Categoria: Crítica dá mais XP

A Utilidade das Críticas Negativas

O objetivo das resenhas é de me motivar a compreender mais sobre os livros lidos. Entender porque eu gosto de determinadas passagens, as razões de eu achar determinada leitura maçante, aprender lições com os acertos e erros dos demais escritores e assim usar o conhecimento adquirido na minha escrita.

Ao longo das resenhas eu também fiquei mais exigente, relatando problemas encontrados até nos livros que gostei — a ponto de eu dar três estrelas na avaliação do Skoob e Amazon —, apesar de ter o cuidado de evitar esta crítica comprometer quando as qualidades do livro compensam o deslize. Então por que eu insisto em apontar essas pequenas falhas? Ou também: qual o sentido de dedicar tempo com leitura desagradável e ainda fazer questão de escrever as críticas negativas a ela? Respondo essas duas perguntas neste post, porém já adianto o motivo: incentivar a melhora da escrita.

Apenas elogios só atrapalham

Conheço canais de resenhas literárias dedicados a esbanjar elogios nos livros lidos. De qualidades diferentes, todos recebem a nota máxima e são idolatrados pela capacidade extraordinária do ficcionista. Respeito o espaço deles, possuem o direito de elogiar quem eles quiserem, e até ajuda a atrair leitores preconceituosos com livros brasileiros a conferirem esses trabalhos tão bem avaliados, por certo tempo. O problema desta abordagem acontece quando o leitor percebe que determinado canal só sabe falar bem e se decepciona com algum dos livros indicados, a reputação daquele trabalho entra em cheque junto com o de todo livro resenhado por ele depois da desilusão, prejudicando mesmo os bons autores.

Só tenho duas ressalvas: já encontrei resenhas positivas sobre livros que detestei, e nesses casos só houveram divergências entre a minha impressão e a do outro resenhista, algo comum de acontecer na análise de trabalho artístico; também há canais que deixam de postar quando a leitura for ruim, pois preferem apontar as falhas ao escritor em privado e poupá-lo de denegrir sua imagem evitando de publicar a crítica. Também discordo deste último caso, sou defensor de manter a transparência em muitos sentidos, entre eles o de demonstrar a verdadeira qualidade dos livros escritos pelos brasileiros. Ter a ciência de estar sujeito a apontamentos públicos quanto a qualidade da escrita exerce aquela “pressão saudável”, aumenta a disposição de melhorar o texto com intenção de garantir a melhor impressão dos leitores.

Ao discordar das atitudes desses colegas resenhistas, estou longe de afirmar ser contra eles. A opinião divergente faz eu agir de modo distinto, e como ainda vivemos num ambiente democrático, é possível coexistir essas diferenças de trabalho, atraindo perfis de público correspondentes à proposta do canal.

Críticas negativas feitas só por criticar também atrapalham

No outro extremo temos gente disposta a apenas falar mal. Não trabalham com resenhas, apenas são espontâneos quando detestam determinado livro e ignoram qualquer qualidade ainda disponível, insistem tanto a ponto de acusar quem gosta ter péssimo gosto. E a pessoa consegue se favorecer com este tipo de atitude? Infelizmente sim! Tal comportamento atrai a atenção de várias pessoas, podendo gerar discussão desnecessária, o que ainda assim corresponde ao bom engajamento nas redes sociais, por isso promove quem fala mal. Quando ganha atenção, esta pessoa transborda postagens e memes apenas com intuito de tirar sarro, gerar mais engajamento; é uma estratégia desonesta e fácil de executar, basta focar na quantidade e ignorar a qualidade da critica elaborada, depois é só promover o seu próprio material, pois conseguiu formar público.

Mesmo quando detesto alguma leitura, faço questão de procurar pelas qualidades do livro e mostrar os pontos fortes e fracos. Quando o livro é de brasileiro independente ou editora pequena, tem maior probabilidade do próprio autor conferir minha resenha, por isso aponto as falhas sem comprometê-lo, ou seja, as críticas negativas estão lá, só que dispostas como conselhos a melhorar, bem ao contrário de desprezar determinado trabalho só por eu encontrar falhas.

Avaliar os pontos fracos faz parte do resenhista. Reforço o dito no começo deste artigo, faço resenhas para aprender mais da escrita a partir do esforço alheio, e aprendo muito quando identifico erro nos grandes escritores, conforme até James Wood disse. A perfeição é um estado inalcançável, então todo livro está sujeito a ter pontos a melhorar. Caso o resenhista não encontre tais pontos, é porque este falha na análise, por outro lado o autor foi bom o bastante em superar a visão crítica do leitor, e levando em consideração ser mais fácil criticar do que escrever livros, esse autor possui um mérito e tanto. Confesso já cometer essa falha, nem é tão difícil encontrar resenhas minhas onde só existem elogios, basta ver os livros eleitos na lista dos melhores XPs Literários — minha meta é isso acontecer cada vez menos.

Quando a resenha é honesta, o leitor compreende as críticas negativas apontadas e as pondera com as qualidades citadas nesta e nas outras análises. Quando conhece o crítico, os livros elogiados por ele terão maior credibilidade ao leitor, pois foi mérito do autor dedicar tanto a ponto de superar os demais trabalhos analisados por aquele canal. Defendo esta abordagem sendo a mais justa aos leitores e escritores, além do cuidado de respeitar o esforço mesmo daqueles carentes de aprimorar a escrita, com intenção que de fato melhore!

Ciência: Interesse, Desinformação e Importância

Mesmo com o foco do blog na literatura, assuntos relacionados à ciência são muito bem-vindos nos posts bem como por este que vos escreve. Já abri discussão quanto a importância de todo indivíduo precisar ler artigos acadêmicos além dos problemas decorrentes na ignorância ao conhecimento. Trago assuntos tanto com conclusões animadoras como a reflexões críticas, todas com a devida importância. Vi uma matéria na semana passada com título chamativo e proposta questionável, esta a qual discutirei neste artigo quanto ao interesse, desinformação e importância relacionados à ciência.

A matéria é da TAB Uol, sobre os brasileiros serem mais interessados na ciência em comparação ao resto do mundo, baseado no estudo mais recente feito pela empresa 3M chamado State of Science Index.  A notícia seria animadora, pena os detalhes ignorados pela matéria forem trágicos. Segundo os dados da pesquisa, o interesse do brasileiro em destaque é a importância na ciência no dia a dia, onde o índice é maior no Brasil comparado aos outros 13 países avaliados. Só que este é apenas um dos índices levantados pela pesquisa, há outras questões analisadas as quais outros países se destacam, como a maior curiosidade na ciência por parte dos mexicanos, a importância de todo cidadão entender como a ciência funciona independente da profissão como os habitantes de Singapura, e o maior interesse em motivar as crianças a seguirem carreira científicas entre os sul-africanos.

Outro problema na matéria é falar dos brasileiros terem a maior percepção sobre vários aspectos da ciência do que o resto no mundo. Isto é meia verdade. O Brasil supera certos índices da média global, o erro ao dizer em superar o resto do mundo é por ter países com determinados índices superior ao Brasil, como por exemplo: 79% dos brasileiros são curiosos quanto à ciência, proporção maior a da média global de 72%, mas perde em relação à Alemanha com 82%.

Estatística - Ciência

A estatística desmente o argumento

Os interesseiros da ciência

Tanto o estudo como o destaque da matéria desperta questões quanto a importância do interesse pela ciência frente a outros fatores. A maioria dos entrevistados na pesquisa — sejam brasileiros ou da média global — assumem conhecer nada ou apenas pouco sobre a ciência. O conhecimento falha em acompanhar o interesse, e é possível testemunhar as consequências deste gargalo, dentre elas a pessoa confiar em determinado apontamento só pela menção de algum estudo sem dizer onde este foi feito ou sequer conferir a fonte original. O estudo da 3M afirma dos entrevistados terem mais confiança quando a fonte de informação vir de cientista comparado a pessoas próximas ou publicações de sites e redes sociais, entretanto não deixa claro se a credibilidade da pessoa ou publicação permanece igual ou aumenta ao dizer que tirou a informação de pesquisa científica.

O jargão “a ciência só está certa quando concorda comigo” reflete no viés do indivíduo superar a confiança no trabalho dedicado dos acadêmicos responsáveis por analisas e discutir determinado assunto. Todo o trabalho perde o valor pelo indivíduo apenas por entregar o resultado diferente do esperado por ela; tal comportamento corresponde a 50% dos brasileiros, superior a média global de 45%.

Discordar - Ciência

Os suricates discordam quanto ao formato da Terra

Em suma: o brasileiro — no geral — tem interesse pela ciência, apesar de possuir pouco conhecimento e da metade concordar com a ciência apenas quando os estudos dela for de acordo com a sua crença. Tal situação gera cenários favoráveis a matérias que atribuam descobertas a partir de “estudos científicos” e no fim nem cita quais estudos são esses. A pessoa lê apenas a matéria e aceita aquela informação sem procurar saber mais do estudo — por falta de conhecimento — ou apenas o ignora quando for contra a ideia preconcebida da pessoa.

O perigo do ceticismo

O estudo traz o alerta sobre as pessoas céticas quanto a ciência. Elas representam um terço dos entrevistados e seu número cresceu em 3% comparado à pesquisa feita no ano anterior. O ceticismo seria importante para desenvolver o pensamento crítico e incentivar o indivíduo a buscar as respostas por si, pena os motivos de os tornarem céticos quanto a ciência segundo a pesquisa da 3M demonstrar o caminho reverso.

A maioria critica a alta incidência de conflitos de opinião entre os cientistas, sinal de ignorância da parte dos céticos em como a ciência funciona, pois os estudos progridem justamente a partir da discussão de ideias, analisa as falhas de cada estudo e propõe melhorias a partir dos novos. O segundo maior motivo é por fazer parte da natureza deles questionarem sobre a maioria dos assuntos, e esta é uma ótima postura, desde que tome esse questionamento e procure as informações por si mesmo.

Também há forte incidência de argumentos sobre a ciência sofrer influência de empresas, governos ou até dos vieses dos próprios cientistas. Tal conspiração existe, impossível negar a parcela de pessoas com interesses egoístas a ponto de forjar estudos condizentes com a crença do autor — ou de quem financia o projeto. Por isso é importante haver discussão dos estudos na maior diversidade de fontes possível, assim terá a oportunidade de desmascarar estudos enviesados e intenções nada acadêmicas.

Conspiração - Ciência

Tudo feito por computação gráfica!

O ceticismo seria capaz de estimular melhores discussões quanto a ciência, pena os argumentos apresentados por eles no estudo da 3M terem o efeito contrário. Boa parte dos céticos analisados perde a confiança na ciência, e talvez isso justifique tal índice diminuir na maioria dos países analisados.


A desinformação está presente desde antes da recorrência de Fake News nas eleições do ano passado. O conhecimento científico por parte da população é prejudicado graças a ela, e ver esta alta incidência de interesse me leva ao pensamento de piorar a situação, pois o interesse sem conhecimento leva as pessoas a crerem na ciência ao invés de estudarem-na. Por isso muitos são fisgados por teorias da conspiração que soam com argumentos científicos, porém o conhecimento pertinente é ignorado pelos conspiradores e desconhecidos por quem acredita nessas mentiras. Enquanto o interesse não estiver na própria pessoa em ir atrás do conhecimento, a ciência continuará menos acessível.

Referências

Brasileiros são mais interessado em ciência que o resto do mundo (matéria do TAB Uol)

Página onde destaca o que cada país acha mais importante na ciência segundo o estudo da 3M (Em inglês)

Apresentação dos índices levantados pela 3M com opções de filtragem (Em inglês)

Arquivo do estudo realizado pela 3M (Em inglês)

Já Leu Um Artigo Acadêmico Hoje?

Já leu um artigo acadêmico hoje? Caso ache esta pergunta estranha por ser escritor e não cientista, é preciso me acompanhar neste post, pois falta compreensão da importância de tais textos, e estendo essa importância a qualquer cidadão ao conferir um artigo ou outro de vez em quando, de preferência sempre. O motivo é simples, e eu já expliquei ano passado como sendo o grande problema de 2018. Com tanta informação disponível, a sociedade falham em obter mais conhecimento e ficam sujeitas a notícias falsas, a mercê de narrativas medíocres no sentido literário e na comunicação em geral. Este Aprendizado faz abordagem genérica, útil tanto a escritores como pessoas interessadas em aprender, ou pelo menos deveriam.

Meu relacionamento com os artigos

Começarei a falar da importância dos textos acadêmicos a partir da minha experiência, demonstrando como eu também dava pouca importava a princípio. Deixo a modéstia de lado e digo que já fiz quatro monografias — concluí a última aos vinte e três anos —, quantidade pequena numa carreira acadêmica, mas maior de muitos que estudaram até o ensino superior como eu. Na minha bolha de estudantes, monografia significava apenas o passo final a concluir o curso. Procurar referências bibliográficas e catalogá-las no fim do Trabalho de Conclusão de Curso traumatiza o aluno ansioso por concluir aquele trabalho, defendê-lo e comemorar a vinda do certificado. Em outras palavras, os artigos eram apenas obstáculos quando já estávamos exaustos de estudar.

Obstáculo - artigo

Eu levando meu TCC para a banca avaliadora

Também foi assim comigo. Pesquisava pelos artigos, selecionava trechos relacionados ao tópico que eu precisava, o resumia, colocava na monografia e registrava a devida referência; e nesse meio tempo também checava as normas da ABNT, cheia de detalhes. Minha metodologia foi sistemática, voltada ao objetivo sem aproveitar as oportunidades proporcionadas por aqueles tantos textos lidos.

Só comecei a ver importância nos artigos científicos fora da acadêmia, numa plataforma incomum a buscar este tipo de conteúdo: o YouTube. Larguei canais de games e os vlogs ao descobrir influenciadores com argumentos embasados em pesquisa prévia. Comecei pelo Nerdologia e Pirula, depois conheci Ponto em Comum, Peixe Babel, Primata Falante, Canal do Slow, Blablalogia, Ciência Todo Dia… A maioria faz vídeos em formatos de vlogs, ligam a câmera e falam do assunto indicado no título do vídeo, elenca argumentos e faz a discussão do que é verídico ou pelo menos atestados pelos artigos, esses disponíveis na descrição do vídeo, bem como notícias e outras mídias embasadas.

A importância do artigo

O ideal seria ver cada artigo desses vídeos e entender mais do assunto, confesso minha culpa por fazê-lo apenas ao assistir o vídeo na segunda vez, com intenção de destrinchar o assunto e colher as referências para fazer minhas pesquisas, essas disponíveis neste blog na categoria Aprendizado. E por que é importante conferir as fontes desses vídeos? Porque a maioria são de artigos acadêmicos, cuja autoria vêm de pessoas formadas ou em formação na área de conhecimento relacionada. A dedicação deste trabalho deve ser comprovada pela bancada avaliadora com profissionais de nível acadêmicos superior, e só então torna público; toda a burocracia desta publicação garante o texto vir com a menor probabilidade de equívocos, e se eles existirem, terão outros artigos que contestarão aquele trabalho, como aconteceu na influência de jogos violentos nos atos reais, onde argumentam contra esta relação. Depois de saber a importância das referências, ainda confiará naquelas matérias sensacionalistas em que dizem “os estudos apontam” e no fim nunca explicam quais estudos são esses?

Outra crítica nada fundamentada aos ignorantes da importância das referência é sobre a Wikipédia. Tiram sarro só de ouvir alguma informação tirada de lá como tivesse nenhuma credibilidade, logo esta plataforma que disponibiliza toda referência usada! O site é excelente ponto de partida a pesquisa de fontes, e quando há falta delas, a própria página comunica ao visitante quando determinado artigo pode conter informações erradas.

Wikipedia - artigo

Wikipédia: leia as fontes!

Como aproveitar os artigos

Evitarei me estender em como buscar os artigos acadêmicos. Eu já dei a dica de começar na Wikipédia ou pelo vídeo dos canais citados. Outro ponto de partida é conferir portais de instituições renomadas pela comunidade científica, como a NASA e a revista Science. E eu preciso dizer sobre o Google? Existe a ferramenta Google Acadêmico, onde todos os resultados da pesquisa são artigos acadêmicos.

Então você acessa um daqueles textos lindos feitos por profissionais, e se espanta pelas 60, 80, 240 páginas de puro estudo! Precisa ler tudo isso? Não! Começa lendo o resumo e a introdução, caso trate do assunto desejado, pode pular direto ao tópico que responde as indagações, como a discussão e a própria conclusão. Conforme a necessidade, leia os outros tópicos e aproveite apenas as informações úteis. Caso o estudo for diferente da sua área de conhecimento, pouco adianta acompanhar cada passo da pesquisa, deixe esta parte a outros acadêmicos capazes de contestar e até provar algum engano naquele trabalho; caso provem, você não terá culpa, só recomendo acompanhar as novidades na acadêmia e encontrar o equívoco o quanto antes.

Estudar - artigo

Hum, já entendi que a terra não é plana na página 30

Além da injustiça quanto a relevância desses artigos, existem outros obstáculos ao acessar os artigos acadêmicos. Um deles é o custo, só pode consultar certos artigos ao pagar por ele, chega a desanimar a pesquisa só de olhar o preço. Alguns desses artigos ainda são acessíveis em sites piratas, feito por ativistas que discordam da distribuição desse material somente a quem tem condições de pagar. Todo profissional relacionado à publicação merece ter a remuneração garantida pelo trabalho feito, e concordo com os ativistas sobre a fonte pagadora deixar de ser os leitores, existe a possibilidade de tornar os trabalhos viáveis através de financiamento público ou privado nas pesquisas, então torne o acesso aos estudantes e curiosos o mais fácil possível! É um investimento à sociedade que ficará cada vez mais crítica e menos manipulável por narrativas fajutas.

Outro problema é o idioma. O inglês é a língua universal dos trabalhos científicos, é bom por tornar a discussão entre as pesquisas internacionais mais acessível por focar em um idioma, mas restringe a leitura de quem o desconhece. Quanto a isso eu recomendo o esforço de entender o inglês, pelo menos o necessário a interpretar as informações; eu não sou fluente, minha escrita é regular, tenho dificuldade em ouvir em inglês e sou pior ainda na hora de falar, e ainda assim leio os textos e consigo apreender as informações disponíveis. Mesmo enquanto souber apenas o português, ainda poderá consultar a partir de quem leu, como os artigos de Aprendizado deste blog, os canais do YouTube e outros sites comprometido em acompanhar pesquisas.

Conferir as novidades científicas deveriam ser exercício de cidadania. Valorizando a informação acima do locutor oferece a oportunidade de conhecer mais, reavaliar os próprios equívocos e criticar quando o outro tenta menosprezar a informação verídica. Escritores podem usá-lo como ferramenta até nos elementos fantásticos, uma fonte para especular sobre o conhecimento de hoje e refletir na construção original da ficção. Agora encerro o post com a pergunta: você lerá um artigo acadêmico hoje?

Referências

Vídeo do Canal do Slow sobre como fazer uma boa pesquisa

Vídeo do Nerdologia sobre a Wikipédia

Masterclass (Ensinando como “obter” sucesso)

— Iniciando a gravação em 3… 2… 1…

Seja muito bem-vindo à aula gratuita da minha Masterclass. Sou Zeno Gabs Arma de Peixe, o professor a te guiar ao caminho do sucesso e satisfação pelo árduo caminho da life. Estive com os melhores instrutores de meu network enquanto tirava lições dos jogos mais difíceis de videogame, sem nunca largar os livros-chave motivadores no meu achievement ao empreender em… Ajudá-lo a ter sucesso como eu.

(Estou indo bem, Alessandra? Beleza. Lembre-se de cortar nossas conversas no vídeo final, falô?)

Nos meus dezessete anos eu já atingi a meta financeira e quebrei o recorde em speedrun no novo God of War. Até consigo ouvir a pergunta quando você assistir esta gravação: “como isso é possível?” Saberá a resposta para esta e muito mais perguntas na minha Masterclass!

Deixe-me contar mais detalhes do meu aprendizado. Começo todos os meus dias com uma xícara de café com leite, tiro a amargura da bebida com pitadas de chocolate granulado. Saboreio esta delícia da manhã e penso: vou proporcionar a todos os meus clientes a mesma satisfação que é o sabor deste café. Clientes têm gostos diferentes há quem goste do café puro, com adoçante ou nem tolera cafeína, e é nossa obrigação oferecer algo capaz de agradar todos eles.

(Pare de rir, Alessandra. Sim, eu gosto do meu café assim. Está rindo da minha lição? Vai à mer…)

Anote minhas próximas dicas, compartilhe este conteúdo aos amigos e convida a todos fazerem a Masterclass com você. Fica mais divertido quando todos aprendem como alcançar o sucesso.

Preciso fazer uma pergunta antes da próxima dica: qual o seu work enviroment? Aposto ter pelo menos Ar condicionado, computador avançado e cadeira confortável. Largue tudo isso, mantenha apenas o computador avançado. Desligue o ar condicionado, melhor ainda, aumente a temperatura. Rasgue a cadeira e coloque objetos desconfortáveis, eu coloco bolinhas de gude na minha. (Não, Alessandra. Nenhuma bolinha entra na bunda quando eu sento). Ninguém obtém sucesso ficando acomodado, trabalhe sob pressão e busque resultados antes de sofrer hipertermia, antes de sofrer o fracasso.

Falhou? Mude o mindset e tente de novo, e acrescente um grau no ar condicionado, trabalhe de pé também, fique sem café a cada erro cometido. Empreendedorismo é isso, sofrimento. O desafio é ainda maior por vivermos no Brasil. Ainda assim eu consegui e fiquei milionário. Depois de superar todas as dificuldades, estou no topo e vejo como a vista é maravilhosa. Cada gota de suor em meu trabalho valeu a pena.

Pouco adianta repetir os fracassos. Precisa ter o conhecimento adequado e saber investir nas novas tentativas. Desenvolvi minha metodologia no que há de mais avançado na física quântica, esta ciência sensacional. Se foi aplicada até no gato de Schrödinger e em colchões, também é possível transformar o seu mindset em quântico. Ensino os princípios científicos desta novidade já na segunda aula da Masterclass. Newton viu a maçã cair na própria cabeça e então formulou as regras da gravidade. Eu farei com que enxergue todas as oportunidades da vida como esta maçã e aplique a relatividade de Einstein ao novo empreendimento de sucesso.

— Interrompi a gravação. Já chega, Roberto!

— O que foi, Alessandra?

— Nunca ouvi alguém falar tanta besteira. Me nego a editar isso.

— Olha, querida, é o seu primeiro dia aqui. As aulas são estranhas mesmo, mas todas planejadas como diferencial do nosso trabalho. A senhorita faz a menor ideia do quanto lucramos com esses cursos masters sem precisar ensinar algo de verdade.

— Este é o problema, senhorito. É desonesto. Recuso a trabalhar desta forma.

— E vai trabalhar como? Falta vaga até para caixa de supermercado.

— Falta nada. Encontrei duas vagas na mercearia perto de casa quando achei a sua proposta de emprego também. Vou lá agora mesmo, onde deveria desde o começo. Tchau.

— Espere, Lê! Está proibida de sair. Volte aqui. Vai mesmo quebrar o contrato? Droga, eu esqueci de fazê-la assinar.

“Tarde demais, ela foi embora. Quer saber? Farei a edição eu mesmo, aprendo com tutorial no YouTube. Só preciso ligar e concluir este vídeo. Vamos lá.”

A luz vermelha quer dizer que está gravando? Tomara.

Incrível como qualquer empreendimento faz sucesso quando bem sucedido. Mostro já na quarta aula o exemplo no qual poderá aplicar na prática e já começar a highway to the top life! Ensino como ganhar dinheiro passando pano para as figuras públicas mais importantes do país. Sucesso garantido, basta fazer a matrícula. Invista mil reais mensais e ganhe o e-book de brinde, o link está na descrição deste vídeo. Fico por aqui, ciente de te ver outra vez no meu curso. Até breve!

Influenciadores X Informação

Já estamos em 2019. Eu sei, já é tarde anunciar o ano novo após quase cinquenta dias de estreia. Só o faço porque o grande problema de 2018 continua mesmo após o réveillon. Publiquei o artigo há mais de um ano falando como a ignorância dos brasileiros frente ao conhecimento pode prejudicar muitos aspectos de nosso país. Ninguém é obrigado a saber de tudo, e eu demonstrei as minhas falhas no outro texto e propus a todos nós procurar melhores informações. A copa do mundo passou, o novo presidente já assumiu os trabalhos e já retirou a bolsa de colostomia, e a ignorância permanece.

Fácil de notar a insistência deste problema quando os brasileiros engoliam rajadas de fake news durante a eleição, e ainda assim vemos algumas até hoje. Enquanto estivermos a mercê da ignorância, esta permanecerá como o Grande Problema de 2019. Eu também persistirei nesta discussão, e este post agregará argumentos para outra situação: a disputa onde a informação perde de 7 a 1 contra a influência.

Há grandes chances de nossos filhos, sobrinhos, pais e mães sofrerem influência da ideologia dos comunicadores da mídia. Não mais a tradicional, mas a descentralizada da internet. Longe de partir dos professores ou de cientistas, e sim de YouTubers.

Os criadores de conteúdo da maior plataforma de vídeos vigente são os responsáveis por tirar cidadãos de bem e crianças das questões importantes da sociedade, além de problematizar pontos inúteis de discussão onde leva a lugar nenhum, na verdade tira o foco do essencial.

Plataforma de vídeos — e influências

A Google disponibilizou o relatório pomposo, cheia de orgulho do alcance propagado pelos produtores de conteúdo no YouTube. O número de visualizações só aumenta, pessoas dedicadas a disponibilizar vídeos no site conseguem rendimentos capazes de manter a vida financeira, são a fonte favorita de mídia para saber de assuntos específicos ou conteúdos agradáveis a quem assiste. Perdem em influência apenas contra amigos e familiares, os espectadores confiam mais neles do que no jornalismo tradicional e na TV aberta. Sabe os temíveis professores e cientistas influenciadores? Eles existem, com certeza! Apenas não em proporção suficiente a ponto de nem se destacar entre os demais setores da estatística.

O relatório exalta o alcance do YouTube com objetivo de divulgar o mecanismo de patrocínio entre os produtores de vídeo e as marcas interessadas em anunciar produtos. E de fato os YouTubers são excelentes em engajar os espectadores a conferirem as novidades anunciadas nos vídeos — fator destacado no relatório — e mal precisa observar muito quanto a eficácia da influência. E o problema existe bem aqui. Os produtores são excelentes em convencer o público fiel deles a seguirem dicas, garantem a visibilidade da marca através de patrocínio, e vão além de propagar produtos e serviços de empresas.

Ideologias são conjuntos de ideias vendidas a quem acredita nelas, e os YouTubers sabem vendê-las. Além disso, estão cientes de como seu público aceita o que assiste sem checar a realidade proposta no vídeo. Eles também não sugerem aos fãs como se informarem, ou melhor, citam apenas as “fontes confiáveis” cujas pessoas compartilham do mesmo interesse defendido pelo produtor, além de demonstrar os pontos contrários de modo que eles soem fúteis a sua audiência. Pouco importa, o público já está cativo de seu conteúdo e tomará o discurso como verdadeiro, quando na verdade é apenas verossímil. Apresentar meios de obter informações além dos influenciadores é ineficaz, esmurrar a ponta da faca machucaria menos.

Existe solução?

Refutação honesta

Segundo um estudo feito através de estudantes sobre pseudociência, a melhor forma de desmistificá-la é apontando as suas características e as falhas. Sem editar fragmentos do argumento no intuito de torná-lo bobo, nem diminuir o locutor da mentira por nível social ou campo ideológico. Apenas a apresentação honesta da ideia equivocada lançada pelo influenciador, e a exposição sincera das informações necessárias para provar o erro.

O estudo trata de pseudociências, e vejo como alternativa a qualquer informação defasada por YouTubers, afinal eles mesmo já operam desta forma, exceto que eles manipulam os argumentos contrários de modo a aparecer fracos contra os deles.

Há as suas limitações. Pelo estudo analisar um caso de estudantes, o resultado vem de evidências anedóticas, mas pelo menos essas são possíveis de replicar. Como o  artigo publicado ano passado neste blog que analisa as características da astrologia e o motivo de elas serem falsas, apresenta os pontos defendidos por ela e em seguida traz argumentos contrários, ou ao menos provocam reflexões de como a astrologia depende mais da influência do que a veridicidade das informações.

A crença na astrologia ainda persiste mesmo depois de eu publicar meu artigo, nem meu post sobre fake news destruiu a propagação de notícias falsas, muito menos o texto do Grande Problema de 2018 nos salvou da ignorância. Eu sempre dedico esses textos com intuito de colaborar com a discussão demonstrando a minha interpretação das fontes consultadas (lembre de conferir as referências deste artigo também). Quero influenciar ninguém, no máximo incentivar o pensamento crítico. Sigo neste trajeto de debate, pois a trilha é longa e oferece oportunidades de aprendizado quando a percorremos.

Referências

O poder dos YouTubers

Texto do André Azevedo sobre a (má) influência dos YouTubers

Confrontar pseudociências faz sentido?

Effect of Critical Thinking Education on Epistemically Unwarranted Beliefs in College Students

Mimimi Sobre Mimimi

Hoje é tudo mimimi. Pessoas reclamam tanto da “geração mimizenta”, que fazem mimimi delas também. Talvez soe como se eu desencadeasse outra corrente pelo título, o mimimi de pessoas que fazem mimimi com quem fica de mimimi. Negativo! Já chega disso. 

Chega de Mimimi

Reclamar de algo virou moda, está recorrente e criará bolas de neve cada vez maiores. Um dos meus primeiros textos no blog é sobre lamentar, explico sobre os problemas permanecerem enquanto só reclama. Por outro lado, críticas ajudam a todos, caso bem ditas.  

Percebo haver certa dificuldade de ver as vantagens entre conflitos de ideias. Certas soluções atendem um nicho de pessoas e prejudicam todas as outras, e devem ser refutadas. As outras ideias estão longe da perfeição, satisfazem certos grupos em certos momentos, e por isso precisam de debate sobre qual a melhor alternativa, a capaz de atingir o maior número de pessoas necessitadas. Pena eu ver pouca discussão entre as propostas e mais apelos, xingamentos e estímulos através da repulsa ou medo, mesmo utilizando mentiras

Vamos simplificar o exemplo com dois lados, o vencedor e a oposição. Quem perde repudia os erros, cada ideia do vencedor está errada, obra do malvado favorito da oposição. Muitas das ideias são horríveis mesmo, com pontos de vista limitados e diminuem a importância da outra causa. Mas a refutação dessas é atribuída ao malvado favorito do vencedor.

A oposição deveria se valorizar, parar de responder com emoção e, sabe, usar argumentos na discussão. Emoções não correspondem, e por isso são minimizadas, mimimizam o “mimimi” do contra. Entende onde quero chegar? 

Quem diminui a reclamação alheia também se prejudica. Ignora as críticas ao invés de filtrá-las, desconhece as falhas do plano e até fica surpreso pelo fracasso, então aponta os erros da oposição para ocultar os próprios. Só esquecem do principal: resolver o problema. “Problema? É só o outro problematizando minhas ideias. Impedem de eu trabalhar, esses mimimi.”

Mais Mimimi
Mais Mimimi

Então a oposição enfurece, esclarece os motivos da crítica ser válida, e o outro lado só ouve mais mimimi. É a culpa do vencedor? Convém a oposição que seja, pois vira brecha para apontar o quanto o outro é ignorante. Porém quero pegar nos braços da oposição neste momento e dizer: a culpa é sua. Deixe de esmurrar a ponta da faca, precisa de outro método, selecionar melhores argumentos e afiar ferramenta de defesa. Com isso o outro lado deve trabalhar nas réplicas, faltará oportunidades de diminuir a oposição e demonstrar a verdadeira capacidade, caso a tenha.  

Imagino alguns dizerem o quanto sou inocente. Ideias são o de menos dentro do jogo, há o mecanismo capaz de manipular e favorecer determinado lado. Só que o mecanismo funciona porque ninguém o vê. Se houvesse discussão de verdade, o mecanismo seria mais transparente, portanto os argumentos poderiam atacá-lo, mostrar motivos de removê-lo e tirar esta ferramenta ultrapassada. Em outras palavras, o mimimi está ocultando o mecanismo. 

Mind blow - Mimimi

Está além de ficar exausto com brigas irrelevantes. Eu vejo irmos ladeira abaixo, de todos os lados. Precisa eliminar este egoísmo caso queira mesmo ir em frente, senão é o mundo que seguirá adiante e nós ficaremos atrás. 

Estamos perto de outro final de ano, e caso seja desses a fazer promessas ao ano seguinte, recomendo esta: procure entender o outro lado. Ouvir a opinião alheia não lhe converterá, e esta nem é a questão. Toda informação é valiosa, mesmo as horríveis. Mantê-las demonstrará seus defeitos e evitará de elas retornarem sob novos aspectos. 

Cumpra essa promessa e já resolverá a outra: parar de mimimi e levar assuntos sérios com a devida importância! 

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