Categoria: Contos/Crônicas (Page 1 of 5)

Contos e crônicas sobre diversos temas

Passei dos Limites (ou conto para não enlouquecer)

É isso, cheguei ao limite. Perdi oportunidades de ver pessoas queridas, agora perdidas. Gastei horas em troca de dinheiro, dinheiro em troca de conforto, conforto em troca de mentiras. O problema da mentira é quando a gente a descobre, descobre que a vida está condenada, fracassada, predeterminada a aprisionar as pessoas a fazer o bem. Chega! Foi a gota d’água eu precisar de atendimento e faltar condições de chamá-lo. Era atendimento público, e precisei da iniciativa privada a pedi-lo, eu teria quatro dispostos: um telefone fixo, uma conexão de internet, e dois chips de celulares. Tudo desconectado, e não foi por causa de azar. Longe disso! Foi omissão, omissão dessas empresas, omissão do governo local em falhar em desenvolver a região em vez de só propagandear voos de pombos como se fossem gaviões. A omissão foi minha, de ter me segurado por tanto tempo. Desta vez agirei.

Visto a camisa mais surrada, tal meu estado atual. Nada de jeans, esta bermuda preta ocultará a sujeira prestes a fazer. Tênis também surrado, só evitando de sujar meus pés. Saco a lâmina, exauri de amolá-la todo dia, corta só de olhar seu fio. Pego também o martelo, combinarei golpes com as duas ferramentas. Mãos suam, antecedem a ansiedade da loucura a realizar em breve. Tanto faz, cansei de deixar de fazer algo só por dizerem ser errado. Hoje eu posso arrebentar tudo.

Está ali, na minha frente. Como uma muralha até onde posso chegar, igual o guarda em Diante da Lei de Kafka a impedir-me de entrar na Lei, exceto eu me recusar a esperar. Abrirei caminho na base do martelo. Acaricio na altura da nuca, imóvel, quase sinto o suor de enfim me ver tão perto, tão próximo de cometer esta loucura. Hoje ninguém rirá, cansei de recuar. Vou apenas avançar, ataco o martelo onde acariciei e destruo aquele pedaço inútil deste que pensa em nada.

Adrenalina corre pelo corpo. Eu estou certo, agora é a hora! Esmurro outras vezes. Cinco, sete. Perfuro a lâmina no ponto vital deste já inconsciente, pressiono e afundo carne adentro com o impulso do martelo, respingando tudo em mim. Adiantou em nada vestir bermuda preta, sujeira impregna a cada golpe, pena só ter roupa de cor diferente da qual arranco dele agora. Apenas detalhes, nada impede de eu continuar agora, a bater, bater, esmurrar. Quebro pela última vez, agora é só aparar com a lâmina. Riscar, diluir a superfície e revelar camadas internas, forjar sulcos. Poderia pegar a lixa, mas prefiro deixá-lo rústico, com as marcas de minhas mãos, continua belo assim, e a falta de delicadeza reflete meu estado atual, a arte funciona deste jeito, mesmo em mãos grossas e peludas e sujas, empoeiradas. Os últimos acertos foram na parte pontuda, neste queixo fino, eliminando gorduras desnecessárias.

Perco o fôlego, até a vista por momentos, o momento de suspiro e o de liberdade. Quem é a Lei agora, Kafka? Toco no meu trabalho, neste gesso lapidado até tornar girassol, cujas pétalas estão ligadas ao formato de coração. Sendo gesso, é incapaz de seguir o sol, por isso lapidei neste formato. Esta arte nasceu do meu peito, e ela sempre refletirá nisso: nada mais irá me omitir.

Meme “Comi um Miojo” em Gêneros Literários

Às vezes os memes também chegam no universo literário, igual o caso de identificar determinado tipo de pessoa conforme a resposta dela com determinada situação. O meme é sobre alguém propor a uma escritora dizer ter comido miojo, e ela respondeu com a descrição “literária”. Coloco em aspas pela qualidade literata ser duvidosa, pois escreveu adjetivos desnecessários, deixou o texto enfeitado e pedante demais. Caso more numa caverna e não tenha visto, o meme é este:

Miojo - meme

A parte boa foi incentivada na página Sebastião Salgados do Facebook, onde a seção de comentários foi recheada com a mesma resposta dada conforme o estilo de alguns autores, entre eles José Saramago, J. K. Rowling, Stephen King e Edgar Allan Poe. Fiquei inspirado com a brincadeira e me propus a fazer algo diferente: escrever a cena de comer miojo nos diferentes subgêneros da ficção fantástica! Leia a seguir:

Fantasia

Alta fantasia

Peregrinação concluída. Euruk desabou os joelhos na entrada do palácio Aucacius, enfim permitiu os pés nus a descansar, maculados da jornada ininterrupta desde a planície de B’helor, dos desertos de Romnir às montanhas gelada de Bazura antes de chegar ali, com as solas manchadas de toda sujeira impregnada pelos cinco reinos, parecendo os pés de choraschi de baixa patente. Fez de tudo ao conquistar esse momento, as crianças aucais os ajudaram nos passos finais da jornada, com a mesa já pronta do banquete comemorativo, a recompensa da peregrinação: a tigela cheia de macarrão, temperada com o melhor ingrediente de cada reino trafegado por Euruk. Pegou a colher cerimonial, sorveu o caldo, e recuperou todas as forças desperdiçadas.

Fantasia Urbana

Pôs o pé na rua dois minutos após o expediente. Quinze reclamações seguidas sobre o problema de responsividade do site atendidas, além do mais novo colega inventar outra moda em web design e ser aclamado pelo chefe ignorante. Sem falar do começo do dia, aquela mesma reunião esdrúxula com desculpas motivacionais em vez de tratar das tarefas do dia. Bem, foda-se isso tudo! Alexandre largou a Nove de Julho, o carro podia ficar mais uma hora no estacionamento particular, era semana de pagamento. Entrou no boteco Libélula, o canto favorito estava vago, e ali sentou. A tempo de tirar o boné, a atendente apareceu, flutuando na altura de seu nariz, sacudindo as asas de neon lilás. Sorriu para ela, a Anícia, sua atendente favorita. Trocaram gestos com a cabeça e confirmaram o pedido de sempre, o miojo recheado de lishnu, a melhor carne já provada desde o alinhamento dos astros ter revelado quatro das nove dimensões à humanidade.

Realismo Mágico

Parou de questionar, assim preveniu de endoidar. Foi sentar à mesa, e Andreia desapareceu da cozinha, da casa, do mundo. Deu um gole no copo d’água, e a fumaça do incêndio ocorrido na Austrália semana passada veio até ali e lhe beijou. Inspirou o ar e saboreou a frescura da frente fria naquele calor carioca a dissecar a pele de quem passasse dez minutos na rua. O chinelo desceu no piso dissolvido feito areia, escapando dos pés ainda firmes com a cadeira imóvel no chão. Deu outro gole, e todo o cômodo voltou ao normal, na temperatura de 33. Andreia sentou ao lado com dois pratos de miojo prontos, aquecidos ao ar livre em três minutos dentro do BRT 926.

Espada e Feitiçaria

Viana voltou à base e mostrou o término de outro contrato, lançou a cabeça cortada do grifo aos pés de Janos. Deixou a carranca do mago enojado sozinho, Viana já seguia na taverna Couro de Dragão, mesmo com a armadura toda respingada de sangue e saliva da fera, apenas fez questão de deixar a zweihänder aos cuidados do anão Borg no caminho, sua espada sempre devia brilhar perante as presas da próxima caçada. Jonias, sobrinho de Janos, começou a cozinhar quando Viana pôs os pés na taverna, murmurou o feitiço que fez as palmas das mãos arderem, e então as colocou na panela. Sentada ao balcão, Viana virou o copo com o destilado “faro de lobo”, e logo foi servida da tigela de miojo de Jonias. Hoje com almôndegas de gobelim, já no dia seguinte o recheio de grifo estaria garantido, por conta da casa.

Ficção Científica

Cyberpunk

Sandy chegou em casa e logo cozinhou, logo estava pronto. Prático assim, conforme as grandes corporações desenvolveram as refeições de baixo custo, desnutridas, apenas ocuparia o espaço vazio na barriga e interrompê-la de roncar enquanto trabalha na tese de mestrado sobre algoritmos improcessáveis. Ela era improcessável, ocultou os rastros virtuais dos três últimos namorados, incapazes de ter qualquer artifício jurídico contra ela, como se a jurisdição ainda fizesse alguma coisa nesses dias… Mas no momento despejou o pó fabricado pela CMenor no macarrão instantâneo e aproveitou o sabor correspondente ao seu lugar naquela sociedade.

Steampunk

As crianças batiam à porta. Estava na hora, e estava atrasado. Ben pediu à Elisa acalmar os famintos, acomodá-los no salão, logo o jantar estaria pronto. Os coitados perderam os pais nos acidentes da fábrica, se ele não os acolhesse, quem mais o faria? As mesmas pessoas interessadas em tornar a tecnologia sustentável, ou seja, apenas ele mesmo. Cozinhou o macarrão, colocou em outro caldeirão limpo e devolveu o que está cheio da água fervida ao forno. A fumaça escapava pela tubulação, seguia até o gerador de energia de toda a instituição, e assim esquentaria os alojamentos, ligaria o rádio para mais uma noite de inverno.

Space Opera

Toda a galáxia sabia, aquela refeição era a herança do astro V-23, vulgo Terra, segundo a espécie hominem. Carles virava o rosto contra esse prato sempre pedido por Rornir quando almoçavam na estação Cupira-20. Tinha culpa por ser o melhor prato dali? Rornir deixava Carles com aqueles cremes processados, recheados de minerais desgostosos, mas úteis ao manter a carne flácida desse hominem preparada na sondagem em Atlantis, novo planeta de Andrômeda descoberto. Carles fechava a cara ao comer, agora se era por vergonha ou inveja daquele prato, ou ainda por Rornir recolher todo o espaguete fino nas três unhas gigantescas e despejá-las sobre a boca localizada na altura do quadril; Rornir jamais saberia.

Distopia

Abrigou em outra casa abandonada pela guerra. Se o teto dessa despencar e tirar outra filha de sua vida, foi porque Deus quis assim. Só rezava pela misericórdia de não atingir a criança ainda dentro da barriga. Amícia transpirou lágrimas com mais chutes de Ofélia, ou Orfeus caso a criança tiver a sorte de nascer no sexo certo. Certo ao governo, claro. Carmélia e Rosana apalparam a jaqueta da mamãe, que bufou broncas, depois suspirou por elas continuarem caladas, sem alertar as câmeras ouvidoras, rezando para nenhuma farejadora passar por eles. As meninas juntaram as pedras num círculo, impossível adiar o momento, e Amícia também ansiava por encher a barriga vazia desde anteontem. Colocou o capacete oficial do guarda vencido na semana passada sobre o fogo acendido pelas crianças especialistas em friccionar gravetos, despejou água nessa panela improvisada, deu o resto de beber às filhas, e molhou os lábios com as gotas que elas deixaram passar. Tudo bem, podia matar a sede com o caldo do miojo, depois é só esperar em vão ao milagre de conhecer o amanhã.

Horror (prepare o estômago!)

Terror

Diogo sentou. Na escuridão, tateou a mesa até pegar a colher. O aroma daquilo subiu nas narinas, agradeceu por ser miojo desta vez. Começou pelo caldo, sorveu tudo na colher antes de pegar mais, antes de pegar mais ele raspou o prato de um lado a outro, em busca de ingredientes estranhos iguais o da noite anterior, as unhas de gato continuavam presas na garganta desde então. Encostou em algo no prato, mas sugou apenas mais caldo, aliviado. Confinado por esta aparição caseira, todo momento normal dentro do lar era motivo de comemoração. Comemorou cedo demais, a próxima colherada deu a certeza. A maciez ondulada em contraste com o tecido oco explodiu nervos dentro da boca ao morder. Descobriu qual era a janta. Não um simples miojo, e sim miojo de alho e olhos.

Slasher

Quando ele parou de gritar, ela decepou-lhe a cabeça. Tirou o escalpo a juntar com os outros espólios, então abriu o crânio. Tirou metade do miolo. Abriu o peito a facadas e deixou o sangue escorrer na vasilha, despejou tudo no crânio aberto. Ligou o fogão, colocou a cabeça dele. Pele derretia enquanto borbulhava o sangue, precisou quebrar o miojo em dois para caber no crânio, tudo bem, o resultado final seria o mesmo, com o miolo cozido ali de recheio, afinal o tempero que vem com a embalagem era nada saudável.

Horror Cósmico

Recebeu aquele pacote negro, um cubo achatado. Ninguém na rua à meia-noite, quem tocou a campainha tinha ido embora, segundo o ledo engano dele. Ah! Se soubesse dos seres Distintos presentes naquela casa agora. A curiosidade rompeu a primeira barreira, abriu o pacote e encontrou ali o que parecia miojo na concepção limitada da espécie dele, que provocava sons na barriga ao abrir apetite. Logo seria saciado, afinal era ferver em três minutos e engolir, afinal ao engolir as larvas com aparência de macarrão, elas alimentariam das mucosas internas dele, o consumiria vivo e logo cresceria, espalharia doenças assintomáticas àquele bairro, enfim preparar o ambiente ao Rei do Cosmo Despertado.

Thriller

Matias seguiu a rotina e consultou o relatório. A perícia encontrou lascas de esmalte descascada, e como a vítima era homem cis, a agressora poderia ser mulher ou transexual. A segunda suspeita bate com o perfil levantado da vítima, tanto discurso de ódio contra LGBT nas redes sociais um dia voltaria contra ele. Pode muito bem ter voltado desse jeito: a cabeça empurrada dentro da panela escaldante, deixando a pele queimada do cadáver com peruca de miojo sobre o cabelo. Outra pista, segundo a perícia, era o tempero do miojo, cujo tempero ainda estava na fase de teste na empresa Aissin, o sabor nordestino moqueca com coentro. Deixou de ser outro serviço de rotina.


Sobreviveu às cenas de horror? O mais importante: gostou da ideia? Fique à vontade e faça a cena em outro gênero diferente. Além de divertido pratica um pouco a escrita, ou seja, só há vantagens.

Link Externo

Post responsável por incentivar a refeição de miojo por diferentes autores

Esse Ano de 2019… (Retrospectiva pessoal e literária)

Esse ano de 2019 foi um período dividido em doze meses igual a todos os outros. A diferença a mim foi a divisão também em vários acontecimentos, altos e baixos oscilados com tamanha agressividade, feito montanha-russa. Toda surpresa agradável sucumbiu à tragédia vinda em seguida. Apesar de soar negativo, nenhuma tragédia impediu de eu sorrir no dia seguinte, e por isso atravessei a virada do ano feliz, lembrando dos acontecimentos positivos e com a certeza de que esses fizeram toda dificuldade valer a pena. E esta postagem tem o objetivo de listar esses altos e baixos em relação aos assuntos focados neste blog, o da escrita e literatura.

Começo pelas resenhas. Bati o recorde de leituras pelo terceiro ano consecutivo graças ao incentivo autoimposto ao manter o compromisso com este blog e persistir na ideia da leitura ser o combustível da escrita. Ainda tive a surpresa de fazer parte do blog Ficções Humanas, assim fui cobrado com ainda mais leituras, e aceitei todas de bom grado, descobri ótimas histórias e aprendi com os defeitos dos livros analisado por lá ― inclusive de títulos vencedores de prêmios, pois nenhuma obra é perfeita. Continuarei mantendo o trabalho nos dois sites, então ainda terá muitas resenhas a conferir!

Bati o recorde de leituras esse ano, porém tenho dúvida de superá-lo em 2020. Li oitenta histórias, sejam quadrinhos, novelas, romances curtos ou calhamaços de seiscentas a novecentas páginas . Infelizmente atingi o limite, teve vezes que eu lia por obrigação, quando antes só via prazer neste esforço todo. Comecei o ano lendo como nunca, acomodei novos horários de leitura e aproveitei brechas de tempo livre a abrir o livro ou ligar o Kindle. No começo fiquei contente, com a certeza de alcançar cem leituras ao fim de dezembro, depois desleixei com livros de qualidades desanimadoras e também porque me sobrecarreguei. Leio devagar, e jamais esforçarei a ler mais rápido no intuito de atingir metas, pois prejudica meu entendimento e por consequência afeta a qualidade da resenha ― já cometi erros (qualquer humano está sujeito) só de ler no ritmo normal, imagina se acelerasse… ―; e deixarei de impor mais horas de leituras quando estiver indisposto. Alguém pode contestar de, por eu fazer da leitura um trabalho ― embora nada remunerado ―, é meu dever esforçar mais. Creio ter a obrigação de entregar o melhor conteúdo que eu puder, e forçar à exaustão prejudica esta qualidade.

Na mesma questão de sobrecarregar, eu quebrei o compromisso de entregar textos no blog toda segunda-feira. Seja crônica, miniconto, as matérias do XP de Escrita ou as de pesquisa sobre assuntos diversos; ao menos uma dessas categorias era lançada toda semana, então tinha boa quantidade de posts ao longo do ano. Porém a quantidade não acompanhou a qualidade, publiquei alguns textos mesmo consciente de poderem ser melhores, só cumpria a meta de postagem. Libertei-me disso, ainda posto conteúdo na segunda-feira, quando este for bom, assim consigo dedicar até por mais de uma semana no mesmo texto e entregá-lo na melhor forma vigente.

Foquei em melhorar a qualidade, e isso ajudou em nada no outro fator: a visibilidade. Pouco importa o esforço dedicado nos textos, muitos passam despercebidos. Até os assuntos capazes de atrair atenção por serem de fato polêmicos, atraem sequer um bot no site. Tenho culpa nisso, só falta entender qual parte erro: a qualidade dos textos talvez ainda precisa melhorar, falho em alcançar o público-alvo, o formato do conteúdo é incompatível ou desagradável… Também tem as redes sociais, o meio por onde atrairia o público neste meio de publicação online, onde entrei há pouco tempo e perco o interesse cada vez mais. Só quem provoca mais tumulto é lido, os donos das redes prometem mudar os algoritmos para filtrar este tipo de comportamento, mas na prática limita os canais menores de materiais interessantes. E os produtores irrelevantes têm a proeza de driblar esses algoritmos e continuar transmitindo besteiras, ou os novos algoritmos dão destaque a novos baderneiros virtuais. Pelo menos alguns bons canais sobrevivem nessas regras das plataformas, o que pode alertar a minha falta de eficiência em trabalhar nas mídias sociais.

Deixei por último o motivo de maior alegria em 2019: o de ser selecionado em publicação de antologia! Venci dois concursos de contos, um da segunda edição da revista A Taverna e outro na segunda edição da antologia Creepypastas da editora Lendari, a lançar no começo de 2020. São duas conquistas obtidas a partir do reconhecimento da qualidade dos meus contos, pois nenhum dos dois concursos foram feitos com pagamento dos autores selecionados, e assim só entrou na antologia quem de fato demonstrou qualidade aos olhos dos respectivos editores, de gente capacitada no meio. Ainda vou publicar um romance pela primeira vez, talvez em 2020, embora acontecerá no momento certo. Prefiro ser na forma de publicação tradicional, obtida a partir do romance reconhecido por profissional experiente e confiável. Pena este tipo de profissionalismo seja escasso no Brasil e incapaz de atender muitos escritores competentes, então na falta desta oportunidade, arrisco a publicação independente. O importante é: consegui reconhecimento por meio de dois contos, então estou no caminho certo!

Espero que a minha retrospectiva pessoal da escrita tenha ajudado a refletir sobre as possibilidades de erros e acertos os quais qualquer escritor e/ou blogueiro está sujeito a experimentar. Evito fazer promessas de ano novo, nem acredito dos acontecimentos serem melhores apenas por este novo período de doze meses o qual todos vamos passar, por isso desejo um bom dia a você, leitor que chegou até aqui, e que tenha muitos dias bons neste futuro a vir!

Deus Esqueceu de Pagar a Conta de Luz

Dois minutos de desatenção e o baque seco avisa da nova arte provocada pelo meu sobrinho. O pequeno pilar de gesso divide em si em dois, mais quatro cacos e seis gramas de poeira — medidos pela ferramenta chamada achômetro. O sobrinho prende o ar na garganta só por eu dar bronca ao quebrar algo feito há anos e presenteado pela sua mamãe, também segura as lágrimas no olhar inocente de sapeca.

Fica no cantinho, acorrentado pelos elos compostos por minutos, faltam-lhe três até ficar livre das amarras. Aproveito o silêncio imposto e tiro o atraso da leitura. Ela sempre atrasa porque jamais conseguirei ler todos livros pretendidos na vida, o importante é aproveitar o que puder aproveitar. Olhos aceleram nas palavras rumo ao término do capítulo. Dois minutos e o menino volta à ativa, a elaborar traquinagens durante o mínimo de descuido.

Claro, o menino não é autômato preso a algoritmos e regras intransponíveis. Levanta do chão, olhos vidrados na janela e boca aberta.

— Tio!

Tudo bem, posso respeitar essa pequena transgressão. Ainda sou humano.

— Sim?

— Olha lá fora.

Obedeço o garoto. Céu azul há tão pouco, agora tudo tomado por nuvens escuras. Nenhuma fenda sequer por onde a luz do Sol possa vir enquanto em casa as lâmpadas continuam acesas a 110 volts.

— Deus esqueceu de pagar a luz, tio!

Desculpe, rio do garoto, faço-o tremer o lábio e o assusto com gargalhadas. Este tipo de discussão ainda chegará, sobre eu ser ateu. Respeito quem acredita n’Ele e incentivo a persistir nela, contanto respeite também a crença do outro. A criatividade do menino é que causa essas risadas.

— Puxa a toca da blusa, garoto. Vamos ver como está lá fora.

Com a toca dele na cabeça e meu livro fechado sobre o sofá — falta apenas duas páginas do capítulo —, tomo a mão do sobrinho e vamos porta afora. As paredes laterais do quintal cobrem o vento a levar sacolas e embalagens de salgadinho dos vizinhos sobre a calçada, nenhuma brisa beija o rosto do sobrinho ou o meu.

Ficamos no lado de fora. Deixo o garoto ver as novidades da vida, fora das telas de celular ou tevê. Ele aponta o dedinho ao céu, sorri contra a folha voando pela liberdade conquistada pelo vento, escapada da árvore a sete casas a esquerda, ao fim do quarteirão. Dois gatos saltam no muro de casa e correm, pegam atalhos até os lares deles, pois namoros felinos desmancham sob água. Araras dão o ar da graça, cada vez mais raras, elas pintam o céu cinza com as asas azuis, buscam abrigos e encontram o toldo do bar.

Sigo a sensatez das aves e trago o sobrinho para dentro de casa, ao fechar a porta a chuva cai. Aproveito a atenção do garoto e compartilho uma lição, trocando a palavra “natureza” por “Deus”.

— Viu como Deus esqueceu de nada? Apenas decidiu ser a hora da chuva, das criaturas estarem prontas a receber a benção dos céus e saciar a sede do mundo.

Chega outro baque, este de fios estalados no poste da rua. Apaga a luz de toda a casa, o celular do garoto estava na tomada e carregou apenas doze porcento da bateria, o meu ainda fica na metade, e o deixo desligado na estante.

— Deus não esqueceu, mas você não pagou a conta de casa. Né, tio?

Desta vez ele gargalha comigo, sem sustos. Trocamos outras risadas e inventamos brincadeiras, disputamos duelos de brinquedos e nos abraçamos antes de comer paçocas como café de tarde. A casa continua escura, já lá fora o Sol volta a atravessar nuvens brancas. Carrego o guarda-chuva numa mão e o sobrinho na outra, podemos atravessar as ruas, ensopar a sola dos nossos tênis com o chão molhado e levar meu sobrinho a novas descobertas pelo mundo afora, dos prazeres disponíveis ao ar livre tão poucos metros longe dos celulares.

Entre Algoritmos e Princípios

Eu respiro fundo o ar ao redor, busco coragem e alívio puro, só encontro gases e desespero. Sujeira impregna debaixo das unhas e suja meu novo esmalte, demorei vinte minutos da cidade até aqui, imagina se ele morasse mais longe… Larguei as luvas antes de sair da casa, é preciso mostrar isso a ele, isso e todo o resto. Será difícil, ele sempre foi difícil, assim como eu. Tusso, coço o nariz, ajeito o cachecol sobre o pescoço e ergo a mão à porta, bato dois toques. Sem resposta, claro. Preciso erguer a outra mão, a que carrega o pote com o bolo de cenoura, mostro para a câmera da casa e um clique aciona a porta automática.
Coloco o pé direito dentro de casa, a lâmpada do cômodo não acende. Janelas bloqueiam a entrada de luz, até as artificiais. Arrasto meus passos, evito outro tropeço, outra fratura de perna. Empurro objetos com a ponta do pé, pedaços e mais pedaços de metal; chacoalho as pernas e expulso os fios e cabos, enrolam nos tornozelos feito cobras. Nada de venenos, nem moscas vivem neste lugar, a casa libera fumaças dedetizadoras ao menor sinal de vida inumana neste lugar.
— Venha até mim. Estou no cômodo três.
Esta era acasa de papai e mamãe, com cozinha, quartos, sala e banheiro; agora são cômodos um, dois, três, quatro… Controle-se, Joana. A visita de hoje é diferente, nada disso importa mais. Eu desisti, desisti de brigar, de esmurrar a ponta de faca através das palavras contra meu irmão. O bolo, começo pelo bolo e então digo a ele. Qual é o cômodo três mesmo? Ai! Seguro o braço e sinto o sangue manchar o dedo. Uma daquelas pinças dele estava jogada na mesa da sala, mesa invisível nessa escuridão. Meu pé encontra a cadeira e a puxo, sento e aguardo a dor passar.
Como isso pôde acontecer? Éramos dispostos aos abraços, todos os dias. Sorríamos na presença de coelhos, brincávamos em árvores, acariciávamos um ao outro quando alguém saía ferido do futebol. E hoje estou aqui sozinha nesta ferida causada por ele. Não, eu fui desatenta. Devo parar de fingir inocência. Tenho minhas culpas, vim aqui por elas. Deixe doer, preciso falar com ele.
E assim enxergo luz. Enxergo-o com os braços sobre o balcão, na parede dos fundos onde ficava a pia, onde era a cozinha. De costas a mim, concentra a atenção nos circuitos do corpo, ao tutorial transmitido no implante da orelha esquerda, mantém a postura com o exoesqueleto de modelo Ita7, os tendões do braço substituídos por cordas metálicas ligadas ao músculo, acionadas por dezenas dos milésimos algoritmos codificados junto ao sistema neural dele; os tendões dos tornozelos são iguais, e seus pés descalços sequer tem pele, substituída por circuitos e implantes.
Deixo o bolo na mesa ao lado. Ainda é a mesa de cozinha, a favorita da mamãe. Apaga a luz, Miguel para de operar o próprio braço. Aciona a luz das lâmpadas, até a da sala — o cômodo um. A pinça onde bati o braço brilha com a ponta em vermelho. Espero que ele limpe meu sangue antes de usá-la.
— Obrigado pelo bolo, irmã.
Permanece ali, de costas, esperando eu sair. Nunca deu certo, e desta vez é diferente. Pouco importa a falta de vontade dele, eu preciso avisá-lo. Olha para mim, Miguel! Garganta fica entalada de medo, as palavras ficam presas ali, abro a boca e fico em silêncio. Ele vira e enfim mostra o rosto, ainda livre de implantes.
— Veio discutir de novo?
— Não, irmãozinho. — As palavras saem. — Chega de discussão.
— Já tentou isso antes. “Chega de discussão”, em seguida trocamos insultos. Impossível, Joana. Ficamos muitos diferentes.
Sim, ficamos. Embora eu note pelas partes da pele substituídas por implantes; e ele me vê sempre igual, por isso sou diferente. Pernas tremem, rendo meu corpo a cadeira da cozinha. Suspiro a fumaça da rua ainda presente.
— Prometo não ser a mesma coisa.
— E o que são promessas a você, irmã? Eu tenho meus códigos, eles me ajudam na execução de minhas tarefas, no seguimento de meus princípios. Você é naturalista, submissa aos defeitos da nossa espécie, teimosa em aceitar a evolução.
— Você está errado no conceito de evolução, no significado acadêmico em relação à espécie. E os princípios são diferentes dos algoritmos, Miguel. Por Deus, quem é o teimoso aqui?
E pronto, começamos a discussão. Falhou de novo, Joana. Como sou burra. Deixei Miguel me provocar de novo. Burra, burra, burra.
— Continua sendo hipócrita, irmã. Pouco adianta ter nojo por todo este metal no meu corpo, isso é o nosso futuro, o da humanidade. Quinze dos meus protótipos já foram adiante, sete estão em produção e três já estão me dando lucro. Paguei todas as dívidas da família e fiz as reformas necessárias da casa enquanto você fica nesta facção das plantinhas e atrapalha trabalhos como o meu.
— Chega! Deixe-me falar. Por favor, Miguel.
Ele balança os ombros, cruza os braços e me permite falar…
— Eu mudei.
… e me interrompe:
— Há circuito nenhum no seu corpo, ainda acredita nas ideias dos naturalistas.
Percebe a ausência de circuitos, menos a ausência de outra coisa. Tanto implante no corpo, e só nos mantém distantes.
— Ainda acredito. Deixe-me dizer até o fim desta vez. O que eu mudei, Miguel, foi um princípio, e o deixei como principal. Você entende isso, certo? De mudar a prioridade de um princípio como a mais importante. É possível programar seus algoritmos assim também?
— É sim, irmã. Então me conte esse princípio de alta prioridade.
A garganta fica entalada de novo. Por que é tão difícil? Eu me redimi, rendi os meus pecados na igreja e desejei forças neste momento. Preciso delas agora, Deus! Tremo os lábios, boca expele apenas silêncio, meu olhar fugiu de Miguel há tempos, olho o piso cinza de poeira. Difícil falar, mais difícil ainda fazê-lo entender com as palavras. O relógio da parede ainda funciona, e pela hora… Está quase na hora!
— Venha comigo, é melhor te mostrar.
Pelo menos o convenci, ou minhas lágrimas o fizeram me seguir. Com a luz da sala acesa, tiro os pés do chão ao andar, ciente de cada dispositivo largado no chão. Miguel nunca sequer tentou organizar o quarto, só piorou com a idade. Eu também piorei nos meus defeitos. O nó na garganta afrouxa e engulo o silêncio em seco. Porta abre ao chegar perto e encontro a cidade diante de nós no lado de fora. Pouco do céu é visto, coberto pelas fileiras de arranha-céus e tráfego de aeromóveis. A enorme tela do edifício central é tão visível quanto a instalada no shopping da rua seguinte a da casa de Miguel; cada uma mostra determinado assunto, todos considerados úteis à população. Uma tela avisa da possibilidade de chuva esta noite, outra enumera o total de impostos colhidos pelo governo, vejo o mapa colorido dos distritos principais e denuncia com tom vermelho onde aconteceu algum delito ao longo do dia. Tantas informações sobre nossas cabeças, que deixamos de olhar para baixo, às ruas esburacadas e animais feridos, quando há animais; se procurar algo de tom verde só encontrará nos neons dos aeromóveis, ninguém cultiva planta neste lugar.
Meu choro molha a garganta, solta as amarras e libera a voz.
— Consegue enxergar o sol, Miguel?
— Todo este choro por isso? Ver o sol? Enxergamos o mesmo mundo de forma diferente, irmã. Pare de forçar a sua ideologia comigo, pois eu aceito todas essas luzes, as luzes do progresso.
— Desculpa. — Só tenho esta resposta. De certa forma sou culpada. Desisti a tempo, apesar de ainda ter culpa com o que vai acontecer. E acontece agora.
Todas as telas dispostas nos prédios desligam. Os prédios desativam, aeromóveis estacionam no céu e tem os aceleradores inutilizados. A casa de Miguel apaga, como a de todas as casas desta cidade, de todas as cidades do estado, talvez do mundo, algum dia. Ruídos param de atravessar meus ouvidos e escuto o bater de vento nas minhas orelhas, tão comum de onde resolvi morar, resolvi lutar, e então abandonei depois de saber que iriam fazer isso, iriam eliminar o mundo visto por Miguel.
Ele perde o apoio do corpo. O peso dos metais o fazem cair no chão, de joelhos. Ouvidos captam sons sem o filtro do aparelho, mãos ficam imóveis com tendões desativados. Deus o ajude, nem as pernas encontram meios de mexer.
— Desculpa, Miguel. Os naturalistas foram longe demais.
— Como eles puderam? — disse cada palavra aos soluços.
— O planeta está morrendo graças a toda essa tecnologia, devido ao progresso desenfreado e inconsequente. — Espero ele me interromper por dizer algo contrário ao pensamento dele, e ele fica quieto. — Sempre acolhi as ideias da preservação ambiental, do aproveitamento de recursos recicláveis, a manter nossos corpos sempre naturais; mas nunca aceitei impor tais desejos à força, mesmo com você. Jamais aceitaria te deixar assim, nem a sua cidade.
A boca de Miguel resseca, sem palavras no momento. Agora ele vê, sem a ajuda dos implantes, ele vê meus braços sem a pulseira de roseira, o laço dos naturalistas.
— Acredito em você, irmã. Eu detesto a forma com que me trata, apesar de sempre querer o meu bem. — Ele tenta levantar, incapaz de impor força no corpo entregue aos aparatos tecnológicos, inúteis agora. — Não tem volta, tem? Mesmo se reativar esses implantes os seus colegas, ex-colegas, impedirão de funcionar de novo.
Confirmo com a cabeça. Confirmo e dobro os joelhos ao meu irmão, o abraço e deságuo os restos das lágrimas sobre ele, de corpo pesado e frio.
— Vou seguir o princípio principal, Miguel, o de proteger tudo o que resta de nossa família: você, irmãozinho. Cuidarei de você. Seja quais forem as condições, garantirei a melhor vida possível a nós.
Lágrimas também escorrem de Miguel, desliza pela minha bochecha colada na dele.
— Eu consigo, Joana. — Esfrega o queixo sobre meu ombro e levanta a cabeça. — Eu consigo enxergar o sol. Obrigado.

Cem Palavras, Dez Anos

Aos 25 eu enjoei daquelas músicas metálicas. Tão agressivas e frenéticas, as cordas de guitarra cortavam meus ouvidos enquanto os cantores rasgavam as próprias gargantas na técnica — ou a falta dela — de cuspir palavras guturais. Eu nasci na época certa, quando programas reproduziam qualquer tipo de música e ainda recomendavam outras do mesmo estilo. A Inteligência Artificial não era tão sofisticada, ainda assim me deu boas dicas. Sugeriu músicas acústicas, o ritmo massageava meus tímpanos enquanto a voz roca cantava a letra, sobre um homem de bem matar a própria esposa e contente pois a reverá em breve, no inferno.

Aos 35 ainda ouvia esse novo estilo de música que me cativou. Novo no sentido de eu jamais ter descoberto sem a ajuda da Inteligência. Ah! A linda Inteligência. Aprendeu, aprimorou os algoritmos desde então, deixei meu queixo derrubado enquanto descobria mais obras de arte. Ainda eram feitas pelos humanos, a tendência é mudar, ouvi algumas tentativas horríveis tocadas por robôs. A Inteligência me entendia, humanos ainda eram os melhores músicos. Arremessava minhas costas no colchão e explodia o som, fechava os olhos e flutuava na sinfonia leve marcada pelos toques de violoncelo. Sim, tudo bem. Eu ainda vou matá-la.

Aos 45 eu ainda a amava. Porra, eu juro. Entregava bombons em datas comemorativas e nas comuns, apreciava toques na sua pele apenas sob o consentimento dela. Era a dona do controle remoto, mandava na cama. Eu cozinhava, lavava a louça e trazia o prato à mesa, levava a comida à boca dela. Era dona de mim, o seu humilde comprador de sapatos, tinham mais opções aos pés dela do que meu videogame, minhas leituras, das músicas. O sangue dela também era lindo, mais saboroso quando escorria da testa. Fizemos o último amor, depois eu enterrei o cadáver no quintal.

Aos 55 ninguém ainda me prendeu, bando de incompetentes. Os algoritmos bem tentaram, enfim nenhum recomendou alguém tão bem quanto ela. Quando eu reclamei disso em voz alta, o aparelho ouviu e me explicou, ele sabia desde o começo, só ela era ideal a mim, pouco importa o quanto pedisse por novas indicações. Criaturinha dedicada, esta Inteligência, sempre presente nos melhores programas. Lamentei por deixá-la de lado, a Inteligência, porque eu me entreguei. Tudo perde a graça, sabe? Cansei de ficar escondido das autoridades, então confessei, sem entender o meu motivo e nem do policial ao me dar o soco.

Aos 65 eu estava fraco. Comida podre da prisão, idade avançada e proibido de aproveitar as novidades. Nada a reclamar, na verdade. Sorria todos os dias, mesmo depois de perder alguns dentes, ganhando novos socos. Pouco importava o desprezo dos outros bandidos, os cuspes dos agentes e a bunda do diretor. Matei todos. A pergunta “como?” só tem uma resposta: “sei lá”. Acordei certo dia e agi, um a um eu espremi. Dedos contra os olhos, cabeça abriu miolos, tripas foram meus espólios. Eu segui regras, agi como sistema onde os algoritmos moviam meu corpo, saí pela porta da frente.

Aos 75 eu fui capturado pela equipe competente demais. Eles vestiam jalecos carmesim quando me estudavam. Entendi na segunda vez, quando vinham de cor cinza significava estupro. O de cabelo cacheado me odiava, fazia questão de atingir meu intestino com o seu de 30cm. Levaram muito tempo no estudo, no estupro, então concluíram que eu não tinha sistema, chip ou outro dispositivo implantado. Havia apenas ideias em meu consciente e subconsciente, programadas a despertar em meu cérebro em determinados momentos, eles chamam de gatilhos. Ainda sobrou piadas como quantas vezes deveriam me foder até disparar outro gatilho. Nunca disparou. Pena.

E aos 85 estou para morrer. Vivi sob vigilância, mas fui compensado — segundo eles — por descobrirem o perigo implantado na Inteligência em sugestões tão inocentes há 60 anos. Houveram muitos assassinos como eu, e graças aos estudos feitos em mim eles puderam condenar todos os outros. Talvez o sexo também tenha ajudado, algo que eles continuam fazendo comigo, sempre os mesmos, os pais de família de bem. Deve ter músicas sobre isso. A certeza verdadeira que tenho é a de minha vida no fim valer quase nada. Cem palavras resumem o que passei a cada dez anos. Sem carpe diem.

A História do Pescador (Conto sobre mudanças e vida)

Faço companhia às margens do rio. Três horas de caminhada iniciadas ao final da madrugada, tenho que chegar ao trabalho no começo da manhã, sem horário de voltar, tampouco hora extra. Ando até minha carreira, pretendo alcançar os sonhos, procriar e oferecer vida melhor aos meus filhos, assim como papai fez enquanto esteve vivo. Filhos… Nem namorada tenho, sequer sobra tempo de arranjar uma, dormir antes da meia-noite é questão de sorte, e as horas a mais de trabalho, bem, esquece.

Passo por um senhor sentado rente ao rio, boné de pano puído e vara de bambu na mão. Linha na água parada, barrosa. Meus avôs diziam daquele rio já ter sido limpo, no tempo dos bisavôs deles. A situação faz o pobre senhor pescar aqui, em água sem vida. Tenho as moedas da coxinha do horário de almoço, ele precisa mais delas. Pego todo o dinheiro e levo a ele, de sorriso aberto antes de eu chegar, balança a cabeça de um lado a outro quando deixo sobre a sacola.

— Agradeço a caridade, garoto, mas tome o dinheiro de volta.

— Fique com o senhor. Estou a caminho do trabalho, onde arranjo mais dinheiro.

— Você é pago apenas no fim do mês, e este mal começou. Passará fome sem a coxinha do almoço.

— Como o senhor sabe que iria comprar coxinha?

— Só consegue comprar coxinha com este valor. Ainda consegue. Além do mais, você precisa movimentar a economia, garoto. Eu contribuo nada nessa idade.

Ele apanha as moedas e segura na minha frente, chacoalha e aponta o olhar nas minhas mãos fechadas. Eu fecho os olhos e estendo a palma, as peças redondas de metal batem entre si e caem de volta a mim.

— Como a pesca está indo?

— Indo a lugar algum. — O senhor ri. — Tudo parado, a linha só move com o vento. Tenho a impressão de chegar aqui cedo demais.

— Com todo o respeito, se chegasse tarde demais teria o mesmo resultado. Nenhum peixe vive aqui desde antes de eu nascer.

— Ah, eu já fisguei algo muito bom.

Minhas sobrancelhas crescem, formo mais rugas que o velho pescador possui. Tenho meu horário a cumprir, e terei de acelerar o passo por perder tempo com ele.

— Não preocupe tanto com o horário — ele lê meus pensamentos? —, ainda mais hoje. Você estará demitido.

— Como? Por que eu estaria?

— Você terá mudanças na vida. Essas que você tanto teme, prolonga e nega; precisará tomar outro rumo, seja melhor ou pior.

— Eu me dediquei tanto a este trabalho! Perdi oportunidades, desisti de outras. Este emprego é a minha melhor chance. É injusto perdê-lo!

Os lábios dele ficam fechados, assim me responde tudo. Eu já respondi. Fiz as escolhas, agora tenho as consequências. Pouco adianta lamentar pelos imprevistos — previsíveis ao pescador, ao que parece —, a vida continua e eu pretendo acompanhá-la.

— Compreendeu agora, garoto?

— Entendi. O senhor não está aqui pela pescaria.

— Claro que eu estou! — Ri de novo. — Vá. Não deixe eu tomar mais do seu tempo.

A aurora risca os primeiros traços do sol, um peixe morde o anzol do pescador e parte a linha ao meio, bate a cauda fora d’água e vai embora.

— Hoje o dia será difícil, garoto. Arranje coragem e insista nos sonhos. Viva a vida, pois ela fica muito boa quando muda de perspectiva.

***

E o garoto foi. Lábios fechados e bolhas nas mãos, nos pés dentro dos sapatos também. É muito divertido, sabe. Vê-lo aqui de cabeça abaixada, antes de todas as conquistas a partir deste dia. As mudanças são de dar medo, com certeza, as variáveis trazem valores bons e ruins, pode colocar o parâmetro que for, o resultado sairá imprevisível nesta época do tempo dele.

Está na hora de eu voltar ao meu tempo. Adoro a nostalgia de encarar o eu do passado e sorrir para ele, relembrar de tudo o que eu passei, cada dificuldade e tragédia. Tudo valeu a pena.

O Alquimista e O Pistoleiro (Uma sátira)

Ele enfim chega ao deserto. Após quase duzentas páginas de aventura, a jornada rumo ao tesouro está prestes a acabar, pois assim determina a Mão. Largou esposa, emprego, mãe, as mensalidades de pilates e o rim direito. Tudo vale a pena por estar perto do grande sonho. Mesmo se fracassar, a experiência da aventura é o mais importante, a experiência de perder tudo em troca de, sabe, de ver como vai acabar isso aqui.

O outro permanece há três horas no bar cuja cidade seguiu adiante, parada enquanto tudo desmoronava. Está bem, o ka tem as respostas do trajeto de cada pessoa, basta apenas segui-lo, por mais que perca alguns dedos, a namorada, anos de vida, saúde e amigos; é a história acontecendo sobre o já demarcado pelo ka. Capaz de empunhar a arma, mirar, disparar e recarregar ao tempo de um piscar de olhos, apenas o cansaço e delírio o enfraquecem.

Ele, o recém chegado do deserto, entra no bar a procura de orientação. O universo conspira a favor dele, só esqueceu de dar as coordenadas corretas. Tudo bem, na verdade o universo favorecerá o Alquimista com alguém dando as respostas necessárias. Talvez um deles ofereça tentações a desistir do sonho, e o alquimista sabe ser apenas outro teste da determinação na busca do tesouro. Pessoas mais sensatas chamariam o “teste” de bom senso, pessoas reais vivem independentes da Mão a seu favor, e frases bonitas e inspiradoras são úteis apenas em livros, ouvi-las não põe o pão na mesa.

O outro, o sentado no bar, levanta as sobrancelhas ao novo cliente. Cliente uma ova, bochecha engomada e lisa, jamais chegará à pele chupada, enrugada e rasgada do Pistoleiro, aquele ali morre antes. Poderia matá-lo? O ka o mandará puxar o gatilho? Por via das dúvidas, já deixa a mão esquerda — ainda há dedos nesta — no coldre. O novato do bar se aproxima, sorriso ingênuo da boca sempre aberta, Pistoleiro dispara a primeira fala primeiro.

— Você tem dois segundos para dizer três motivos porque não devo te matar.

— Estou na busca do meu tesouro!

— Isso é apenas um motivo — ele recolhe a pistola —, mas é o bastante.

Alquimista mantém os dentes exibidos, a mente suspira pelo universo conspirar a favor da vida. Senta na segunda cadeira da mesa, todas as outras mesas têm três lugares, e esta tem apenas o número suficiente dos personagens desta história. Quem diria, a Mão garante ao Alquimista ter a companhia do Pistoleiro.

— Eu encontrarei o tesouro neste deserto e alcançar meu objetivo de vida.

— O que tem de tão importante no tesouro?

— Ainda descobrirei, quando obtê-lo.

— Então me conte qual o objetivo.

— Meu objetivo é encontrar o tesouro.

— Pelo visto faz a menor ideia do que trata o tesouro nem o objetivo.

— Tem razão. Isso faz parte da aventura.

Pistoleiro repensa em mirar no Alquimista e livrá-lo da perdição. O ka jamais deixaria alguém feito ele vivo, é predestinado a morrer, talvez o faça numa etapa importante à jornada do Pistoleiro. Bobagem, o ka-tet jamais seria formado com alguém tão estúpido. Ao menos o Pistoleiro sabe onde deve chegar: na Torre. O que tem na Torre? Bem…

— Também tenho a minha aventura. Como pode ver, tive alguns ferimentos por causa dela.

— Você diz alguns, eu digo que tem muitos, senhor.

— Faz parte da aventura perder um dedo ou outro. Se isso lhe der medo, sugiro voltar.

— Eu perdi muito antes de chegar aqui. Família, dinheiro e conforto.

— Sua esposa morreu?

— Não.

— Como consegue encher o cantil de água neste deserto?

— Tenho algumas moedas.

— Também calça tênis esportivo. Então tem conforto, dinheiro e pode voltar a abraçar a esposa viva e depois pedir desculpas por ser idiota.

— Não sou idiota.

— Todos somos. A diferença é que meu amor morreu antes de eu admitir.

Alquimista perde o sorriso do rosto. O companheiro de bar tem motivos de sentir amargura, pelo menos ainda persiste na aventura. Faria o mesmo se a esposa morresse? O universo jamais deixaria acontecer, ele está na busca do tesouro, deve favorecer sua vida e a dela. Bem, ninguém disse sobre conspirar em prol dos outros, somente por ele. O Alquimista pode tê-la abandonado ao azar! Como pôde ser tão egoísta? Teve bons motivos para partir. O tesouro, a aventura. Valerá a pena, a Mão garantirá isso!

— Sinto pela perda, senhor. Eu preciso ir, encontrarei meu tesouro.

— Tem certeza que o tesouro está neste deserto?

— Como assim? — O Alquimista denuncia a falta de planejamento da aventura pelas feições do rosto.

— Esqueça, continue a busca. Caso falhe em encontrar, há outros desertos além deste.

Pistoleiro saca a arma e deixa na coxa, decide avaliar o ka do Alquimista. O resultado vem no tempo de um gole da bebida, e o cano do revólver lança a morte na cabeça de bochechas lisas, disparado por um saqueador. O Pistoleiro dispara a bala na barriga do Alquimista, atravessa as costas e acerta o peito do saqueador. A Mão abandona por quem buscou o tesouro, e o Pistoleiro termina a bebida, levanta da cadeira e cambaleia seus passos, é preciso chegar à Torre.

Livros homenageados

Compre O Pistoleiro (Stephen King)

Confira O Alquimista (Paulo Coelho)

A Spoiladeira (Conto juvenil — serve para adultos também)

Hora do jantar, hora chata do jantar. Miguel senta no outro lado da mesa, distante da tevê, do suco e de si. Nada de olhar a companhia, abaixa o rosto e encara as cores no prato. Verde, laranja, marrom, marrom, branco. Ervilha, cenoura, carne, feijão e arroz. Michele deve ter pego sorvete em casca, certeza, antes dos refris e pipoca. Refrigerante, não, suquinho natural; ela está de regime. A vida saudável é interessante a Miguel, menos quando come ervilhas. Bolinhas verdes saltam da colher antes de chegar à boca. Nem elas querem ser comidas.

O talher raspa no prato, colhe a comida e perde a metade antes de dar outra mordida. Isso irrita, ele tem certeza. Ele fecha a cara e provoca as rugas no rosto da mãe.

— Vamos comer direito, Miguel?

— Estou comendo, estou comendo.

O prato dela vazio. O dele, cheio.

— De que adianta fazer essa cara? Era só pedir desculpas.

— Só peço quando faço coisa errada.

— E não fez? Você pintou os cachos do Matheus de rosa.

— É que ele…

Pôs a colher cheia na boca, inclusive as ervilhas. Tira a mãe da visão e mastiga o sabor amargo, morde a língua. Teria bombons por lá também, preços baixos após a Páscoa. E ele comendo ervilhas.

— O gato comeu a língua, Miguel? Fale o motivo.

— Ele chamou o Super Mago de bobo.

A mãe suspira, engole castigos e reprimendas e as digere no intestino da responsabilidade.

— Bobo. Bobo é brigar por isso.

— Você não entende, mãe.

— Não mesmo! Como é difícil botar bom senso nesta cabeça. Esse Super Mago é imaginário, moleque! Em vez de se divertir, fica brigando por causa de heroizinho. Já deveria procurar emprego.

— Mas eu só tenho dezessete anos.

— Eu trabalhei com treze, sem perder tempo com gibi, nem tinha essas porcarias de sunga em cima das calças no cinema.

— Também não tinha tempo para estudar. Por isso você acredita em astrologia até hoje.

— O quê?

É hora de Miguel ficar quieto, continuar a comer. Engolir verde, marrom e laranja e colocar mais branco na boca; pode até engasgar, tudo bem, melhor do que dar razão ao tabefe. Bater em filhos é proibido por lei, como se evitasse… Ele termina o prato e coloca a louça na pia, vira e olha a mãe apontando de volta. Encara a torneira e depois o dedo dela, ameaça um passo longe da pia e treme com o chinelo na mão da mãe.

Engole o choro.

Range os dentes na água fria sobre as mãos. Primeiro os copos, devagar depois de quebrar um ontem. Nada de olhar o resto de caldo do feijão nos pratos, tem nojinho. Coloca os talheres no escorredor. Como é chato limpar panela! Ele enxuga a pia e a mãe coloca a jarra de suco. Diz nada, prende a reclamação na garganta e lava também.

Pronto. Agora termina.

— Poderia me deixar agora, te ajudei em casa.

— Esqueceu o castigo? Ficará em casa até segunda. Nada de internet também.

— Eu vou perder o filme!

— Ainda estará em cartaz na próxima semana, caso comporte.

— Semana que vem é tarde. Hoje já é muito tarde. A Spoiladeira vai atacar com tudo.

— Espoi-quê? Pare de falar essas palavras feias.

— Você sabe, mãe. Ela vai me…

— Olha, Miguel, cansei desta conversa. Vai para o quarto, tranco você lá. Quando sua irmã voltar, ela destranca a porta para dormir. Entendeu?

Ele olha o chão.

— Entendeu, Miguel?

Balança o rosto.

Tropeça a cada bronca. Mais rápido! Não tenho o dia todo! Ele perde o dia desde o castigo, por tirá-lo da chance de ver Os Poderosos: Fim de Jogo, filme que encerra o ciclo dos heróis Super Mago, Morciga e Minúscula. Fechou todas as redes sociais, fone de ouvido durante a escola, perdeu aula, o preço de evitar spoiler. História já contada nas HQs, cinco livros já adaptaram os quinze anos de quadrinhos em romances. Miguel só vê os heróis no cinema, sem querer ler a história já sabida, o importante é descobrir na grande tela com som imersivo e pipoca recheada de leite ninho.

Porta trancada. Miguel entrega o corpo aos tormentos da cama ortopédica, vinte e quatro parcelas desde que Michele quebrou a antiga. O castigo dela foi de lascar! Perdeu o campeonato de Lulo, afogada nas próprias lágrimas. Miguel não chorará. É injusto. A irmã, todos os amigos, até alguns professores e o próprio diretor. Todos na cadeira enumerada, de óculos 3D e sorriso de caroços de pipoca nos dentes, risadas contagiam a alegria de ver o espetáculo da Terra: a estreia do grande filme. Não chorará. Fecha os olhos. Engole o soluço, a tristeza. Engole! Saberá quem morreu, como o vilão foi derrotado e como trouxeram os heróis mortos à vida.

Miguel chora.

Ninguém o vê no conforto das lágrimas. Tão molhadas e quente, permite deslizar pelo rosto e umedecer o colchão, falta apenas doze prestações. Soluços atacam e prendem o ar nos pulmões. Deixe assim! Ninguém precisa ser forte o tempo todo. Deixa extravasar, desabafa a angústia, tampa o rosto e chore. A escuridão o conforta, bicho papão só aparece caso pense nele. Ai, ele pensa, perde o sono. De olhos abertos, toma o escuro como terror, o pior ainda chegará.

Fecha os olhos. Funga o nariz. Escuta. Tampa os ouvidos e escuta, a chave raspando no buraco, a maçaneta desce, a porta range, e ela entra.

— O melhor filme de todos!

Pula no Miguel. Sem os tênis, as meias pisoteando o peito do irmão já basta. Doze anos de pisadeira, de provocação. Bagunça o cobertor, descobre o rosto de Miguel e aperta o chulé no nariz. O “sai daqui” de Miguel sai abafado, quase mudo. Os pezinhos dela estão mais molhados, além do suor, a meia recebe o choro do rapaz. Michele ri de tudo. O dia não podia ficar mais saboroso. Pipoca, nachos, trufas, suco de limão e a humilhação neste menino chato. Só precisa de uma coisa para finalizar:

— Super Mago morre!

E a Spoiladeira ataca novamente.

Fatos à Venda (Crônica sobre narrativas)

Fatos à venda! Fatos à venda! Vocês sabem do que estou falando, posso produzir qualquer visão, teço a narrativa para favorecer ideais, ligo veracidades e monto a verdade. Todos podemos ser como queremos, basta produzir fatos convincentes, por isso estou aqui! Pretende subir na carreira? Precisa cultivar ódio numa pessoa? Tornar o corpo gordo a nova tendência do verão? Virar o novo presidente da República? Vem cá, rapaz, seus olhos transmitem o desejo honesto e faminto pelos caminhos fáceis. Solta o verbo.

— O senhor garante todo tipo de conquista mesmo?

Garanto. É tudo verdade, tudo obtido através de fatos, sob narrativas assertivas que favorecerão os sonhos, seja qual for. Ninguém verá a Mão por trás da visão, apenas os méritos de sua dedicação formulada pelas minhas palavras.

— E o senhor oferta tal serviço em plena praça pública. Sem ofensas, mas parece lunático.

“Sem ofensas, mas já ofendendo…” Por isso poucos respeitam meus talentos.

— Além do preço rabiscado nesta caixa de papelão. Algo tão caro e nem monta um estabelecimento decente…

Estabelecimento decente?! Isso aqui não é servicinho de loja, não. Acha que existe CREA sobre vendas de fatos? Chegue mais perto, amigo, fique do meu lado e olhe ao redor. Lembre-se daquele vestido azul para alguns e dourado a outros, isso acontece a todo momento. Todos esses pedestres, motoristas, guardas, engravatados e garis veem cores diferentes do mesmo objeto, visões alternativas do mesmo fato. Eu conheço o motorista triste por outros não terem condições de pagar pelas aulas de direção, já o outro critica de qualquer meia-roda conseguir tirar carta hoje em dia. Garis sonham com dinheiro, uns com trabalho duro e outros com distribuição de renda justa. Aquela de salto-alto odeia a obrigação de usá-lo no emprego, e nem queira saber onde a moça de casaco colocou a boca na última noite.

— Ou disse apenas ideias sobre eles tiradas da cabeça.

Fiz isso mesmo, e funciona! Ou você irá perguntar a cada um deles se estou dizendo a verdade? Os motoristas já saíram do alcance, a vida de todos seguiram adiante, e meus fatos sobre eles continuam aí, na cachola. Você verá o próximo gari e refletirá em qual lado ele está, mais ainda, verá um gari beiçudo e o tomará como quem defende a distribuição de renda. Por quê? Porque eu te disse.

— Errado, senhor. Posso discordar de tudo dito até agora.

Tem razão, pode, discorde enquanto todo o resto acredita. A sociedade quer seguir a narrativa, seduzir-se a ter esperança ou motivos a odiar alguém.

— Suas respostas são coerentes, eu até sinto em dizer o quanto desacredito.

Isto é o importante: fazer sentido, de preferência o mais simples possível. Existem verdades compreensíveis apenas através de muito tempo e estudo, e aquelas capazes de mudar a vida hoje. Nem preciso perguntar quais verdades o povo deseja mais, a minoria do primeiro grupo pode trabalhar à vontade, eu faço acontecer a maioria do segundo.

— Está bem. O senhor me convenceu.

Maravilha! Sou mesmo bom nisso, e posso convencer qualquer pessoa de qualquer fato sobre você. Já viu qual o meu preço, se consegue pagá-lo, basta pedir. Qual cargo tanto almeja?

— Nenhum.

Então já trabalha com o que quer, é um jovem de sorte. Eu posso tornar o seu produto ou serviço como o melhor da concorrência.

— Já é. Modéstia à parte, ninguém faz sites responsivos e rápidos como eu.

Olha a humildade, rapaz! Vamos assegurar esta sua posição. Qual a concorrência? Eu posso destruir a reputação de quem detesta.

— Eu sou cristão, senhor! Jamais pedirei pela desgraça de meu semelhante.

Está fingindo de ingênuo ou é babaca mesmo? Veja o quanto de cristão passando a perna por aí, eles precisam tirar vantagem, só assim garante o sustento da própria família.

— Este é o problema.

Não entendi. Explica direito este problema.

— Moro sozinho, longe de irmãos e pais. E, sabe… Tem uma garota, conheci ela há pouco tempo. Tenho calafrio só de vê-la. Queria apenas trocar algumas palavras…

Olha, este pedido é bastante diferente, rapaz. E eu gostei, será desafiante. Apesar de você conseguir algo muito melhor com meus serviços, eu te vendo o fato a ela.

— Impossível conseguir algo muito melhor. Ela é o amor da minha vida!

Certo, jovem. Sou velho e tarado demais para te entender, ainda assim acredito nessas palavras românticas. Pegue este cartão com meu telefone, mande todos os detalhes sobre ela, fotos também, e fale também de você, qualidade e defeitos. Manda tudo no zap-zap mesmo, eu saindo da praça já desenvolvo minha narrativa, divulgo nos lugares certos e ela ficará doidinha por um papo com você. Ela não mergulhará a seus pés ou implorará por passar noites no motel, seu pedido é outro. Pode pagar tudo depois do serviço feito, só lembre de trazer dinheiro vivo, viu?

Rapaz, que jovem foi esse? Desperdiçar o talento como o meu em troca de namoro honesto. É cada uma! Pior, adorei esta tarefa. Dá aquela sensação de o mundo ainda ter jeito, da humildade persistir e quem sabe um dia salvar este país da corrupção. É, existe esperança amanhã, hoje eu ainda preciso forjar em como a mídia manipulou um vídeo pornográfico postado pelo presidente. Todo dia tenho de arrumar as presepadas deste asno!

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