Categoria: Contos/Crônicas (Page 2 of 5)

Contos e crônicas sobre diversos temas

Masterclass (Ensinando como “obter” sucesso)

— Iniciando a gravação em 3… 2… 1…

Seja muito bem-vindo à aula gratuita da minha Masterclass. Sou Zeno Gabs Arma de Peixe, o professor a te guiar ao caminho do sucesso e satisfação pelo árduo caminho da life. Estive com os melhores instrutores de meu network enquanto tirava lições dos jogos mais difíceis de videogame, sem nunca largar os livros-chave motivadores no meu achievement ao empreender em… Ajudá-lo a ter sucesso como eu.

(Estou indo bem, Alessandra? Beleza. Lembre-se de cortar nossas conversas no vídeo final, falô?)

Nos meus dezessete anos eu já atingi a meta financeira e quebrei o recorde em speedrun no novo God of War. Até consigo ouvir a pergunta quando você assistir esta gravação: “como isso é possível?” Saberá a resposta para esta e muito mais perguntas na minha Masterclass!

Deixe-me contar mais detalhes do meu aprendizado. Começo todos os meus dias com uma xícara de café com leite, tiro a amargura da bebida com pitadas de chocolate granulado. Saboreio esta delícia da manhã e penso: vou proporcionar a todos os meus clientes a mesma satisfação que é o sabor deste café. Clientes têm gostos diferentes há quem goste do café puro, com adoçante ou nem tolera cafeína, e é nossa obrigação oferecer algo capaz de agradar todos eles.

(Pare de rir, Alessandra. Sim, eu gosto do meu café assim. Está rindo da minha lição? Vai à mer…)

Anote minhas próximas dicas, compartilhe este conteúdo aos amigos e convida a todos fazerem a Masterclass com você. Fica mais divertido quando todos aprendem como alcançar o sucesso.

Preciso fazer uma pergunta antes da próxima dica: qual o seu work enviroment? Aposto ter pelo menos Ar condicionado, computador avançado e cadeira confortável. Largue tudo isso, mantenha apenas o computador avançado. Desligue o ar condicionado, melhor ainda, aumente a temperatura. Rasgue a cadeira e coloque objetos desconfortáveis, eu coloco bolinhas de gude na minha. (Não, Alessandra. Nenhuma bolinha entra na bunda quando eu sento). Ninguém obtém sucesso ficando acomodado, trabalhe sob pressão e busque resultados antes de sofrer hipertermia, antes de sofrer o fracasso.

Falhou? Mude o mindset e tente de novo, e acrescente um grau no ar condicionado, trabalhe de pé também, fique sem café a cada erro cometido. Empreendedorismo é isso, sofrimento. O desafio é ainda maior por vivermos no Brasil. Ainda assim eu consegui e fiquei milionário. Depois de superar todas as dificuldades, estou no topo e vejo como a vista é maravilhosa. Cada gota de suor em meu trabalho valeu a pena.

Pouco adianta repetir os fracassos. Precisa ter o conhecimento adequado e saber investir nas novas tentativas. Desenvolvi minha metodologia no que há de mais avançado na física quântica, esta ciência sensacional. Se foi aplicada até no gato de Schrödinger e em colchões, também é possível transformar o seu mindset em quântico. Ensino os princípios científicos desta novidade já na segunda aula da Masterclass. Newton viu a maçã cair na própria cabeça e então formulou as regras da gravidade. Eu farei com que enxergue todas as oportunidades da vida como esta maçã e aplique a relatividade de Einstein ao novo empreendimento de sucesso.

— Interrompi a gravação. Já chega, Roberto!

— O que foi, Alessandra?

— Nunca ouvi alguém falar tanta besteira. Me nego a editar isso.

— Olha, querida, é o seu primeiro dia aqui. As aulas são estranhas mesmo, mas todas planejadas como diferencial do nosso trabalho. A senhorita faz a menor ideia do quanto lucramos com esses cursos masters sem precisar ensinar algo de verdade.

— Este é o problema, senhorito. É desonesto. Recuso a trabalhar desta forma.

— E vai trabalhar como? Falta vaga até para caixa de supermercado.

— Falta nada. Encontrei duas vagas na mercearia perto de casa quando achei a sua proposta de emprego também. Vou lá agora mesmo, onde deveria desde o começo. Tchau.

— Espere, Lê! Está proibida de sair. Volte aqui. Vai mesmo quebrar o contrato? Droga, eu esqueci de fazê-la assinar.

“Tarde demais, ela foi embora. Quer saber? Farei a edição eu mesmo, aprendo com tutorial no YouTube. Só preciso ligar e concluir este vídeo. Vamos lá.”

A luz vermelha quer dizer que está gravando? Tomara.

Incrível como qualquer empreendimento faz sucesso quando bem sucedido. Mostro já na quarta aula o exemplo no qual poderá aplicar na prática e já começar a highway to the top life! Ensino como ganhar dinheiro passando pano para as figuras públicas mais importantes do país. Sucesso garantido, basta fazer a matrícula. Invista mil reais mensais e ganhe o e-book de brinde, o link está na descrição deste vídeo. Fico por aqui, ciente de te ver outra vez no meu curso. Até breve!

15 a 30 e de volta em 15, mais três copos de café

Jamais me sinto solitário na companhia do café. Como eu estaria com este amigo tão sincero e humilde? Nós trocamos silêncio todos os dias, e nele desabafamos palavras.

O café sempre me confessa o quanto ele é amargo, nada daquele acompanhante superficial metido a doce. O meu colega diurno é obscuro e seca minha garganta com esse gosto ímpar. Eu gosto dele por incomodar minha língua e tomar o lugar daqueles organismos capazes de me deixar a mercê do cansaço, essa sim uma companhia desagradável, sempre vem com aquela conversa de eu depositar meu corpo na cama e assistir vídeos fúteis.

Está bem, eu traio o café todas as noites com o cansaço. Troco-o antes da madrugada e me submeto ao descanso. Passamos a noite juntos na cama e o dispenso pela manhã. Sento de volta à mesa com o café, ele me bate pela traição com aquele gosto ímpar. Assim desperto no novo dia.

Nem pense que deixo essa bebida me dominar. Arranco sua beleza escura e misturo o café com o leite. Gosto do sabor UHT sem adornos doces, e é perfeito com o amargo. Ouço o café berrar quando o branco invade seu corpo, até chora ao ser esmagado pelo companheiro indesejável. O leite pisa nele, esmaga com a força das moléculas bovinas até fundirem numa só bebida. Ainda vejo as lágrimas cafeinadas no reflexo da luz, eu apenas sorrio, e ele aceita a nova condição.

Quem tento enganar? O café dá revanches, é claro! Sempre mais violento no nosso segundo encontro diário, antes das nove da manhã. Cafeína penetra nas veias. Imagine uma mão agarrar o cabelo e puxá-lo, a cabeça fica erguida, tapas invisíveis mantém o rosto ligado. Essa violência matinal me permite trabalhar, tira aquele folgado do cansaço e deixa minhas costas eretas.

Deixe-me confessar algo a mais. Não preciso da terceira dose, digo, é raro de eu precisar, só o quero mesmo. A cafeína do segundo encontro mal sai de mim e o pego de novo. Como poderei fugir desse sabor, faço a menor ideia. ‘Tá, eu faço.

Acredito de eu ser bom em escolher o momento das minhas companhias. Troco-as quando eu bem entender. Depois do cansaço, volto com o café mais tarde e aceito a vingança. Pena chegar outras companhias independente de minha escolha, dependente do dia. Eles são o frio, a chuva e o calor.

Frio é aquele de toque feminino. De unhas bastantes afiadas, arranham minha pele e deixa tudo mais sensível. Deixa-me desperto com seus golpes externos, mas meu organismo interno reage e fico fraco em certos momentos por isso. Odeio quando o frio me derrota, às vezes ele exagera e ataca sem perdão, atinge bem no nariz que escorre catarro e toda a minha disposição junto. Eu te adoro, juro te amar; só peço para vir com mais calma! Depois não reclame quando me aqueço com o café.

A chuva é de fato feminina. Às vezes gentil, outras histérica, até mesmo deseja levar meu mundo abaixo nos momentos quando cai o céu junto dela. Gosto do ambiente molhado por causa dela, além de ser a única capaz de realizar milagres, como propiciar o encontro pacífico entre mim, café e o cansaço. É ótimo ficar debaixo do edredom, ter a sensação chamada conforto.

Agora o calor, este deve ir à cadeia. Impossível elogiar, sempre atropela os limites, atormenta até minha alma! Eu o proíbo de me desanimar, mas é como se eu pedisse esquentar muito mais. Sinto murros constantes na minha cabeça, aquelas mãos invisíveis e sem unha me amassam, espremem todo o suco de meu suor e deixam só o bagaço. Quando quero me entregar ao cansaço de noite, o calor impede, fica aqui me apertando a noite toda.

O pior de tudo? É que o café sabe do meu ódio do calor, e está nem aí. Aproveita e se diverte comigo. Queima minha língua sensível e me entrega à companhia horrível do dia claro. Tento castigar, o abandono na xícara até esfriar, e ele apenas ri da minha cara — dá pra acreditar? —, pois ele sabe, ainda o tomarei mais tarde mesmo com o sabor morno. Ao menos posso submetê-lo ao leite gelado uma vez ao dia em casa.

Tenho vontade de chorar quando eles mexem comigo no começo de ano. O calor vem com tudo e me desgraça. A chuva chega em uns dias, deixa até o frio vir também. Só me iludem. O calor volta e me cozinha de novo! Onde eu posso conseguir aquela ordem judicial para impedir de ele aproximar de mim? Como o mundo é injusto, tenho de me forçar a esta situação.

Tudo bem. Aguarde o seu momento, companhia infernal. Fugirei de você, irei onde apenas a chuva e o frio me alcancem, e levarei apenas boas companhias. Café com leite jamais pode faltar. Nada de 15 a 30 e vice-versa. Vou me trancar de 10 a 20 e ser feliz, porque eu mereço! E quando isso acontecer, ah! Quando acontecer, só me restará agradecer pelos companheiros possíveis, suportando uma ou outra inconveniência.

A Louca dos Likes

Olá! Tudo bem? 

Você está com pressa, eu sei. Precisa chegar no trabalho, atravessar esse mar de gente e pegar mais três conduções. Posso te acompanhar? Só quero trocar palavras contigo, pode ser andando mesmo. Isso é um sim com a cabeça? Maravilha! Deixa eu me apresentar.

Sou Paula. Vinte e dois anos e três faculdades, todas abandonadas. Tenho um sonho e os estudos me deixavam longe dele. Li essa frase naquele livro:
“quando quer alguma coisa, todo o universo conspira para que você realize o seu desejo”. Por isso larguei tudo, até emprego, e agora sou feliz perseguindo meu objetivo.

O que faço hoje em dia? Produzo conteúdo. É, sei, mas passo longe de ser essas blogueirinhas ou vloggers da moda. Eu por exemplo evito incomodar muita gente para me dar like ou compartilhar meu conteúdo. Digo, há quem perturbe muito mais gente do que eu. E sim, fui até você e comecei a falar de mim. Estou incomodando? Posso continuar a conversa? Obrigada.

Faço esses conteúdos enquanto trabalho no meu grande sonho. Assim os meus seguidores de hoje serão os compradores da minha realização amanhã.  

Desculpa, não posso dizer qual o meu projeto. Em meio a toda essa gente, alguém pode plagiar. Ninguém pode roubar minha preciosa ideia. Caso siga meu perfil, vai pegar algumas dicas do meu projeto. Ah, verdade. Você já está me acompanhando, ou sou eu quem está te seguindo? Jamais! Odeio ser stalker. Só estou ao seu lado enquanto você me deixar.

Ai, espero ninguém ter gravado a última frase e mandado no zap do meu namorado. Ele é ciumento, pode entender errado. Oi? Com certeza alguém pode me reconhecer! Tenho duzentos seguidores, bem. Beijinho no ombro a quem tem apenas 199. 

Consegui um tantão de fãs por causa de meus memes superengraçados. O outro tanto foi trocando curtidas, no começo deve ser assim. Só papai e mamãe curtiam o meu trabalho, e a vaca da minha tia recusou meu convite. Eu xingo ela, sim! Falta de respeito comigo. Custa dar aquele likezinho na fanpage? A hipócrita me marcava nas mensagens de reza, até eu responder com a foto de Bafomé; meus pais até me colocaram de castigo. Sim, já era adulta e detestei de eles fazerem isso comigo.

Segui as dicas de como conseguir likes. Gastei centavo nenhum em curso, eles ensinam nada, só querem ganhar dinheiro de trouxa! Fui expulsa de alguns grupos por me acharem spam, é só recalque das inimiga com menos fama. Nem vem, duzentas pessoas é número grande, sim. E obtive elas por mérito, óquei? Nem apelei com as fotos dos meus peitos, e olha que eles são…

Espere! Desculpa. Perdi a linha e estou sendo chata. Uma idiota. Estúpida. Depois eu faço vídeo pagando mico, assim ganho mais curtidas e consigo me redimir. Mas agora eu quero continuar a falar contigo, está bem? Prometo parar de falar besteira. Obrigada, meu anjo! 

Eu trabalho muito, quero realizar meu sonho. Posto todo dia em qualquer rede social. Não fico só no site azul, não! Azul é coisa de homem velho. Dois, três, cinco. Certa vez fiz dez posts no mesmo dia. Fico orgulhosa por eu ser esta menina produtiva, incrível como arranjo tempo para ir ao banheiro. 

Eu trabalho, trabalho e trabalho. É fácil de eu provar. Além das minhas postagens diárias, não existe vídeo meu com mais cinco garotas de programas por aí. Se tiver é fake, porque não tem. 

Posso falar mais um pouquinho? Ótimo! Te amo. Merece até beijinho. 

Falando em beijinho, sempre mando esse emoji pros meus fãs. Eles adoram, esses safados. Nada demais, pois beijo é muito bom. E rende até like. Eu já comprei likes com beijos, talvez. E até com outras coisas. Eu podia roubar, matar, difamar político. Mas estou apenas investindo em meu canal, benzinho.

Sim, já estou falando já faz um tempinho. Falta eu falar sobre o que é meu conteúdo? Como? Não estava me escutando este tempo todo? Ai, essas pessoas… Por isso é tão difícil trabalhar na internet. Ninguém presta atenção em… Pare de olhar o celular! Ainda estou aqui. Medíocre é você!

Argh, está bom. Vou deixar claro qual é o meu conteúdo. Compartilho texto, foto, vídeo, frase motivacional, tags, distribuo correntes e propagandas.  

Você ainda duvida de mim. Dá-me paciência, Odin. Diz então, momô. Qual parte não entendeu? 

O que tem nesses textos e imagens e clipes? Olha, tem de tudo, ué. É focado neste meu sonho, óbvio. Você nem sabe qual é meu projeto e vem julgar meu conteúdo? Aliás, veja aí meus posts, se está tão difícil de entender. Aproveita e curte todos.

Sim, eu tenho centenas de seguidores e apenas três curtidas em cada mensagem. Uma da mamãe, do papai, e outra de algum fã. Sabe como é difícil curtirem seu trabalho mesmo ganhando seguidores? Na verdade, este é o motivo de te fazer companhia. Quero te convencer a me seguir e aumentar minhas curtidas. 

Não vi outro jeito, desculpe. Ninguém queria saber do meu trabalho na internet. Só consegui seguidores fantasmas, tenho mais bloqueios de pessoas do que amigos online. Pensei ser diferente falando assim cara a cara, pelo visto errei de novo. Estou ficando sem opções… 

Ah, é? Como se eu fosse ganhar mais seguidores fazendo conteúdo “útil”. A longo prazo o cacete, preciso de likes agora! 

Não, não, bem. Eu é que estou com o saco cheio de você. Fiquei contigo na boa, pedi licença e tudo; eu sou a vítima aqui. Vai embora? Vai me abandonar? Dúvido! Já está indo? Olha meu beicinho, ninguém resiste a ele. Fique comigo. Fale de você, então… Está bem. Tchau.

Outro fracasso, Paulinha. Esta ideia nunca daria certo, sou estúpida mesmo. E se eu criar um canal para falar mal dos outros? Criar tretas e atrair os haters deles a me adorar? Outra ideia idiota.

Esquece. Cansei desta vida. Voltarei a trabalhar em fast food mesmo.

Conversa de Animal

— Ei, Zé! Preciso falar contigo. 

O Chimpanzé abaixa o caqui frente a sua boca e vê quem o chama lá de baixo. Nenhuma surpresa, o tipo dele sempre vem. Tórax cheio de ar vazio, a cauda felpuda bateria na nuca dele se não estivesse dobrada para trás. E, meu Guaraci, olhas os dentes dele! Maiores de qualquer outro Quilo. Além do tipo, é ele daquele tipo. Justo quando o dia já estava longo, ficará eterno.

— Então diga, esgote logo minha paciência e vá embora! 

— Ô, Zé nervoso. Preciso falar com você de perto.

— Eu já te ouço daqui. 

— Só converso desta maneira, já sabe disso. Desce logo, Zé!

E o Chimpanzé revira os olhos e desce do galho da bracatinga. Fiapos fazem novos furos nos vinte dedos e três mosquitos sugam seu sangue até alcançar o chão. O Esquilo aguarda, de olhos e boca aberta, os lábios do bichinho nunca fecham por causa dos dentes.

Zé dobra as pernas e solta o peso do corpo. Permite a força da natureza bater sua bunda contra o chão e as costas no tronco da árvore. Dói feito a espetada de um guarani, tanto faz com a ponta da estaca de madeira ou do… daquilo, entende?

Quilo corre até Zé, agarra o braço peludo e fala no ouvido:

— Sei o que fazer da vida. 

— Não me diga. 

— Desta vez é para valer. — Dentes de Quilo raspam no pé da orelha do Chimpanzé. 

— Prefiria quando você sonhava em contar histórias. Gastava tempo pensando nelas e parava de encher minhas bolas.

— Esta sua boca sai mais besteira que o outro buraco, Zé! Ao menos já acertou meio caminho, eu quero voltar a contar a história.

— Maravilha! Então deixarei de tomar do seu tempo. Trabalhe nessas histórias, com certeza uma ficará famosa.

— Não farei várias histórias do tipo estória, primata. Criarei nenhuma, apenas contarei A história. 

— Qual é A história? 

Dentes do Quilo saem de perto da orelha de Zé. Chimpanzé observa o pequeno bicho parado, braços levantados mal alcançam as bochechas, essas duas bolas da cara maiores das que Zé carrega na cintura.

— A verdadeira. 

Agora o Chimpanzé lembra o que deve fazer. Está na hora de bufar, tapear a testa e continuar mais essa conversa sem sentido. Ele diz:

— Pois bem. Qual é a história verdadeira? 

— Eu me inspirei em dois exemplos de humanos. O primeiro era como eu, inventava histórias que nem todos tinham interesse; então ele revelou ao mundo uma religião, atraiu seguidores milionários para financiar a esta história mítica, mas real.

— Eu já ouvi a deste humano por outras pessoas. O chamam de lunático por criar essa religião sem pé nem cabeça sobre extraterrestres. Piores ainda são quem seguem ele!

— Ai, Zé. Sempre ouvindo de pessoas erradas. — Quilo estala a língua e balança a cabeça. — Talvez o segundo exemplo te convença. É do sujeito com bigode horroroso, no começo ele queria ser pintor. O fizeram desistir desse sonho, ele era péssimo. Então investiu como soldado e virou o líder de uma nação soberana, derrubada só porque tinha muitos invejosos.

— Por Anhangá, Quilo! Ele foi a pessoa mais cruel da história da humanidade. Ele exterminava quem era diferente! É como se eu resolvesse matar primatas de pele castanha por achar a minha negra superior.

— Diga a verdade, amigo. Você ouve essas besteiras daquele humano que te enraba de noite, né? 

Chimpanzé joga o caqui no Esquilo, a fruta desmancha contra os dentes do animal e molha os pelos castanhos. Quilo apenas pisca. Sem escapatória, apoia o queixo no punho fechado e relaxa a cabeça caída de lado, gesticula com a mão livre e volta a falar:

— Está bem, conte logo como quer fazer. 

— Eu transmitirei a verdadeira história, e com ela promoverei o novo rei, cuja espécie é a melhor e a mais linda, apesar de não ter dentes como os meus. 

— Tenho medo de perguntar, Quilo. Mas me diz, quem é o rei? 

— O Aguar. 

Sangue ferve em Chimpanzé. Músculos da face esticam o rosto e arregalam os olhos avermelhados. Enterra as mãos, pois os braços estão afim de apertar o pescoço de Quilo até os olhos saltarem das órbitas e os dentes despencarem da boca. Só que precisa dar o exemplo, por isso suspira e retoma a conversa:

— O Jaguar é nosso predador, amigo. Essa espécie assassinou a mãe dos irmãos Jaci e Guaraci. É a pior ideia de todas, Quilo, e me corta o coração te ver insistindo nela.

O primata segura o peito e despeja lágrimas na terra, demonstra o sentimento correspondente a sua fala. 

— Coitado de você, Zé. — Esquilo abraça o pulso do amigo e esfrega o rosto nos dedos da mão. — O nosso mundo está cheio de mentiras. Jaguares condenando a mãe dos deuses Sol e Lua? Eles tomaram conta deles quando eram pequenos! Você acredita nas mentiras do Gaio, aquele propagador de fake news. Aguar é a nossa salvação, Zé, precisa acreditar em mim.

— Cale a boca! — Zé puxa o braço e desfaz o abraço de Quilo, vira o corpo para a bracatinga, fecha os olhos pelo cúmulo da resistência. — Passou dos limites. Desta vez teremos de nos separar, Quilo. Andaremos por caminhos diferentes.

Esquilo dá um passo adiante, estende o pequeno braço na perna do amigo. Encharca os olhos e recua, dá as costas a Zé e vai embora. 

Aguar virou rei, no fim. Os Zés choram pelos cantos, os Quilos dançam felizes, e os Gaios berram sobre os passos dos súditos felinos do novo governo. Cada espécie têm a certeza sobre o futuro, poucos indivíduos de fato sabem, só que todos descobrirão com o tempo.

Quilo e Zé - conversa de animal

* Nas minhas pesquisas durante a escrita não achei indícios sobre chimpanzés viverem no Brasil (fora dos zoológicos). Ainda decidi manter o personagem porque Zé é bem brasileiro :p 

Impostor

Olho ao redor e o redor olha de volta. Senti a queda tarde demais, devaneios atormentam meus veraneios, afligem a carne de meus pensamentos. Permito-me sangrar, outro dia a sacrificar o cordeiro em mim; nego-me a ter Senhor Pastor, e tudo faltará.  

Desperto. 

Outra vez na sala escura, luzes alcançam meus olhos, estão de dentro das molduras. Alturas diferentes, largos ou estreitos, profundos, transparentes, nítidos. Todos refletem a mim, todos com perspectivas. 

Encaro o reflexo da direita. 

A cara na tela do computador. Códigos correm na janela preta às batidas do teclado. Era apenas a programação do formulário de animal para associar ao dono, um sistema veterinário. Trabalho de faculdade, ilusão de empreender na área de poucas opções ao mercado, vamos revolucionar esta merda! Empreender no Brasil já é piada… Agora um moleque sonhando alto sem saber administrar a própria carteira, incapaz de fazer funcionar a associação do animal ao dono no cadastro. Trabalho em trio, e olha lá, solitário, ganhando nota, garantiu a todos terem o papel impresso daqui um ano dizendo vocês conseguiram! Se for pego n’alguma fraude, terá direito a celas distintas na cadeia, ou acha mesmo que diploma é entrada no mercado de trabalho?  

Ah, já desistiu do empreendimento, né? Jogou a saúde no lixo, engolia massas recheadas e enterrava as frustrações. O antigo chefe te vê e diz o quão gordo está. Sabe o quanto comeu com raiva contra as porcarias dos códigos. A prisão em espiral, sempre volta ao começo, cinco anos de aprendizado e continua na estaca zero. Exception ocorre quando o programa recebe parâmetro fora do esperado, é preciso prever esses eventos e tratá-los, caso seja competente. Exceção era deixar de ver exceptions no próprio código. Programa direito, porra! 

E hoje? Vamos refletir hoje? Diploma arquivado na pasta. Recebe propostas de trabalho, os caras te veem trabalhando das oito às dezessete. Que tal fazer algo a noite? No fim de semana? O que tu faz entre meia-noite e seis da manhã? Faz é nada, única coisa capaz de realizar na vida. N. A. D. A. 

Fecho os olhos. Não, não fecho. Rosto vira a esquerda. 

Olha aqui, as mulheres. Reconhece elas, foge delas. Trocou risadas, disfarçou alegrias. Eram as mulheres de sua vida, especial por estar entre elas. Finalmente! Pertenceu a algum lugar, ganhou admiração, todas dizendo sobre o futuro brilhante, a inteligência acima da média. As merece, claro que merece. Ondas delas desabarão a seus pés, e sem problema com a cor de pele, verdade? Se cair na rede, é sua. 

Errado. Outra vez é idiota. Nada de admiradoras, elas são políticas. Vampiras sugam essência, te descartam e seguem a vida. Fica inconformado, deu tudo a elas. Esgotado, enfurece na solidão e berra. Por que está gritando? Todas perguntam com o rosto de quem é você? Um esquisito, torcem para encontrar alguém, te empurra as outras e se livram de ti. 

Demora mas vê, pelo menos. A posição delas, das políticas. Têm nada a ver com a vida desprezível que possui, insiste em ficar na minoria, curvado ao comodismo. Elas ascendem. Alemanha, filhos, dinheiro, aposentadoria, sexo. E só vê os saltos delas tomando distância, ajoelhado à inutilidade. 

Olhos molham meu corpo, as pernas negam a se levantar. Joelhos permanecem no chão e o rosto encara a frente. 

Está aí, de novo com a cara na tela. A janela é branca, desta vez. Todo mundo usa isso aí, mas o que faz com isso? Ah, claro! Outra babaquice. Pior, se superou desta vez. Escrever. Criar historinhas inúteis. Aqueles ingratos da faculdade elogiavam sua escrita, também era o único a escrever a monografia, deu o diploma de mão beijada a eles, tinham de elogiar mesmo. Ao menos já descobriu, agora reconhece o quanto escreve errado. Conjugações misturadas, discordância verbal, crase onde mal entende, e anotações ridículas de revisão. Confirmar grafia, confirmar informação, conferir significado da palavra, buscar sinônimo. 

E qual o problema? Essas anotações melhoram meu texto. Estou saindo da espiral da programação. Posso enfim criar uma carreira agradável. 

Já negaram seu romance. Escreve tudo do zero, achando que sairá melhor. O caralho! Perderá meses de oportunidades no novo manuscrito, mandará às betas, apenas uma te devolve. Faz a revisão, acha tudo lindo, submete a análise crítica, fica submisso às anotações educadas dizendo o quão merda é o texto. Ainda acha merecer prêmio de concursos com esses continhos. Sabe a verdade, só se ilude. 

Já fui finalista em concursos do Wattpad. Os contos ainda servirão no futuro, posso publicar… 

Até quando? Quando vai desistir? Sabe, é só questão de tempo, sempre desiste. Está fazendo curso, é de praxe abandonar os sonhos depois de terminar de estudar. Bem que o pai adoraria ver o filho eletricista, vê nem pegar mais no computador. Esconde esta nova carreira, paga de incompreendido, tem medo de eles falarem a verdade. Desperdício de tempo, de dinheiro com cursos, análises, blog, livros. Mercado em crise, as duas maiores livrarias na falência. O floquinho de neve a sobreviver no deserto literário… Sequer estará aí, só se projeta no lugar onde jamais pertencerá. 

Chega! Cala essa boca. E meus joelhos escapam do chão, as molduras tombam. Ouço vidros estilhaçarem, risadas ecoarem sobre os choros, gritos de lágrimas jogadas no canto do quarto, lembro de todas elas. Ele se aproxima, o Eu olha para mim com sobrancelhas apertadas, rosto vira de um lado a outro. Pés batem no piso e ofega com rajadas picantes de dragão. 

Já perdeu de novo. Sabe, eu não sou o Senhor Hyde a ser liberto com poções. Os lobisomens tomam posse na lua cheia, eu te domino nas noites fracas, de cansaço e desprezo, todas as fases da lua. Sou diferente da ficção, desses livros aí que perde tanto tempo. Eu sou a realidade. 

Abraço o Eu. Eu arregala os olhos, perde a força e cala a boca. Envolve os braços sobre meus ombros e se desfaz. 

Alarme toca e o desligo antes de colocar os pés no chão. Sinto o piso frio, ciente de encarar o calor em breve, prestes a trabalhar. Toco o Eu em repouso no meu coração e digo. Vai dar tudo certo.

O Despertar, de Clecius Alexandre Duran

Mês de novembro está acabando, e as postagens especiais também. Eu sei, pode pegar seu lenço e enxugar as lágrimas. Achei uma ideia tão bacana que quero repetir no mês de novembro do ano que vem, então não precisa ficar triste! Alegre-se e sinta o terror com a história de hoje! Exato, dei uma folga a vocês com o conto do convidado passado, e agora volto com tudo neste texto d’A Maldição do Lobisomem.

Clecius aceitou compartilhar um texto no blog. Não é um conto como os demais, mas sim a disposição do primeiro capítulo de seu livro na íntegra neste post.

Autor de dois romances e um conto, Clecius merece aplausos por trazer as histórias viscerais de lobisomem em contraste com as versões amigáveis e felpudas de certas obras, além de trazer a realidade das lendas às cidades brasileiras tanto atuais como na Revolução Farroupilha. É um escritor independente cuja dedicação garantiu um serviço como editor da nova versão de O Brakki, escrito por André Regal e relançado sob o selo Acervo Books. Clecius promete a publicação de um livro inédito de terror, além do terceiro volume da antologia Crônicas da Lua Cheia, histórias que estou ansioso para ler!

Com as devidas apresentações dadas, confira o capítulo O Despertar de A Maldição do Lobisomem. Não se esqueça de seguir Clecius nas redes sociais e conferir seus livros, todos os links estarão após o texto:


Capítulo 1 – O despertar

28/Jul/2015 (terça-feira) – 1º dia do ciclo da lua cheia

CONFUSÃO.   CACOFONIA.   UMA   MIRÍADE   DE   ODORES  se mesclando na escuridão. Cheiros que ele conhece de longa data misturando-se com fragrâncias inéditas ao seu olfato. Os demais sentidos   ainda   estão   entorpecidos.   Os   membros,   paralisados  e dormentes. Este é o momento que ele mais odeia. O Despertar.

Vagarosamente a penumbra da inconsciência se afasta, descortinando o véu da realidade. Ele acorda exausto, dolorido e sentindo-se derrotado. – É sempre assim! – pensa com rancor. Esse é um dos fardos da maldição que ele carrega. Aos poucos, o animal percebe a dor que lhe perpassa o corpo, como uma avalanche infinita de agulhas em brasa. Ainda deitado em posição fetal, ele luta contra a vontade de permanecer imóvel até que cesse o martírio da recente transformação. No entanto, ele sabe que precisa se levantar e pôr-se em guarda.

A criatura bestial estica lentamente cada um dos membros, alongando os músculos e acompanhando cada movimento com um baixo grunhido sentido. Embora tenha vontade de urrar, revelando ao mundo a dificuldade da tarefa posta em execução, o monstro contém o impulso. Ele tenta se colocar em pé, mas falha miseravelmente caindo sobre suas quatro patas, retorcendo-se em intenso sofrimento. O demônio profano sente o aperto dos trapos espalhados por sobre seu corpo. Trapos impregnados com um cheiro que, num só momento, é e não é o seu.

Com o pingar dos segundos que aparentam durar uma eternidade, ele recupera a capacidade de movimento de cada um de seus membros. Um a um. Pouco a pouco. Embora a dor seja excruciante, sua capacidade de recuperação não é menos notável. Com o autocontrole voltando paulatinamente, a criatura rasga os restos das roupas que ainda insistem em se grudar ao torso. Enfim, completamente livre das amarras humanas!

Respirando lentamente e com dificuldade, o licantropo recupera suas forças e sua mobilidade, finalmente sentindo-se capaz de se pôr em pé. Sua altura prodigiosa é capaz de assustar mesmo o mais corajoso caçador e enganaria aqueles que, porventura, tivessem antevisto apenas o animal com a postura contraída e colocado sobre as quatro patas. Ao ficar ereto, o tronco hirsuto e musculoso do lobo se expande, revelando uma espantosa criatura antropomórfica: uma silhueta corporal que lembra um gigantesco ser humano, com exceção da longa cauda e das pernas cujo desenho ainda guarda estrita semelhança com as patas traseiras de sua ancestralidade animal, o canis lupus signatus. Por outro lado, ao arriscar uma olhada de mais perto, a visão de uma cabeça extremamente volumosa coroada com uma grande cabeleira e um par de orelhas triangulares e pontiagudas, além de uma poderosa mandíbula protuberante encimada de um focinho pronunciado, não permitem confundir a hórrida entidade com um ser humano. Sua pelagem escura tem a cor castanha, apresentando no dorso uma lista negra que se estende da nuca ao final da cauda.

Ao seu redor, uma fina película de vapor o envolve, resultado da contraposição do clima frio ao corpo hipertérmico do lobisomem.

Num rápido exame, ele aponta o focinho em direção ao céu e aspira profundamente o ar da noite para se localizar e determinar eventuais perigos à espreita. Assim como o olfato, os demais sentidos da criatura também são mais desenvolvidos, mais sensíveis, embora temporariamente reduzidos pelo recente e turbulento despertar. Ele já conheceu outros predadores. Alguns são aliados, outros não. Alguns são fortes, outros são numerosos, mas todos são capazes de representar um perigo à sua sobrevivência.

Terra úmida, mato recém-cortado e algumas árvores são os cheiros mais próximos. Nenhum perigo imediato foi revelado pelos odores captados. O fedor pungente de urina e fezes de animais menores destaca-se ao olfato. Utilizando a visão que se adapta à noite, como convém ao animal de hábitos noturnos, a fera esquadrinha a escuridão à sua volta, reconhecendo o território e percebendo estar em um local ermo, ligeiramente distanciado das casas e edifícios que rodeiam aquele pequeno perímetro parcamente arborizado. O lobo se encontra numa praça na cidade de Londrina chamada pelo apelido de Zerão em razão de seu formato ovalado. Um pequeno espaço de verde com árvores altas, vegetação rasteira, um amplo gramado e duas quadras cimentadas, encravado no centro da cidade. Junto ao leito do pequeno riacho onde ocorreu a transformação, o lobisomem toma consciência de que se encontra, novamente, cercado pelas construções com luzes artificiais que, mesmo com sua visão acurada, ofuscam o brilho das estrelas. Ele está em território hostil, longe das árvores abundantes de uma floresta ou de um mero matagal, que são seu habitat natural.

Apesar das dores lancinantes e da tontura provocada pelo excesso de informações que seu cérebro busca processar, a criatura tenta caminhar, mas é vencida pela vertigem, tombando de encontro ao chão. A dor em seu estômago aumenta repentinamente e ele sente o latejar de seu esôfago preparando-se para expelir todo o conteúdo estomacal semidigerido: pães, vegetais, frutas e apenas um pouco, somente um pouquinho intoleravelmente diminuto, de carne. A fera caliginosa sabe que precisará conseguir comida de verdade. Uma quantidade generosa de carne para saciar sua fome e satisfazer seu apetite voraz. Mas, antes, precisa livrar-se daquilo que a aflige.

As convulsões, então, aumentam provocando intesos espasmos até que o líquido quente e malcheiroso que se alojava em suas entranhas sobe pela garganta e é arremessado ao chão num jato multicolorido com predominância da cor verde. Uma pasta espessa composta de restos de folhas de alface, arroz, tomate, beterraba e outras folhas, frutos e raízes – que compõem o banquete de uma vaca, um cavalo ou qualquer outro ser nas escalas inferiores da cadeia alimentar, e não o repasto digno de um predador – é depositada no espaço à sua frente, entre seu corpo e um banco de concreto.

O monstro lupino respira com dificuldade em arquejos curtos, ainda não totalmente livre do enjoo.

Um novo regurgitar expulsa o resto da porcaria que ainda lhe ataca o estômago, sobressaindo em sua língua um toque ácido, levemente picante.

Imediatamente, o lobisomem torna a olhar para o céu noturno à procura da posição do pequeno disco prateado. A lua cheia, parcialmente escondida por nuvens escuras, indica, pela sua trajetória orbital, a proximidade da meia noite.

—Ladrão maldito! — é o insulto que cruza sua mente enquanto um nó dolorido lhe aperta a boca do estômago. — Dessa vez, sua beberagem não conseguiu atrasar minha chegada!

Depois de vomitar todo o conteúdo estomacal, o monstro metamórfico percebe o desaparecimento de grande parte de sua fraqueza anterior. A náusea que lhe limitava os movimentos e entorpecia parcialmente seus sentidos aguçados é substituída pelo ímpeto atávico de se alimentar.

A fome o envolve como uma amante antiga e familiar, abraçando todo seu corpo e fazendo surgir uma irrefreável vontade de saciar seus instintos primevos. O licantropo anseia não somente pela carne que lhe arrefecerá o vazio na barriga, mas também pelo sabor cúprico do sangue quente da presa a escorrer por sua boca, encharcando o pescoço.

Obedecendo ao desejo imperativo que lhe é inerente, a fera torna a se erguer sobre as patas traseiras, farejando o ar a fim de perscrutar os arredores na tentativa de localizar uma presa apetecível.

As lendas referentes aos hábitos alimentares da sua espécie ditam que os lobisomens têm especial predileção pela carne humana. Na verdade, esta espécie de predador consome qualquer animal, racional ou irracional, grande ou pequeno. Os animais de maior porte são preferíveis aos pequenos pela maior quantidade de carne oferecida, bem como por darem menos trabalho no momento da caça – os animais menores são excessivamente medrosos, rápidos para empreender fuga e encontram refúgio em diversos locais não alcançados pelas garras lupinas. Se a escolha da presa for entre um coelho e uma vaca, fica-se com a vaca. Por sua vez, a grande frequência do ataque aos humanos decorre do simples fato que esta presa encontra-se em qualquer localidade e com maior abundância. A caça selvagem a que os licantropos estavam acostumados no Velho Continente está incrivelmente escassa. O mesmo acontece em toda a América e no resto do mundo. A fauna abundante que permitia o sustento tranquilo dessas criaturas não mais existe. Em contrapartida, os seres humanos encontram-se disponíveis no cardápio de qualquer local, isolados em pequenos grupamentos rurais ou reunidos em grandes aglomerados urbanos.

Dos  odores  trazidos  pelo  gelado  ar  noturno,  destaca-se  um  suave  perfume adocicado  mesclado  pelo  cheiro  inconfundível  dos  hormônios  femininos secretados durante a gestação. Tal combinação de aromas faz o lobo salivar.

Dentro da espécie humana, os lupinos voltam especial atenção às mulheres em estado  final  de  gravidez.  Embora  consumam  a  integralidade  do  corpo  humano,  o lobisomem  costuma  começar  a  devorar  a  vítima  pelas  entranhas.  Geralmente,  as vísceras são ingeridas em primeiro lugar para atender o especial paladar da criatura. Não é de se estranhar, portanto, a particular preferência pelas grávidas. O ataque a uma fêmea prenhe tem duas vantagens: de um lado, seu estado físico dificulta a escapatória e faz com que oponha menor resistência, facilitando o ataque do animal; de outro lado, há o prêmio a ser saboreado. Embora o lobisomem aprecie o sabor das tripas em geral, o feto, nos últimos meses da gravidez, representa uma iguaria ímpar, um misto delicioso de carne tenra e ossos macios – a versão baby beef na licantropia.

Por sorte ou por interferência do destino, uma mulher grávida caminha em direção à praça. Esta noite, o atalho para chegar mais cedo em casa terá um alto custo…

Transição - Clecius

Sandra pensa que a pessoa que aconselha a caminhada como exercício ideal para as gestantes nunca experimentou o peso extra dos últimos meses da gestação. Além do volume que ela carrega no ventre esticado, seu corpo todo está inchado e sua forma física silfídica, que arrancava olhares de admiração da maioria dos rapazes (e de inveja da totalidade das outras moças), parece-lhe um sonho distante.

Cansada de um dia de trabalho, ela pensa nas tarefas domésticas que ainda tem pela frente e arruma a touca vermelha de lã que lhe escorrega da cabeça. Mãe solteira que vive sozinha, ela tenta melhorar de vida, arriscando um destino melhor que aquele partilhado pelos outros membros de sua pobre família, que se resignaram a permanecer na pequena cidade onde nasceram, com poucas oportunidades de trabalho e nenhuma perspectiva de ascensão social.

Mesmo surpreendida com a gravidez não planejada, Sandra continua a perseverar na busca de seus sonhos.

Naquela noite fria de final de julho, o cansaço e a pressa de encontrar o abrigo do lar modesto fazem-na decidir cortar caminho e, em vez de encarar o trajeto mais longo contornando o logradouro público, a jovem opta pelo precário e mal iluminado atalho. Sua decisão parece-lhe extremamente razoável, pois a trilha encurtada passa pelo meio de um punhado de árvores que, mesmo com fraca iluminação pública na orla da praça, não apresenta qualquer obstáculo.

Ao atravessar a rua que circunda o Zerão, uma vibração se faz sentir no interior de sua bolsa, acompanhada com o pegajoso refrão de uma música viralizada pela internet: “♪ Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego… ♫ Delícia, delícia, assim você me mata!”.

Sem diminuir o ritmo, Sandra saca o pequeno celular e, olhando rapidamente no visor do aparelho, atende à chamada.

— Oi, mãe — ela cumprimenta sem diminuir o ritmo dos passos.

— Oi, filha. Onde você está? — Dona Cremilda indaga deixando um leve traço de preocupação vazar pelas palavras.

Ligeiramente ofegante, Sandra responde com rispidez: – Já estou indo pra casa, mãe. Mais dez ou quinze minutos e já chego lá – conclui, esperando ter colocado um ponto final no colóquio.

— Tá bom, filha. Só liguei para saber se está tudo bem com meu netinho – acrescenta com voz langorosa.

Um carro, com os faróis baixos acesos, passa lentamente na rua adjacente à praça no momento em que Sandra inicia a passagem pela trilha do atalho. A luz do veículo ilumina por um breve relance o trecho em que a iluminação dos postes não alcança o caminho. Sandra procura disfarçar a ligeira preocupação que lhe assalta pensando que nada de errado pode acontecer em tão curto espaço. Uma suave brisa noturna passeia por entre as árvores, fazendo farfalhar a folhagem das copas e acariciando a nuca da jovem com um toque gélido. Um arrepio perpassa sua espinha e Sandra não consegue afirmar se a sensação se deve exclusivamente ao vento noturno. Ela coloca um cacho solto de cabelo atrás da orelha, gesto recorrente sempre que se encontra apreensiva, mas busca um tom de voz leve e relaxado para tranquilizar sua interlocutora.

— Ai, mãe! A senhora se deu ao trabalho de ligar a essa hora só para isso? — questiona fazendo um muxoxo. — O médico disse que demora mais duas ou três semanas. Não se preocupa, não — declara com segurança.

— Ah, Sandrinha… — Dona Cremilda recrimina a filha com um tom magoado. — A gente nunca deixa de se preocupar com os filhos, não importa a idade ou a distância. Você logo vai saber como é… De qualquer forma, só queria saber se estava tudo bem. Vê se descansa,

Sandra pensa ter vislumbrado uma sombra passar pelas árvores, numa trajetória paralela à sua, mas a conversa com a mãe a distrai: – Pode deixar, Dona Cremilda. Quando tiver novidades, eu te ligo. Deixa eu prestar atenção no caminho para não cair nem tropeçar em nada.

— Você está de novo voltando sozinha a pé pra casa? – Dona Cremilda dispara, sem conseguir disfarçar a crítica embutida na pergunta.

— Estou, mãe. Não se preocupa, já estou quase lá – Sandra responde tentando disfarçar o aborrecimento que sente.

Apesar do carinho revelado pela preocupação materna, a jovem se ressentia da suposta sabedoria materna que sempre tentava dissuadi-la de todas as suas escolhas de vida. Se fosse ouvir os conselhos da mãe, Sandra sequer teria saído de sua cidade natal. Assim, sem dar espaço para o início de uma longa e tediosa peroração sobre os perigos da cidade grande, Sandra se despede: – Um beijo, mãe. Depois eu volto a te ligar…

— Um beijo, filha — resigna-se Dona Cremilda.

 

Transição - Clecius

O caçador noturno avalia o rumo de sua presa e, encontra o melhor local de ataque, longe das luzes amareladas das lâmpadas de vapor de sódio dos postes de iluminação pública e dos olhos de eventuais testemunhas. Silenciosamente, como só as criaturas nascidas para caçar são capazes de se movimentar, ele corre pelo interior da praça, tomando dianteira e escondendo-se atrás do grosso tronco de um ipê-roxo, fazendo com que seu contorno sobrenatural se confunda com as sombras. A respiração lenta e compassada do lupino solta pequenas lufadas de vapor no ar da noite, mas nada que possa alertar a mulher sobre a sina que se aproxima.

Com a atenção voltada ao som dos passos que se avizinham e do cheiro adocicado do perfume feminino que se intensifica, o lobisomem contrai os músculos das pernas e permanece com as orelhas levantadas e direcionadas para a origem do barulho ritmado.

Quando o vulto da vítima se encontra no raio de alcance de seu salto, um par de olhos fosfóricos e flamejantes se acende na escuridão e o predador implacável dispara contra a mulher. Esta se vira instintivamente, seguindo o conselho de um sexto sentido atribuído ao gênero feminino, mas é tarde demais. O choque dos corpos faz com que o ar escape dos pulmões da presa, sufocando o grito nascido do horror. Ao ser derrubada, Sandra tenta inutilmente afastar o agressor com os braços, mas sua força é insuficiente para sequer sustentar a pesada criatura, e, antes que consiga recuperar o fôlego para gritar por uma ajuda que nunca chegaria a tempo, um poderoso torno de maxilar e mandíbula com dentes pontiagudos se fecha sobre seu pescoço, torcendo-o até que o estalo como de um galho seco se faz ouvir. O gosto de cobre derretido se espalha pela língua da fera. A adrenalina disparada no momento do ataque ainda se encontra no sangue da mãe-que-não-será quando uma garra peluda abre-lhe o ventre a partir do esterno. Diferente da estória clássica, não é o lobo que é eviscerado. O talho rompe diversas camadas de pele, gordura e músculos até deixar exposta a bolsa amniótica e o feto que ainda se agarra à vida. Sem hesitação ou remorso, o licantropo arranca-o da carcaça abatida, mastigando o pequeno ser que rapidamente se transforma em pedaços sangrentos de carne, deixando rubro o focinho e os cantos da bocarra animalesca. A trituração dos frágeis ossos fetais faz com que o paladar do lobisomem se perca em intenso deleite ao sentir o sabor levemente untuoso do líquido gelatinoso da medula óssea.

Após saciar o primeiro impulso carnívoro, o lobisomem arrasta o corpo inerte para longe da trilha em direção a um conjunto mais cerrado de árvores, próximo ao leito do riacho onde despertou há poucos minutos, e, uma vez nesse abrigo improvisado, termina calmamente seu banquete macabro. Sem pressa, a criatura arranca nacos generosos dos intestinos, desenrolando-os de dentro da barriga aberta de Sandra. Na sequência, o fígado, o estômago e todo o resto do aparelho digestivo são consumidos com volúpia.

Depois de saborear tranquilamente o que restou das vísceras da mulher, o lobisomem inicia o processo brutal de ingestão completa da presa.

Os pequenos ossos das mãos e dos pés estalam como salgadinhos crocantes quando mastigados pela bocarra sobrenatural. Depois de consumir a carne, o predador passa a roer prazerosamente os ossos, procedimento necessário para repor o cálcio utilizado na modificação esquelética ocorrida no momento da transformação arcana.

Sem deixar traços que identifiquem o ataque recente, a criatura alcança dois objetivos: alimentação plena e manutenção do segredo da sua existência. Antes mesmo que lhe seja ensinado, o lobisomem possui um sentido atávico de preservação que lhe aconselha a disfarçar e ocultar o que ocorre durante sua caça.

Terminada a lúgubre refeição, o lobisomem sabe que deve procurar um local afastado das construções humanas. Seu faro indica um caminho arborizado lindeiro ao riacho. Não é a primeira vez que ele se utiliza daquela trilha para escapar para os braços da natureza.

Mas antes de empreender a fuga, com o estômago cheio e inebriado pelo aroma penetrante do sangue fresco, o lobo empina seu focinho para a lua cheia e uiva longamente em cumprimento ao astro que lhe orienta a vida.


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Livros de Clecius

A Maldição do Lobisomem

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O Brinquedo (conto)

O Brakki (editado por Clecius no selo Acervo Books)

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Mundo Alternativo, de JP Archanjo

Mês de novembro continua, bem como as postagens especiais de O Conto do Convidado! Mantendo o lado sobrenatural, mas sem o tom sombrio das histórias anteriores, os leitores de Mitópolis vão reviver as trapalhadas de P durante alguns parágrafos.

JP Archanjo é o autor convidado de hoje. Publicou o seu primeiro livro no primeiro semestre de 2018 pela editora independente Luna. É umbandista aberto às diversas religiões e mitologias, característica que contribuiu para distribuir um pouco de cada no livro Mitópolis enquanto avança a trama na fantasia urbana pelas ruas de São Paulo.

Pássaros cantam sobre uma sequência nas histórias de P e no lançamento de um livro de pequenos contos. Enquanto esses não chegam, é melhor conferir o texto que ele compartilhou para o blog a seguir:


Mundo Alternativo

Mundo Alternativo de JP Archanjo

— Ô, seu filho da puta? PRESTA ATENÇÃO! – a Estrela diz quando tento acender as velas com um jato de fogo forte demais.

Fecho a cara, só xingando mentalmente, já que estou sob juramento de que não responderei nada começando com um “olha aqui, queridinha…” hoje. Afinal, faz mais de 3 anos que a turma não se encontra. Sinceramente, só estou reclamando por reclamar, estava morrendo de saudades desse povo.

Olho em volta para o que um dia foi uma catedral gótica, as rosáceas e os vitrais precisam de uma reforma, mas as luzes da cidade projetam suas cores de um jeito suave. Me sento sozinho no que um dia foi o confessionário, segurando um copo de catuaba (deixo a bebida um pouco mais gelada com uma baforada estilo mentos).
Não comemoramos o Natal, já que descobrimos que Cristo nasceu e renasceu em várias datas, formas e corpos. Poucos de nós, também, realmente têm uma religião, então a festa de Halloween foi a única alternativa. Somos todos monstros por fora afinal. Nada mais irônico para uma turma que é a personificação da ironia.

Depois de anos à base do vamos-marcar-de-um-dia-marcar, finalmente consegui pôr Lou contra a parede e dar o ultimato. Ainda não tenho moral nenhuma para algo do tipo com a filha de Oyá, esquentadinha por natureza, mas Hélia tem o poder secreto das mulheres sobre Hor. Pondo a Mãezinha (Lou) no controle, rapidinho os ingratos se lembraram de mim e de Miler. Pedi a Jaci que deixasse a Estrela descer por uma noite, Lupinio chamou a sakura e Margot e o grupo está quase completo.
Esse quase me dá um nó na garganta.

Me levanto e arranco uma coxa de frango das mãos de Lou, que protesta de boca cheia, dou um selinho rápido no meu namorado e até recebo um sorriso de Hélia (what??), caminhando em direção à porta.
Bem, São Paulo está diferente, eu sei.
O país inteiro está depois do que fizeram com ele.

Tudo está perigosamente perto do fim e a galera está super ocupada em montar a defesa dentro de suas esferas. Mas conseguimos canalizar as sete bênçãos e pô-las em jóias. Daí foi fácil: Lou forjou um escudo de bronze celestial e Miler o cravou com suas flechas na torre esquerda da catedral.

Do lado de fora, os destroços de onde um dia ficou o cemitério da Consolação me causa um calafrio. Faz tempo que Campos Santos vêm deixando de ser zona neutra, alguns olhos famintos me encaram de entre as lápides, meio escondidos pela Garoa, hoje comum. Não existe mais disfarces, o mundo já sabe quem somos e nossos inimigos também.

Me sento no primeiro degrau. Um anjo de mármore coberto de limo está ao alcance da luz do nosso “salão de festas”, me olhando com uma expressão tão triste que me deixo levar pela emoção. Uma raiva crescente me faz arremessar o copo contra a imagem, o barulho abafado pela hera que cresce em suas asas.

— Eu sou filho de Obaluaê, agraciado por Oyá! Por que não consigo nem te sentir por perto? Hein? – esfrego os olhos, tentando parar as lágrimas. Não quero continuar mantendo esperanças, já que tecnicamente a graça dos donos do cemitério me diria se ele tivesse partido. Ou talvez não. Não importa, não VOU ter esperança.

Espero a resposta, mas só um ventinho gelado assobia em direção aos túmulos semi destruídos, bagunçando meus cabelos no caminho. Sinto uma saudade absurda tomando conta, saudade de seu jeito doce e perfeitinho. E não sinto que estou sendo desleal com Miler por causa disso.

Nunca mais!, um corvo parece grasnar pra mim.

Desço os degraus, sem tirar os olhos da estátua. Nessas horas gostaria de conseguir ficar bêbado como os normais e pôr a culpa na catuaba, mas não dá. Não sou mais híbrido, não dou PT (PT = Perda Total).

Ouço as criaturas no escuro rosnarem, movimentos de pés estalando ramos secos, cheiro de carne podre. Um estalido misturado com estática soa em algum lugar no alto. E continuo andando, fitando o anjo. Seus olhos parecem quase vivos, sua boca meio aberta, querendo me dizer alguma coisa. Caminho pelo pequeno pátio até o limite da luz e do campo de proteção místico, ultrapasso a redoma dourada e caio de joelhos alguns metros depois, chorando.

A culpa pode ser o mais poderoso dos monstros que carregamos. Estou aos pés do anjo, levemente bêbado e filosofo, puta-que-pariu.
E é então que me dou conta de que estou realmente encrencado.

— Ai, carái – digo olhando para cima.

A poucos centímetros da minha cara, dois olhos em formato de luas negras me encaram, os dentes afiados na boca estilo Pânico bafejando. Ela tinha tudo para ser diva e maravilhosa, mas o medo que me causa é bem conhecido por todos da noite. Seu culto está tão fraco que mal consegue encarar um dragão médio como eu, imagina gastar energia com estética.

— Já ouviu falar em Colgate Enxaguante Bucal, amore?

A deusa não parece muito satisfeita com minha piada e baba um litro de gosma na minha brusinha nova. Meus reflexos estão um pouco lentos, mas ela ainda rasga minha manga quando levanto voo. Fico puto ao dar a volta no anjo.

Me viro de frente para ela, que cresce com as sombras em volta, apoiando pornograficamente os joelhos nos ombros do anjo de pedra, segurando sua cabeça. Cuspo uma rajada de fogo, que surte um pouco de efeito, mas com um grito Nyx chama a horda de morcegos vampiros, zumbis e um Ao Ao (um híbrido metade carneiro em decomposição, metade normal).

— EI, GALERA, PRECISO DE UMA AJUDA AQUI! – grito, mas a Garoa aumenta e quase ouço minha voz quicando na redoma de energia, rolando de volta pra mim.

Na segurança da catedral, meus amigos riem, se divertem, esquecidos do mundo aqui fora. Consigo entender cada palavra, mas ninguém consegue me escutar.

— Clássico- resmungo.

Estou sozinho nessa e que não sou foda o suficiente para enfrentar essa multidão de míticos sozinho. Nyx se arrasta para cima, selvagem sobre a cabeça da imagem.

— Estou te oferecendo um emprego de meio período, dragão – ela lança um novelo de fios negros que passam queimando perto da minha orelha. – O turno da madrugada paga bem. São tempos difíceis para seres como você na sua esfera.

Desço até pouco acima do alcance dos mortos-vivos, encarando a deusa, fingindo avaliar a proposta. Por mais que eu saiba as vantagens do lado negro da força, nunca sairia do lado de Jaci por uma gringa estranha. Sorrio:

— A proposta é boa. Quer uma referência? DRACARYYYSS! – encho meus pulmões de fogo.

As chamas ricocheteiam no pedestal do anjo, que tem mais ou menos 2 metros de altura, queimando parte dos míticos mais próximos. Alguns chupa-cabra em chamas saem espalhando o fogo pela noite agora clara. Ganhei tempo, mas não sei bem o que fazer com ele. Nyx cai da imagem, se afastando rapidamente do campo de força, pairando entre o anjo e o limite do pátio. Ouço o estalido engraçado novamente e quando penso que não tenho mais idade para aguentar farra a noite toda, o corvo grasna logo acima.

— Que falta faz um anjo da guarda! – resmungo pela milésima vez.

Mas não tenho tempo para mais que essa frase tosca. Procuro pela origem do som e descubro a origem do ponto falho do campo de força místico: o desgraçado do pássaro está tentando arrancar uma água-marinha! A pedra provavelmente está cedendo.

Como não adianta pedir a qualquer deus para que Nyx não tenha chegado à mesma conclusão que eu, nem vejo se ela está me seguindo quando estico meu pescoço, disparando para o alto como se não houvesse amanhã. Preciso impedir que as defesas baixem, pegando meus amigos de surpresa.

As asas dos morcegos passam rente, abrindo talhos no meu rosto, pescoço e braços.

— Tudo bem, carái, mas deixa meu look em paz! – esmago um morcego com a mão esquerda quando ele rasga minha camiseta. Ok, custou 19,90 no brechó, mas é MINHA!

Quando consigo chegar a torre e espantar o corvo, que me olha indignado, sinto a presença da deusa às minhas costas.

— Se tiver criado juízo desde que nos encontramos pela primeira vez, vai me entregar esse escudo, dragão – ela estende pra mim as garras bem-feitas pintadas de roxo.

— Pode ser… – deixo meu corpo ceder, desanimado.

Conto até dois.

Um…

Dois!

Dou minha última cartada.

O mais rápido que consigo, agarro a deusa pelos braços e arremesso-a contra a cúpula dourada de proteção. A virada de ano antecipada faz um show de luzes tão grande que finalmente minha turma sai em disparada, todos de armas em punho (com exceção de Lou, segurando um sanduíche de metro como espada).

Faço sinal para que fiquem onde estão, observando os olhos de Nyx se acenderem como carvão em brasa, sentindo uma fração do ataque das 7 bênçãos que protegem a mim e aos meus amigos, agora centralizadas nas pedras preciosas do escudo.

Isso pode me custar uma inimiga feroz na Batalha Final, mas por um bom tempo não terei notícias de sacrifícios de crianças feitos a ela (seu novo agrado favorito).

Enquanto a deusa se esvai em fumaça negra pela noite, só soldo com lava a água-marinha da bênção cristie. Não sei por que agradeço a Renato enquanto toco a pedra, sentindo a cura vinda da esmeralda, a energia que as demais me enchem, fechando os cortes, aliviando a ardência.

Com a dispersão de Nyx, quase toda a sua horda mal-cheirosa foge em disparada, se entocando em suas tumbas, só alguns lobisomens mais famintos me encaram das sombras.

Plano até a borda do pátio, me sentando de frente para o anjo de mármore.  Fecho os olhos, agradecido ao deus cristão por ter atendido ao pedido de Renato para me ajudar. Sei que tem dedo dele nessa história e pode parecer loucura minha, mas enquanto caminho de costas pelo pátio, voltando para a catedral, ouço a voz do meu ex-anjo da guarda falar pela imagem do anjo de mármore:

Onde eu estiver, serei seu anjo sempre, pra sempre e independente, Paulo.


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Um Banquete à Borrasca, de Auryo Jotha

E continuamos os posts especiais de novembro com o conto do convidado! Outro autor teve o prazer de compartilhar um de seus textos e mostrar do que é capaz, lembrando que no fim do post tem link com seu perfil e indicação de livro. Se não viu o conto de Wan Moura que abriu o mês com esta novidade, clique aqui e conheça.

Auryo Jotha é o autor do conto de hoje. Sua obra principal é Carne Morta, um livro do Wattpad que foi um dos vencedores do maior concurso da plataforma, o The Wattys 2018. O livro mantém-se atualizado com novas histórias de mitos já conhecidos com uma pegada mais sombria. É um entusiasta da mitologia existente em nosso território, seja ela brasileira ou anterior a chegada dos europeus.

Assim como o convidado antecessor, Auryo nos trouxe uma demonstração tenebrosa de suas habilidades narrativas com a história sobre o mito grego, mas ainda com elementos brasileiros. Então tire as crianças da sala durante a leitura! Ou se você for uma criança, recomendo ler O Pequeno Príncipe. Brincadeira! Pode (e deve) ler O Pequeno Príncipe na idade que quiser. Aproveite o texto de Auryo Jotha a partir de agora:

Carne Morta - Auryo Jotha


Um Banquete à Borrasca

Sim… como havia sentido falta daquilo.

De novo o toque fresco de outro corpo ao seu.

Sem cama, sem tempo. As roupas? Rasgue-as, puxe-as! Pois nem o cheiro, nem o gosto dele a sacia. Mais… Mais… Mãos. Apertos. Um passar de língua.

O frio do chão contra as costas dele. Os dedos deslizando pelo suor naquele corpo, entre os pelos, pelo umbigo. Um carinho. Machuca.

Isso…!

Sob o peso dela: lágrimas e desejo e um pouco de calor. Forçava. Arranhava. E ele mantinha o olhar parado no rosto dela.

Curve-se! Ela alcançou uma boca à espera. Saliva.

As rugas pesavam em seus olhos. O tempo secava sua garganta. Sozinha, restava-lhe sobreviver.

Da cabeça dela o cabelo ralo e branco escorria pelas eras; enquanto seu corpo foi lentamente perdendo a força, a firmeza, a opção de não tremer; mas mesmo assim permaneciam: ela e suas penas negras.

No entanto, tudo já era tão velho… A poeira se acumulava vagarosamente em cada pedra. O vento do meio dia entrava pela abertura da caverna e se deitava sem forças no escuro entre o pó, entre cacos, entre ossos, entre…

Ah…!

As mãos sobre a pele deixavam um rastro de sujeira. Seus dedos imundos abriam a boca dele e enfiavam algo lá dentro. Era inútil. Mesmo assim, ela o agarrava, o colocava dentro de si novamente, tinha que aproveitar o calor que ainda restava nele.

Feitos em asas, seus braços o cobriam. As escamas de suas pernas roçavam na pele jovem. Sua língua preta, seca, passeava por aquele corpo já morto, ainda quente.

A Harpia parou. Ergueu o rosto:

— Quantas visitas… — Saiu de cima do rapaz, com uma mão entre as pernas tentando conter o que escorria por suas plumas. — Quantas visitas me honram hoje.

Deu dois passos lentos que não perturbaram a camada de poeira. Direita, esquerda, direita: com a cabeça ela procurava. Eles estavam bem à sua frente.

Um deles engatilhou uma arma. A Harpia se virou para aquela direção, arqueando as asas e abaixando o pescoço, em seus olhos leitosos ainda havia um tom selvagem e ameaçador.

Uma mulher se pôs no caminho daquele olhar, tirou a arma das mãos do companheiro, sem emitir um som ela moveu os lábios em um expressivo “idiota”. Lançou um olhar para cada um do grupo. Depois voltou-se para a criatura com um enorme sorriso, contudo ao se lembrar que a catarata filtraria seus gestos ficou séria.

— Perdão. Que espécie de visita sou eu, que puxa uma arma assim. — Abaixando-se — Veja! — Colocou a arma no chão. — Agora estou desarmada. Me desculpe mais uma vez.

Ao ouvi-la chutar a arma, a Harpia se endireitou na medida do possível já que sua coluna havia se curvado com as décadas que se agarravam às suas costas. Esperou…

— E quem é você, minha coisinha?

— Ninguém. Eu só estava per…

— NINGUÉM!? — Um passo. — Já sou cega, mas não burra. Ninguém? Como tantos outros antes de tu? — Um passo. — Como tantos outros heroicamente enviados para a Morte? — Bateu os dentes do bico com força. — São tantos os que caem. Não acredite em tudo no que dizem; não, não acredite, e não tente me enganar, Ninguém. — O ar lhe saiu como uma leve gargalhada.

— Luna! — Apressou-se. — Luna. Desculpa, não ter dito antes. Esse é meu nome. — Mentiu. E fez um sinal para que os outros três avançassem para os fundos da caverna e procurassem o que vieram buscar. Pés cautelosos, olhos na Harpia e onde pisar.

— Humm… Pois bem, Luna-Ninguém…

A criatura se virou abaixada com a uma pata erguida em busca do corpo nu atrás de si. Elegante. Fincou as garras no crânio dele, e o levantou devagar. Um sorriso contido. As pernas dele arrastaram-se na pedra, quando foi mostrado para a visita.

— Amigo seu? Ou de ninguém? Encontrei esse mais cedo andando por minha caverna.

— Não! — Não era uma resposta ao que fora perguntado. Os olhos fixos no rapaz marejaram. Recompôs-se. — Felizmente, não.

— Muito bem, Luna, e quantos vêm contigo? — Sua voz saiu rasgada, áspera.

— Sou apenas eu.

— O quão imprudentes são os Homens, não? — Soltou, e o corpo caiu sem jeito. — Mas é uma pena serem tão frágeis.

A moça fechou os olhos, respirou fundo, tentando se acalmar. Dois de seus companheiros já haviam sumido nas sombras ao fundo da caverna, o outro ficou no meio do caminho para caso algo desse errado; Luna olhou para ele, arma em punho, mira na Harpia, qualquer movimento atiraria, sabiam do risco, por isso ela não havia jogado tão longe a arma, estava ali no chão ao alcance; a criatura veria se tentasse?

— Sei que parece um absurdo, vir… — ela prendeu o fôlego quando a criatura começou a se aproximar de novo — um absurdo vir até aqui desacompanhada.

— Realmente, minha cara. — Mais três passos. — O que tens? Não tenha medo, pode se aproximar, como vês já tenho comida… para hoje.

A Harpia ficou séria de repente. Inclinou a cabeça para um lado. Suas garras arranharam a rocha. Ela ouvirá algo? Não!

— Me desculpe!, — Luna deu uns passos p’ra frente — de novo. É que estou muito cansada, não queria ser mal-educada. É que nos últimos anos viajo sozinha — os olhos da criatura voltaram a mirar sua visita — e acho que desaprendi como lid…

— Pois me conte. Você acertou meu ponto franco, sempre estou disposta para uma boa história; e se tiver sorte não só eu a conhecerei…

Nem todos juntos a matariam; só agora entendia isso. Essa era a oportunidade. Agarre-se! Tinham que conseguir o que vieram pegar. Fale!

— H…? Bem… Vi lugares e seres incontáveis. Ouvi — fez uma pausa involuntária ao perceber que havia se afastado do local onde havia jogado a …! — Ouvi os mais extraordinários mitos, lendas. Perigos vindos em todas as formas. Porém nesse tempo havia mais gente comigo, lógico, eramos…

— E o que houve?

A Harpia chegou tão perto; Luna não podia recuar.

O medo é fétido.

Olhou para trás em busca da arma. Continue!

***

Uma bagunça. O ar em podridão no fundo da caverna fazia com que os dois respirassem rápido e prendessem o fôlego; a saliva se acumulava não querendo ser engolida. O chão estava escorregadio de umidade e das sobras de antigas refeições.

“Entendo.” A voz da Harpia rastejava até eles pelas sombras.

“Principalmente porque não sabíamos o que era aquilo”. A de Luna também. Estava tudo correndo conforme as instruções recebidas.

As luzes das lanternas passavam por ossos, palha, tecidos retalhados, algo que lembrava um ninho, restos de animais, um livro, espadas, joias que mal brilhavam por baixo da sujeira. Cadê?

“Descemos o rio…” Enquanto as vozes conversassem eles estavam a salvo. “… ele ‘tava ferido, mas ainda conseguia ficar…”

Tinha que estar ali; trazido junto com alguma refeição antiga. Perdido há anos, finalmente localizado; a informação era certa, tinha que estar ali. Talvez estivesse encoberto pela sujeira.  Um deles apertou com a mão uma medalha que trazia no peito: um santo carregando uma lança e um lampião – São Longino.

“…ntramos o que ‘tava causando todas aquelas mortes…” Acabou. Não havia mais para onde ir, tinham agora que revirar cada corpo, cada monte de roupas, revirar os minutos que não possuíam. “…tínhamos que queimá-la…”

E se jamais fora levado p’r’aqui? E se nunca…? Não! A informação era confiável. Não era?

“MENTIRAS!” A Harpia berrou. E o som de asas pesou o ar.

***

— Estou velha, como pode ver. Mas, séculos e mais séculos não mudam os Homens; o que verdadeiramente quer aqui?

— Eu… — hesitou.

— Sem timidez, diga-me. — O hálito forte.

— Por favor, eu… — a criatura entortou a cabeça para ouvir. — Eu sei… que parece…

— Mais mentiras? Insistirá nisto? Então, eu mesma descubro. — Encostou o bico no braço de Luna e respirou fundo. — Estranho. Não sinto o seu cheiro.  Por quê? De onde vieste?

— Br… Brasil.

— Impossível. Como conseguiste fugir de lá se as fronteiras estão fechadas para nós? Eu sei, Luna-Ninguém… Nem se espante. Posso viver isolada, mas sei de muito do que acontece em outras terras. A opressão e a caça que ocorrem lá chegaram até meus ouvidos.

— Eu… — A proximidade da Harpia a incomodava.

— Não houve fuga. É isso…? Livre acesso? Livre saída? E isso é o que me deixa mais curiosa por saber quem te enviou. E como fala tão bem o meu grego? Sua língua foi encantada com prata? Peixe Babel? Diga-me.

— Fugi pelo sul do país com a ajuda de um espírito e cavalos invisíveis.

— Pséma! Pséma. Mentira! Eu sei que o Errante se levanta… que escolas bruxas foram fechadas, oráculos perseguidos, vampiros mortos, sei que licantropos servem como cães farejadores. Mesmo que escondam… é um país em guerra. Responda-me: por que alguém que fugiu de tamanhos horrores iria querer morrer aqui?

— Vim em busca de algo para deter tudo isso.

— Se é no que acreditas.

A Harpia abriu as asas, desprendendo de seu corpo uma lufada de odor e podridão. Suas asas envolveram a moça, taparam sua visão. E com uma das patas agarrou-lhe o queixo.

— Mentiras! MENTIRAS. — Sentiu o cheiro do sangue a escorrer pelas pontas das garras em contato com a pele. E puxou. O maxilar da moça foi arrancado, e sua língua balançou em sangue. Sem gritos, sem gemidos, os olhos se apagaram de dor.

A poeira dançava ao redor. Ouviu-se um tiro. Tarde demais.

ATIRA!

Ela caíra mole no chão.

ATIRA! ATIRA!

O gatilho. As balas. A criatura se virando. Aqueles olhos brancos. Cegos.

VAI! ATIRA!

Um grito agudo, seco rasgou-se da garganta daquilo e jorrou-se por entre os dentes, por entre o bico aberto.

Não, não.

Ela não morria; POR QUÊ?!

Em segundos as garras da Harpia se encaixaram no crânio do que ficara de guarda; e a pata desceu… Ossos esmagados, algo escorrendo por entre os dedos: silêncio.

…!

Ela esperou mais algum ruído… eles sempre faziam.

— QUEM OS ENVIOU ATÉ MIM?

Com os compridos dedos entrelaçados às costas, caminhava em direção aos fundos da caverna deixando uma pegada de sangue pelo caminho, junto com raras gotas vindas das feridas deixadas pelas balas.

— MAS ME DIGA QUEM DISFARÇA O VOSSO CHEIRO? Magia… não? Tanta CAUTELA assim… Quem seria…?

Os joelhos se dobrando ao inverso dos dos Humanos a levavam mais e mais perto dos dois últimos visitantes encostados à parede.

— Ah eu sei o que quereis… O que tu procuras há muito foi levado.

Abriu as asas tentando fechar a passagem. Curvada, caçava: movia lentamente as asas para alcançar qualquer coisa viva. Um único som era o que precisava.

— Não há recompensa para esta missão. Não há caminho de volta. Não haverá banquete à tua espera. Ficarás aqui: meu caro herói anônimo… derrotado no meio da jornada. Como ninguém.

Cega: ela agarrava o ar. Mais um passo. A respiração presa deles dois iria denunciá-los quando fosse solta. Mais um passo. Os dedos da criatura quase os tocavam. Aquela língua seca, negra queria ser saciada. Mais um passo. Cada pena de seu corpo arrupiava-se com a Morte.

Os dois precisavam arriscar. Um olhar, um acenar de cabeça. Soltaram o ar quase juntos, e saíram correndo para lados opostos. Sacaram as armas; mirar e correr: atiraram ao léu.

A Harpia agarrou um jogando-o no chão. Bem seguro, deitou-se sobre ele, abriu o bico, inclinou-se; uma bala entrou-lhe pela garganta, mas a criatura continuou, fechou o bico com um único movimento entorno do rosto de sua visita, que se fora com um estalo. E a arma ainda fumegante caiu inerte no chão.

O último de seus visitantes era agora passos distantes. Iria atrás dele? Ensopada, um pouco ferida, levantou. E os olhos brancos dela miraram a saída.

***

Sim! Estava a salvo. Tremia, as lágrimas lhe escapavam como o ar dos pulmões. Sobrevivera. Descera a montanha esperando ser içado aos céus a qualquer momento, depois ser arremessado lá de cima. Mas, agora… estava sob a proteção de um bosque, e mesmo que próximo da caverna não haveria mais perigo.

— Consegui! — Um sorriso ergueu essa palavra no ar por alguns instantes.

A Harpia estava morta, sim… era isso que diria para todos. Mesmo que não tenha conseguido salvar mais alguém do seu grupo, e nem recuperado o que tentaram achar, matara a Harpia, isso já era muito, já seria uma história e tanto. A criatura ia terminar de se apodrecer naquele lugar. Morta com um tiro na garganta. Ele mesmo que a enganara contando histórias, arriscara-se muito e sozinho, sozinho, mas era o único jeito de acabar com aquela aberração. Sua própria bala rompera a vida dela. Isso… Um herói!

O melhor é que não sobrara alguém para desmentir sua história. Um herói.

A glória enfim estava pronta para ser colhida.

Por entre as árvores uma sombra de asas passou sobre ele seguida por um vento forte com cheiro de chuva.

— Um gavião… — Disse para si. — É só… um gavião…


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Livro de contos Carne Morta

Infortunium, de Wan Moura (Conto do Convidado)

Tenho novidade para os posts do blog nas segundas-feiras! Trarei autores convidados que vão compartilhar um de seus textos no blog neste mês de novembro. Aqui terá uma amostra de seus talentos, e após o conto tem os links das redes sociais para conhecer mais do autor e de seus trabalhos.

O primeiro convidado é o escritor Wan Moura. Possui uma mão cheia para preencher folhas em branco com elementos de horror dos mais diversos contos já escritos. Mais do que escritor, é um entusiasta do terror, adora buscar histórias macabras em livros conhecidos ou através de autores independentes. Esse amor inusitado começou desde quando era criança, quando sua vó Madalena lhe contava histórias sombrias do folclore nordestino, experiência compartilhada no livro em homenagem a ela.

Agora fique com o conto Infortunium. Boa leitura (e pesadelo)!


Infortunium, de Wan Moura - capa

“As almas mais escuras não são aquelas que escolhem existir no Inferno do Abismo, mas sim aquelas que escolhem se libertar do Abismo e circular silenciosamente entre nós.”

HALLOWEEN — O Início

A luz oscilante do abajur destaca a pilha de revistas “Mestres do Terror” em cima da escrivaninha. Pôsteres do Donkey Kong e Castlevania decoram as paredes, assim como prateleiras abarrotadas de brinquedos e alguns frascos de remédios. Tudo coberto por poeira e teias de aranha.

O quarto é um labirinto de quinquilharias. A janela permanece fechada, mas através do vidro um brilho esquálido ilumina o garoto sobre a cama. As mãos dele vibram, os dedos percorrem um objeto com agilidade. Os olhos são bolotas acinzentadas, a boca adota o formato de “O” e após um bocejo se fecha.

Inspira e expira, pinça as pálpebras.

Recomeça a missão.

Sincroniza as seis faces de seis cores diferentes com tempo recorde. As dores no pescoço incomodam, o fedor de mofo dificulta a respiração, mas nada o impede de registrar na mente a centésima vitória sobre os mecanismos do Cubo Mágico.

O menino observa o relógio e verifica que a meia noite chegou. Joga o Cubo para baixo da cama. Olha em volta. Desliga a luz do abajur e esconde o corpo sob o lençol com estampas do Pac-Man.

Encharca o pijama com suor. Os pés coçam, um formigamento alcança as costas. Gira sobre o colchão, se contorce em agonia.

Não há sono algum.

Senta na cama; a coluna encurvada, mãos no queixo. Vislumbra o isolamento.

As prateleiras, os pôsteres, os brinquedos, tudo retém a escuridão. O guarda-roupa agora se assemelha a um caixão e faz o menino imaginar Bela Lugosi surgindo com presas sedentas por sangue.

Stanley sorri. Aos onze anos sabe que não há nada na escuridão ou sob a cama esperando o momento certo para atacar. Porém, pensar nisso incomoda.

O sorriso desaparece.

O menino abraça os joelhos, fixa o olhar num dos cantos do quarto e relembra o que a mãe dizia quando a visitava no hospital: “É tudo produto da nossa imaginação.”

A recordação o conforta até algo deslizar de uma parede a outra.

O garoto treme. Escuta estalos no teto, arranhões no chão, sussurros próximos ao ouvido. Uma gargalhada.

Vultos rastejam nas paredes; entram no guarda-roupa, escorrem para debaixo da cama e escavam o colchão.

Stanley deseja gritar, no entanto a voz se esconde na garganta. Sente o azedume desgastar a língua como as limonadas que toma antes de ver Caverna do Dragão.

Os sussurros se tornam gritos agudos.

O jovem cerra os punhos e fecha os olhos.

As sombras se aproximam pelo forro de madeira, desprendem um odor de comida estragada.

Stanley joga o lençol para o lado e liga o abajur; a luz falha como a respiração de um asmático em crise.

Olhos apavorados correm pelo quarto. O pânico pulsa, rasteja pela coluna. A frieza do medo o toca na nuca com arrepios.

O menino levanta da cama. Corre e aciona o interruptor próximo da porta; a luz do quarto brilha como o Sol. Stanley caminha até o guarda-roupa. Conta até três e abre as portas.

Roupas, tênis, pôsteres da Nintendo, fotos dos pais. Tudo empoeirado no mesmo lugar de sempre.

O silêncio reina.

Stanley abandona o quarto ainda com o medo pulsando nas veias. Chega ao corredor, desce a escada até a sala de estar. O clarão azulado sinaliza que o pai ainda jaz vendo TV. Ele o vê esparramado na poltrona e o chama.

Não há resposta.

Tenta outra vez.

Nada.

O homem permanece imóvel; o braço esquerdo dependurado, as pontas dos dedos tocam o chão. O braço direito flexionado num ângulo reto, a mão repousando sobre o controle remoto.

Stanley se aproxima nas pontas dos pés, observa a cena com atenção. A cabeça do pai no encosto reclinável, as pernas estendidas para frente sobre a mesa de centro. O cigarro ainda respirando no cinzeiro e o porta-retratos com a foto da esposa arrebentado no chão ao lado de uma garrafa de uísque.

“Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado! Que ele não esteja gelado…”

Stanley estende as mãos e sente a frieza do pai queimar os dedos.

O fôlego falha, os olhos se enchem de lágrimas e o pijama fica ainda mais cheio de suor. As laterais da cabeça ganham agulhadas e na garganta ocorre um incêndio.

O garoto vê os olhos do homem brancos como neve. As pálpebras esticadas, a língua pendendo do canto da boca e sangue seco manchando das narinas ao queixo.

Antes que o grito se forme e ganhe impulso nos pulmões, Stanley nota a barriga do cadáver crescer. Observa um nó surgir sob o queixo, os olhos inflarem nas órbitas e algo escorrer dos ouvidos deixando um rastro sinuoso. Os botões da calça e camisa desprendem, a carne do rosto estica e veias saltam da testa.

Stanley chora e ao evocar mais uma vez o pai uma mão alcança seu braço. Aperta.

O garoto olha para a coisa na poltrona. Observa o morto gorgolejando sangue enquanto grunhe uma frase:

— É tudo culpa sua!

O menino se liberta. Corre. Sobe os degraus gritando sem ouvir a própria voz. Tranca a porta do quarto, voa para a cama e esconde-se sob o lençol. Ouve passos marcando os degraus da escada, rápidos como o palpitar de seu coração.

As luzes oscilam.

Stanley grita até sentir os pulmões arderem e a visão ficar turva. Começa a tossir e cospe uma porção de terra misturada com sangue. Ouve algo rastejar dentro dos ouvidos, leva as mãos às têmporas.

A sombra chega à porta desejando entrar. A madeira começa a ceder, as dobradiças rangem, rachaduras nascem na superfície de mogno e a maçaneta gira.

De súbito os empurrões cessam.

O silêncio sepulcral se abriga no ar.

Stanley salta da cama, corre para olhar pela fechadura e não percebe uma névoa vermelha se materializando sob a cama.

Ele vira para o lado e projeta as costas para a parede. Da névoa nascem garras, faíscas, um par de olhos negros e uma criatura que surge brandindo ódio. O fedor estrangulador perfura as narinas de Stanley, sua face é um misto de pavor e alegria.

O infante segura a vontade insana de correr para longe, lançar-se pela vidraça da janela.

Stanley desdobra os braços; as mãos espalmadas, os dedos em riste, os olhos marejados nublando a visão. A boca é um abismo de onde grunhidos escapam tentando formar frases compreensíveis.

A criatura vai ao encontro do garoto. As garras brilham, as presas gotejam uma saliva gosmenta, o corpo escamoso libera insetos asquerosos e os cabelos despejam um líquido viscoso.

Eles se abraçam.

Stanley sorri em meio a lágrimas.

A Coisa o aperta. Asfixia. As costelas do garoto cedem ao abraço do reencontro, o sangue escapa pelos cantos dos olhos e narinas. Os membros alcançam ângulos impossíveis, a carne fica azulada e os lábios roxos. Mais terra escapa da boca, os dentes apodrecem e caem. O rosto empalidece, as juntas ficam rígidas e o fedor de carne em decomposição sobrepuja todos os outros. Apesar de tudo o sorriso permanece.

A névoa se enovela nos tornozelos de Stanley e o arrasta para debaixo da cama. Depois para dentro do Cubo Mágico. A fera se mistura à bruma e some como a luz do abajur no momento em que os barulhos na porta recomeçam.

A chave é introduzida na fechadura; a maçaneta gira e um homem entra no quarto cambaleando, maldizendo a vida. Em uma das mãos carrega a garrafa de uísque. Inclina o vidro sobre a boca e despeja o líquido, engole o álcool em doses cavalares. Limpa os lábios com a costa da mão. Desliga o Walkman, retira os fones do ouvido.

O sujeito joga os olhos pelo quarto e vê o relógio marcando meia noite e treze. Ao lado o calendário com imagens do Super Mario Bros. Ostenta, rabiscado sobre o dia 2 de Julho de 1989, um “X” feito com giz de cera. O homem jura ter ouvido barulhos vindos do quarto do filho, mas não há nada fora do lugar.

A bombinha para asmáticos, os frascos dos remédios que não surtiram efeito, os pôsteres dos jogos que o garoto adorava, as revistas tenebrosas que alimentavam a imaginação, a data de seis meses atrás marcada com giz no calendário e o Cubo Mágico esquecido sob a cama. Tudo intacto desde o estrangulamento de Stanley pela mãe, portadora da Síndrome de Münchausen.

O homem fecha a porta com o choro travando a respiração, injetando dor nos pensamentos. No caminho de volta desliga a lâmpada do corredor quando a luz começa a oscilar; bebe outro gole de uísque e retorna para a sala sussurrando arrependimentos.

Dentro do quarto algo arranha a porta.

As sombras parecem mais vivas agora.


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Publicação original de Infortunium

Livro Madalena

Convergência, pt. 5

Continua a receber murros no coração, a dor controla o corpo, mãos apertam Priscila Mariana. Engasgada, sangue escorre do nariz dela, olhos esbugalhados choram, palavras são diluídas na garganta e perdem sílabas, sobram apenas suspiros e gemidos fora da boca, e suas finas e frágeis mãos empurram o peito de Thiago.

Empurrões o incomodam, perturbam a ele e a força presente no peito. Só combate a dor com dor. Alivia a garganta da moça e fecha os dedos no próprio punho, aperta as unhas nas palmas. Prima adquire fôlego e reage com socos na face de Thiago, e isso o ajuda. Retrai os braços, aperta o corpo, soca seus próprios ombros, a barriga, o peito, a face; a força do coração perde controle, aumenta a intensidade, e Thiago usa o impulso contra si, martela a nuca com o punho direito, machuca e deixa o cabelo ensopado em vermelho, a força enfraquece.

— Di, Thiago. — Ela cospe o restante do sangue, a luz da Convergência brilha sobre o suor da pele. — Você não é o mesmo.

— Eu te disse, Pri. E agora estou pior.

— Eu causei isso? Coloquei um demônio dentro de ti?

— Duvido ser demônio. Existe uma energia sobrenatural dentro de mim, ela me transforma e domina o corpo. Estou me transformando naquelas criaturas a cada vez que alguém queima meu coração com chamas negras, isso me condena a uma nova maldição.

Prima se levanta, dá dois passos na direção de Thiago, ele recua.

— Não quero te causar mal com minhas maldições, Priscila. Pegue o meu carro e busque abrigo.

— E o que você fará?

— Buscarei respostas, e redenção.

Pés de Thiago deslizam no chão molhado, param somente quando apoia as mãos na parede da cozinha, mancha o azulejo com o toque recheado de sangue, sua mãe não reclamará desta vez. Escurece a caminho do quarto, sempre foi escuro. Procura pela chave e documento estapeando a cômoda, a mão bate na miniatura de Darth Vader feita de gesso, pouco depois o som da peça partindo em pedaços arranca lágrimas, seu pai sempre avisou que isso aconteceria. Bate no objeto de metal e no plástico ao lado, pega a chave e o documento, retorna e vê Prima na sala.

— Pode ir. Não recue por mim. — Ele ergue as chaves.

— Ótimo, bom ter lembrado do documento. Vai que tenha blitz com policiais verificando a habilitação de duendes.

— Força do hábito, engraçadinha. — Thiago teve de rir.

— Di. — Ela o abraça e beija no rosto. — Desculpe ter sido agressiva, apesar de ainda achar ter merecido. Eu espero ver você de novo, se cuida!

Ele acena e observa a vizinha ir embora. É péssimo com despedidas. Aguarda a abertura dos portões, o som de ignição do motor, o deslizar da roda do carro comprado mês passado, mal passeou com ele ainda. Sai de casa quando Prima já está longe. Agora é sua vez.

No meio da rua, ele deixa a dor no coração o dominar de novo. Postura curvada frente as criaturas no caminho. Agarra o goblin pelo pescoço, permite as mãos torcerem o corpo do pequeno monstro e paralisar esses olhos para sempre. O cabeça de cuia perdido longe do lago tem a nuca inflada demolida após vários murros. O Jack da Lanterna recua, Thiago o alcança, torce seus dedos, agarra o punho, o cotovelo, e quebra o antebraço; Jack grita e expele fogo dos olhos e boca abertos na cabeça de abóbora.

Jack da Lanterna - Convergência

— Eu já estou acostumado com as chamas! — A frase gutural de Thiago tira o fôlego de Jack. Sem ar, o fogo sobre a cabeça é apagado. Um murro atravessa a face de abóbora, escancara o buraco do rosto em um único grande e redondo, e faz outro quando o braço perfura atrás. Sem o membro acima dos ombros, o corpo morre. E Thiago continua vivo.

Enxerga a mula sem cabeça na rua João Bento, paralela de onde está, só que abaixo. Difícil dizer se é a mesma mula, desconfia da vampira lutar contra o mito brasileiro até a morte enquanto protegia todos, proteção que falhou. Pouco importa os detalhes, Thiago terá a revanche.

Desce o escadão onde interliga as duas ruas. Os vizinhos drogados fumavam entre os degraus, porém jamais teriam visão parecida com a de hoje. Thiago nunca fumou ou bebeu, e agora alucina com a realidade da Convergência.

A mula profanadora relincha e dá meia-volta, bate os cacos no chão e inclina o corpo, derrama fagulhas no asfalto. Thiago bate no peito, inclina a coluna cervical, e escorre saliva da boca até o chão. A mula impulsiona as patas traseiras, os primeiros passos são de saltos das quatro patas, e são os últimos. Botas do tamanho de van escolar esmaga o animal de fogo no instante que surgem. O resto do corpo começa a se formar, pele turquesa repleta de rugas do tamanho da cabeça humana. Joelho se forma acima das árvores do terreno ao lado. É preciso inclinar muito a cabeça para enxergar a bermuda do gigante.

Correntes de ar atingem as costas de Thiago e formam o redemoinho entre ele e o monstrão. O vulto de vermelho e moreno desacelera junto com a ventania e dá forma ao saci já conhecido.

— Qualé a desse bixo? E qualé a sua parada, mané?

— Eu já sou igual a vocês, quero partir pra briga e entender o que acontece.

— Vixe, o maluco toma uns whey protein e já se acha monstro. — Saré expele a fumaça do cachimbo, ela paira no ar, toma densidade, se dissipa e despeja armas de fogo. AK-47, M4A1, HK MP7, uma Taurus de calibre .36 e duas de .38, Peacemaker de calibre .45, Glock 18C, e Colt 1911.

— Que porra é essa? — Thiago estremece.

— Num qué brigá? Amarelô só de ver as arma de fogo? Boiola da peste. — Saré traga o cachimbo de novo, assopra e forma um tacape com ferro atravessado na ponta, cai aos pés de Thiago. — Te vira com isso então.

Agacha e toma a arma, só consegue tirá-la do chão com o impulso da energia sobrenatural dentro do humano.

Chama verde acende diante de Thiago, dois seres saem das brasas. Um de baixa estatura com pés virados para trás, e a mulher com escamas misturadas a pele dos braços, cabelo ensebado com as pontas no quadril, ela dá a volta e mostra seu rosto de crocodilo e olhos amarelos, exibe os dentes afiados.

— O bando chegou! Ó Raoni e Angélica, esse moleque tá do nosso lado, o marica tem medo de pegá em pistola. Tamo bem garantido, viu?

Thiago vira o rosto e resmunga pela garganta.

— Relaxa, ô esquentadinho. Esses dois nem senso de humor têm.

Rua escurece com a enorme sombra sobre os quatro guerreiros sobrenaturais, em seguida um grito gutural vem na altura do céu. O gigante enfim completa o corpo, estapeia as casas da rua Maria do Valle e destrói as paredes, despencam junto com o teto e a mobília até a João Bento e arrasta consigo mais casas.

O Gigante - Convergência

— Achou que eu não conseguiria atravessar, Odin? — O eco do gigante mergulha nos tímpanos de Thiago, atordoa e aciona um zumbido estridente, escorre filetes de sangue das orelhas. — Esta Convergência servirá de nada! Destruirei Midgard, nenhum Aesir tomará poder daqui, e apenas Jotunheim prevalecerá no Ragnarök.

— Entendeu a parada da Convergência agora, mané?

— Ahn? — Thiago responde o movimento dos lábios de Saré, ouve apenas zumbidos. Batida do peito explode em energia, equilibra o senso de direção, recupera a audição. — Agora a noite começa — diz e sorri para Saré.

Chamas saem da ponta da flecha de Raoni e das garras da Angélica. Combinam combustões, brasas crescem e aumentam antes de disparar.

O humano também dispara, só que a si mesmo. O corpo repleto de fogo negro por dentro se joga à bota do monstro, crava os dentes na clava de madeira, deixa as mãos livres, e salta na perna do gigante. Pelos prateados tomam proporções de cipós por serem do gigante, Thiago consegue se sustentar neles sem arrebentar, e começa a escalar.

Vê as chamas verdes voarem acima dele e atingir o abdômen e quadril, acompanhadas dos disparos de bala. Saré tem um fuzil em cada mão, sem deixar de soltar fumaça pelo cachimbo e construir algo grande, uma catapulta.

Agarra nos pelos quando o gigante corre, indiferente a Thiago ou até dos projéteis. O tacape só machucaria o olho do monstro, é preciso escalar mais, tipo bastante. Toma um pequeno impulso e sobe três pelos, está quase no joelho. Segura-se, deixa o inimigo completar o passo, e sobe mais quatro.

Toma fôlego e sente o calor do fogo, não param de atacar, nem vão interromper e esperar Thiago escalar. Fecha o punho direito sobre os pelos, solta a mão esquerda e pega o tacape segurado pelos dentes, a madeira toda babada. Leva a arma para cima, e solta o peso do braço no joelho. Se ele pudesse procurar nesse momento, não encontraria algum arranhão desse golpe. Tenta outro, marreta o terceiro, quarto, berra no quinto, o sexto muda o tom em turquesa mais escuro, no vigésimo poderia deixar a pele roxa.

A catapulta de Saré está completa. O saci a aciona e lança uma bola gigante de metal na altura do quadril do gigante. O globo bate no cóccix do inimigo e explode. É uma bomba!

Explosão dispara fragmentos de metais que perfuram a bermuda e a bunda turquesa. Chamas escalam o corpo, queimam os pelos da barriga e a pele do gigante, não mais indiferente ao dano, e começa a sacudir. Estapeia onde foi atingido, depois a barriga. Sacode o corpo de um lado a outro, balança o Thiago junto, que rompe os pelos onde se segurava e entra em queda livre.

Grita por Saré, em vão. Sequer ele ouve o próprio desespero por socorro, de pedir só mais uns minutos de vida, de desejar tudo isso ser sonho e acordar. Seus pesadelos sempre acabam em queda, talvez a vida também.

Segura firme no tacape, única coisa capaz de segurar. Perna do gigante se distancia cada vez mais, o tempo desacelera com flashbacks de despedida. A graduação do ensino médio, a viagem a Belo Horizonte há dois anos, as discussões com o pai sobre problemas do carro, a noite com Joana.

— Me perdoa, Jô. — E fecha os olhos, prestes a repousar por definitivo.

Abre os olhos quando dois braços o agarram e flutuam com ele a sete palmos acima do chão. Vê asas transparentes sustentando o corpo da salvadora com armadura de metal pesado, as tranças de cabelo loiras na altura do peito balançando, algumas batem na testa de Thiago, sob o par de seios dela. Os seios dela. Ele já entendeu.

Desce até o chão com ele e solta. Incapaz de segurar o riso, escancara uma gargalhada conforme retoma o fôlego. E Thiago continua vivo.

— Obrigado!

— Não chegou a hora de sua morte — diz a loira de asas.

— Seja quem for que decide, não vai muito com a minha cara. Só me deixa sofrer mais.

— Errado. — Ela pega o tacape do chão e ergue para Thiago. — Eu decido e gostei de você.

— E quem é você para julgar quem vive ou morre? — Retoma o tacape, braço volta a tremer.

— Helga, uma das valquírias responsáveis por levar os mortais à Valhalla.

Valquíria - Convergência

Ele volta a rir.

— Aquele gigante disse que isso tudo é culpa do seu deus.

— Odin destrancou o canal antigo entre Midgard e todos os demais mundos onde abrigam os seres sobrenaturais e divindades, sejam os sustentados pela nossa árvore dos nove mundos ou a de outros panteões.

— Puta merda. — Thiago mantém a boca aberta. — Os deuses existem mesmo! Tá na hora de eu deixar de ser ateu.

Helga pisca os olhos azuis uma vez, inexpressiva.

— E por que o papai do Thor fez isso?

— A Convergência atraiu os seres desses mundos até aqui, foi inevitável, mas há o objetivo mais importante: o de restaurar a conexão dos humanos com os Deuses, a única maneira que Odin encontrou de superar o Ragnarök.

Thiago suspira. Isso é muito maior do que imaginava.

— Ainda pretende lutar, humano?

— Como você disse, minha vida está em suas mãos. — Ergue os braços e olha o gigante, pouco longe, com três partes do corpo em chamas.

A valquíria bate as asas e tira os pés do chão. Flutua até Thiago, segura pelas axilas e o levanta no ar. Atravessam a altura das árvores em segundos, está acima do nível da Rua Maria do Valle, alcança a altura da barriga do gigante. Mal consegue ver Saré e os outros dois aliados, na verdade cinco; Helga não é a única a chegar no meio do combate.

Corpo enfraquece conforme voam mais alto, nariz começa a sangrar. Thiago pisca os olhos, sente a luz sobre o céu noturno perder a intensidade, ou ele a visão, juízo é certeza que perdeu. Coração bate mais forte, adapta os sentidos dele na baixa pressão atmosférica, foca a força no braço em segura o tacape, ele torce para a energia não mandar o braço acertar a cara da valquíria, e a visão fica mais nítida, mas a luz ainda enfraquece.

— Alcançamos o ombro dele — grita Helga. — Vou me aproximar e te deixar na cabeça, os gigantes sentem a presença das valquírias, ele tentará me acertar, então aproveite a distração e acerte o olho dele.

— Pode deixar!

Ela arremessa Thiago a dois metros de distância. Ele flutua sobre o ar gelado, vê o gigante expelir fumaça fria das narinas, enquanto abdômen e peito exalam fumaça das chamas. Os guerreiros terrestres não passam de pontos lá embaixo, meros vagalumes piscando com o fogo verde. Olha a frente, vê fios grossos de prata sobre a nuca turquesa, a orelha do tamanho do humano, os braços tentando acertar Helga feito inseto.

Enfim alcança o gigante, agarra a orelha com a mão direita, tacape firme na esquerda, mas coloca na boca de novo. Segura o cabelo da parte lateral e começa a escalar na horizontal. Movimentos vagarosos, a cabeça do gigante se mexe mais que as pernas por acompanhar o zigue-zague da valquíria, o vento bate mais forte, e a queda muito mais aterradora.

Chega no final do cabelo. Helga flutua de frente ao gigante, e ele fecha o punho turquesa nela. Traz a mão mais perto e vê o rosto feminino, o resto do corpo e asas apertados entre seus dedos, e sorri por capturá-la.

Thiago admira a coragem e confiança da valquíria, deixa o inimigo distraído. Salta do cabelo à sobrancelha, corpo balança pelo ar, apoiado somente pelas mãos. O olho enorme do gigante pisca para Thiago, a mão livre se aproxima. Ele solta da sobrancelha e agarra a pálpebra do olho, tem de ser agora! Abre a boca, pressiona a mão esquerda, empunha a clava com a direita, e golpeia o olho do infeliz.

O gigante fecha os olhos e berra contra a dor. A mão escorrega da pálpebra e Thiago aperta firme na pele abaixo do olho, apesar de enrugada, o suor da face turquesa faz os dedos da mão esquerda escorregarem, é preciso agir rápido. Levanta a arma acima da cabeça, ainda alcança o olho. Golpeia de novo, e de novo, vê o globo se diluir junto com o sangue escorrendo. O gigante curva a cabeça, Thiago escorrega da face e cai distante dela, vislumbra a bocarra gemendo de dor, a valquíria voando livre da mão, mas não irá salvá-lo. Ela terminará o serviço, se aproxima do outro olho.

Está à mercê da gravidade, passa pelas camadas de fumaça e as chamas esverdeadas, imagina ser fuzilado, mas Saré descartou as armas de fogo há tempos, até a catapulta, um grande redemoinho dispara correntes de ar para cima e golpeia Thiago. Coração bombeia, acelera, está frenético, braços e pernas rígidos nem tentam buscar apoio em meio ao ar. A luz do céu desaparece, dá lugar à lua cheia e as estrelas. Ele retoma os flashbacks, permanece no último. E pede perdão à Joana antes de colidir no chão.

*

Abre os olhos, incapaz de sentir o corpo. Continua na rua João Bento, no meio do asfalto, corpo ensanguentado e lambuzado com algo gosmento. Olfato retorna e presenteia com cheiro azedo e forte, vira a cabeça ao outro lado, na direção do odor, e se assusta com o gigante ao lado, melhor dizer, a cabeça do gigante, duas órbitas sombrias e cheias de sangue no lugar dos olhos, uma fenda escancarada, cheia de dentes. Ergue a cabeça e vê o resto do corpo, tudo queimado abaixo do pescoço, as pernas atravessam todo o terreno de área preservada. Tudo imóvel, morto.

Helga pousa entre Thiago e o gigante, única que permanece entre os aliados. Ela agacha e segura seu ombro, e neste instante o tato volta a funcionar.

— Argh! Isso dói, caralho!

— Você é um excelente guerreiro para recrutar em Valhalla. Mas fique tranquilo, não o levarei hoje. — Sorri antes de bater as asas e sumir pelo céu.

E Thiago continua vivo.

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