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Artigos com pesquisas realizadas

Lobisomem Brasileiro (Dia do Folclore)

A data de publicação deste post — 22 de agosto — homenageia o dia do folclore brasileiro. Nada mais justo aproveitar este dia e compartilhar características de um mito tão comum, mas apenas conhecido em lendas internacionais: o lobisomem. Esqueça a transformação de lobo, a aparição apenas sob lua cheia e a fraqueza à bala de prata. Os licantropos brasileiros têm outras particularidades, inclusive com distinções conforme a região deste vasto território nacional. Fui atrás dos detalhes pertinentes ao lobisomens existentes no Brasil, e tem muita informação! Ainda mais ao considerar a diferença por região… Fiquei confuso durante a pesquisa — ainda estou em algumas partes —, e pretendi publicar este com informações relevantes e assim ficar mais fácil o entendimento, e então quem quiser saber mais, aproveite as referências listadas ao final.

Como é o lobisomem brasileiro

A criatura mais próxima da licantropia entre as lendas indígenas é o capelobo. Presente no Pará e Maranhão, pode existir em forma humanoide, com pés sem dedos e redondos, peludo e rosto de anta ou tamanduá. A transformação ocorre com os índios idosos quando bebem a puçanga — remédio ou poção preparado pelos pajés.

Fora do conceito indígena, o lobisomem tem aparição por todo o Brasil. Pode assumir a forma de cachorro, e além deste a de porco, jumento, bezerro ou cavalo; exceto lobo. A justificativa é simples: os lobos vivem fora do Brasil. Enquanto os mitos internacionais baseiam-se no animal selvagem, por aqui os humanos transformam de acordo com os animais domesticados pelo homem.

A maioria das maldições licantrópicas acontecem pela nascença ou por falha moral. O sétimo filho nascido depois de mais seis irmãos do mesmo sexo é condenado à licantropia, ou ainda o sétimo filho depois de seis filhas. Outra maneira de virar lobisomem brasileiro é por meio de relações incestuosas ou entre compadre e comadre, condenando assim quem praticou o incesto ou o filho desta relação — varia conforme a região do mito. Alguns podem carregar o azar ao tocar no sangue de outro lobisomem. Já no norte do país inexiste condenação por falha moral, o amaldiçoado vive na forma humana com sintomas anêmicos e se transforma para suprir a necessidade de sangue.

Sétimo Filho

Fácil perceber qual o sétimo filho, não?

A transformação

Como já disse, a regra da aparição sob a lua cheia possui nenhum embasamento no Brasil, aqui os lobisomens aparecem toda semana. Pode acontecer de terça e sexta-feira — embora as fontes citem mais a sexta — na meia-noite, portanto o amaldiçoado já se prepara na noite do dia anterior ao transformar logo na primeira hora do dia.

Na hora da transformação, o amaldiçoado vai até uma encruzilhada, procura rastro de algum animal ter espojado — esfregar as costas no chão — ou onde tiver fezes de animal. O humano tira a roupa do corpo, vira do avesso e faz sete nós na camisa, então ele espoja no mesmo lugar do animal ou sobre as fezes, fica de costas ao chão e rola da esquerda a direita. Logo em seguida ocorre a transformação: as orelhas crescem e ficam dobradas sobre os ombros, o rosto assume as feições do animal correspondente ao que espojou antes do amaldiçoado. As fontes sempre remetem a pelagem com a cor preta, embora nenhuma deixe claro como regra.

Concluída a forma da besta, a criatura corre com as quatro patas, as traseiras levantadas e as dianteiras inclinadas com o rosto próximo ao chão, as orelhas chacoalham e ecoam quando eles correm. Os lobisomens devem percorrer sete lugares de cada tipo, ou seja: sete cemitérios, sete vilas, sete outeiros, sete encruzilhadas… E neste percurso eles se alimentarão do sangue de animais — quanto mais novos, melhor — ou de bebês ainda não batizados, caso encontre nada disso, vão atrás de qualquer pessoa encontrada no caminho.

Permanecem nessa forma até o amanhecer, quando o galo — animal símbolo da libertação do medo — começa a cantar. O lobisomem brasileiro então retorna ao local onde espojou e volta a ser humano, com os cotovelos e joelhos sangrando, pois raspam no chão ao correr de quatro na forma bestial. Caso ao voltar no local, perder as roupas de vista — escondidas por alguém — ou a camisa estiver com os nós desfeitos, o lobisomem viverá na forma da besta pelo resto da vida.

Galo - lobisomem

Lobisomens dão no pé ao canto do galo

Como humanos, os amaldiçoados têm aparência enfraquecida: magro, descarnado, vacilante, de olhos apagados, face decaída e pele amarelada. Tem apetite apenas por refeições salgadas ou picantes, recusa o resto. E tende a ter náuseas e vomitar por causa do sangue ingerido na forma licantrópica.

Como desencantar o lobisomem brasileiro

É possível livrar alguém da maldição, e nem sempre este ficará grato por fazê-lo. Com receio de quem o libertou do fado espalhar a notícia de ele for lobisomem, o ex-amaldiçoado pode tentar matá-lo antes de contar a alguém. Caso ainda decida correr o risco… Basta golpear o lobisomem com algo perfurante, como faca ou até mesmo agulha, e deixar o sangue escorrer; apenas isso, e o amaldiçoado nunca mais virará besta. É preciso evitar de tocar no sangue na fera, senão também pegará a maldição.

Lobisomens são imunes a tiros de revólver, nem as balas de prata adiantam contra as feras daqui. A bala só é efetiva ao untar com cera de vela usada por três missas de domingo* ou na missa de Natal. Desta forma o tiro pode desencantar ou até mesmo matar.

Apesar de não livrar a maldição, o uso do símbolo de Salomão — estrela formada por dois triângulos entrelaçados — mantém as bestas afastadas. Por isso é recomendado formar o símbolo com palhas secas recebidas no Domingo de Ramos e pregar tal símbolo nas portas de casa, assim jamais receberão visitas da besta, sequer chegarão perto.

Salomão - lobisomem brasileiro

Casa imune à visita de lobisomem

Mulheres amaldiçoadas

O lobisomem brasileiro fica restrito a acontecer apenas sobre homens. Única fonte consultada sobre a mulher virar licantropo foi no conto O Lobisomem, de Raymundo Magalhães. Nos demais casos, a maldição impõe outras condições a mulheres.

Uma delas é virar cumacanga. Comum nos estados do Pará e Maranhão, acontece com a sétima filha de irmãs mulheres — salvo quando a irmã mais velha seja a madrinha da sétima — ou quando a mulher fica apaixonada pelo padre. A cumacanga desprende a cabeça do corpo em toda noite de sexta-feira, e assim flutua em chamas pelas redondezas. Também existe a bem conhecida mula-sem-cabeça, condenada por ter relações com padre católico. Outra situação exclusiva à mulher é a sétima filha depois de seis mulheres, ficando esta condenada a ser bruxa.

Proibido amar - lobisomem brasileiro

Evite perder a cabeça!

Variedade conforme a região

Citar cada diferença exclusiva por região sobre este mito repercutido por todo o Brasil deixaria esta publicação extensa demais. Cito só algumas com intenção de mostrar a diversidade deste mito:

  • no Sul do Brasil, quem for mordido por lobisomem também vira um — além da ocorrência comum de ser o sétimo filho depois de seis irmãs;
  • os lobisomens paulistas transformam apenas em cachorros grandes e negros, alimentando-se de fezes de galinha e bebês ainda não batizados;
  • em Espírito Santo, é possível prevenir o sétimo filho da maldição ao ser batizado pelo irmão mais velho;
  • e as feras presentes próximas ao Rio São Francisco (nos estados de São Paulo e Minas Gerais) adoram caçar filhotes de porco.

Surpresos com as características do lobisomem brasileiro? Com certeza as feras lupinas viscerais possuem valor e por isso merecem todas representações nas mais diversas mídias — inclusive nas mãos do Stephen King e no autor brasileiro Clecius Alexandre Duran. Por outro lado, os monstros daqui também possuem mérito, as particularidades podem render boas histórias ambientadas no Brasil, entregando algo distinto das publicações já reconhecidas no mundo e até por aqui mesmo.


* Nenhuma fonte consultada deixa claro quanto a três missas de domingo e me deixou em dúvida: deve realizar as missas no mesmo dia ou queimar as velas na missa de três domingos diferentes? Agradeço caso alguém puder esclarecer 🙂

Referências

Relações Ecológicas e Seres Fantásticos

O Lobisomem (conto de Raymundo Magalhães)

Revista overmundo nº 4, de 2011

Licantropia Sertaneja (Luís da Câmara Cascudo)

Geografia dos Mitos Brasileiros (Luís da Câmara Cascudo)

Dicionário do Folclore Brasileiro (Luís da Câmara Cascudo)

Ciência: Interesse, Desinformação e Importância

Mesmo com o foco do blog na literatura, assuntos relacionados à ciência são muito bem-vindos nos posts bem como por este que vos escreve. Já abri discussão quanto a importância de todo indivíduo precisar ler artigos acadêmicos além dos problemas decorrentes na ignorância ao conhecimento. Trago assuntos tanto com conclusões animadoras como a reflexões críticas, todas com a devida importância. Vi uma matéria na semana passada com título chamativo e proposta questionável, esta a qual discutirei neste artigo quanto ao interesse, desinformação e importância relacionados à ciência.

A matéria é da TAB Uol, sobre os brasileiros serem mais interessados na ciência em comparação ao resto do mundo, baseado no estudo mais recente feito pela empresa 3M chamado State of Science Index.  A notícia seria animadora, pena os detalhes ignorados pela matéria forem trágicos. Segundo os dados da pesquisa, o interesse do brasileiro em destaque é a importância na ciência no dia a dia, onde o índice é maior no Brasil comparado aos outros 13 países avaliados. Só que este é apenas um dos índices levantados pela pesquisa, há outras questões analisadas as quais outros países se destacam, como a maior curiosidade na ciência por parte dos mexicanos, a importância de todo cidadão entender como a ciência funciona independente da profissão como os habitantes de Singapura, e o maior interesse em motivar as crianças a seguirem carreira científicas entre os sul-africanos.

Outro problema na matéria é falar dos brasileiros terem a maior percepção sobre vários aspectos da ciência do que o resto no mundo. Isto é meia verdade. O Brasil supera certos índices da média global, o erro ao dizer em superar o resto do mundo é por ter países com determinados índices superior ao Brasil, como por exemplo: 79% dos brasileiros são curiosos quanto à ciência, proporção maior a da média global de 72%, mas perde em relação à Alemanha com 82%.

Estatística - Ciência

A estatística desmente o argumento

Os interesseiros da ciência

Tanto o estudo como o destaque da matéria desperta questões quanto a importância do interesse pela ciência frente a outros fatores. A maioria dos entrevistados na pesquisa — sejam brasileiros ou da média global — assumem conhecer nada ou apenas pouco sobre a ciência. O conhecimento falha em acompanhar o interesse, e é possível testemunhar as consequências deste gargalo, dentre elas a pessoa confiar em determinado apontamento só pela menção de algum estudo sem dizer onde este foi feito ou sequer conferir a fonte original. O estudo da 3M afirma dos entrevistados terem mais confiança quando a fonte de informação vir de cientista comparado a pessoas próximas ou publicações de sites e redes sociais, entretanto não deixa claro se a credibilidade da pessoa ou publicação permanece igual ou aumenta ao dizer que tirou a informação de pesquisa científica.

O jargão “a ciência só está certa quando concorda comigo” reflete no viés do indivíduo superar a confiança no trabalho dedicado dos acadêmicos responsáveis por analisas e discutir determinado assunto. Todo o trabalho perde o valor pelo indivíduo apenas por entregar o resultado diferente do esperado por ela; tal comportamento corresponde a 50% dos brasileiros, superior a média global de 45%.

Discordar - Ciência

Os suricates discordam quanto ao formato da Terra

Em suma: o brasileiro — no geral — tem interesse pela ciência, apesar de possuir pouco conhecimento e da metade concordar com a ciência apenas quando os estudos dela for de acordo com a sua crença. Tal situação gera cenários favoráveis a matérias que atribuam descobertas a partir de “estudos científicos” e no fim nem cita quais estudos são esses. A pessoa lê apenas a matéria e aceita aquela informação sem procurar saber mais do estudo — por falta de conhecimento — ou apenas o ignora quando for contra a ideia preconcebida da pessoa.

O perigo do ceticismo

O estudo traz o alerta sobre as pessoas céticas quanto a ciência. Elas representam um terço dos entrevistados e seu número cresceu em 3% comparado à pesquisa feita no ano anterior. O ceticismo seria importante para desenvolver o pensamento crítico e incentivar o indivíduo a buscar as respostas por si, pena os motivos de os tornarem céticos quanto a ciência segundo a pesquisa da 3M demonstrar o caminho reverso.

A maioria critica a alta incidência de conflitos de opinião entre os cientistas, sinal de ignorância da parte dos céticos em como a ciência funciona, pois os estudos progridem justamente a partir da discussão de ideias, analisa as falhas de cada estudo e propõe melhorias a partir dos novos. O segundo maior motivo é por fazer parte da natureza deles questionarem sobre a maioria dos assuntos, e esta é uma ótima postura, desde que tome esse questionamento e procure as informações por si mesmo.

Também há forte incidência de argumentos sobre a ciência sofrer influência de empresas, governos ou até dos vieses dos próprios cientistas. Tal conspiração existe, impossível negar a parcela de pessoas com interesses egoístas a ponto de forjar estudos condizentes com a crença do autor — ou de quem financia o projeto. Por isso é importante haver discussão dos estudos na maior diversidade de fontes possível, assim terá a oportunidade de desmascarar estudos enviesados e intenções nada acadêmicas.

Conspiração - Ciência

Tudo feito por computação gráfica!

O ceticismo seria capaz de estimular melhores discussões quanto a ciência, pena os argumentos apresentados por eles no estudo da 3M terem o efeito contrário. Boa parte dos céticos analisados perde a confiança na ciência, e talvez isso justifique tal índice diminuir na maioria dos países analisados.


A desinformação está presente desde antes da recorrência de Fake News nas eleições do ano passado. O conhecimento científico por parte da população é prejudicado graças a ela, e ver esta alta incidência de interesse me leva ao pensamento de piorar a situação, pois o interesse sem conhecimento leva as pessoas a crerem na ciência ao invés de estudarem-na. Por isso muitos são fisgados por teorias da conspiração que soam com argumentos científicos, porém o conhecimento pertinente é ignorado pelos conspiradores e desconhecidos por quem acredita nessas mentiras. Enquanto o interesse não estiver na própria pessoa em ir atrás do conhecimento, a ciência continuará menos acessível.

Referências

Brasileiros são mais interessado em ciência que o resto do mundo (matéria do TAB Uol)

Página onde destaca o que cada país acha mais importante na ciência segundo o estudo da 3M (Em inglês)

Apresentação dos índices levantados pela 3M com opções de filtragem (Em inglês)

Arquivo do estudo realizado pela 3M (Em inglês)

Já Leu Um Artigo Acadêmico Hoje?

Já leu um artigo acadêmico hoje? Caso ache esta pergunta estranha por ser escritor e não cientista, é preciso me acompanhar neste post, pois falta compreensão da importância de tais textos, e estendo essa importância a qualquer cidadão ao conferir um artigo ou outro de vez em quando, de preferência sempre. O motivo é simples, e eu já expliquei ano passado como sendo o grande problema de 2018. Com tanta informação disponível, a sociedade falham em obter mais conhecimento e ficam sujeitas a notícias falsas, a mercê de narrativas medíocres no sentido literário e na comunicação em geral. Este Aprendizado faz abordagem genérica, útil tanto a escritores como pessoas interessadas em aprender, ou pelo menos deveriam.

Meu relacionamento com os artigos

Começarei a falar da importância dos textos acadêmicos a partir da minha experiência, demonstrando como eu também dava pouca importava a princípio. Deixo a modéstia de lado e digo que já fiz quatro monografias — concluí a última aos vinte e três anos —, quantidade pequena numa carreira acadêmica, mas maior de muitos que estudaram até o ensino superior como eu. Na minha bolha de estudantes, monografia significava apenas o passo final a concluir o curso. Procurar referências bibliográficas e catalogá-las no fim do Trabalho de Conclusão de Curso traumatiza o aluno ansioso por concluir aquele trabalho, defendê-lo e comemorar a vinda do certificado. Em outras palavras, os artigos eram apenas obstáculos quando já estávamos exaustos de estudar.

Obstáculo - artigo

Eu levando meu TCC para a banca avaliadora

Também foi assim comigo. Pesquisava pelos artigos, selecionava trechos relacionados ao tópico que eu precisava, o resumia, colocava na monografia e registrava a devida referência; e nesse meio tempo também checava as normas da ABNT, cheia de detalhes. Minha metodologia foi sistemática, voltada ao objetivo sem aproveitar as oportunidades proporcionadas por aqueles tantos textos lidos.

Só comecei a ver importância nos artigos científicos fora da acadêmia, numa plataforma incomum a buscar este tipo de conteúdo: o YouTube. Larguei canais de games e os vlogs ao descobrir influenciadores com argumentos embasados em pesquisa prévia. Comecei pelo Nerdologia e Pirula, depois conheci Ponto em Comum, Peixe Babel, Primata Falante, Canal do Slow, Blablalogia, Ciência Todo Dia… A maioria faz vídeos em formatos de vlogs, ligam a câmera e falam do assunto indicado no título do vídeo, elenca argumentos e faz a discussão do que é verídico ou pelo menos atestados pelos artigos, esses disponíveis na descrição do vídeo, bem como notícias e outras mídias embasadas.

A importância do artigo

O ideal seria ver cada artigo desses vídeos e entender mais do assunto, confesso minha culpa por fazê-lo apenas ao assistir o vídeo na segunda vez, com intenção de destrinchar o assunto e colher as referências para fazer minhas pesquisas, essas disponíveis neste blog na categoria Aprendizado. E por que é importante conferir as fontes desses vídeos? Porque a maioria são de artigos acadêmicos, cuja autoria vêm de pessoas formadas ou em formação na área de conhecimento relacionada. A dedicação deste trabalho deve ser comprovada pela bancada avaliadora com profissionais de nível acadêmicos superior, e só então torna público; toda a burocracia desta publicação garante o texto vir com a menor probabilidade de equívocos, e se eles existirem, terão outros artigos que contestarão aquele trabalho, como aconteceu na influência de jogos violentos nos atos reais, onde argumentam contra esta relação. Depois de saber a importância das referências, ainda confiará naquelas matérias sensacionalistas em que dizem “os estudos apontam” e no fim nunca explicam quais estudos são esses?

Outra crítica nada fundamentada aos ignorantes da importância das referência é sobre a Wikipédia. Tiram sarro só de ouvir alguma informação tirada de lá como tivesse nenhuma credibilidade, logo esta plataforma que disponibiliza toda referência usada! O site é excelente ponto de partida a pesquisa de fontes, e quando há falta delas, a própria página comunica ao visitante quando determinado artigo pode conter informações erradas.

Wikipedia - artigo

Wikipédia: leia as fontes!

Como aproveitar os artigos

Evitarei me estender em como buscar os artigos acadêmicos. Eu já dei a dica de começar na Wikipédia ou pelo vídeo dos canais citados. Outro ponto de partida é conferir portais de instituições renomadas pela comunidade científica, como a NASA e a revista Science. E eu preciso dizer sobre o Google? Existe a ferramenta Google Acadêmico, onde todos os resultados da pesquisa são artigos acadêmicos.

Então você acessa um daqueles textos lindos feitos por profissionais, e se espanta pelas 60, 80, 240 páginas de puro estudo! Precisa ler tudo isso? Não! Começa lendo o resumo e a introdução, caso trate do assunto desejado, pode pular direto ao tópico que responde as indagações, como a discussão e a própria conclusão. Conforme a necessidade, leia os outros tópicos e aproveite apenas as informações úteis. Caso o estudo for diferente da sua área de conhecimento, pouco adianta acompanhar cada passo da pesquisa, deixe esta parte a outros acadêmicos capazes de contestar e até provar algum engano naquele trabalho; caso provem, você não terá culpa, só recomendo acompanhar as novidades na acadêmia e encontrar o equívoco o quanto antes.

Estudar - artigo

Hum, já entendi que a terra não é plana na página 30

Além da injustiça quanto a relevância desses artigos, existem outros obstáculos ao acessar os artigos acadêmicos. Um deles é o custo, só pode consultar certos artigos ao pagar por ele, chega a desanimar a pesquisa só de olhar o preço. Alguns desses artigos ainda são acessíveis em sites piratas, feito por ativistas que discordam da distribuição desse material somente a quem tem condições de pagar. Todo profissional relacionado à publicação merece ter a remuneração garantida pelo trabalho feito, e concordo com os ativistas sobre a fonte pagadora deixar de ser os leitores, existe a possibilidade de tornar os trabalhos viáveis através de financiamento público ou privado nas pesquisas, então torne o acesso aos estudantes e curiosos o mais fácil possível! É um investimento à sociedade que ficará cada vez mais crítica e menos manipulável por narrativas fajutas.

Outro problema é o idioma. O inglês é a língua universal dos trabalhos científicos, é bom por tornar a discussão entre as pesquisas internacionais mais acessível por focar em um idioma, mas restringe a leitura de quem o desconhece. Quanto a isso eu recomendo o esforço de entender o inglês, pelo menos o necessário a interpretar as informações; eu não sou fluente, minha escrita é regular, tenho dificuldade em ouvir em inglês e sou pior ainda na hora de falar, e ainda assim leio os textos e consigo apreender as informações disponíveis. Mesmo enquanto souber apenas o português, ainda poderá consultar a partir de quem leu, como os artigos de Aprendizado deste blog, os canais do YouTube e outros sites comprometido em acompanhar pesquisas.

Conferir as novidades científicas deveriam ser exercício de cidadania. Valorizando a informação acima do locutor oferece a oportunidade de conhecer mais, reavaliar os próprios equívocos e criticar quando o outro tenta menosprezar a informação verídica. Escritores podem usá-lo como ferramenta até nos elementos fantásticos, uma fonte para especular sobre o conhecimento de hoje e refletir na construção original da ficção. Agora encerro o post com a pergunta: você lerá um artigo acadêmico hoje?

Referências

Vídeo do Canal do Slow sobre como fazer uma boa pesquisa

Vídeo do Nerdologia sobre a Wikipédia

Nostalgia — dos Equívocos ao Benefícios

Nostalgia: eu demorei a entender o significado desta palavra, achava-a esquisita mesmo depois de compreendê-la e meu subconsciente ansiava por conhecer mais. Termo singular como este deve ser visto de forma distinta, procurar e descobrir o motivo de suas qualidades, de abusarem deste sentimento no marketing ou de produções remetentes ao passado, como a adaptação dos heróis de gibi no cinema, o reboot dos filmes infantis clássicos do século que terminou há menos de vinte anos ou qualquer narrativa sobre lembranças dos tempos mais simples. Nostalgia é um sentimento, bem como uma ferramenta ardilosa. Teve a origem conturbada por equívocos, então vê apenas benefícios com ela — além de convencer pessoas a ver novas adaptações do velho. Enfim eu atendi meu desejo inconsciente e estudei esse fenômeno, cujo aprendizado resumo a seguir.

No princípio, Nostalgia era o Caos

O termo nostalgia foi criado para definir algo ruim, um sintoma patológico de inadequação ao presente, pois o indivíduo suspirava pelos bons tempos do passado. A origem corresponde aos mercenários suíços do século XVII, eles enfrentavam conflitos cada vez mais distantes dos lares e por isso ansiavam pelo retorno, sentiam saudade de casa e com isso rememorava os bons tempos de lá; consideravam esse comportamento ruim por acharem a ostentação do passado o sinal de estar descontente com o presente, e portanto desmotivados a cumprir suas tarefas.

Lar - nostalgia

Nada melhor — e humilde — do que o lar

Nostalgia vem das palavras gregas nostos (retorno) e algos (dor), ou seja, o sofrimento pelo desejo de retorno. A inspiração original também veio de uma história grega, sobre as aventuras de Odysseus. Por mais longe ele alcançasse as conquistas, ele sempre ansiava por voltar ao lar e aos braços da amada Penélope; algo romântico traduzido como trágico na situação dos mercenários suíços.

A perspectiva só começa a mudar ao longo do século XX, com propostas da nostalgia trazer consigo outros sentimentos prazerosos. Houve muita discussão quanto a isso, estudiosos elencaram sentimentos ruins e positivos atrelados ao sentir nostalgia, e notaram a maior incidência dos positivos. Desde então observa benefícios através da nostalgia, assim como eu percebi nos materiais consultados — lembre de ver as referência no final!

Nostalgia como elixir

O sentimento traz uma cadeia de benefícios: elevar a autoestima como se a recuperasse do passado, melhorar o otimismo quanto ao futuro e viver bem em sociedade; todo benefício é interligado a outro! Pessoas do mesmo grupo podem corresponder à boa lembrança, seja a mesma ou semelhante, como a brincadeira de tazos de quem teve infância nos anos 1990, reouvir a música de sucesso de determinada época ou lembrar de alguma situação em comum; até mesmo os feriados festivos alimentam a nostalgia ao reunir pessoas distantes depois de tanto tempo sem ver. Em outras palavras, nostalgia serve de gatilho a boas relações sociais, sejam de pessoas próximas ou aquelas com gostos parecidos. E esta boa convivência estimula os outros benefícios citados, pessoas sentirão melhor com a autoestima dos bons tempos e ficarão mais empolgados com os planos do futuro.

Infância - nostalgia

A nostalgia une quem teve infância semelhante

Quem vive rotinas mais solitárias também consegue esse benefício, pois a nostalgia é capaz de ampliar a intensidade do pouco convívio social desta pessoa. Apenas fica mais complicado quando há pessoas com dificuldade em reaver o passado, nesse caso elas têm problemas ao imaginar novas experiências, pois perdem a visão otimista atribuída com a nostalgia. Por outro lado,  mesmo ao ter o passado conturbado consegue bom proveito, pois pode projetar planos futuros de modo a evitar situações semelhantes do passado ruim.

E por que as narrativas nostálgicas causam impacto ímpar contra as boas histórias sem esse apelo? Simples, os elementos do primeiro entregam algo abstrato, e ainda assim correspondente a autenticidade de quem reconhece o aspecto memorável. É útil inclusive quando há transtornos pessoais quanto ao significado da vida ao recordar das crenças fundamentais e particulares da pessoa, reavidas por meio dos bons sentimentos do passado.

Alegações sob a ótica do copo meio vazio atestam apenas de a reapresentação de obras nostálgicas ser campanha com garantia de ganhar dinheiro fácil pela geração que viu o original. Já os argumentos trazidos neste artigo trazem, na maioria, visões otimistas — até fico impressionado pelo tanto de benefícios! — que merecem mais visibilidade. Eu, como muitos, pensa na rotina vivida por nós hoje como complicada, para não dizer sofrível ou adjetivos piores. Descobrir mais sobre a nostalgia estimula minha esperança e incentiva a aprender mais, pela possibilidade de conhecer outras coisas legais através dessas pesquisas.

Referências

Back to the Future: Nostalgia Increases Optimism

Nostalgia: Past, Present and Future

Why Nostalgia Makes Us Happy… And Healthy

Ficção Violenta Gera Violência?

Tragédias são inevitáveis, independentes da boa vontade em prevê-las. Fatores complexos incitam desastres ambientais, outros de questão social e individual fazem certas pessoas levantar armas e atirar. O resultado é transmitido pela internet segundos depois ou ao vivo. Terminada a tragédia, vem a discussão dos fatos. Figuras públicas ensaiam gestos eloquentes e apontam o dedo sobre as causas, essas em fatores mal compreendidos por elas.

A violência na ficção sempre foi culpada na influência de alguém a ponto de torná-lo infrator antes mesmo de verificar o quanto impacta. O tempo avança e as críticas insistem em mídias contemporâneas, foi assim com livros, quadrinhos, filmes… Hoje os jogos eletrônicos levam a culpa dos atentados recentes. Este artigo traz a discussão sobre a violência da ficção de fato influenciar no público que a consome. Sem dar o ponto final na questão como em qualquer outro artigo da categoria Aprendizado deste blog, o intuito aqui é oferecer diálogo a partir das pesquisas feitas sobre o assunto.

Literatura Violenta

Começo a abordagem pela violência na literatura. O periódico de Tânia Pellegrini traz pontos de a agressividade na literatura brasileira estar atrelada a cultura e histórico de nosso país, submisso a momentos conturbados na colonização, escravidão, lutas de independência, ditaduras e a urbanização.

Violência

Pallegrini ainda analisa e compara dois livros com violência marcante: a ficção de A Cidade de Deus e a obra Estação Carandiru de Dráuzio Varella. Chama atenção do primeiro na forma de apresentar a violência na história, todo o ambiente é marcado por agressão, representada por diversas formas a ponto de levantar uma espetacularização da violência, cujo excesso é o atrativo do público. Ao contrário do livro de Dráuzio narrado pelo próprio, uma pessoa alheia à realidade dos prisioneiros de Carandiru que mostra os acontecimentos vistos, dá voz aos personagens reais daquela situação ao invés de expô-las ao leitor através da violência.

A crítica de histórias como A Cidade de Deus é feita pela ambiguidade na interpretação de quem lê, pois pode assimilar a crueza de todos os delitos representados na ficção; ou imaginar que, naquele meio, a violência é viável à humanidade. Eu enxergo esta divergência de interpretação como oportunidade de debate entre os consumidores da história, mas como já critiquei na abertura deste artigo, pessoas de grande representatividade apelam apenas na segunda versão sem sequer conferir os fatores.

Violência Real X Fictícia

Sobre os fãs de histórias violentas, boa parte é atraída pelo ambiente fechado da ficção onde tal recurso se justifica, longe de eles acreditarem como algo viável na realidade. Foi o que a States United to Prevent Gun Violence (SUPGV) mostrou na campanha em vídeo, onde convidou fãs dos filmes de ação para assistir a estreia no cinema de algo como eles queriam: cenas cheias de ação e armas.

Cinema violento - violência

O cinema entregou o prometido, mas apenas com gravações reais de homicídios, acidentes com arma e suicídio. As câmeras escondidas filmavam a reação dos espectadores, e ninguém se empolgou com as cenas, muito pelo contrário. Saíram apavorados, chocados com as tragédias causadas pelas armas de fogo, conscientes da violência jamais ser o melhor recurso na resolução de conflitos.

Lá vem os jogos

Games são as mídias mais recentes onde conteúdos violentos se multiplicam mais rápidos do que coelhos. O blog tem resenhas de alguns desses jogos, onde analiso o enredo e mundo de determinado jogo, demonstrando a situação daquele mundo com a violência como reflexo — ou desculpa para o jogador bater em quem estiver no caminho. O quanto isso influencia as pessoas? Felizmente já existem vários estudos para esta discussão.

Gamer Zone - violência

O mais recente feito pela Oxford neste ano traz críticas a outros estudos que alegaram relação de jogos violentos com os delinquentes reais. Segundo o periódico, algumas metodologias coordenavam as pessoas analisadas a responderem de acordo com o viés do pesquisador, pois nem todos os parâmetros levantados eram imparciais. Quando os pesquisadores de Oxford fizeram o próprio levantamento, contestaram a influência dos jogos violentos a quem comete atentado.

Longe de os games serem isentos de culpa. A American Psychological Association’s (APA) fez uma análise bibliográfica com trinta e um artigos sobre jogos e violência. O resultado das análises reforça a baixa probabilidade de jogos violentos incentivarem pessoas a cometer delitos, entretanto podem influenciar no comportamento, como demonstrar sentimentos mais agressivos e/ou perder a sensibilidade ao ver algo brutal; o último ponto conflita com a campanha em vídeo do cinema citado acima, que apesar de não ser matéria acadêmica, levo a questão pela representação extrema capaz de chocar até quem possua pouca sensibilidade.

Menos julgamento, mais discussão

Atos violentos têm origens em diversos fatores, difícil de apontar causas específicas num comportamento tão complexo. Vimos como os ambientes violentos na ficção possuem a sua parcela de culpa, apenas com impactos emocionais. Apontar o dedo onde tem menos influência demonstra pouco conhecimento da causa, além da falta de interesse ou ocultação do que de fato provoca consequências maiores. Toda conclusão deveria vir após estudar o caso, sem apelo a sentimentos e comportamento honesto frente a prevenção de novas tragédias.

Referências

No fio da navalha: literatura e violência no Brasil de hoje

Gun Crazy: Moviegoers See Gun Violence Like They’ve Never Seen Before (YouTube)

Violent video game engagement is not associated with adolescents’ aggressive behaviour: evidence from a registered report

Influenciadores X Informação

Já estamos em 2019. Eu sei, já é tarde anunciar o ano novo após quase cinquenta dias de estreia. Só o faço porque o grande problema de 2018 continua mesmo após o réveillon. Publiquei o artigo há mais de um ano falando como a ignorância dos brasileiros frente ao conhecimento pode prejudicar muitos aspectos de nosso país. Ninguém é obrigado a saber de tudo, e eu demonstrei as minhas falhas no outro texto e propus a todos nós procurar melhores informações. A copa do mundo passou, o novo presidente já assumiu os trabalhos e já retirou a bolsa de colostomia, e a ignorância permanece.

Fácil de notar a insistência deste problema quando os brasileiros engoliam rajadas de fake news durante a eleição, e ainda assim vemos algumas até hoje. Enquanto estivermos a mercê da ignorância, esta permanecerá como o Grande Problema de 2019. Eu também persistirei nesta discussão, e este post agregará argumentos para outra situação: a disputa onde a informação perde de 7 a 1 contra a influência.

Há grandes chances de nossos filhos, sobrinhos, pais e mães sofrerem influência da ideologia dos comunicadores da mídia. Não mais a tradicional, mas a descentralizada da internet. Longe de partir dos professores ou de cientistas, e sim de YouTubers.

Os criadores de conteúdo da maior plataforma de vídeos vigente são os responsáveis por tirar cidadãos de bem e crianças das questões importantes da sociedade, além de problematizar pontos inúteis de discussão onde leva a lugar nenhum, na verdade tira o foco do essencial.

Plataforma de vídeos — e influências

A Google disponibilizou o relatório pomposo, cheia de orgulho do alcance propagado pelos produtores de conteúdo no YouTube. O número de visualizações só aumenta, pessoas dedicadas a disponibilizar vídeos no site conseguem rendimentos capazes de manter a vida financeira, são a fonte favorita de mídia para saber de assuntos específicos ou conteúdos agradáveis a quem assiste. Perdem em influência apenas contra amigos e familiares, os espectadores confiam mais neles do que no jornalismo tradicional e na TV aberta. Sabe os temíveis professores e cientistas influenciadores? Eles existem, com certeza! Apenas não em proporção suficiente a ponto de nem se destacar entre os demais setores da estatística.

O relatório exalta o alcance do YouTube com objetivo de divulgar o mecanismo de patrocínio entre os produtores de vídeo e as marcas interessadas em anunciar produtos. E de fato os YouTubers são excelentes em engajar os espectadores a conferirem as novidades anunciadas nos vídeos — fator destacado no relatório — e mal precisa observar muito quanto a eficácia da influência. E o problema existe bem aqui. Os produtores são excelentes em convencer o público fiel deles a seguirem dicas, garantem a visibilidade da marca através de patrocínio, e vão além de propagar produtos e serviços de empresas.

Ideologias são conjuntos de ideias vendidas a quem acredita nelas, e os YouTubers sabem vendê-las. Além disso, estão cientes de como seu público aceita o que assiste sem checar a realidade proposta no vídeo. Eles também não sugerem aos fãs como se informarem, ou melhor, citam apenas as “fontes confiáveis” cujas pessoas compartilham do mesmo interesse defendido pelo produtor, além de demonstrar os pontos contrários de modo que eles soem fúteis a sua audiência. Pouco importa, o público já está cativo de seu conteúdo e tomará o discurso como verdadeiro, quando na verdade é apenas verossímil. Apresentar meios de obter informações além dos influenciadores é ineficaz, esmurrar a ponta da faca machucaria menos.

Existe solução?

Refutação honesta

Segundo um estudo feito através de estudantes sobre pseudociência, a melhor forma de desmistificá-la é apontando as suas características e as falhas. Sem editar fragmentos do argumento no intuito de torná-lo bobo, nem diminuir o locutor da mentira por nível social ou campo ideológico. Apenas a apresentação honesta da ideia equivocada lançada pelo influenciador, e a exposição sincera das informações necessárias para provar o erro.

O estudo trata de pseudociências, e vejo como alternativa a qualquer informação defasada por YouTubers, afinal eles mesmo já operam desta forma, exceto que eles manipulam os argumentos contrários de modo a aparecer fracos contra os deles.

Há as suas limitações. Pelo estudo analisar um caso de estudantes, o resultado vem de evidências anedóticas, mas pelo menos essas são possíveis de replicar. Como o  artigo publicado ano passado neste blog que analisa as características da astrologia e o motivo de elas serem falsas, apresenta os pontos defendidos por ela e em seguida traz argumentos contrários, ou ao menos provocam reflexões de como a astrologia depende mais da influência do que a veridicidade das informações.

A crença na astrologia ainda persiste mesmo depois de eu publicar meu artigo, nem meu post sobre fake news destruiu a propagação de notícias falsas, muito menos o texto do Grande Problema de 2018 nos salvou da ignorância. Eu sempre dedico esses textos com intuito de colaborar com a discussão demonstrando a minha interpretação das fontes consultadas (lembre de conferir as referências deste artigo também). Quero influenciar ninguém, no máximo incentivar o pensamento crítico. Sigo neste trajeto de debate, pois a trilha é longa e oferece oportunidades de aprendizado quando a percorremos.

Referências

O poder dos YouTubers

Texto do André Azevedo sobre a (má) influência dos YouTubers

Confrontar pseudociências faz sentido?

Effect of Critical Thinking Education on Epistemically Unwarranted Beliefs in College Students

Mind Upload e o Pós-Vida no Mundo Virtual

Who wants to live forever? Músicas, histórias e discussões alimentam o desejo de superar as limitações físicas e melhorar os nossos aspectos de vida. A breve história da humanidade traz situações controversas entre a evolução social e tecnológica frente a real melhora nas condições vitais. Nada impede os cientistas de estudarem e buscarem maneiras de transformar nossas rotinas, e isso ainda é bom em muitos sentidos.

Quero abordar no post de hoje quanto a possibilidade de manter a vida humana mesmo após a morte biológica, através do armazenamento e reprodução da mente e do comportamento do indivíduo em ambiente virtual. Será mesmo possível salvar a consciência de alguém no computador e reproduzi-la em outro ambiente? Confira o artigo e saberá mais desta discussão.

Redes Sociais como meio de eternizar pessoas

Os perfis das redes sociais podem dizer muito sobre quem é determinada pessoa. Empresas vasculham os conteúdos compartilhados pelos candidatos de emprego antes de decidir a contratação. Amigos distantes podem manter as relações por esses sites, bem como namorados, que podem causar dor de cabeça após o término e ainda acompanharem a vida do ex no ambiente virtual.

É difícil obter a noção da quantidade de informação pessoal disponível de um usuário nesses sites, pois ela é gigantesca! Chega no ponto de empresas trabalharem na possibilidade de analisar as postagens e interações dos perfis, e então produzir algoritmos capazes de reproduzir os comportamentos depois de a pessoa morrer.

Sim. Você leu isso mesmo.

Rede Social após a morte - mind upload

Eter9 e Eterni.me

Eter9 é uma rede social criada pelo português Henrique Jorge, ainda em fase beta. O usuário da rede faz as postagens e interage com outras pessoas do site sem fazer nada de diferente. E enquanto o utilizam, a inteligência artificial analisa o comportamento de cada perfil para gerar o avatar correspondente àquela pessoa, e então este avatar postaria e interagiria da mesma forma durante a ausência do usuário.

Outra empresa com ideia semelhante é a Eterni.me. Sem rede social própria, ela sugere coletar informações pessoais já disponíveis na internet em outros sites e assim construir o avatar do indivíduo após seu falecimento. Mais ainda, o perfil do falecido poderá interagir com as pessoas vivas e próximas a ele.

Nem tudo são flores

A ideia pode até ser inusitada, pelo menos a execução é possível. A inteligência artificial precisa de muita informação gerada daquele usuário no ambiente virtual, e por isso a eficácia depende dos perfis serem ativos.

Toda esta quantidade da vida digital exposta de alguém acarreta noutras preocupações a serem analisadas. Precisa verificar se essas empresas garantirão a segurança desses dados, do contrário outros podem roubar toda essa informação e fazer atos ilícitos ou sem consentimento. Mesmo os perfis de pessoas mortas podem expor as das vivas por estarem conectados. Certos dados podem demonstrar o momento quando as pessoas estão mais vulneráveis a assaltos ou quais estão sujeitas a golpes de fraudes. Lembre-se que já aproveitaram dados do Facebook para propagar fake news ao público-alvo nas campanhas eleitorais.

Segurança digital - mind upload
Mantenha a informação digital trancada

Mesmo sendo possível, eu duvido quanto a eficácia de reproduzir uma pessoa real através da sua rede social, pois existem muitas maneiras de utilizar esses sites. Nem tudo da vida pessoal é exposto por lá; há quem faça postagens com intenção de criar uma imagem melhor de si, mesmo que seja falsa; além de comportamentos destoantes da pessoa e usuário, como o autor de ameaças virtuais que mal olharia nos olhos de alguém na vida real (felizmente).

Em suma se publica muitos livros do Stephen King, o sistema dessas empresas reproduzirão, na verdade, a pessoa idealizada pelo dono do perfil. E quem presenciar o comportamento emulado pelo avatar, verá a diferença da pessoa em carne e osso.

Mind upload

Tem como eliminar essa dependência de coletar o conteúdo feito pela pessoa afim de emulá-la. Consiste em pegar o cérebro de alguém, mantê-lo intacto até ser possível digitalizar todas as memórias e reproduzir os comportamentos do indivíduo para então ressuscitá-lo através da emulação por programas.

Calma, isso não é Blackmirror ou outra realidade fictícia. Há quem de fato trabalha nisso, como a Nectome.

Nectome é uma empresa de pesquisa dedicada aos estudos da memória. Sua proposta afirma a possibilidade de realizar o mind upload no futuro quando poderá emular a consciência da pessoa em ambiente virtual. Mesmo sendo algo futurista, os pesquisadores garantem de as pessoas de hoje já poderem armazenar seus cérebros através da operação que é garantida… de ser fatal.

Paciente morto - mind upload
O paciente está morto, vida longa à ele!

Destinado a pacientes de doença terminal, a operação consiste em preservar toda a constituição cerebral e mantê-lo assim até ser possível escanear e reproduzir a consciência. Para tal conservação, o cérebro ainda precisa estar ativo, em outras palavras, o humano deve se sujeitar a operação enquanto está vivo. Porém, este procedimento é fatal, e por isso feito apenas em pacientes com possibilidade legal de eutanásia.

A ideia soa absurda, e apesar de já ter pessoas interessadas, pode ser absurda mesmo. A Nectome teve parceria com o Instituto de Pesquisa de Massachusetts (MIT) que logo foi desfeita, pois o conhecimento vigente da neurociência não garante a eficácia da preservação do cérebro, tão pouco há garantia de reviver o cérebro no futuro através da digitalização.

Discussões sem fim

Só porque o MIT recusou uma iniciativa de mind upload e alegou falhas referentes à possibilidade, pouco significa a morte do assunto. Muitas discussões já foram feitas com pontos positivos e negativos, além de muitas outras que virão.

Duvidam da capacidade informática de conter e processar memórias no mesmo nível funcional do cérebro, porém inexiste evidência sobre os sistemas serem incapazes. Falam da impossibilidade de converter as memórias salvas em comportamentos idênticos aos humanos, e a resposta afirma haver avanços na neurociência sobre como as funções neurais funcionam e poderiam adaptá-las na emulação. Contestam da falta de contato físico na pós-vida virtual que resultaria em algo diferente da vida como conhecemos, e o outro lado alega sobre a experiência ser real no ponto de vista do indivíduo cibernético; mesmo considerando a criação do ambiente simulado onde as pessoas mortas conviveriam, ou a transferência da consciência delas em corpos sintéticos, esses de fato são desafios a serem avaliados em etapas avançadas deste estudo.

Discussão - mind upload
Os dois pontos estão certos… em discutir

Citei apenas exemplos vistos em dois artigos discutindo pontos contrários, e o debate com certeza é ainda maior. Este é o modus operandi de toda pauta científica, e deve fazer desta forma. Quanto mais autores de especialidades distintas entrarem na conversa, maior será o entendimento do assunto sobre a viabilidade.

É uma causa perdida?

E mesmo o mind upload sendo, no máximo, uma possível realidade apenas no futuro, significa que esses estudos feitos no presente geram pouco ou nenhum resultado? Pelo contrário! Pesquisas com objetivos distantes como esse podem beneficiar pontos intermediários.

Já disse no meio daqueles argumentos contrários sobre estudos da neurociência que descobrem como o sistema neural funciona e possibilita no futuro a reprodução dessas funções pelos programas de emulação da mente. Todo este estudo pode também gerar conhecimentos avançados e com esses dar oportunidades a outras pesquisas, como as de tratamento contra doenças degenerativas do sistema nervoso. Ou seja, quando ver pessoas se voluntariando em operações como a Nectome, não pense nelas como iludidas ou fanáticas por uma capacidade improvável, pois eles podem tornar possível os estudos capazes de curar doenças.

Pelo bem do mundo - mind upload
Pelo bem do mundo e da vida

Vivemos na época onde mind upload existe somente em ficção ou na obsessão de pesquisadores e idealistas ao futuro. Eu trouxe motivos para desconfiar dessas iniciativas atuais, e por outro lado mostrei benefícios em tópicos paralelos nesses estudos de resultado improvável. Sou a favor quanto ao prosseguimento dessas pesquisas e o incentivo à discussão como em qualquer outro tópico científico. Já sobre me sujeitar ao pós-vida, ainda prefiro tentar me eternizar através dos meus textos, deixando-os disponíveis mesmo após da minha morte.

Referências

** Todos os artigos usados como referência estão em inglês, infelizmente. **

Site da Eter9

Artigo sobre Eterni.me

Artigo sobre a Nectome

O rompimento entre MIT e Nectome

História sobre o neurocientista que deseja salvar a humanidade em computador

Sua mente jamais será armazenada em computador

Resposta ao artigo “Sua mente jamais será armazenada em computador”

Cansei de Fake News

Odeio começar este artigo respondendo a possíveis declarações de alguém que não leia ou compreenda o texto a seguir, ainda assim adianto: esta publicação não tem o objetivo de acusar determinado político. O cronograma deste blog é de conteúdo próprio toda segunda-feira e resenha toda quinta, ambos agendados às seis da manhã, mas escrito, revisado e editado dias antes da publicação. Portanto desconheço o resultado das eleições enquanto escrevo este artigo. Longe de protestar contra qualquer candidato, o texto critica apenas as fake news. 


Acertei em partes nas minhas previsões para 2018 no artigo feito em janeiro. O desconhecimento da população sobre o próprio país e a baixa compreensão científica foi aproveitada na difusão de informações duvidosas, mentirosas e satisfatórias ao viés do indivíduo. O uso da Inteligência Artificial nas edições de vídeo e manipulação da voz felizmente não se concretizou, digo, houve uma suspeita da qual eu me recuso a conferir. Caso alguém se dispor a fazê-la, vejo a análise depois.

Houve uma falha grave no meu artigo. Na hora de montar o roteiro, eu deixei de abordar um assunto, evitei estender aquele texto retirando justo o tema principal desta campanha eleitoral: as fake news. 

Fake News dot com

O título é verdadeiro, eu cansei de ouvir/ler o termo em inglês. Portais de notícias e canais de comunicação de diversos gêneros atraíram o público usando esta palavra-chave, além da oposição usar como recurso para declarar quando há acusação de atitudes impróprias. Fake news receberam os quinze minutos de fama, e alguns veículos de informação estão fazendo análises profundas sobre elas, e eu gostaria de contribuir neste lado da discussão com este artigo. 

Jornalismo sem credibilidade  

O mercado tradicional de jornalismo é uma das várias vítimas da crise econômica e das transformações de interação no mundo digital. Tomam atitudes duvidosas na tentativa de se manterem no mercado, como restringir o acesso ao material online e cobrar do usuário pelas notícias, incentivar os leitores a acessarem seu conteúdo regular com títulos sensacionalistas, até fazer atualizações automáticas nos sites para aumentar o número de visualização na página e garantir mais renda vinda pelos anúncios. 

Escolhas infelizes deixam o público descontente e perdem credibilidade mesmo quando publicam informações corretas. Somado a deficiência da formação e senso crítico da população quanto a realidade e conhecimento científico, muitos são incapazes de distinguir notícia de opinião e acusam membros da mídia tradicional como se todos fossem ativistas ou que distorcem fatos. Infelizmente eles só acusam ao invés de debater e verificar se de fato há algo de errado na publicação do jornal. 

Jornalismo desaprovado - fake news

Quando cometem erros, a empresa e os profissionais de imprensa possuem responsabilidade e devem ser punidos. Entretanto a população não possui a mesma responsabilidade, e qualquer pessoa é capaz de propagar informações em larga escala graças as redes sociais. Técnicos de informática, enfermeiros e jardineiros possuem liberdade em transmitir conteúdos — nem sempre verdadeiros — sobre economia, e ainda conseguem mais credibilidade que os meios oficiais de comunicação, pois são parentes, colegas de trabalho ou amigos, pessoas próximas e portanto mais confiáveis, ao contrário dos profissionais de imprensa sem contato familiar. 

Recursos das Redes Sociais 

A difusão de informação feita por indivíduos encontrou a terra prometida nas conversas de WhatsApp, o aplicativo de conversa mais usado no Brasil. O aplicativo possui transmissão criptografada de mensagens, ninguém tem acesso fora o transmissor e o receptor. As mensagens encaminhadas não indicam sua origem, ao contrário do Facebook que indica de quem a publicação foi compartilhada, então a fonte da informação no aplicativo acaba sendo a pessoa próxima do sujeito.  

E admiro a perspicácia de aproveitar o limite da conexão de dados para deixar o WhatsApp tão eficiente em propagar fake news. Como o acesso ao aplicativo e às redes sociais mais conhecidas é irrestrito nos planos de internet móvel, poucos vão buscar informação em outra fonte e serem cobrados pela franquia. Também alegam da rotina turbulenta impossibilitar alguém a gastar tempo na verificação da notícia, porém eu não entendo como conseguem a disponibilidade de consultar o WhatsApp e encaminhar mensagens, inclusive durante o expediente! 

WhatsApp no expediente - Fake News

Parabenizo também o uso dos recursos do Facebook na divulgação de fake news. A Cambridge Analytica conseguiu direcionar conteúdo ao público correto e influenciá-lo a favorecer seus interesses.  Foi preciso coletar uma quantidade massiva de dados pessoais na rede social, e eles conseguiram de maneira inteligente e sutil. Desenvolveram quizzes inocentes com temáticas relacionadas a músicas, séries, celebridades, horóscopo e personalidade. Porém na hora de compartilhar o resultado do quiz, a aplicação solicita permissão a conceder informações privadas da conta e as de seus contatos. Graças a popularidade do quiz e a mania de muitos aceitarem sem ler os termos de uso, a empresa de publicidade conseguiu reunir o maior banco de dados sobre os usuários a partir do Facebook, e usou os próprios mecanismos de anúncio da plataforma para direcionar conteúdos com precisão. 

A informação só é válida quando concorda com ela 

As fake news podem partir da notícia verdadeira, basta apenas manipular o enquadramento do fato. Montagens atribuindo fontes a canais onde jamais publicaram o conteúdo, recortes de textos originais ou até edições de vídeos foram usados como estratégia nas campanhas. Todos esses meios são, na maior parte, fáceis de serem flagrados como tendenciosos, então por que tanta gente acredita? Porque elas querem. 

Seres humanos não são incitados por fatos, e sim por emoções. A eleição foi decidida através do repúdio e do medo, e essas montagens são feitas aproveitando dessas emoções a convencer o eleitor sobre o mal propagado do outro lado caso vença. A pessoa reconhece seus receios naquela imagem ou vídeo e age naturalmente ao encaminhar aos amigos, pois ela acredita em fazer a diferença. 

Eleitores de 2018 - Fake News

Existe solução contra as Fake News? 

Um professor do município de Ourinhos, interior de São Paulo, criou o curso semanal para alunos do ensino médio sobre as fake news. A proposta da aula é pedir aos estudantes selecionarem notícias com características duvidosas, trazerem na sala e debater quanto a veracidade dessa. A iniciativa foi até reconhecida pelo projeto Inovadores, da Google. 

A internet é uma ferramenta universal e democrática, com espaço a todos os tipos de iniciativa, inclusive as úteis. Canais de divulgação científica trazem assuntos complexos com explicações simplificadas, mas embasadas em referências e trabalhos acadêmicos. Muitos desses divulgadores já sofreram repúdio semelhante a imprensa tradicional, questionando sua parcialidade ou competência. Eles devem ser avaliados e corrigidos como toda pessoa que expõe conteúdo ao público, e para as críticas serem honestas devem também conter embasamento e estímulo a discussão. É melhor oferecer condições a todos verem ambos os lados e ter compreensão mais ampla do assunto, do que apenas refutar uma pessoa. 

Discussões Embasadas - Fake News

Existem portais especializados em averiguar se determinada notícia é verdadeira. E-Farsas é o portal mais antigo e ainda bastante ativo, e vieram muitos outros depois deste, ainda mais agora com o exagero de ocorrências das fake news, como a iniciativa do Projeto Comprova. 

Eu poderia encerrar o artigo listando dicas de como identificar conteúdos falsos ou tendenciosos, alguns textos disponíveis na seção de referências fazem isso, inclusive. Entretanto sou pessimista o quão efetivo isto seria. A rotina continua turbulenta na maioria de nós, além de muitos serem indispostos a conferir as informações. É preciso demonstrar a importância de difundir conteúdo honesto e estimular a discussão sobre este, sem menosprezar o autor da informação. Publico este artigo depois da campanha eleitoral já ciente que convenceria a ninguém se estivesse feito antes. Tenho esperança deste texto servir de estímulo nas discussões do futuro serem honestas, com campanhas eleitorais baseadas em argumentos, que aborde as diversas pautas da sociedade com base em fatos e estatísticas no lugar de sentimentos, e maior disposição da população para estudar em vez de ver memes. Este é o Brasil que eu quero.


Referências

Eleições mexicanas são tomadas por notícias falsas no WhatsApp e ilustram o que pode ocorrer no Brasil

Como reconhecer uma notícia falsa para não compartilhar mentiras

A arte de manipular multidões

Para especialistas, difusão de fake news está ligada à crise do jornalismo

Professor usa fake news para ensinar ciência na escola

Facebook CEO Mark Zuckerberg testifies before US Congress: Highlights

Robert Mercer: the big data billionaire waging war on mainstream media

Projeto Comprova entra em operação para combater desinformação na campanha eleitoral

O Perigo do Herói

Herói é um ser idolatrado pelas suas conquistas, superam problemas impossíveis. Os heróis gregos têm origem divina e capacidades super-humanas, embora ainda tenha alguma característica reconhecível a pessoas comuns.

Em aventuras posteriores, os protagonistas das histórias possuem diversas origens, até pessoas normais, independente de classe social ou profissão. Esses seres de fortes princípios encaram jornadas no mundo desconhecido, se adapta e conhece novos aliados e inimigos, enfrentam uma provação com risco de perder suas vidas, mas no fim vencem e trazem ao mundo comum o prêmio e a mudança de vida.

Herói na jornada ao Santo Graal

Nem sempre enfrenta essas fases literalmente. O mundo desconhecido pode ser um bairro da cidade onde o herói nunca pôs os pés, ou nem é um lugar, como fazer parte de um novo grupo do trabalho. O prêmio não precisa de forma física, e sim algum aprendizado do herói ou sentimento capaz de refletir sobre a transformação do mundo depois da jornada.

Vale o mesmo ao inimigo. A imagem do adversário traz um conceito divergente do protagonista, bem como explora as fraquezas que o herói precisa superar. Às vezes o inimigo é o próprio temor do herói ou obstáculo, personificado em uma pessoa no papel de vilão.

Neste ponto entra o perigo de criar um herói no mundo real. O protagonista idealizado por pessoas de interesses em comum define um problema e atribui alguém como o culpado por toda a miséria. Tudo relacionado a este “ser maléfico” deve desaparecer, inclusive quem o apoia, pois também são malvados. Já o protagonista é o único capaz de derrotar esse mal, só que em vez da definição comum dos heróis desde a Grécia Antiga, este é livre de defeitos.

Muitas pessoas não gostam dos filmes da Marvel. E uma parcela desta mesma gente reproduz a plateia dos heróis da telona nas telinhas das redes sociais, interagindo com exaltações ao seu ídolo e condenação do suposto inimigo, tudo por uma falsa impressão de retornar ao seu mundo comum com a conquista de uma vida diferente.

Herói - WarMachine2018

#warmachine2018

É muito mais fácil, portanto verossímil, definir alguém ou uma ideologia como o responsável quando esta também quer resolver o mesmo problema, só defende uma alternativa diferente.

A mania de implantar o maniqueísmo jamais resolverá. Passa o sentimento de lutarmos pelo bem, por selecionarmos o herói correto para nos salvar e livrar a consciência de imaginar que nós não precisaríamos repensar nossas atitudes.

Este comportamento é capaz de desconsiderar a própria Jornada do Herói. Ignora a passagem pelo mundo desconhecido ao dizer que tudo não presta por lá, o ídolo deles já possui o elixir capaz de salvar a pátria desde o começo, sem passar por provações que definiriam a sua proeza.

Tudo é inimigo para eles, as pobres vítimas. Fazem tudo correto; exceto furar fila, sonegar imposto, comprar produto pirata, matar pessoas por não conseguir identificar seu gênero sexual, tomar benefícios do governo por meios contraditórios… Quem poderá defendê-los?

Criança e pai bêbado - Herói

Professores deixaram meu filho beber. São monstros!

Quando não há mais aquele inimigo, o problema permanece. O Brainiac perde, então os roteiristas dos quadrinhos trazem Darkseid para o Superman salvar o mundo de novo, ao invés de fazer o herói acabar com a fome com distribuição imediata de alimentos, ou abastecer um gerador de eletricidade sem abusar de recursos naturais graças a sua força e velocidade.

Existe a necessidade insaciável de ser um herói. Alguns bombeiros já provocaram os incêndios que combateram. Já foi analisado que não é um caso comum de um indivíduo com doença comportamental, inclusive é feito muitas vezes em grupos de profissionais. O objetivo passa longe de conquistar a identidade de herói, mas o causam para justificar sua utilidade, como gerar uma falsa demanda e justificar a aquisição de recursos ao seu batalhão.

Percebe o perigo de empenhar uma solução imediata, mas no fim salvar ninguém? O combate é muito mais difícil, bem chato inclusive, e não deve ser feito por uma pessoa. Todos precisamos ser os heróis das nossas histórias. Se até as jornadas fictícias, onde os outros personagens são apenas degraus para elevar o protagonista, não fazem sucesso comercial, a realidade é ainda mais cruel.

Então empunham suas espadas, protejam-se com armaduras, e aprendem a andar com as próprias pernas.


Saiba mais

Estudo sobre os bombeiro estadunidenses que provocam incêndios

Definição de Herói

Quatro exemplos de concepções de herói

Tirinha sobre como Superman poderia salvar o mundo de verdade

Vídeo do Canal do Slow sobre o bem e o mal

Rotina de Escritor (Reclusão? A que Custo?)

“Feliz é aquele capaz de viver da escrita, com espaço e tempo próprio, sem interrupção de outras pessoas.” Era o que eu pensava…

Enquanto mantenho meu emprego na área de informática e me dedico a este blog, eu busco oportunidades de elaborar e aprimorar as minhas próprias histórias. Invisto boa parte do meu tempo em leitura, esta sem faltar um dia, inclusive feriado e finais de semana. Já não consigo o mesmo com a escrita. 

É uma luta conseguir três dias livres numa semana para desbravar a tela branca do word, além de outros períodos pequenos quando edito os textos e as resenhas do blog. O emprego me toma o dia todo, chego esgotado em casa onde moro com meus pais, tento trabalhar com o meu notebook quando os bons velhinhos não precisam de mim e meus adoráveis cachorros não resolvam latir contra o outro. 

Menino Mau - rotina

Menino mau >:(

Fim de semana tenho a manhã comprometida com o rádio ligado da senhora minha mãe até a hora do almoço, só começo a escrever de tarde. Se eu fosse religioso, rezaria pelo bom senso da vizinha não explodir funk como se estivessem tocando na minha casa. E o mais incrível: não sei por que é tão fácil jogar videogame mesmo ocorrendo todos esses empecilhos. 

Tentei planejar uma mudança drástica, com melhores condições de ter o tempo desejado: morar sozinho. Poderia ter o espaço tão querido para desenvolver essa profissão, mas o custo tomaria quase tudo de mim, tanto no quesito financeiro como de desgaste. 

Desisti desta ideia e desanimei. Felizmente recuperei meu ânimo, precisaria ser grato por cada oportunidade de criar meus textos. Também fiquei curioso com a seguinte questão: os autores famosos conseguiam se empenhar numa rotina? Eles precisaram ficar reclusos? Pesquisei sobre a rotina de alguns deles, esses mostrados a seguir: 

Autores que não poderiam ser incomodados 

  • Charles Dickens sua necessidade pelo silêncio o fez abafar os barulhos de fora ao instalar uma segunda porta em seu local de criação. Seu espaço era organizado com critérios rigorosos, como a mesa de frente a uma janela já com os materiais de trabalho dispostos e enfeites próximos a si, como vasos de flores frescas e estatuetas; 
  • Liev Tolstói escrevia todos os dias com o objetivo de não perder o hábito. Trabalhava de forma isolada, ninguém tinha permissão de interrompê-lo, e todos os cômodos próximos deviam estar trancados; 
  • Mark Twain tomava café da manhã e já se isolava até o fim de tarde, nem almoçava. Se a família precisasse dele, tocava um instrumento de sopro; 
  • H.P. Lovecraft seu receio em relação a estrangeiros e racismo (infelizmente) inspiraram as suas histórias de horror. Lovecraft também era conhecido por ser tímido. 

HP Lovecraft - rotina

Nunca imaginei metodologias tão distintas como a desses autores. Analisando as abordagens de Tolstói e Twain, jamais colocaria tantos obstáculos a pessoas próximas por causa de minha carreira. 

Lovecraft conseguiu elaborar incríveis contos com seu isolamento, criou uma mitologia e o próprio mundo imaginado. Porém sejamos sinceros: os diálogos são raros em seus contos, e esses de fato não são o ponto forte de H.P., pois reflete na própria deficiência de se comunicar com outras pessoas. 

Autores com rotinas equilibradas 

  • Victor Hugo escrevia durante a manhã após tomar seu café numa pequena mesa de frente a um espelho. Ao encerrar a manhã, jogava um balde de água fria sobre a cabeça, se revigorava e fazia outras atividades pelo resto do dia; 
  • Haruki Murakami acorda às quatro horas da madrugada e criava seus textos por seis horas seguidas, pratica atividade física a tarde, lê e ouve música a noite, e dorme as 21h; 
  • André Vianco acredita que a rotina e disciplina são necessárias na realização de seus sonhos e controle de ansiedade. Escreve durante a manhã e realiza os outros trabalhos à tarde; 
  • Stephen King um exemplo de produtividade e quantidade de livros publicados, não exclui um dia da sua vida na escrita. Não para até atingir a cota de duas mil palavras diárias. 

Um espaço para chamar de meu - rotina

 Autores com limitações 

  • Franz Kafka trabalhava durante o dia e só escrevia quando todos da casa dormiam, às 22h ou 23h30 até 2h ou 3h da madrugada, já conseguiu se dedicar até às seis horas da manhã; 
  • George Orwell também mantinha outro emprego, incapaz de viver somente da publicação mesmo com o primeiro livro bem aceito. Encontrou um trabalho de horário flexível, e aproveitou o tempo livre nos romances, em torno de quatro horas diárias. Fez a distopia 1984 numa casa de fazenda remota já com a saúde debilitada, datilografando na cama; 
  • George R. R. Martin tem outros compromissos além dos romances e um modo de criar a história que compromete o tempo da conclusão de suas obras: ele se considera um autor tal como jardineiro, planta as sementes da sua história e observa como ela se desenvolve. 

O autor de Guerra dos Tronos tem consciência sobre a existência de dias produtivos e outros nem tanto, e é normal ser desta forma. Mesmo com a melhor ferramenta e eliminando distrações, haverá dias com somente uma frase na página, quem sabe menos. 

Sam Tarly - rotina

E há a Jane Austen 

A autora de Orgulho e Preconceito misturava a rotina com a da sua família. Escrevia na companhia de sua mãe e irmã durante o dia, de noite lia seu manuscrito em voz alta para a família. 

Dentre todos os exemplos de rotina, gostei mais da Austen por conciliar o seu trabalho com as outras pessoas da casa, sem restrições absurdas ou dificuldades aparentes.  

Agora pergunto: qual o problema de não conseguir adotar a rotina de Jane Austen na minha vida, ou a de Stephen King ou Vianco? Depois de conversas entre amigos, aulas relacionadas no meu curso de preparação do romance e reflexão nesses vários exemplos mostrados, respondo: nenhum. 

Veredito 

Cometi um erro grave ao pensar que eu precisava de uma rotina com espaço e tempo garantido. São com certeza fatores essenciais ao escritor, mas é um erro idealizar essas condições e deixar de ser grato com a minha produção mesmo com essas limitações. 

Dou total razão ao George R. R. Martin sobre dias bons e ruins. Certo dia formei três mil palavras em apenas um dia, por que me importei mais quando mal consegui escrever quinhentas palavras? Ainda preciso fazer a revisão do texto, e talvez essas 500 palavras sejam mais proveitosas do que as três mil do outro dia, a ponto de serem descartadas. 

Comemore os dias bons - rotina

Comemore os dias bons

A besteira continua por eu limitar a minha visão por causa desta dificuldade. Vi autores com rotina garantida, entretanto isso não impede de eles não terem outras dificuldades, nem mesmo sobre a qualidade de seus trabalhos. Já mostrei as críticas quanto a H.P. Lovecraft, o próprio S. King confessou sua dificuldade com a produção de Sob a Redoma e de seus problemas pessoais idênticos ao protagonista de O Iluminado, ou quando sofreu o acidente de carro, problemas que interferiram nos trabalhos literários. Mesmo eu elegendo seu livro como a melhor leitura do primeiro semestre de 2018, tenho ciência que a qualidade de seus livros diverge, nem todos são grandes obras, outros têm críticas negativas, assim como as obras de André Vianco ou dos demais autores citados. 

Prosseguirei na jornada de escritor enquanto me mantenho como técnico em informática. Aprenderei a agradecer por cada avanço em meus textos e continuar nesse trabalho. Mesmo se demorar mais tempo pelas minhas restrições, não preciso de pressa, mas sim de aproveitar a escrita enquanto ela acontece. 

Referências

Minimalism, Success, and the Curious Writing Habit of George R.R. Martin

George R.R. Martin’s friends explain the complicated reasons his next book might be taking so long to write

11 Writing Lessons From George R.R. Martin, Because There’s A Lot To Learn From ‘Game Of Thrones’

The Daily Rituals Of Famous Writers

George Orwell’s Writing Habits

Entrevista | André Vianco

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