Categoria: Contos/Crônicas (Page 3 of 5)

Contos e crônicas sobre diversos temas

Convergência, pt. 4

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Esta parte em particular contém cena inadequada a leitores menores de idade, pule a cena e leia o desfecho clicando aqui.


Abre os olhos, enxerga nada. Corpo deitado, a palma da mão toca no chão de textura macia, as costas sentem frio como as pernas, as coxas, e as nádegas. Encosta nas pernas, barriga e quadril, só sente a pele, sem tecido sobre o corpo, sem roupa.

Pés descalços firmam no chão e Thiago se levanta. Deixa de sentir dor, a musculatura livre da fadiga, feridas desaparecidas. Desliza as mãos no peito, do queixo e bochecha à testa, tudo está tão rígido, inclusive a barriga com menos volume. Olha ao redor, apenas escuridão se manifesta. Anda em círculos, ergue os braços, encosta em nada. Caminha em frente, aumenta o passo, corre, salta, escorrega; toca apenas o chão macio.

Brilho azul atinge as costas. Luz fraca e distante reflete na superfície negra, Thiago se vira e vê um par de faróis azuis e duas formas verticais crescendo com o brilho da mesma cor. As formas verticais encurvam na parte de baixo e se estreita na ponta afiada, lembra os chifres vistos nos onis, apesar de menores.

O conjunto de luzes se aproxima, Thiago assimila o vulto aos poucos. De estatura baixa, pernas fortes, quadril largo, e peitos volumosos. Ouve a sacudida nas costas da silhueta, o bater de asas faz o corpo flutuar.

Súcubo - convergência

Ele a observa, pés escorregam para trás enquanto vê os dela pintados de negro, de pele morena. Ela paira acima dele, o brilho azul vem dos olhos igual os de fada, e fios de cabelo se  enrolam no par de chifres brilhantes. Diminui o ritmo das asas de morcego, desce devagar, balança o quadril, provoca o olhar de Thiago que atinge as coxas, o quadril nu sem pelos e úmido, a barriga magra, tudo sem estrias, e os peitos dela. Os peitos dela. Tem algo de diferente com Thiago.

A moça de olhos brilhantes toca os pés no chão, sorri para ele, estica apenas um lado dos lábios, depois revela os dentes e morde de leve o dedo, fecha a boca, tira o dedo babado e desliza sobre os seios, deixa a saliva escorrer. Thiago treme diante do olhar feminino, ela não pisca. Desliza passos contra ela, encabulado. Olha tudo nela, tudo bonito, sonho sensual se torna realidade, e nada acontece, sobe ou endurece.

— Então você é tímido? — diz sem tirar o sorriso. — Sei como você quer, gosta desse jeito, sem pelos, baixinha, atributos nada modestos.

Avança em Thiago e encosta seu peito sobre o dele, apenas com as pontas dos dedos no chão.

— Não é assim que sempre quis?

Flexiona mais as pontas dos dedos, aproxima os lábios dos dele, escorre a baba no queixo barbudo, beija na boca, e Thiago recua, tira o sorriso dela.

— Mas o quê? Você é gay ou… Eu nem estaria aqui se fosse. Então qual o problema? Por que seu treco está murcho?

— Eu… Eu não…

Bate as asas e se lança sobre ele. Agarra o pescoço, segura o cabelo com a outra mão, e rouba outro beijo na boca de Thiago, penetra sua língua e suga dentro dele, chupa a saliva e absorve a energia de dentro, energia sobrenatural. Morde os lábios dele antes de desprender a boca e deixá-lo cair. Thiago toca a ferida, sangue escorre por onde foi mordido e suja a mão. Ela o esgana de novo.

— A minha primeira vítima deste lugar é alguém contaminado com a energia sobrenatural que inibe a libido?

— Sei lá! — Empurra a mão dela e retira do pescoço. — Espera. A Joana, aquela mão em chamas. Foi aquilo?

— Garoto inútil. Fez eu perder meu tempo.

Volta a flutuar e apaga o brilho dos chifres, fecha seus olhos e voa até desaparecer. Tudo volta à escuridão, esta se comprime, aperta Thiago e o sufoca, expulsa-o desse lugar.

 

*

 

Desperta no chão encharcado da cozinha. Levanta assustado, movimento brusco, por pouco acerta a testa da mulher ajoelhada perto dele e faz a fada saltar do peito e acordar em queda livre. m’Ylleihon resmunga e voa para fora de casa.

— Calma, Thiago! Sou eu, a Prima. Você estava tendo um pesadelo.

— Oi, Priscila. — Segura a nuca, resmunga da pontada de dor, todos os sentidos voltam ao mesmo tempo. O corpo frio sobre a água, o cheiro feminino encharcado de suor, a cachoeira da pia e corrente de água ecoam na cabeça, o cômodo escuro iluminado pela luz de fora, o grande brilho da Convergência, essa putaria não tem fim. — Não foi pesadelo, nada disso é.

— Como vamos conseguir sobreviver, Di?

Thiago fica de pé e ajusta a calça molhada. Fecha a torneira da pia e pisca os olhos. Cabeça exausta, dor retorna no corpo. Ele range os dentes e se segura no granito, pernas querem se dobrar, Thiago prefere sobreviver.

— Eles atacaram a UPA, todos nós corremos, muitos morreram. — Ela abraça o seu braço, repousa a cabeça no ombro e olha o chão. — Perdi Joana de vista. Deus, ela pode estar morta!

— Joana tem de sobreviver, Pri. Ela merece.

— Todos nós devemos. Vi o recado da Dona Cristina na mesa, ela está bem e nós também podemos! Vamos com o seu carro, Di. Vamos fugir e resgatar quem tiver no caminho.

— Eu te dou a chave, pode fugir.

— Como?

Arrasta a cadeira e desaba o corpo nela. Pés de madeira escorregam, assento reclama do quadril pesado, racha por baixo, mas aguenta o corpo de Thiago.

— Eu já sou uma aberração, Prima.

— Joana me contou sobre vocês, e foi mesmo repugnante.

— Esquece aquilo. É algo bem mais sério.

Priscila arregala os olhos. Luz do céu noturno brilha no suor frio da pele negra e das lágrimas a se formar outra vez, e dos dentes fechando.

Algo mais sério? Ainda faz a menor ideia do que fez com ela, Di?! A deixou com medo, assustou antes de qualquer bicho estranho desta noite. — Empurra o peito dele. — Tem razão, você é uma aberração, sempre foi um monstro entre nós.

Ela se segura nos ombros dele. Thiago começa a sentir calor, aquele calor, e vislumbra a mão direita de Priscila Marina consumida pela chama negra.

—  Pri, por favor! Tenha calma.

— Não me peça calma! Homenzinho nojento, machista, escroto!

Empurra Thiago contra o encosto da cadeira, pressiona o peso do corpo dele contra o assento e quebra de vez. Ele desaba ao chão com o objeto partido em dois, raspa as pernas na madeira, recebe alguns furos com fiapos, e traz Priscila consigo na queda, bate a testa no rosto dele, provoca sangramento na boca. Prima tenta se recuperar, estica as pernas, mas os pés escorregam no chão molhado. Ela volta a cair, tenta se apoiar com as mãos, e a da direita atinge o peito de Thiago, onde atravessa a pele, afunda até alcançar o coração. E começa a queimar.

Fumaça escapa da boca de Thiago, e ele começa a gritar. Rasteja o corpo sem sair do lugar, a mão de Priscila permanece grudada ao coração, permanece ali até acabar de arder, transmitir a energia sobrenatural, conceder-lhe uma nova maldição.

O fogo desaparece da mão de Prima, e ela cai de costas. Olha os dois braços, a palma direita com o sangue de Thiago, ele levantando, queimando em negro.

E o rapaz sente o peso da energia no coração. Uma força dolorosa feito punho de ferro apertando seu órgão. Dor espalha pelo corpo, toma controle das pernas que levantam Thiago, os braços acumulam massa muscular, a cabeça embaraça os sentidos, a coluna se curva e aproxima da moça sentada, as mãos apertam a garganta dela e interrompe a passagem de ar.

— Por que você fez isso comigo?! — A voz dele ecoa na cozinha com som gutural sobre-humano.

Convergência, pt. 3

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Pernas queimam, musculatura endurecida e tornozelos fracos. Thiago se esgueira entre centauros e trolls, salta e foge de projéteis mágicos dos elfos, corre de outra mula sem cabeça e de diabretes. A ponta do calçado raspada de tanto tropeçar no grande morro da entrada do Jardim Pereira. Pedras minúsculas grudam na pele, arranham nas feridas feitas nas quedas e pelas garras das harpias.

Não é o protagonista do confronto, as criaturas brigam entre si. Entre xingamentos e fogo cruzado, Thiago ouve gritos de acusações entre eles: bruxas contra harpias, lobisomens contra oni, outros yokais contra ninfas. Só os elfos não acusam, se defendem de todos, alegam da Convergência acontecer para combater um perigo maior, impedir o crepúsculo definitivo. O humano quer apenas evitar o próprio fim e o da sua família.

Alcança o topo, infla o peito e tosse o carbono do corpo, fôlego exige retomar a respiração depois do trabalho intenso nas pernas.

Casas à esquerda destruídas, sangue tinge os quintais de várias, uma com braço humano largado na  batente da porta, sem o resto do corpo e dois dedos a menos. À direita a área florestal protegida pela Secretaria do Meio Ambiente, mas não da Convergência. Corpos de cachorros e gatos saem da terra, enterrados pelos vizinhos. Peles rasgadas, olhos comidos por bactérias, ossos expostos e dentes podres, línguas comidas pela metade; assim voltam à vida. Dois homens e uma mulher também se levantam abaixo da terra, Mairiporã sempre teve bons locais para desovar corpos.

Cinco árvores despencam junto com a caçamba na rua. Os cascos da criatura explodem o som agudo ao cair no metal da caçamba. Pelos longos e afiados por todo o corpo, cabeça estreita em contraste com o corpo largo, gordo, e alto. Thiago tampa os ouvidos contra o grito gutural do monstro, um som que sai na altura do estômago. Confuso, descobre o porquê quando a criatura vira o corpo e olha ao redor: seu único olho ocupa quase toda a parte da cabeça, e a gigante boca fica na barriga. É o mapinguari.

Mapinguari - Convergência

Hora de correr pela mata. Thiago tropeça entre galhos caídos na terra, interrompe a queda porque bate no tronco do coqueiro de pé a frente. Respira, retoma o fôlego. Observa o mapinguari andando na rua, a baba escorre pela boca na barriga e encharca coxas, pernas, cascos e chão, o odor da saliva parece rasgar o nariz de tão azedo. Os mortos-vivos correm floresta adentro, um dos cachorros tropeça em outro galho, a pata direita desgruda do corpo com o impacto, ainda sobram três, e ele foge junto com os gatos e humanos. Fica somente Thiago, que perde o fôlego.

Confia nas pernas dormentes e anda entre os troncos. Evita pisar em galhos, sem tropeçar nas madeiras nem chutar a cobra-coral. Como esse bicho ainda está lá, parado, em meio a todo esse caos? Contorna o réptil enquanto encara o monstro brasileiro.

Luzes verdes pairam sobre a cabeça de Thiago, depois vem outras de cor violeta, rosa, amarela; não são vaga-lumes. Abana os braços, assopra, sussurra “sai daqui”, e elas desobedecem, batem as asas na frente dele, encara com os olhos iluminados, e começam a se segurar em Thiago. Camisa, calça, antebraços, puxam seu cabelo, outras entram nas botas, uma de brilho violeta segura na orelha e sussurra:

— Ajude-nos!

Fadas - Convergência

As outras fadas repetem o pedido e piscam, brilham com mais força, e fazem piscar o olho do mapinguari, que olha Thiago todo colorido.

— Agora ele nos viu, suas filhas da puta! — berra quando começa a correr.

O monstro persegue Thiago. Passos nada ágeis, mas as pernas compridas encurtam a distância entre o humano. Um dos dois cascos encontra a coral e esmaga o corpo quando pisa, a serpente reage, ergue a cabeça acima dos cascos e morde a perna do monstro. Mapinguari continua a andar, indiferente ao réptil que rasteja na direção contrária com a parte do meio do corpo amassada.

Ambos saem da mata, prestes a descer a rua da casa de Thiago. O monstro começa a sugar o ar com a sua boca, aspira com força e arranca algumas fadas do corpo de Thiago. Incapazes de se segurarem, elas caem no abismo daquela abertura do estômago. Desacelera o passo e fecha os lábios, mastiga as pequenas criaturas que explodem gritos de dor e horror abafados dentro da boca. Engole todas de uma vez.

Entre choros agudos, as fadas sobreviventes desprendem de Thiago e flutuam na altura do único olho monstruoso. Acendem o brilho intenso a ponto de ofuscar a visão do humano contra a luz do céu noturno e fazer o olho do mapinguari lacrimejar. Desequilibrado, o par de cascos batem entre si e fazem o joelho dobrar, a coluna do monstro se curvar, e a cabeça atingir o portão da casa ainda inteira da rua, de grade de barras enferrujadas e pontas com setas afiadas que furam o olho do monstro. O sangue escorre pelos ferros dentro do globo ocular, desce pela rua, e mapinguari não levanta.

— Conseguimos, conseguimos! — grita a fada ainda na orelha de Thiago.

— Obrigado. — Leva a mão à orelha e acaricia as costas da fada com o dedo indicador. Provoca risadas na menininha voadora, mas ela se segura mais forte nele.

— Estou cansada, quero descansar.

— Está bem, fada, descanse. Você merece.

— Meu nome é m’Ylleihon.

— Vou te chamar de fada mesmo.

As colegas de m’Ylleihon se dispersam de volta a área florestal, e Thiago alcança a rua Maria do Valle. Atravessa a casa da Priscila Mariana, telhado derrubado dentro de casa, vê o sofá partido em dois na janela trincada.

— Estou cansada — repete m’Ylleihon.

Thiago alcança o lar. A janela do quarto dos pais aberta, o portão do quintal fechado. Portões escancarados na casa da frente, o Uno do vizinho não está lá, tampouco o Gol de 96. Volta a encarar o portão da própria casa, sem cadeado, abre a trinca e corre pelo quintal com o Palio estacionado e intacto. Abre a porta da sala, a lanterna ligada sobre o sofá. Pega e confere o cômodo, a luz brilha na tela da televisão, nos quadros de fotos ao chão molhado, entra na cozinha de cadeiras espalhadas, torneira aberta e água encharcando o piso, porta do fundo aberta. Volta a iluminar a mesa e enxerga o pedaço de papel toalha no centro com rabiscos feitos a caneta.

“Thiago,

“Fugimos com o Moacyr e seu irmão até a Igreja de Terra Preta. Nós tentamos te ligar, mas ficamos sem internet e você sabe como o sinal daqui de casa é horrível. Fique com Deus, que Ele te dê força e proteja a Joana, e faça a gente se reencontrar depois deste pesadelo. Te cuida.”

— Péssimo momento ao falar de deus, mãe. — Thiago aperta o bilhete. — Fomos abandonados.

— Estou cansada.

— Eu já entendi, fada!

— Eu…

m’Ylleihon espirra. Em vez de catarro, espalha pó violeta que flutua, alcança o rosto de Thiago e invade o nariz. O cheiro doce de uva toma conta de sua atenção, o pó entra no organismo e relaxa a musculatura, inibe a dor de todo o corpo, tira a força e a consciência de Thiago. Ele cai no meio da cozinha, bate a nuca na quina da mesa sem resmungar, sem dor. Costas despencam contra o chão e ali permanece, de olhos fechados. A fada deita sobre o seu peito e dorme.

Convergência, parte 2

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Thiago começa a tossir. Cheiros desconhecidos invadem as narinas, expelidos dos catarros do goblim, dos cabelos encharcados da bruxa gargalhando ao lado, das fezes de sirenas flutuando nos céus, do chulé do pé grande adolescente de apenas dois metros de altura, e da fumaça.

A névoa de ervas queimadas se concentra entre ele e a aberração anã. Aromas misturados ao fumo ardido arranha os pulmões do humano, inofensivo ao olfato do goblim, apesar de ele levantar a cabeça e procurar quem causa a fumaça.

Ele descobre, ou melhor, o responsável se entrega ao esmurrar o rosto do monstro. Braço largo e negro colide com a bochecha, trinca a mandíbula, entorta mais os dentes e arranca dois com o impacto. O corpo voa no outro lado da rua, bate contra o muro da casa vizinha a de Felipe, e deixa marcas de sangue da boca enquanto desliza até o chão. Sem mais sons temíveis, o goblim grita lamentos agudos, chora feito bebê.

Thiago vira o corpo, fica de joelhos, prestes a se levantar. Observa quem o salvou, a única perna negra, de bermuda vermelha, abdômen e peitoral de fisiculturista, músculos do ombro escondem parte do pescoço. De pé, Thiago ergue a cabeça e vê a dele, com um barrete vermelho acima e cachimbo nos lábios.

Saci - convergência parte 2

— O saci!

— Ora, ora! Temos um mó Sherlock Holmes por aqui.

— O que está acontecendo? Vocês vieram de onde?

— Eu, cumpadi, vim do Rio de Janeiro. Tava aqui de boa jejuando no monte do Olho d’Água quando essas paradas de gringo arruinaram minhas férias e nosso disfarce.

— Não entendo.

— A única parada que cê tem de entender é ralar o peito daqui. Vá buscar algum abrigo com os bichos do nosso lado e fique seguro, sem caô.

— Mas…

— Vaza! A sua mina já meteu o pé faz tempo.

Obedece o saci. Está perto de casa, bastaria subir o morro e depois descer a direita no Jardim Pereira. Fácil, se o percurso não estivesse lotado de monstros.

Desce a rua da Unidade de Pronto Atendimento, vê pessoas correndo até o prédio público, enxerga Joana atravessando ao lado de um ser gigante na entrada, com chifres na cabeça. Corre como os outros, pés pesados batem o asfalto, as costuras do sapatênis começa a afrouxar, suor impregna na camisa, tecido se levanta e expõe o umbigo e os pelos da barriga.

É atingido por trás. Coça a cabeça antes de atingir as costas no chão, pontas do cabelo queimam, arde quando passa a mão. Está em chamas!

Bate na nuca e consegue apagar o fogo, poucas brasas comparadas a quem o atingiu, e ela encara Thiago se recuperando da queda, bate os cacos no chão e grita com voz de mulher. O corpo de mula, a cabeça coberta de chamas.

Mula Sem Cabeça - Convergência parte 2

O corpo de Thiago entra em choque, disputa a vontade de fugir com o pavor que vibra suas pernas sem sair do lugar. Encara a besta do folclore brasileiro, ela estica o fogaréu da cabeça, bate os cascos da frente duas vezes e corre contra Thiago. Ruído de trote ricocheteia pelos ouvidos. Ele fecha os olhos, aceita o fim sem obter respostas desta noite macabra, e ouve o relinchar sobre o grunhido que interrompe o som do galope.

Abre os olhos e perde o fôlego. Uma mulher está sobre a mula sem cabeça, unhas encravadas na barriga, a outra mão no pescoço, as presas da boca sugando sangue do dorso. Tira os dentes da carne do animal e vira para o Thiago, boca suja até os queixos, olhos cor de brasa brilhando na noite clara.

— Entra logo no posto! — E a vampira morde a mula outra vez.

Corre pela calçada distante das duas lutadoras e só atravessa na frente do prédio. Tropeça entre as colunas da entrada, mas a mão do minotauro segura pelo pulso, melhor dizer, por todo o braço de Thiago. Agradece sem voz, apenas assente na altura do abdômen do ser mitológico e vá ao abrigo com os demais.

Minotauro - Convergência parte 2

Rostos conhecidos na sala de espera, poucos de nome, o resto é de ver todos os dias pelas ruas. Reencontra Joana, ajoelhada e aos abraços de uma amiga em comum.

— Horrível, Prima! A pior noite da minha vida. — Priscila Mariana apenas escuta o lamento de Joana. Encara Thiago com os lábios fechados, sobrancelhas apertadas, os braços morenos colocam mais força na amiga, segura a nuca dela contra o próprio ombro.

Ele anda até o outro lado da sala. Vasculha os outros rostos consigo, alguns moradores do Pereira. O vizinho da casa ao lado está com sua esposa, os filhos abraçados neles, o mais novo disputa o som das sirenes da ambulância com o choro. Todos distraídos demais, sem notar Thiago. Se estão aqui, onde seus pais…?

Vai até o balcão e pede o telefone emprestado ao recepcionista. Tecla os números, cancela por discar errado. Dedos trêmulos apertam a tecla do lado de novo, esmurra o telefone na base e tira, tenta outra vez, disca os quatro números comuns daquela região, mais dois, quase erra o sétimo número, aperta o último, aguarda a chamada, e uma explosão da rua antecede a queda de um poste, cai consigo os fios de energia, internet e telefonia; todos arrebentados. O telefone fica mudo, as lâmpadas apagadas, a sala ainda iluminada pela luz do céu.

Coloca o aparelho no lugar com lágrimas nos olhos. Tenta pelo celular, é em vão, nunca há sinal neste prédio.

Ventania rompe os vidros dos portões de entrada e resfria a sala, folhas dos arbustos voam da praça ao lado da Unidade até ali, no meio dos abrigados, entre o saci que trouxe os ventos fortes e duas crianças no colo. Agacha e deixa elas largarem cada um dos braços e voltarem ao chão.

— Preciso de ajuda, saci! — Thiago corre até o carioca.

— Meu nome é Saré, mané! Ou cê acha que só há um saci, uma vampira e um minotauro no mundo?

— Tudo bem, Saré. Preciso de ajuda.

— E eu tenho cara de gênio? Minha parada é proteger ocês, não ser seu empregado.

— Meus pais ainda estão por aí! Você deve proteger a eles.

— Se liga, tô fazendo isso mermo, protegendo. Só não garanto nada, somos poucos contra aqueles sinistros.

— Vocês são poucos contra um monte de sinistros, mas aí, quem são vocês? Porra, nós precisamos saber como vocês apareceram.

— Ah, tá! O mauricinho quer parar meu trampo pr’eu explicar a Convergência. Não rola, mermão. Já perdi tempo demais c’ocê.

Thiago olha ao redor, só ele resmunga. O resto de caras fechadas e corpos encolhidos contra as paredes, ou sentados nas cadeiras. Banheiro logo a frente, apesar da urina impregnada em várias calças, de crianças a adultos e adultas; também esvazia a bexiga.

Prende a respiração, fecha os olhos, aperta os punhos contra a palma. Dá o primeiro passo. Abre-se contra o perigo. Precisa de respostas, sobre essa Convergência, principalmente sobre os pais.

Avança. Tomba o ombro no de Saré, que meneia a cabeça e deixa ele passar. Alcança a entrada e ver o braço erguido da vampira em seu caminho, então o minotauro toca nela e faz ela abaixar.

Thiago está livre em suas escolhas, e decide ir às ruas iluminadas pela energia sobrenatural e passar pelos monstros a encontrar no caminho.

Convergência (pt. 1)

Um estalo da fechadura após a virada da chave. Eles empurram a maçaneta, a porta ainda permanece trancada. Abrem apenas quando dão a segunda volta na fechadura, o clique precede a rangida das dobradiças antigas. Agora podem entrar. 

Thiago e Joana atravessam a porta ao mesmo tempo. Abraçados e entre beijos. Tropeçam na sala escura, o jovem bate as costas na porta, sente uma pontada na cintura com a maçaneta. Fecha a cara frente a dor, esfrega onde bateu e abre o sorriso de volta. 

Caminha na escuridão com a sacola plástica em mãos, bate o nó dos dedos numa peça de granito, guarda a sacola ali, na mesa agora visível com a luz acesa pela namorada. A embalagem amarela do mercado escorrega e derruba a garrafa de refrigerante e os pacotes de salgadinhos, só as duas barras de chocolate ficam no saco. 

Troca olhares com Joana até ela fitar o chão aos risos e bochechas avermelhadas, iguais as dele. Cabelo alisado a tarde, unhas roxas feitas um dia antes, camiseta com a imagem do último álbum do Grave Digger, nunca vista por ele, comprada e reservada nesta ocasião especial. 

Sem roupas novas, só faz barba aos sábados, os pelos castanhos cobrem o rosto nesta quarta-feira; cabelo despenteado. Pelo menos cortou as unhas mais cedo, afinal, é um dia especial. 

— Pronta para a nossa primeira noite a sós? 

— Pronta. — Ela apoia as mãos nos ombros e lhe beija a bochecha. — Nervosa, mas preparada. 

— O Felipe disse que deixou o chromecast instalado na TV do quarto. Podemos assistir aquele lançamento da Netflix. Quer dizer, vamos apenas começar a noite com o seriado, né? 

Dois selinhos e se soltam, ela precisa ir ao banheiro. Thiago adianta os preparos, abre a porta do quarto e coloca os salgados no criado mudo. Liga a TV, única luz necessária naquele quarto; sincroniza a Netflix com o chromecast, deixa na página do Mundo Sombrio de Sabrina, pronto para transmitir. 

Joana chega no quarto, para na entrada e tira os tênis Converse, guarda o par ao pé da cama e salta sobre o colchão. Cai ao lado de Thiago, já deitado. Ataca o pescoço dela com cócegas, e Joana contorce todo o corpo; chuta as pernas, arranha o peito dele e diz “bobo” antes de ajeitar a cabeça no travesseiro. 

Thiago dá play no celular e a TV começa a passar o primeiro episódio da série. Exibe o logotipo de fundo prateado e letras vermelhas, então a tela escurece. O aparelho desliga junto com a luz de todo o quarteirão. 

— O destino quer acelerar as coisas pra gente, Jô. 

Ela liga a lanterna do celular, flagra os olhos de Thiago sobre os seios e a mão direita a caminho da cintura. Segura o braço dele. 

— Thi, preciso conversar contigo antes. 

— Conversar? — Estala a boca com os lábios fechados. — O Felipe emprestou a casa dele pra gente enquanto ele viaja, e você quer conversar? 

— É coisa séria, Di. 

— Odeio quando me chama assim. 

— Desculpa. É mais fácil falar Di do que Thi, todos da escola te chamavam desta forma. 

Thiago solta o ar denso pela boca. Arrasta o corpo, as costas contra o encosto da cama. Encara os olhos dela, cabeça deitada no travesseiro, abaixo dele. Pescoço se contrai, ela engole em seco, desvia o olhar e fala: 

— Você tirou algumas fotos de mim, escondido. 

— Como? 

— Eu percebi, Thiago, não sou tonta! Faz um mês que fotografa minhas pernas, bunda, os peitos. 

— Sim, mas nós somos namorados. 

— Somos, amor. Só peço respeito. Adoro quando vê minhas fotos, só que não desta forma, de surpresa. 

Silêncio. 

Ele desliza as costas até encostar os ombros no travesseiro. Olha a camisa que veste, de cor azul e sem estampa, algumas dobras sobre a barriga gorda. Enxerga apenas pelo flash do celular da namorada, sua mão persegue a luz, e ela recua. 

— Você apagará essas fotos, Thiago. 

— Claro, Jô. Deixa que amanhã eu… 

— Agora! 

— Larga de ser chata. 

Atravessa o braço sobre a barriga dela e avança. Mãos pequenas tentam tirá-lo de cima, derruba o celular no colchão. Fecha as pernas sobre ela, prende o corpo franzino que se debate abaixo dele.  

— Era para ser o nosso dia, Joana. 

— Egoísta! — Bate no rosto dele. — Só quer perder sua virgindade. 

Lágrimas escorrem até o queixo de Joana e caem na camisa, molham a estampa de olhos revirados da menina zumbi com a faca ensanguentada na mão.

Thiago desliza o dorso da mão no pescoço, deita o peito sobre o dela, beija as bochechas molhadas de choro, e recebe uma mordida que rasga o lábio inferior. 

Algo explode do lado de fora. O brilho branco atravessa a fresta da janela e ilumina todo o quarto num instante, reflete no sangue escorrendo no lábio. Televisão reacende, retorna a luz no bairro, e explodem gritos de terror nas ruas. Thiago levanta o rosto, encara a janela, pisca luzes vermelhas, laranjas e brancas do lado de fora. Sente a barriga queimar, arde onde Joana o empurra, volta a encarar as mãos dela. Estão em chamas! 

Fogo negro da ponta dos dedos com esmalte roxo à palma da mão. Joana está de olhos fechados, sem sentir calor, apenas empurra e bate no Thiago, tenta tirá-lo de cima. Dá socos na barriga, sobe aos poucos, atinge o peito, mas em vez de acertar a pele, atravessa o corpo. A mão toca no coração dentro do diafragma. Thiago berra, Joana abre os olhos e só então vê o que fez, está queimando o seu namorado. 

A chama dispara uma energia pelo corpo de Thiago, aquece o corpo. Fumaça negra escapa pelas costelas, e por fim a mão se solta do peito. 

Sai da cama. Segura onde foi queimado, ou seja lá o que aconteceu. Encara a namorada, sem chamas nas mãos, sentada de joelhos, olhos esbugalhados iguais os dele. 

— Como você fez comigo, Joana? 

— Eu… O que foi isso? 

— É o que estou perguntando! 

— Eu não sei. 

Acende a luz do quarto. Ainda há gritos na rua. Os dois imóveis, ele alterna a visão da janela a Joana, da fresta ao rosto, da rua aos peitos dela. Os peitos dela. Tem algo de diferente com Thiago. 

— O que vamos fazer? — Ela estica as pernas e desliza da cama. 

— Vamos embora. Levo você em casa, depois vou na minha. 

Ela assente e ergue a mão. Ele recusa a pegar. Vão até a saída da casa sem se tocarem. Fecha a porta, busca a chave nos bolsos da calça, quis tanto ficar sem as calças, sem a cueca; da forma que veio ao mundo, sobre ela. Hoje não. Vira uma vez na fechadura, então se vira. Porta, casa e planos falhos tornam-se coisas do passado ao encarar a rua.

O céu noturno está claro. A luz branca prevalece por todo o horizonte, ofusca as estrela e as lâmpadas dos postes. Humanoides correm pelas ruas, peles coloridas como azuis ou lilás, outros com escamas, cabeças de formatos diversos, alguns com apenas um olho na cabeça! 

Um deles pula sobre Thiago e o derruba. Quase na metade de seu tamanho, pele cinzenta toda enrugada, olhos largos. Dentes não cabem na boca, tortos no lado de fora. 

Goblin - convergência

Thiago esmurra o rosto. Tenta puxar a nuca, tirar a máscara. Não é disfarce, ninguém planejou uma festa de 31 de outubro nas ruas de Terra Preta. Não, um goblim está em cima dele, é de verdade, e agora fareja o rosto de suor frio do Thiago. 

— Sinto uma essência sobrenatural em você, humano. — Desliza a língua áspera, com muitos caroços na ponta, e lambe a ferida aberta da boca. — Bem-vindo ao grupo!


Clique e leia a parte 2

Monótono

Poucos gostam de uma vida monótona, outros odeiam quando a monotonia prevalece sobre os prejudicados que batalham para melhorar suas vidas. Indiferença gera antipatia, algo irrelevante a quem tem tudo a sua disposição.

Confira a monotonia de Roberto no pequeno conto a seguir:

Monótono

Roberto permanece sentado. Absorto com metade do pão sobre a mesa, manteiga já derreteria não fosse o frio. O terceiro copo de café também esfria, meio vazio. Coça a longa barba que cobre de seu pescoço, retira os miolos de pão presos entre os pelos, cai também flocos de caspa e de neve. Cabelos apenas nas laterais, reflete a luz branca do teto da copa, desperdício com a luz intensa do meio-dia mesmo no inverno do Canadá. 

Seu polegar desliza por trás da barba e encontra o indicador na outra extremidade. Escorrega até o fim dos pelos e cai na mesa. Olhos acompanham o movimento da mão e vê o pão no percurso. Pega a comida, leva até os dentes, algumas cascas caem nos pelos grisalhos do queixo durante a mordida. Mandíbula contrai e se estende sem ruídos, o bolo alimentar escorrega pela garganta com preguiça, e ele retoma a respiração. 

Fluxo de ar balança os inúmeros pelos de seu nariz, e esses cedem na direção contrária ao expirar. A mão leva o dedo indicador à orelha, unha larga coça as costas do órgão auditivo e retira mais caspa. Desliza os dedos na bochecha peluda, repousa sobre a mesa, descansa os olhos e puxa mais ar pelas narinas. 

Os dedos grossos da outra mão parada até então batucam a madeira de nome complicado. Balança a cabeça com o som das batidas, estala os lábios e desperta o olhar. Visão perambula pelos mesmos móveis, na parede imutável com seus objetos suspensos em pregos. 

Acende a tela do pequeno, mas grosso bloco cinzento. Seus netos não acreditam, embora isso seja um celular, com os botões físicos numéricos. Vê o número de sempre no visor ao tocar a chamada, sem atribuir sequer um nome ao coitado. Pega aquele bloco com ambas as mãos, o indicador esquerdo empenha força contra o botão verde, em seguida leva o aparelho ao ouvido com a direita. 

— Roberto? — chama a voz do telefone, volume alto o suficiente, praticamente em viva-voz. 

— Já está pronto? 

— Claro, chefe! Concluí o manuscrito do terceiro volume. Entrego direto à editora? 

— Sim, envia com o meu… Com o meu… 

— Com o seu e-mail, eu sei. 

A respiração pesada dele ecoa pelo aparelho, indiferente a Roberto. Balança a cabeça uma vez, quase tira o celular do ouvido antes da voz voltar no aparelho: 

— Sabe, eu posso te perguntar uma coisa? 

— Você ainda não está pronto. 

— Como assim, Roberto? É a sétima saga de sete livros que escrevo ao senhor. É o autor de literatura fantástica mais bem-sucedido da história mundial graças aos meus manuscritos! Eu mereço reconhecimento pelo meu trabalho. 

— Eu te reconheço. E o senhor reconhece como sequer sustentaria um teto sobre a cabeça de sua família se deixar de trabalhar para mim. Seus textos são ótimos, vendem feito água sob as minhas mãos. Já tentou pelas suas, e só conseguiu fracasso. 

— Eu fui inocente por desejar recompensa pelo meu esforço em contar histórias, sei disso. Só que o senhor me prometeu fama há trinta anos! Escrevi livro atrás de livro sob o seu nome, filas gigantes se formam nos lançamentos e eventos literários, sempre com a promessa de um dia eu ser revelado. 

Soco ecoa do aparelho com pedidos murmurados de “Calma, calma” numa voz feminina no outro lado da linha. 

— Olha, minha filha foi diagnosticada com leucemia. Preciso de dinheiro, o tratamento é muito caro. 

— Faça pelo Sisu. 

— Não é Sisu, e sim SUS. Impossível, nunca tem vagas. 

— Quantos filhos tem? 

— Apenas a Alice, já falei disso ao senhor, Roberto. 

— Deveria ter feito mais. 

— Ahn? 

— Deveria ter feito mais. Famílias criavam cerca de cinco filhos já sabendo que algum poderia morrer ainda criança. 

— Como se atreve a falar assim? 

Grito desafinado precede o choro. “Vamos conseguir. Eu cobro mais caro, faço anal para meus clientes noturnos”, diz a voz feminina, abafada. 

— Você mesmo me contou isso sobre a segunda saga medieval. Esqueceu? 

— Isso ERA uma característica da época contextualizada na minha história de FICÇÃO. Não é mais assim. 

Três baques pequenos seguem o baque grave. A queda do telefone ecoou no alto-falante do bloco cinzento dele, e Roberto só estala de novo os lábios. Mais ruídos antecedem a última fala: 

— Pelo amor de Deus, Roberto. Me ajude. 

— Você já tem o que merece. 

— Mereço a morte de minha filha? 

— Ganhou conforme seu esforço. Só que é insuficiente. 

— E o senhor recebeu tudo sem um pingo de dedicação. Esqueça o quarto volume, terá nenhum outro livro sobre as minhas mãos. 

— Posso viver com isso. Tenho dinheiro o suficiente. 

A explosão do telefone se partindo no outro lado da linha encerra a ligação. 

Roberto pressiona o botão vermelho três vezes, sem necessidade. Deposita o aparelho na mesa, leva o resto do pão à boca. Mandíbula sobe e desce até o alimento entrar pelo organismo. Expele o ar mais denso, mas as narinas já puxam o novo oxigênio quieto. Neve cai pelo quintal, escurece a luz natural, e as lâmpadas já acesas tornam-se útil. 

Vira seu rosto a direita até sua visão alcançar atrás da cadeira. Seus olhos verdes, o da esquerda manchado em cinza, fitam a mim, de pé, à sua disposição. 

— Terminei meu café da manhã. 

— Claro, senhor Roberto. 

Limpo a mesa com ele ainda sentado, imóvel diante das paredes imutáveis. Fecha os olhos ao repetir a ação mais importante na sua vida: respirar. Coça a nuca sem pelos, depois os ombros, por baixo da manga. Tira a remela dos olhos quando pego os talheres usados para lavar. E fala consigo: 

— Eu não deveria acordar tão cedo. 

Maldições das Terras Secas

Terra seca. Poeira sob ventos. Madeira podre das árvores sem folhas ainda de pé. Os cercados de arames das terras com donos mortos. A grande chama no céu, o abafo do cerrado sobre as duas cabeças. Visão turva depois de três cidades, sempre a pé. E o pai à frente.

São os únicos vivos do bando, ele e seu pai. A trilha marcada por pegadas há muito fincadas pelos cavalos. Espirra contra os resquícios de terra sobre seu nariz, o catarro sai seco, e seu nariz ameaça sangrar.

— Que diabo de terra você veio, cabra? Vinte ano e ainda num se acostuma com as estrada?

— Hoje tá pior do que ontem, pai.

Severino cospe. Cuspe seco da pouca saliva de si, pela falta de água.

— De todas as putas, a Mariele tinha de parir uma cria minha. E cria frouxa ainda por cima! Nome gringo desses, Joséfe — cospe —, num é desse mundo, não.

Joseph emudece, apressa o passo e tropeça. Anda muitos passos atrás do pai, o velho nunca fraqueja. A barriga de ambos roncam, os galhos secos mal enganam o estômago. Somente o pó os alimentam com coceira na garganta. Seu pai para e ergue o braço.

— Três volante. Há vila aqui, talvez os cabra vive menos pior que nós.

— Podemos pedir ajuda. — O brilho dos olhos de Joseph logo se apaga com a recusa do pai.

— Enlouquece, minino fresco? Nós é cangaço bandido. Temos de matá esses três homi antes d’eles nos matá. Dispois vamo a vila e coletar alguma recompensa.

O filho emudece, Severino pigarreia.

— Aquele de trás é muito avoado, parece ocê. Dê um jeito nele, eu me viro nos dois restante.

Sem permitir discussão, Severino avança por trás dos volantes. Joseph precisa dar cobertura ao pai, e com desgosto corre contra seu alvo.

Salta sobre o soldado, seu corpo arremessado derruba ambos no chão. Procura seu punhal no bolso, o oponente debaixo dele é mais rápido e corta o ombro com a faca da cintura. Joseph recua de dor, e o soldado aponta o cano da winchester em seu rosto. Agarra a mão que empunha o revólver e consegue virar um momento antes do disparo, faz a bala percorrer o ar seco do sertão.

Disputam as forças da mão, mas perde do volante. O desespero auxilia na busca da peixeira embainhada no couro fervido pelo calor. O fio da lâmina cruza o dorso da mão do soldado, ele tenta apertar o gatilho, falha com o corte da peixeira no pulso. A dor o faz largar a arma de fogo, recua aos tropeços. Joseph obedece seu pai, alcança o inimigo e degola o pescoço, onde o sangue esguicha e o corpo cai sem vida.

Olha ao lado e vê seu pai de pé, assistindo o filho com os dois volantes mortos há tempos.

— Pensei que ia dançá com ele pelo resto do dia. Vamo pegá a recompensa.

Joseph abre a boca, mas apenas soa o estalo de seus lábios. Meneia a cabeça e segue o mais velho.

Alcançam a vila após muitos passos. Apenas quatro casas, três de madeira frágil e a principal de tijolos, com dois cômodos onde mal caberiam um cavalo.

Somente um homem vive na vila, senhor de idade avançada, o patriarca das suas esposas e filhos ainda crianças. Ninguém ousa pronunciar alguma palavra, seus olhos arregalam e tremem diante do velho cangaceiro.

— Demo um jeito nos volante daqui perto. Eles devem abusar d’ocês com imposto fajuto.

— Sim, — foi a resposta do patriarca, rouca e abafada.

— Pois eu exijo um pagamento apenas, daí ninguém irá mais incomodá.

— Não pedimos por sua ajuda, cangaço, — uma das esposas diz e dá um passo à frente. — Sabemos resolver nossos problemas.

— Então não crie um novo probrema pá tua vila, muié. Eu e esse cabra precisa de algo pra cumê e bebê, nada demais.

O rosnar de cachorro invade as orelhas de Severino, e ele segue o olhar até o pequeno filhote canino. Os dedos finos seguram os pelos marrons do animal com dentes à mostra; o garoto mastiga os próprios lábios, suor escorrega gelado sobre a pele.

—Tenho nem o que dá de comer à minha família, senhores. Agradeço pela sua boa vontade, pena termos nada a retribuir.

— Nada, é? Ouço um grunhido dentro da casa do sinhô, e tem aquele cachorro também.

As crianças começam a chorar. A explosão da pólvora lança uma bala aos céus logo que Severino saca seu revólver e abafa o choro das crianças. Todos tremerem, menos o patriarca, que abaixa a cabeça.

Severino empurra o idoso, indiferente ao estalo de ossos frágeis quando ele cai. Abre a porta. As pessoas ouvem um grunhido de surpresa, depois de dor dentro da casa, então silêncio.

Sai da casa com a mão dentro do buraco feito no leitão e o entrega a Joseph. Fecha os olhos diante do sangue a manchar suas vestes, vomita ao ver a mão encharcada do pai com o sangue, além do odor da morte em suas narinas.

A criança tenta fugir com o cachorro no colo. As pernas saltam pequenas distâncias e tropeça os dedos dos pés no chão árido. Lágrimas escorrem o pó da terra em seu rosto, chora mais ao receber um soco na nuca e um chute nas costas. O cachorro sai de seus braços, tenta fugir, e o velho cangaço agarra a pata traseira, suspende o bicho com as patas da frente debatendo o ar.

—Que adianta este cachorro fracote pr’ocês? Vou fazê um favô tirando uma barriga pra alimentá.

Mais choros. Muitos se ajoelham e molham a terra, gemidos de “por favor” ecoam ao redor de Joseph, e alcança Severino.

— Então vô fazê o seguinte: se esse bicho aguentá uma queda, ele volta pr’ocês.

Sem esperar a resposta dos moradores, lança o animal ao céu. Tira a peixeira de seu coldre, e Joseph desvia o olhar um segundo antes do último gemido do cachorro, quando desliza da lâmina encravada em sua barriga no ar.

Caído no chão, entra em convulsão antes de enfim morrer.

— Num deu pr’ele não, moçada.

— Cangaço do diabo! Você sofrerá as consequências. Foi pra proteger de gente feito você que eu sacrifiquei uma das minhas filhas, o senhor vai ver!

Responde com o disparo no meio da testa daquela esposa. Joelhos atingem o chão antes das gotas vermelhas caírem do buraco feito. Sua testa encontra a terra batida, ríspida e árida, agora úmida com o líquido carmesim ainda saltando do furo. O som mal ressoa quando seu corpo encontra o chão, nenhum som sai da grande família, apenas de Severino.

— Vem logo pegá esse cachorro, Joséfe. Vamo embora e prepará nossa janta.

O cheiro arde nas narinas e os animais escorregam em cada mão, cheias de sangue.

Percorrem por um morro até o sol se por, e só alcançam o cume no fim do crepúsculo. Vê o seu pai recolhendo as madeiras de árvores fracas enquanto ainda o alcança.

Deixa os animais próximos ao conjunto de madeira e espera o pai acender a fogueira. Espirra novamente quando o vento gelado coça o rosto.

— Tá temperando o nosso jantar? Aproveita e já esfola o cão pra nós cumê mais rápido.

— Esfola você! Vou comer nada disso.

— Certo, morra de fome, miserávi.

O cuspe de catarro alcança a perna do filho. Sem reagir, deita de bruços, com as costas viradas à fogueira.

Escuta o fogo estalar sobre a carne dos cadáveres suspensos em gravetos. Ri quando o graveto parte ao meio com uma das comidas e condena a carne no meio da fogueira. Depois o trincar de dentes ao mastigar a refeição de dias trouxe-lhe água na boca. Tampa os ouvidos, insiste na fome.

As palmadas na barriga e o arroto de seu pai são acompanhadas de passos e um estalo no galho solto. Pai e filho se levantam com peixeira em mãos. Uma senhora de cabelos dourados e desgrenhados, vestido com trapos da cor de folhas murchas está diante deles. Ao invés de dedos tem garras de gavião, e ao se aproximar, Joseph nota traços de jacaré em sua face.

— A moça que o senhor matou esperava um filho, cangaceiro. — A voz estridente sibila pelos ouvidos dos dois. — Eu fiz um acordo com ela em pegar cada filho que ela tivesse. Não tem problema, há muitos lá que eu posso pegar quando bem quiser, mas você pagará por sua atitude.

Severino saca a arma e aperta o gatilho. Nada sai do cano.

A senhora meneia o dedo indicador.

— Eu disse, você pagará por isso, cangaceiro. Amaldiçoo com o primeiro de uma nova espécie, te transformarei em uma criatura híbrida do que comeu essa noite, e devorará o que lhe vier a frente.

Chamas acendem Severino, consome o tecido de suas vestes, derrete o metal do revólver e de suas facas, e arranca gritos do velho cangaço. Seu corpo se transforma sob aquelas chamas: os dedos viram garras, crescem pelos dos seus pés ao pescoço. O rosto incha e fica sem pelos, o focinho redondo e gordo substitui seu nariz, orelhas engordam, toda a pele rosada, mesmo tom do leitão morto.

Severino levanta o queixo gordo para o céu, ainda sofrendo da mutação. Sem formar palavras, grunhe como se estivesse latindo. Assume a postura com as quatro patas no chão, a cabeça próximo da terra, a cauda levantada com as pernas traseiras esticadas. Ele corre morro abaixo, berrando uma mistura de vozes suínas, lupinas e humanas.

Joseph paralisa todo o corpo, os olhos arregalam e as palavras são incapazes de expressar sobre o que testemunhou.

— E o que eu posso aprontar com você? Estou disposta a testar novos feitiços.

— O meu pai… Foi na direção da vila, vai assassinar as pessoas de lá.

— É verdade, está muito faminto. Ele devorará cada mulher e criança, e ainda ficará com fome. Eu posso conseguir crianças em outro lugar, sempre haverá bebês por essas terras secas.

— Ele era um traste. Um miserável filho da puta, mas nem ele merece isso, seja lá o que for! Desfaça a maldição, bruxa!

— Prefiro testar algo novo em você. — Ela rodeia Joseph, o analisa, até decidir pegar no lampião suspenso numa corda em sua cintura. — Isso está apagado, vamos resolver isso.

O calor invade o corpo do jovem, consome a sua estrutura e lhe causa dor. Joelhos cedem pela temperatura, olhos ardem, sai fogo pela boca. Queima tudo, arranca a vida de si, a alma escapa do seu corpo, entra no lampião onde a bruxa aprisiona.

— Pronto, concedo-lhe a imortalidade. Sua alma está atrelada ao lampião, que por minha vontade permanecerá inquebrável.

Reage com gritos, saca a peixeira e corta atrás de si. A senhora com rosto de jacaré não está em lugar algum. A fome desaparece, o mesmo com a sede. Só a raiva e o medo permanecem, juntos se transformam em desespero.

Ele corre morro abaixo, vai onde Severino provavelmente estará. Poeira não incomoda mais seu nariz, o vento frio se aquece em contato com a cara queimada em ira.

Sob as luzes da aurora chega na vila do velho patriarca. Enxerga partes de corpos da família. Tripas, excrementos, sangue e ossos; nenhum corpo inteiro. Sem faces de horror em suas mortes, sem face alguma.

Do patriarca resta apenas um braço, de frente a sua casa. Os trapos arrancados do corpo manchados de sangue, junto com o lampião ainda inteiro.

Sobre aquele braço está Severino, de pé. Os pelos estão sumindo, e seu rosto perde as feições de um suíno. Vomita tudo que comeu nessa madrugada na entrada da casa de tijolos. Fica sem fôlego com o despejo contínuo de ácido, e continua a vomitar.

Joseph prende a respiração, saca a peixeira e caminha até seu pai.

— Desculpa, velho. Não posso te deixar assim.

Severino vira o rosto para o filho, ainda vomitando. Não xinga, não reclama, não reage, não entende.

Joseph corta sua barriga de um lado a outro, faz uma abertura onde seus órgãos começam a escorrer.

Severino grita de joelhos a seu filho, o jovem derrama lágrimas ao pai. Diz nada, apenas segue o instinto de sobrevivência: a futilidade de usar o lampião do patriarca contra o cangaceiro imortal. Golpeia com o lampião sem mirar em um ponto específico, e acerta no próprio lampião do filho. Um fragmento da brasa escapa de lá e entra o lampião segurado pelo pai, e essa brasa mágica acende o objeto.

Severino é queimado vivo pela segunda vez, passa a carregar a mesma maldição do filho.

A faca penetra no peito e fere o coração. Tira a vida de Severino, mas essa foge até o lampião. O feitiço da bruxa recuperará a vida do velho cangaceiro, Joseph tem certeza.

Encontra uma pá na casa do patriarca e cava a alcova para o velho. Isso não o impedirá, Severino morrerá e renascerá até escapar do sepultamento.

— Que seja, pai. O caçarei, seja em forma de homem ou qualquer outra. O caçarei pela eternidade.

Cacto - Maldições das Terras Secas

Problematização do Erro

Quem nunca errou durante a sua vida, atire uma pedra. Somos indivíduos capazes de aprimorar nossas habilidades e mudar nossos conceitos constantemente; qualquer um pode fazer algo melhor amanhã, bem como esta mesma pessoa fazer algo aquém do esperado ontem.

Nós conhecemos, estudamos, treinamos, praticamos aquilo em que trabalhamos; esforçamos tanto para garantir a eficiência e eficácia da execução das tarefas, sem dar chance às falhas. No fundo nós sabemos, uma hora vamos errar.

Ninguém deseja o erro. Traz tantas coisas negativas quando ocorre, consequências de diversas intensidades sob um contexto a ponto de desejar negar a verdade. Alguns negam sem pudor, e gostaria de falar sobre eles.

Somam-se provas e mais provas, apontam brechas em seus argumentos e os defeitos de seus atos. Humildade faz companhia à bota perdida de Judas, pois eles jamais erraram, nunca! São exemplos a seguir, competentes a serem admirados.

Talvez pense em pular o meu texto, ir na parte de comentários e tecer xingamentos por eu falar mal de seu ídolo, elaborar argumentos do quanto o outro é errado, dizer que sou bajulador daquele incompetente. Não estou apontando a esquerda ou a direita, nem falo dele ou dela, leia o parágrafo anterior. Refiro-me à ELES.

Sim, eles. Sem uma pessoa em específico, pois muitos possuem um comportamento semelhante quando cometem erros, eles deixam de assumir. A falha é um ponto gravitacional que atrai todas as adversidades à tona, e ninguém quer ser reconhecido como o responsável por esse ponto.

Mesmo sem se responsabilizar, os problemas persistem. Ao invés de solucionar, eles apontam a falha dos outros, pouco importa quais sejam ou a sua gravidade, destacam os defeitos alheios para ocultar o próprio.

Os seguidores compram a ideia, exaltam o erro do adversário em comum e faz pouco caso com os do próprio ou apontam como calúnia, ou que está certo mesmo.

Esta atitude impede algo muito importante a ser feito frente ao erro. Dar a devida punição pelos prejuízos do erro é um exemplo, mas ainda há outro fator mais essencial, e deixa de realizar porque prefere se manter na posição de infalível: o de se aprimorar.

O erro é a melhor fonte de aprendizado. Quando aceitamos a sua existência e refletimos, damos a chance de compreender como nos levou à falha e evita-la. É uma pena abrir mão de uma das melhores oportunidades de se aprimorar só porque não quer assumir a falha.

Permite-se errar, e faça o mesmo com quem admira. Se o erro for grave a ponto de punir seu herói, deixe de alimentar o problema mascarando seus defeitos. Fico triste quando percebo mais consequências dos atos nas histórias de ficção do que nas reais. Livros de terror não me dão medo, mas sim o motorista que me ultrapassa pela direita, quase causa acidente na rodovia, e sai impune até o dia quando prejudicar a si e aos próximos com esta atitude.

Por isso aconselho: seja honesto com o seu desejo. Se quer um mundo melhor assim como eu, avalie em quem confiar, aceite suas falhas e verifique se aprendeu com as mesmas. Caso decida atribuir responsabilidade a quem só coloca a culpa nos outros, eu só lamento.

O Conto de Manoel

Manoel resolveu existir! Saiu do meu conto de três partes e quis escrever a sua tão desejada história, e eu permiti. Confira o texto dele a seguir, espero que gostem!

Conto de Manoel

Saio da mórbida lanchonete em que trabalho há dois meses, nada como o cheiro de óleo engordurando as narinas. Não posso negar, odeio esse emprego, mas foi o que pude conseguir no momento, não há muitos trabalhos que aceitem jovens inexperientes recém-formados do ensino médio. Também não posso esconder que a timidez atrapalha um pouco o contato com os clientes, sem falar que ainda tenho certo temor da bandeja encontrar o chão e eu esbarrar na demissão.

Porta range rabugenta a minhas costas, o estabelecimento fechou faz algum tempo, mas só podíamos sair depois de lavar a louça, depois do “Tchau” do chefe. Suspiro aliviado, almejando a comodidade do lar e enfim poder descansar.

Chuva castiga o guarda-chuva a cada passo, a lama da rua sem calçamento suja meus sapatos seminovos. As luzes dos postes oscilam, ando um pouco mais depressa.

O aspecto dessa parte do bairro em que preciso atravessar já é sinistro em uma noite comum, e nessa tempestade parecia mais apavorante. Casas antigas destruídas e outras permanecem inteiras, porém abandonadas. Algumas em particular possuem o boato de serem mal-assombradas. Os contos horripilantes que meus colegas narram sobre aquela região me afligem, mas não tinha outra escolha a não ser seguir em frente e rezar para que tais coisas não passem de simples boatos.

Piso numa poça, o sapato todo entra no buraco de lama fedida.

— Mas que droga!

Vou em direção a um dos postes acesos, agacho para ver o estrago, um aspecto estranho. Passo o indicador e levo ao nariz, não parecia só lama…

Engulo em seco, olho de um lado a outro. Ninguém. Continuo o percurso pela calçada. Seguro a alça do guarda-chuva com mais empenho, o céu cairá com tanta chuva.

A luz do poste mais próximo se apaga. Escuto com pavor uma risada fina, procuro de onde vem. Nada. Continuo andando com um soluço de desespero preso na garganta. Não sou corajoso.

Outra luz se apaga, estou a ponto de correr. Avanço quase tropeçando nos próprios pés, as luzes dos postes se apagam a medida que passo por eles. A risada estridente soa ao vento de novo, chega a meus ouvidos, e a pele arrepia.

Ergo a vista para o outro lado da rua. Meu corpo gela. A única coisa que vejo é um ser escuro. Coração acelera. Estou num pesadelo? Num filme de terror?

Corri. A ventania violenta empurra o guarda-chuva, não aguento, escapa de minhas mãos, o vejo rodopiar centenas de vezes, não interrompo a corrida. Chego a esquina, as gotículas me atingem com força.

Escorrego quando o ser se materializa na minha frente. Caio sentado no barro molhado, emporcalho mãos e toda a roupa tentando me arrastar para longe, mas aquilo agarra meus ombros e me levanta.

Era tudo escuro de uma forma borrada como se eu tivesse adquirido problemas de visão de repente. Somente se pode ver dois brilhos vindo do ser maligno, pareciam brasas acesas vindo de olhos completamente brancos.

Aquele ser se aproxima, sinto meus lábios sendo sugados. Mãos agarram minha cabeça, palavras incompreensíveis são sibiladas, lacrimejo e vejo círculos no ar, vários deles. De tamanhos diferentes, no começo flutuam sozinhos, depois se juntam um dentro do outro. Subitamente não vejo mais nada. E depois o processo se repete, muitas e muitas vezes enquanto me sinto arrastado. Ainda há chuva, gotas salpicam como agulhas na pele. E não consigo mexer nenhuma parte do meu corpo. Sinto novamente algo em meus lábios e volto a ser arrastado…

Manoel

Desperto, meus sapatos continuam com a mistura de lama e sangue da poça. Chove sangue. Estou no chão coberto de poeira, sento. A visão ainda turva, mas não vejo mais círculos. Repassei atordoado os momentos anteriores. Ergui os dez dedos para contar. Oito…

O lugar em que estou não possui móveis, somente poeira, teias de arranha, uma escadaria logo à frente e uma menina abraçando os joelhos num canto.

Olha para mim e de sua garganta sai um grito que ecoa em todo o ambiente.

— Vá embora, antes que ela volte — sussurra.

— Ela quem?

— Não a deixe chegar aos 13. Se ela conseguir estará completo… você não terá um final agradável e não poderei mais ver a luz… — disse rápido demais, quase não entendi.

Os olhos verdes dela exibiam inchaço, provavelmente de tanto chorar.

— Já tentou fugir?

— Estou sentenciada… — A garota treme.

Levantou-se abruptamente, o barulho dos tênis vermelhos estrondaram cada vez menos nos degraus à medida que iam desaparecendo ao subir.

Resolvo segui-la, e logo a perco. Não tenho a visão de seus cabelos negros, não há mais o ruído de passos. Determinado a encontra-la, entro num quarto. Frascos cilíndricos com líquidos espessos e um livro estão expostos sobre a única mobília, uma mesa larga de metal.

O livro possui somente uma gravura na capa, vários círculos concêntricos da mesma forma da minha alucinação. Folheio as páginas encardidas, todas escritas a mão com variados símbolos perfeitamente desenhados. Um deles eu conhecia: o pentagrama.

— Não deveria mexer nisso! — A voz dela é pavorosa.

Fecho automaticamente o livro, olhos arregalam, o medo me soca mais uma vez.

O chiado da porta escancarada incomoda os ouvidos, faz meu corpo tremer. Abre por completo e vejo de novo aquele ser. Pescoço e pernas retorcidos, sangue nos braços. Todo o ser parecendo estar mergulhados em água, ondas negras flutuam pela pele, o cabelo longo parece estar úmido e boia, mas não parece água.

Estende sua mão, meu corpo se move contra minha vontade até a mão estendida cravar unhas pretas em meu pescoço. Puxa-me para o que parece ser seu rosto, meus lábios recebem um beijo, e depois outro e outro e mais outro.

Ela me solta e desabo, me debato, aperto a garganta que arde nos cinco cortes e o líquido vital banha as mãos, volto a respirar.

Rastejo, forço os membros magros e sigo engatinhando, alcanço a lateral do portal de madeira, pego impulso e levanto.

Cambaleio na descida das escadas e percorro o piso até encontrar a porta de entrada. A visão foi mais rápida e percebeu antes, mas o movimento é atrasado. Agarro a maçaneta, solto, já é tarde. Percevejos impregnam a mão, se alimentam da carne dos dedos, entram pelos ferimentos. Calosidades se mexem subindo pelo braço, os insetos continuam comendo por baixo da pele. Berro de dor. Lágrimas formam uma cachoeira.

Jogo o braço na parede tentando amassar os bichos, em alguns obtenho êxito, já outros alcançam o ombro.

Desisto da porta, vou vacilante pela casa estapeando os insetos dentro de mim. Encontro a cozinha, não perco tempo em observar algo, pego uma cadeira e arremesso na porta de madeira podre, abre um vão, acabo de retirar o suficiente para passar. Piso no amontoado de grama enorme. Dobro os joelhos e começo a saltitar com dificuldade.

As primeiras luzes do amanhecer me enchem de esperança dessa noite horrível terminar. Vou de pulo em pulo sem olhar para trás, os membros cansados do maltrato e esforço, a mente em choque.

Não sinto mais chão sobre os pés. Caio em um buraco. Primeiro veio o som da queda, depois a dor nas costas.

Olhos vermelhos encaram. São monstrinhos: pequenos, feios, enrugados, com orelhas pontudas, lembram a versão má dos Gremlins.

Os Gremlins sorriem e começam a me açoitar. Batem, chutam, dizem xingamentos incompreensíveis. Meu corpo empapa exteriormente do que é vindo do interior, cuspo sangue com um grande chute na barriga.

Ela aparece…

Jogado ao desprezo, vejo pela primeira vez o que calça e entendo tudo enfim. Os monstros encolhem e se afastam, mas o pior está por vir.

Inclina-se contra mim, e o molhado do beijo chega aos meus lábios, o estranho é que eu gosto. O décimo terceiro beijo é quente, doce, reconfortante. E quando acaba…

Um grito. Um suspiro. Escuridão permanente.

Treze Beijos (pt. 3)

Parte final da história de Manoel. Descubra o que acontece com este pobre garoto franzino. Ele conseguirá enfim escrever a sua história?

Treze Beijos

Humilhação.

Mãos, pés, pernas.

Quanto mais agridem, mais desesperado fica. Ele é inútil; a escola, opressora.

Falta apenas um dia. Precisa recuperar o desejo de prosseguir no seu sonho, superar àqueles dedicados desde o anúncio do concurso de escrita quando mal se tem uma ideia consistente.

Corpo queima, sangue escapa de seu corpo e lágrimas escorrem por ele não ser valente. A outra Legião atormenta com murmúrios agudos e desafinados. A sua voz não sai da boca, é engolida junto com o chute no rosto.

— Puta de Abel! Puta de Abel! Puta de Abel!

O bully ganha mais seguidores na escola. Sua conta no Instagram foi banida, e não gostava de usar a rede política chamada Facebook.

Incapaz de amenizar a dor dos murros e pontapés, a pele ganha novas tonalidades, o chão troca um pouco da sua poeira ao rosto e recebe líquidos humanos da cabeça e da cintura. Sua visão do sol oscila com o braço de quem lhe batia até ficar visível e ouvir a voz da coordenadora:

— Parem com isso!

— Ele roubou nossas blusas, tia.

— Sou tia coisa nenhuma, Abel. Se o… esse garoto roubou sua roupa, por que não nos avisou?

— Não queria tomar o seu tempo, Dona Giovana.

— Agora vai tomar mais! Saem logo daqui, depois de cuidar dos ferimentos do garoto eu resolvo o problema da roupa.

Prestes a obedecerem a senhora, gritos estridentes invadem os tímpanos. O susto invoca as mãos e tampam seus ouvidos, e quem procura de onde vem o grito pula com pernas sem força, perde a voz.

Ela está com as três blusas roubadas, uma enrolada em cada braço e outra sobre as pernas sentadas, todas manchadas de vermelho. Olhos sem pupila tremem enquanto a cabeça balança. Fios do cabelo sempre molhado saltam e rebatem contra a bochecha.

Levanta. Pernas dobradas para o centro do corpo movem a Menina do Caos na direção das crianças e Giovana. Saliva interrompe o grito, cospe antes de berrar a melodia aguda e gutural com a boca cheia de baba. Derrama as blusas enroladas com ela, os pulsos ainda sangram. Pés tropeçam e rosto entorta sobre o pescoço.

Eles fogem. Todos correm, todos clamam por piedade, todos repugnam a Menina, todos chamam Deus. Todos, exceto Manoel.

Costas formigam sobre a cintura tremida. Seus ombros não descem, braços reclamam do contato com o chão, continuam ardendo. Fica de joelhos enquanto vislumbra o terror em forma de Menina.

Esmeraldas voltam aos seus olhos. Gritos se convertem em gargalhadas. Pernas assumem a postura normal e os braços expõem os vários saquinhos plásticos com água vermelha furados.

Os soluços de choro dão lugar ao sorriso em Manoel, ela é sua nova inspiração.

Fica diante do rapaz, ajoelha na sua frente. A cabeça um pouco acima da dele. O polegar menos sujo da Menina seca as últimas lágrimas de seu rosto antes de estalar seus lábios na bochecha.

— Acompanho seus textos pela internet há muito tempo, adoro sua escrita.

Nenhuma palavra sai de Manoel, são engolidas em seco.

Recebe outro beijo. O garoto toca onde recebeu carinho e arranca mais risadas dela.

— Parou de escrever desde que aqueles rapazes passaram a te humilhar. Estou com saudade de ler contos bons, só gosto dos seus.

Segura a nuca e o puxa, traz seus lábios até ela e se beijam, o primeiro de Manoel; o décimo sexto dela.

— Permite-me ajudar com a escrita? Eu posso te inspirar. Salvar de todos os seus problemas.

Novo beijo, cada vez mais molhado.

— Escreve o seguinte: crie um conto sobre beijos! Nunca teve um nos seus textos, agora eu sei o porquê.

— Sim — respondeu.

— Isso, escreva sobre beijos — levou o rosto até a orelha dele, onde seus lábios acariciaram também —, no décimo terceiro você morre.

 

Treze Monstros (pt. 2)

Então há a continuação da história de Manoel

Muito bem, continuamos a ver o que acontecerá com este rapaz, até aonde ele vai.

Treze Monstros

Solidão.

Entre tios e primos e parentes desconhecidos.

Quanto mais falam, mais quieto fica. Ele é tímido; a família, opressora.

 

Faltam exatos cinco dias. Descartou os dez rascunhos anteriores, precisa escrever algo novo,  mas não será hoje.

Hoje é o aniversário do cunhado da Dona Furacão, e Manoel está na festa quando preferiria escrever seu conto do concurso literário. O número Treze não sai da cabeça, só que nada complementa o tema. Poderia encontrar alguma inspiração nesse caos?

Murmúrios penetram seus ouvidos. Sílabas aleatórias se sobressaem nas palavras dispersas. Eles falam, todos falam. Falam demais, o importante é falar. Expor a sua fala entre bifes temperados com farofa, expelir palavras entre cuspes e engasgadas. A Legião de corpos humanos se converge num quadro pitoresco de rostos distorcidos, unidos com o melhor da família brasileira. Só Manoel está divergente, cansado de ver gente.

— Fala alguma coisa, moleque! — Primo de segundo grau.

— Esse não, só fica nos compiuter! — Tio.

— Tem namoradinha? — Tia, irmã da Dona Furacão.

— Ele faz nada! Geração mimada e inútil! — Primo dois anos mais velho que Manoel.

— Vamos, filho! Pare de ficar quieto e faz alguma coisa. Tanta criança legal com quem brincar, não pode ficar só no canto. Fica demais naquele quarto, se não perde tempo no celular é com livro! Vem com a mãe, eu te levo até a filha da Juliana. Ela é bonita e ajuda a família em casa. Só estou te dizendo, Manoel, que… — Dona Furacão.

Juliana tem um dente a menos e bafo de sobra. Uma mão no cigarro e outra na bebida. As rugas de seu rosto completam os traços de um troll. A garotinha dela tem o rosto do pai, braços trabalhados de carregar produtos do mercado da família, rouba goles da lata quando Juliana se distrai; é uma duende.

Ao invés do gigante de gelo, Mateus é o gigante gordo. Pernas mal se sustentam depois de três garrafas, mas mantém a postura de rei do mundo, rei entalado no próprio trono. Já são três monstros na nova história de Manoel, só faltam dez.

Manoel vê ao redor e encontra mais. Pelos de lobisomens, pé torto de Curupira, boca escancarada de Oni bebendo cerveja, peles de zumbis, um Boitatá aprisionado nas calças de seu primo com as primas. Boca calada, mas a cabeça latejando de novas ideias.

As palavras da primeira frase estão nas pontas dos dedos, basta escrevê-las, basta fugir da Legião familiar e ficar escondido da Dona Furacão, basta fazer o impossível.

Um escorregão na cerveja derramada — ou outra coisa amarela — acaba com seus planos . Gargalhadas explodem seus tímpanos e lágrimas  escorrem com o catarro da vergonha. Dona Furacão o arranca do chão, estapeia, tenta tirar a sujeira da roupa, e puxa pela orelha até chegarem em casa.

Não grita pela dor. Os monstros deixam de existir na mente, dão lugar à decepção de si mesmo. Do garoto sem personalidade sem coragem e sem talento. Só podia se chamar Manoel.

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