um  suave  perfume adocicado  mesclado  pelo  cheiro  inconfundível  dos  hormônios  femininos secretados durante a gestação. Tal combinação de aromas faz o lobo salivar.

Dentro da espécie humana, os lupinos voltam especial atenção às mulheres em estado  final  de  gravidez.  Embora  consumam  a  integralidade  do  corpo  humano,  o lobisomem  costuma  começar  a  devorar  a  vítima  pelas  entranhas.  Geralmente,  as vísceras são ingeridas em primeiro lugar para atender o especial paladar da criatura. Não é de se estranhar, portanto, a particular preferência pelas grávidas. O ataque a uma fêmea prenhe tem duas vantagens: de um lado, seu estado físico dificulta a escapatória e faz com que oponha menor resistência, facilitando o ataque do animal; de outro lado, há o prêmio a ser saboreado. Embora o lobisomem aprecie o sabor das tripas em geral, o feto, nos últimos meses da gravidez, representa uma iguaria ímpar, um misto delicioso de carne tenra e ossos macios – a versão baby beef na licantropia.

Por sorte ou por interferência do destino, uma mulher grávida caminha em direção à praça. Esta noite, o atalho para chegar mais cedo em casa terá um alto custo…

Transição - Clecius

Sandra pensa que a pessoa que aconselha a caminhada como exercício ideal para as gestantes nunca experimentou o peso extra dos últimos meses da gestação. Além do volume que ela carrega no ventre esticado, seu corpo todo está inchado e sua forma física silfídica, que arrancava olhares de admiração da maioria dos rapazes (e de inveja da totalidade das outras moças), parece-lhe um sonho distante.

Cansada de um dia de trabalho, ela pensa nas tarefas domésticas que ainda tem pela frente e arruma a touca vermelha de lã que lhe escorrega da cabeça. Mãe solteira que vive sozinha, ela tenta melhorar de vida, arriscando um destino melhor que aquele partilhado pelos outros membros de sua pobre família, que se resignaram a permanecer na pequena cidade onde nasceram, com poucas oportunidades de trabalho e nenhuma perspectiva de ascensão social.

Mesmo surpreendida com a gravidez não planejada, Sandra continua a perseverar na busca de seus sonhos.

Naquela noite fria de final de julho, o cansaço e a pressa de encontrar o abrigo do lar modesto fazem-na decidir cortar caminho e, em vez de encarar o trajeto mais longo contornando o logradouro público, a jovem opta pelo precário e mal iluminado atalho. Sua decisão parece-lhe extremamente razoável, pois a trilha encurtada passa pelo meio de um punhado de árvores que, mesmo com fraca iluminação pública na orla da praça, não apresenta qualquer obstáculo.

Ao atravessar a rua que circunda o Zerão, uma vibração se faz sentir no interior de sua bolsa, acompanhada com o pegajoso refrão de uma música viralizada pela internet: “♪ Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego… ♫ Delícia, delícia, assim você me mata!”.

Sem diminuir o ritmo, Sandra saca o pequeno celular e, olhando rapidamente no visor do aparelho, atende à chamada.

— Oi, mãe — ela cumprimenta sem diminuir o ritmo dos passos.

— Oi, filha. Onde você está? — Dona Cremilda indaga deixando um leve traço de preocupação vazar pelas palavras.

Ligeiramente ofegante, Sandra responde com rispidez: – Já estou indo pra casa, mãe. Mais dez ou quinze minutos e já chego lá – conclui, esperando ter colocado um ponto final no colóquio.

— Tá bom, filha. Só liguei para saber se está tudo bem com meu netinho – acrescenta com voz langorosa.

Um carro, com os faróis baixos acesos, passa lentamente na rua adjacente à praça no momento em que Sandra inicia a passagem pela trilha do atalho. A luz do veículo ilumina por um breve relance o trecho em que a iluminação dos postes não alcança o caminho. Sandra procura disfarçar a ligeira preocupação que lhe assalta pensando que nada de errado pode acontecer em tão curto espaço. Uma suave brisa noturna passeia por entre as árvores, fazendo farfalhar a folhagem das copas e acariciando a nuca da jovem com um toque gélido. Um arrepio perpassa sua espinha e Sandra não consegue afirmar se a sensação se deve exclusivamente ao vento noturno. Ela coloca um cacho solto de cabelo atrás da orelha, gesto recorrente sempre que se encontra apreensiva, mas busca um tom de voz leve e relaxado para tranquilizar sua interlocutora.

— Ai, mãe! A senhora se deu ao trabalho de ligar a essa hora só para isso? — questiona fazendo um muxoxo. — O médico disse que demora mais duas ou três semanas. Não se preocupa, não — declara com segurança.

— Ah, Sandrinha… — Dona Cremilda recrimina a filha com um tom magoado. — A gente nunca deixa de se preocupar com os filhos, não importa a idade ou a distância. Você logo vai saber como é… De qualquer forma, só queria saber se estava tudo bem. Vê se descansa,

Sandra pensa ter vislumbrado uma sombra passar pelas árvores, numa trajetória paralela à sua, mas a conversa com a mãe a distrai: – Pode deixar, Dona Cremilda. Quando tiver novidades, eu te ligo. Deixa eu prestar atenção no caminho para não cair nem tropeçar em nada.

— Você está de novo voltando sozinha a pé pra casa? – Dona Cremilda dispara, sem conseguir disfarçar a crítica embutida na pergunta.

— Estou, mãe. Não se preocupa, já estou quase lá – Sandra responde tentando disfarçar o aborrecimento que sente.

Apesar do carinho revelado pela preocupação materna, a jovem se ressentia da suposta sabedoria materna que sempre tentava dissuadi-la de todas as suas escolhas de vida. Se fosse ouvir os conselhos da mãe, Sandra sequer teria saído de sua cidade natal. Assim, sem dar espaço para o início de uma longa e tediosa peroração sobre os perigos da cidade grande, Sandra se despede: – Um beijo, mãe. Depois eu volto a te ligar…

— Um beijo, filha — resigna-se Dona Cremilda.

 

Transição - Clecius

O caçador noturno avalia o rumo de sua presa e, encontra o melhor local de ataque, longe das luzes amareladas das lâmpadas de vapor de sódio dos postes de iluminação pública e dos olhos de eventuais testemunhas. Silenciosamente, como só as criaturas nascidas para caçar são capazes de se movimentar, ele corre pelo interior da praça, tomando dianteira e escondendo-se atrás do grosso tronco de um ipê-roxo, fazendo com que seu contorno sobrenatural se confunda com as sombras. A respiração lenta e compassada do lupino solta pequenas lufadas de vapor no ar da noite, mas nada que possa alertar a mulher sobre a sina que se aproxima.

Com a atenção voltada ao som dos passos que se avizinham e do cheiro adocicado do perfume feminino que se intensifica, o lobisomem contrai os músculos das pernas e permanece com as orelhas levantadas e direcionadas para a origem do barulho ritmado.

Quando o vulto da vítima se encontra no raio de alcance de seu salto, um par de olhos fosfóricos e flamejantes se acende na escuridão e o predador implacável dispara contra a mulher. Esta se vira instintivamente, seguindo o conselho de um sexto sentido atribuído ao gênero feminino, mas é tarde demais. O choque dos corpos faz com que o ar escape dos pulmões da presa, sufocando o grito nascido do horror. Ao ser derrubada, Sandra tenta inutilmente afastar o agressor com os braços, mas sua força é insuficiente para sequer sustentar a pesada criatura, e, antes que consiga recuperar o fôlego para gritar por uma ajuda que nunca chegaria a tempo, um poderoso torno de maxilar e mandíbula com dentes pontiagudos se fecha sobre seu pescoço, torcendo-o até que o estalo como de um galho seco se faz ouvir. O gosto de cobre derretido se espalha pela língua da fera. A adrenalina disparada no momento do ataque ainda se encontra no sangue da mãe-que-não-será quando uma garra peluda abre-lhe o ventre a partir do esterno. Diferente da estória clássica, não é o lobo que é eviscerado. O talho rompe diversas camadas de pele, gordura e músculos até deixar exposta a bolsa amniótica e o feto que ainda se agarra à vida. Sem hesitação ou remorso, o licantropo arranca-o da carcaça abatida, mastigando o pequeno ser que rapidamente se transforma em pedaços sangrentos de carne, deixando rubro o focinho e os cantos da bocarra animalesca. A trituração dos frágeis ossos fetais faz com que o paladar do lobisomem se perca em intenso deleite ao sentir o sabor levemente untuoso do líquido gelatinoso da medula óssea.

Após saciar o primeiro impulso carnívoro, o lobisomem arrasta o corpo inerte para longe da trilha em direção a um conjunto mais cerrado de árvores, próximo ao leito do riacho onde despertou há poucos minutos, e, uma vez nesse abrigo improvisado, termina calmamente seu banquete macabro. Sem pressa, a criatura arranca nacos generosos dos intestinos, desenrolando-os de dentro da barriga aberta de Sandra. Na sequência, o fígado, o estômago e todo o resto do aparelho digestivo são consumidos com volúpia.

Depois de saborear tranquilamente o que restou das vísceras da mulher, o lobisomem inicia o processo brutal de ingestão completa da presa.

Os pequenos ossos das mãos e dos pés estalam como salgadinhos crocantes quando mastigados pela bocarra sobrenatural. Depois de consumir a carne, o predador passa a roer prazerosamente os ossos, procedimento necessário para repor o cálcio utilizado na modificação esquelética ocorrida no momento da transformação arcana.

Sem deixar traços que identifiquem o ataque recente, a criatura alcança dois objetivos: alimentação plena e manutenção do segredo da sua existência. Antes mesmo que lhe seja ensinado, o lobisomem possui um sentido atávico de preservação que lhe aconselha a disfarçar e ocultar o que ocorre durante sua caça.

Terminada a lúgubre refeição, o lobisomem sabe que deve procurar um local afastado das construções humanas. Seu faro indica um caminho arborizado lindeiro ao riacho. Não é a primeira vez que ele se utiliza daquela trilha para escapar para os braços da natureza.

Mas antes de empreender a fuga, com o estômago cheio e inebriado pelo aroma penetrante do sangue fresco, o lobo empina seu focinho para a lua cheia e uiva longamente em cumprimento ao astro que lhe orienta a vida.


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Mundo Alternativo, de JP Archanjo

Mês de novembro continua, bem como as postagens especiais de O Conto do Convidado! Mantendo o lado sobrenatural, mas sem o tom sombrio das histórias anteriores, os leitores de Mitópolis vão reviver as trapalhadas de P durante alguns parágrafos.

JP Archanjo é o autor convidado de hoje. Publicou o seu primeiro livro no primeiro semestre de 2018 pela editora independente Luna. É umbandista aberto às diversas religiões e mitologias, característica que contribuiu para distribuir um pouco de cada no livro Mitópolis enquanto avança a trama na fantasia urbana pelas ruas de São Paulo.

Pássaros cantam sobre uma sequência nas histórias de P e no lançamento de um livro de pequenos contos. Enquanto esses não chegam, é melhor conferir o texto que ele compartilhou para o blog a seguir:


Mundo Alternativo

Mundo Alternativo de JP Archanjo

— Ô, seu filho da puta? PRESTA ATENÇÃO! – a Estrela diz quando tento acender as velas com um jato de fogo forte demais.

Fecho a cara, só xingando mentalmente, já que estou sob juramento de que não responderei nada começando com um “olha aqui, queridinha…” hoje. Afinal, faz mais de 3 anos que a turma não se encontra. Sinceramente, só estou reclamando por reclamar, estava morrendo de saudades desse povo.

Olho em volta para o que um dia foi uma catedral gótica, as rosáceas e os vitrais precisam de uma reforma, mas as luzes da cidade projetam suas cores de um jeito suave. Me sento sozinho no que um dia foi o confessionário, segurando um copo de catuaba (deixo a bebida um pouco mais gelada com uma baforada estilo mentos).
Não comemoramos o Natal, já que descobrimos que Cristo nasceu e renasceu em várias datas, formas e corpos. Poucos de nós, também, realmente têm uma religião, então a festa de Halloween foi a única alternativa. Somos todos monstros por fora afinal. Nada mais irônico para uma turma que é a personificação da ironia.

Depois de anos à base do vamos-marcar-de-um-dia-marcar, finalmente consegui pôr Lou contra a parede e dar o ultimato. Ainda não tenho moral nenhuma para algo do tipo com a filha de Oyá, esquentadinha por natureza, mas Hélia tem o poder secreto das mulheres sobre Hor. Pondo a Mãezinha (Lou) no controle, rapidinho os ingratos se lembraram de mim e de Miler. Pedi a Jaci que deixasse a Estrela descer por uma noite, Lupinio chamou a sakura e Margot e o grupo está quase completo.
Esse quase me dá um nó na garganta.

Me levanto e arranco uma coxa de frango das mãos de Lou, que protesta de boca cheia, dou um selinho rápido no meu namorado e até recebo um sorriso de Hélia (what??), caminhando em direção à porta.
Bem, São Paulo está diferente, eu sei.
O país inteiro está depois do que fizeram com ele.

Tudo está perigosamente perto do fim e a galera está super ocupada em montar a defesa dentro de suas esferas. Mas conseguimos canalizar as sete bênçãos e pô-las em jóias. Daí foi fácil: Lou forjou um escudo de bronze celestial e Miler o cravou com suas flechas na torre esquerda da catedral.

Do lado de fora, os destroços de onde um dia ficou o cemitério da Consolação me causa um calafrio. Faz tempo que Campos Santos vêm deixando de ser zona neutra, alguns olhos famintos me encaram de entre as lápides, meio escondidos pela Garoa, hoje comum. Não existe mais disfarces, o mundo já sabe quem somos e nossos inimigos também.

Me sento no primeiro degrau. Um anjo de mármore coberto de limo está ao alcance da luz do nosso “salão de festas”, me olhando com uma expressão tão triste que me deixo levar pela emoção. Uma raiva crescente me faz arremessar o copo contra a imagem, o barulho abafado pela hera que cresce em suas asas.

— Eu sou filho de Obaluaê, agraciado por Oyá! Por que não consigo nem te sentir por perto? Hein? – esfrego os olhos, tentando parar as lágrimas. Não quero continuar mantendo esperanças, já que tecnicamente a graça dos donos do cemitério me diria se ele tivesse partido. Ou talvez não. Não importa, não VOU ter esperança.

Espero a resposta, mas só um ventinho gelado assobia em direção aos túmulos semi destruídos, bagunçando meus cabelos no caminho. Sinto uma saudade absurda tomando conta, saudade de seu jeito doce e perfeitinho. E não sinto que estou sendo desleal com Miler por causa disso.

Nunca mais!, um corvo parece grasnar pra mim.

Desço os degraus, sem tirar os olhos da estátua. Nessas horas gostaria de conseguir ficar bêbado como os normais e pôr a culpa na catuaba, mas não dá. Não sou mais híbrido, não dou PT (PT = Perda Total).

Ouço as criaturas no escuro rosnarem, movimentos de pés estalando ramos secos, cheiro de carne podre. Um estalido misturado com estática soa em algum lugar no alto. E continuo andando, fitando o anjo. Seus olhos parecem quase vivos, sua boca meio aberta, querendo me dizer alguma coisa. Caminho pelo pequeno pátio até o limite da luz e do campo de proteção místico, ultrapasso a redoma dourada e caio de joelhos alguns metros depois, chorando.

A culpa pode ser o mais poderoso dos monstros que carregamos. Estou aos pés do anjo, levemente bêbado e filosofo, puta-que-pariu.
E é então que me dou conta de que estou realmente encrencado.

— Ai, carái – digo olhando para cima.

A poucos centímetros da minha cara, dois olhos em formato de luas negras me encaram, os dentes afiados na boca estilo Pânico bafejando. Ela tinha tudo para ser diva e maravilhosa, mas o medo que me causa é bem conhecido por todos da noite. Seu culto está tão fraco que mal consegue encarar um dragão médio como eu, imagina gastar energia com estética.

— Já ouviu falar em Colgate Enxaguante Bucal, amore?

A deusa não parece muito satisfeita com minha piada e baba um litro de gosma na minha brusinha nova. Meus reflexos estão um pouco lentos, mas ela ainda rasga minha manga quando levanto voo. Fico puto ao dar a volta no anjo.

Me viro de frente para ela, que cresce com as sombras em volta, apoiando pornograficamente os joelhos nos ombros do anjo de pedra, segurando sua cabeça. Cuspo uma rajada de fogo, que surte um pouco de efeito, mas com um grito Nyx chama a horda de morcegos vampiros, zumbis e um Ao Ao (um híbrido metade carneiro em decomposição, metade normal).

— EI, GALERA, PRECISO DE UMA AJUDA AQUI! – grito, mas a Garoa aumenta e quase ouço minha voz quicando na redoma de energia, rolando de volta pra mim.

Na segurança da catedral, meus amigos riem, se divertem, esquecidos do mundo aqui fora. Consigo entender cada palavra, mas ninguém consegue me escutar.

— Clássico- resmungo.

Estou sozinho nessa e que não sou foda o suficiente para enfrentar essa multidão de míticos sozinho. Nyx se arrasta para cima, selvagem sobre a cabeça da imagem.

— Estou te oferecendo um emprego de meio período, dragão – ela lança um novelo de fios negros que passam queimando perto da minha orelha. – O turno da madrugada paga bem. São tempos difíceis para seres como você na sua esfera.

Desço até pouco acima do alcance dos mortos-vivos, encarando a deusa, fingindo avaliar a proposta. Por mais que eu saiba as vantagens do lado negro da força, nunca sairia do lado de Jaci por uma gringa estranha. Sorrio:

— A proposta é boa. Quer uma referência? DRACARYYYSS! – encho meus pulmões de fogo.

As chamas ricocheteiam no pedestal do anjo, que tem mais ou menos 2 metros de altura, queimando parte dos míticos mais próximos. Alguns chupa-cabra em chamas saem espalhando o fogo pela noite agora clara. Ganhei tempo, mas não sei bem o que fazer com ele. Nyx cai da imagem, se afastando rapidamente do campo de força, pairando entre o anjo e o limite do pátio. Ouço o estalido engraçado novamente e quando penso que não tenho mais idade para aguentar farra a noite toda, o corvo grasna logo acima.

— Que falta faz um anjo da guarda! – resmungo pela milésima vez.

Mas não tenho tempo para mais que essa frase tosca. Procuro pela origem do som e descubro a origem do ponto falho do campo de força místico: o desgraçado do pássaro está tentando arrancar uma água-marinha! A pedra provavelmente está cedendo.

Como não adianta pedir a qualquer deus para que Nyx não tenha chegado à mesma conclusão que eu, nem vejo se ela está me seguindo quando estico meu pescoço, disparando para o alto como se não houvesse amanhã. Preciso impedir que as defesas baixem, pegando meus amigos de surpresa.

As asas dos morcegos passam rente, abrindo talhos no meu rosto, pescoço e braços.

— Tudo bem, carái, mas deixa meu look em paz! – esmago um morcego com a mão esquerda quando ele rasga minha camiseta. Ok, custou 19,90 no brechó, mas é MINHA!

Quando consigo chegar a torre e espantar o corvo, que me olha indignado, sinto a presença da deusa às minhas costas.

— Se tiver criado juízo desde que nos encontramos pela primeira vez, vai me entregar esse escudo, dragão – ela estende pra mim as garras bem-feitas pintadas de roxo.

— Pode ser… – deixo meu corpo ceder, desanimado.

Conto até dois.

Um…

Dois!

Dou minha última cartada.

O mais rápido que consigo, agarro a deusa pelos braços e arremesso-a contra a cúpula dourada de proteção. A virada de ano antecipada faz um show de luzes tão grande que finalmente minha turma sai em disparada, todos de armas em punho (com exceção de Lou, segurando um sanduíche de metro como espada).

Faço sinal para que fiquem onde estão, observando os olhos de Nyx se acenderem como carvão em brasa, sentindo uma fração do ataque das 7 bênçãos que protegem a mim e aos meus amigos, agora centralizadas nas pedras preciosas do escudo.

Isso pode me custar uma inimiga feroz na Batalha Final, mas por um bom tempo não terei notícias de sacrifícios de crianças feitos a ela (seu novo agrado favorito).

Enquanto a deusa se esvai em fumaça negra pela noite, só soldo com lava a água-marinha da bênção cristie. Não sei por que agradeço a Renato enquanto toco a pedra, sentindo a cura vinda da esmeralda, a energia que as demais me enchem, fechando os cortes, aliviando a ardência.

Com a dispersão de Nyx, quase toda a sua horda mal-cheirosa foge em disparada, se entocando em suas tumbas, só alguns lobisomens mais famintos me encaram das sombras.

Plano até a borda do pátio, me sentando de frente para o anjo de mármore.  Fecho os olhos, agradecido ao deus cristão por ter atendido ao pedido de Renato para me ajudar. Sei que tem dedo dele nessa história e pode parecer loucura minha, mas enquanto caminho de costas pelo pátio, voltando para a catedral, ouço a voz do meu ex-anjo da guarda falar pela imagem do anjo de mármore:

Onde eu estiver, serei seu anjo sempre, pra sempre e independente, Paulo.


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